

TRS SEMANAS COM O MEU IRMO
Nicholas Sparks e Micah Sparks


Ttulo original: Three Weeks with My Brother
Traduo de Saul Barata
EDITORIAL PRESENA



Aquele que  amigo, -o em todo o tempo; e o irmo conhece-se nos transes apertados.
Provrbios 17:17

PRLOGO

     Este livro foi escrito por causa de uma brochura que recebi, pelo correio, na Primavera de 2002.
     Fora um dia normal em casa da famlia Sparks. Passara boa parte da manh e do princpio da tarde a trabalhar no meu romance O Sorriso das Estrelas, o trabalho
no me correra bem e estava desejoso que o dia chegasse ao fim. No escrevera tanto quanto pensara, nem fazia ideia daquilo que iria escrever na manh seguinte.
No estava, por isso, na melhor das disposies quando, finalmente, desliguei o computador e dei por concludo o trabalho do dia.
     No  fcil viver com um escritor. Sabia-o porque a minha mulher j me tinha informado desta realidade e voltou a faz-lo naquele dia. Para ser franco, no
 a afirmao mais agradvel para se ouvir e, embora fosse fcil pr-me na defensiva, acabei por perceber que discutir o assunto com ela no resolvia coisa alguma.
Em vez disso, tinha aprendido a olh-la nos olhos, ao mesmo tempo que lhe respondia com aquelas palavras mgicas que qualquer mulher deseja ouvir:
     - Meu amor, tens toda a razo.
     Haver quem pense que, por eu ser um autor relativamente bem sucedido, escrever  uma tarefa que fao sem esforo. Muitas pessoas imaginam que ocupo apenas
umas poucas horas do dia a "escrevinhar as ideias  medida que me vo ocorrendo", o que me deixaria o resto do tempo livre para descansar  beira da piscina, a discutir
com a minha mulher as nossas prximas frias num lugar extico.
     Na realidade, a nossa maneira de viver no difere muito da de qualquer famlia normal da classe mdia. No dispomos de um quadro de pessoal domstico nem fazemos
grandes viagens e, embora tenhamos uma piscina no jardim das traseiras, rodeada de cadeiras de descanso, j no me recordo da ltima vez em que as cadeiras foram
usadas; e no so usadas porque, durante o dia, nem eu nem a minha mulher dispomos de muito tempo para ficarmos sentados sem fazer nada. Eu, por causa do meu trabalho.
Ela, por causa da famlia. Ou, para ser mais preciso, por causa dos nossos filhos.
      que temos cinco. No seria um nmero exagerado se vivssemos na poca dos pioneiros mas, nos nossos dias, j  suficiente para sermos olhados de esguelha.
No ano passado, durante uma viagem, aconteceu que travmos conhecimento com outro casal jovem. A conversa  como as cerejas e o problema dos filhos acabou por surgir.
O casal tinha dois filhos e mencionou-os pelos nomes; a minha mulher engasgou-se com os nomes dos nossos.
     Por momentos a conversa parou, enquanto a outra mulher procurava assegurar-se de que nos estava a ouvir bem.
     - Tm cinco filhos? - acabou por perguntar.
     - Temos.
     A outra pousou uma mo simptica no ombro da minha mulher.
     - Perderam o juzo?
     Os nossos rapazes tm doze, dez e quatro anos; temos duas gmeas que vo a caminho dos trs anos. Apesar de no saber muito acerca do mundo, sei que os filhos
tm uma forma engraada de nos obrigar a sermos objectivos. Os mais velhos sabem que me ocupo a escrever romances, embora por vezes tenha as minhas dvidas de que
eles compreendam o que significa criar uma obra de fico. Por exemplo: durante uma aula de apresentao, foi perguntado ao meu filho de dez anos qual era a profisso
do pai, ao que ele, enchendo o peito de ar, respondeu: "O meu pai passa o dia a brincar com o computador!" O mais velho, por sua vez, j declarou por diversas vezes
- com o ar mais solene - que: "Escrever  fcil. Difcil  dactilografar."
     Como acontece com muitos escritores, trabalho em casa, mas as semelhanas acabam a. O meu escritrio no  um qualquer santurio situado no recato de um andar
alto; em vez disso, a porta abre directamente para a sala de estar. J li que muitos escritores necessitam de uma casa sossegada para se concentrarem, mas eu tenho
a sorte de no precisar de silncio para trabalhar.  uma boa caracterstica, pois suponho que, sem ela, nunca conseguiria escrever nada. Gostaria que compreendessem
que a minha casa  um pandemnio de actividade, desde a altura em que a minha mulher e eu saltamos da cama, at ao momento que nos deixamos cair nela, no final do
dia. Passar o dia na nossa casa  tarefa capaz de esgotar qualquer pessoa. Para comear, os midos tm energia. Reservas e mais reservas de energia. Energia em quantidades
"assombrosas". Multiplicada por cinco, seria energia suficiente para iluminar a cidade de Cleveland. E os midos, por qualquer processo mgico, alimentam a energia
uns dos outros, cada um reflecte a energia dos outros, como se fosse um espelho. E  preciso no esquecer o contributo dos trs ces e que at a prpria casa parece
concorrer para a energia geral. Um dia normal inclui: pelo menos um filho doente, brinquedos espalhados de uma ponta  outra da sala que, como por magia, reaparecem 
logo depois de terem sido arrumados, ces a ladrar, crianas que riem, o telefone a tocar, entregas e envios de encomendas por correio expresso, trabalhos escolares 
perdidos, aparelhos avariados, projectos escolares para o dia seguinte que os nossos filhos, por qualquer motivo, s nos do a conhecer no ltimo momento, treinos 
de basebol, treinos de ginstica, treinos de futebol, treinos de Tae Kwon Do, chegadas e partidas de tcnicos de reparao de qualquer coisa, portas a bater, crianas 
a correr pelo corredor, crianas que atiram coisas, crianas que choram por terem cado, crianas que nos abraam, ou crianas que choram por precisarem dos pais 
"naquele preciso momento". Quando os meus sogros nos deixam, aps uma semana de estada junto de ns, o caminho para o aeroporto parece-lhes demasiado longo. Levam 
os olhos inchados e mostram a expresso assarapantada dos veteranos que conseguiram sobreviver ao desembarque na praia de Omaha. Em vez de me dizer adeus, o meu 
sogro abana a cabea e sussurra-me: "Boa sorte! Vais precisar de muita!"
     A minha mulher aceita como normal toda esta actividade em casa.  paciente e raramente se enerva. Na maior parte dos casos, parece at viv-la "com prazer". 
A minha mulher, tenho de o admitir,  uma santa.
     Ou talvez seja apenas "maluca".
     
     C em casa, a abertura do correio est por minha conta. , afinal, uma tarefa indispensvel, que, no decurso da nossa vida de casados, se transformou em mais 
um daqueles pequenos encargos que me vieram parar s mos.
     Recebi aquela brochura, pelo correio, num dia igual a qualquer outro. Lexie tinha seis meses, estava constipado e no deixava que a me o deitasse, Miles tinha 
pintado a cauda do co com tinta fluorescente e passeava orgulhosamente a sua obra, Ryan precisava de estudar para um teste mas esquecera-se do manual na escola, 
pelo que decidiu "resolver" o problema e gastou todo o papel higinico que conseguiu enfiar pela
     sanita abaixo, Landon andava, uma vez mais, a pintar as paredes. S no consigo recordar o que Savannah estava a fazer mas seria algo de perturbador, pois, 
apenas com seis meses de idade, j estava a aprender com os irmos. A isto h que acrescentar a televiso com o som alto, os rudos da cozinha, o ladrar dos ces, 
os telefones a tocar, tudo a concorrer para um barulho catico que parecia tornar-se insuportvel. Suspeitei que at a minha santa esposa deveria estar muito perto 
dos limites. Afastando-me do computador, respirei bem fundo e pus-me de p. Ao passar pela sala de estar, passei uma vista de olhos por aquele mundo maluco e, com 
aquele instinto que s os homens possuem, descobri de imediato o que era preciso fazer. Pigarreei, atra por momentos a ateno de todos e anunciei calmamente:
     - Vou ver se o carteiro j veio.
     Instantes depois, saa porta fora.
     Como a nossa casa se encontra afastada da estrada,  habitual levarmos cinco minutos para ir  caixa do correio e voltar. A barafunda desapareceu no preciso 
momento em que fechei a porta atrs de mim. Caminhei lentamente, a saborear o silncio.
     Uma vez de volta a casa, verifiquei que a minha mulher tentava limpar a saia, suja de bolo e saliva, enquanto segurava simultaneamente as duas bebs. Landon 
estava junto dela, de p, a tentar chamar a ateno da me, que ainda fazia o possvel para ajudar os dois filhos mais velhos nos trabalhos escolares. Ao ver a maneira 
eficiente como ela se descartava de tantas tarefas ao mesmo tempo, senti o corao inchar de orgulho; ergui o mao de correspondncia, de maneira a que ela o pudesse 
ver, e anunciei:
     - Fui buscar o correio.
     Olhou para mim, de baixo para cima:
     - Nem sei o que faria sem ti! - respondeu. - A tua ajuda  preciosa.
     Assenti.
     - S fao a minha obrigao. No tens de me agradecer.
     Como todas as pessoas, recebo a minha quota de lixo postal. Separei o que era importante daquilo que seria deitado fora. Paguei facturas, dei uma vista de olhos 
pelos artigos de umas revistas e estava a preparar-me para guardar tudo quando reparei num folheto que, inicialmente, pusera na pilha do lixo. Vinha da associao 
de alunos da Universidade de Notre Dame e anunciava uma viagem por "Terras dos Adoradores do Cu". A excurso chamava-se "Cu e Terra" e daria a volta ao mundo, 
durante um perodo de trs semanas, em Janeiro e Fevereiro de 2003.
     Interessante, pensei, ao comear a folhear a brochura. A viagem
     - num jacto alugado - incluiria excurses s runas dos Malas da Guatemala e dos Incas do Peru, s esttuas gigantes da ilha de Pscoa e s ilhas Cook, na Polinsia. 
Haveria tambm visitas a Ayers Rock, na Austrlia; a Angkor Vat, aos Campos da Morte e ao Museu do Holocausto de Phnom Penh, no Camboja; ao Taj Mahal e ao forte 
ambarino de Jaipur, na ndia; s igrejas escavadas na rocha, de Lalibela, na Etipia; ao Hipogeu e a outros templos antigos da ilha de Malta; e, finalmente, se as 
condies climatricas o permitissem, uma possibilidade de observar as auroras boreais em Tromso, uma localidade situada 480 quilmetros a norte do Crculo Polar 
rctico.
     J em criana me sentia fascinado pelas culturas antigas e pelas terras longnquas e, ao ler a descrio de cada uma das visitas propostas, a propsito da maioria 
delas dei comigo a pensar: "Sempre desejei ver isto." Era uma oportunidade nica de fazer a viagem da minha vida, de ir a lugares que me povoavam a imaginao desde 
os tempos de menino. No entanto, quando acabei de ler o prospecto, suspirei e pensei: "Talvez um dia...".
     Na altura, no podia ser, no dispunha de tempo. Trs semanas afastado dos midos? Longe da minha mulher? Sem pegar no trabalho?
     Impossvel. Era ridculo, melhor seria esquecer o episdio. Coloquei o folheto no fim da pilha.
     Mas havia um problema: no conseguia esquecer-me da excurso.
      que eu sou um realista; e pensei que, no futuro, a Cat (abreviatura de Cathy) e eu teramos oportunidades de viajar. No entanto, embora soubesse que, um dia, 
poderia convencer a minha mulher a visitar o Taj Mahal ou Angkor Vat, no alimentava quaisquer iluses de a persuadir a ir  ilha de Pscoa,  Etipia ou s florestas 
da Guatemala. Por estarem to fora de mo e haver tantas outras coisas para ver, e tantos lugares aonde ir, as visitas a reas remotas nunca deixaro de ser includas 
no captulo de "talvez um dia"... Um dia que, quase de certeza, nunca chegar.
     Porm, recorrendo a um golpe cruel, talvez a pudesse levar a visitar tudo de uma s vez; e assim, dez minutos mais tarde, uma vez desaparecida a cacofonia da 
sala de estar, que terminara to misteriosamente como tinha comeado, encontrava-me na cozinha na companhia da minha mulher, com a brochura aberta em cima da bancada. 
Como um mido a descrever o seu acampamento de Vero, fui apontando os pormenores mais significativos e a minha mulher, que havia muito se habituara s minhas fantasias, 
limitava-se a ouvir as minhas divagaes. Quando terminei, fez um aceno de cabea.
     - Hum!... - foi o nico comentrio.
     - Isso significa concordncia ou discordncia?
     - Nem uma coisa nem outra. S gostaria de saber os motivos que
     te levam a mostrar-me isso tudo. No me parece que possamos ir.
     - Eu sei. Mesmo assim, pensei que gostarias de dar uma vista de
     olhos.
     A minha mulher, que me conhece melhor do que qualquer outra pessoa, sabia que o motivo no era apenas aquele.
     - Hum! - repetiu.
     Dois dias depois, acompanhava a minha mulher num passeio pelo bairro. Os midos mais velhos iam  nossa frente, os outros trs seguiam em carrinhos, e aproveitei 
para levantar de novo a questo da viagem.
     - Estive a pensar na excurso - disse, com ar desprendido.
     - Que excurso?
     - Aquela viagem  volta do mundo. A do folheto que te mostrei.
     - Porqu?
     Respirei fundo:
     - Bem... gostarias de ir?
     Ela deu mais uns passos antes de responder:
     -  claro que gostaria de ir. Parece uma maravilha, mas no  possvel. No posso estar longe das crianas durante trs semanas. E se acontece alguma coisa? 
Numa emergncia, no teremos qualquer hiptese de regresso atempado. Quantos voos h para um lugar como a ilha de Pscoa? Lexie e Savannah ainda so bebs e precisam 
de mim. Todos precisam de mim... - admitiu, com a voz embargada. -  provvel que outras mes fossem, mas eu no.
     Assenti. Sabia de antemo qual seria a resposta dela.
     - No te importarias se eu fosse?
     Olhou-me por cima do ombro. Eu viajava muito por causa do trabalho, gastava dois a trs meses em cada ano em viagens de promoo dos livros e tais viagens eram 
sempre difceis de suportar pela famlia. Mesmo que nem sempre estivesse disposto a mergulhar de cabea no caos, no sou completamente intil nas coisas da casa. 
A Cat tem uma vida social que a afasta de casa com certa frequncia; uma vez por outra, toma o pequeno-almoo com as amigas, faz trabalho regular voluntrio na escola, 
frequenta o ginsio, joga bunco com um grupo de senhoras conhecidas e passeia; ambos sabemos que, para no dar em doida, ela precisa de sair de casa. Nessas alturas, 
assumo o meu papel de pai solteiro. Porm, logo que me ausento, torna-se-lhe difcil, ou mesmo impossvel, fazer qualquer coisa fora de casa. O que no  nada bom 
para a sanidade mental da minha mulher.
     Alm disso, os midos gostam que estejamos ambos presentes. Quando saio, e admitindo que isso  possvel, o caos aumenta, como que a encher o espao que eu 
deixei vazio. Nem  necessrio dizer que a minha mulher est farta das minhas viagens. Compreende que elas fazem parte do meu trabalho, o que no significa que as 
aprecie.
     Nesta perspectiva, a minha pergunta era perigosa.
     -  realmente importante para ti? - acabou por perguntar.
     Respondi-lhe com toda a franqueza:
     - No. Se no quiseres que v, no vou. Mas gostaria de ir.
     - E irias sozinho?
     Acenei que no.
     - Na realidade, estava a pensar em ir com o Micah - respondi,
     referindo-me ao meu irmo.
     Caminhmos em silncio durante um bocado, at que ela me
     olhou de frente:
     - Penso que seria uma excelente ideia!
     Depois de regressarmos do passeio, e ainda sem querer acreditar totalmente, dirigi-me ao escritrio para ligar para o meu irmo, que vive na Califrnia.
     Ouvi o telefone a tocar, um som mais distante que o de um telefone fixo. O Micah nunca atende o telefone de casa; quando quero falar com ele, tenho de ligar 
para o telemvel.
     - Ei! Nicky - gorjeou. - O que  que se passa?
     Apesar da idade, o meu irmo continua a chamar-me pelo meu nome de criana. Efectivamente, at ao quinto ano, sempre me chamaram Nicky.
     - Descobri uma coisa em que poders estar interessado.
     - Diz l!
     - Recebi um folheto pelo correio e... de qualquer das formas, para no me alongar demasiado, gostaria de saber se ests interessado em acompanhar-me numa viagem 
 volta do mundo. Em janeiro.
     - Que gnero de viagem?
     Passei os minutos seguintes a descrever-lhe os pontos de maior interesse, a folhear a brochura enquanto falava. Quando terminei, registou-se um silncio do 
outro lado do fio.
     - Ests a falar a srio? - indagou. - E a Cat deixa-te ir?
     - Disse que sim - hesitei. - Escuta, sei que  uma deciso importante e por isso no preciso que me respondas j. Ainda dispomos de muito tempo para confirmar 
a viagem. S quis que pensasses no assunto. Quero dizer, sei que tens de discutir a questo com a Christine. Trs semanas  muito tempo.
     Christine  a mulher do meu irmo; como rudo de fundo, ouvia-se o choro fraco da filha recm-nascida, a Peyton.
     - Tenho a certeza de que estar de acordo. Mas vou falar com ela e depois ligo-te.
     - Queres que te envie o folheto?
     - Pois, claro - respondeu Micah. - No achas que devo saber para onde vamos?
     - Envio-o, hoje mesmo, por correio expresso - concordei. - Sabes uma coisa?
     - O que ?
     - Vai ser a viagem das nossas vidas.
      distncia, quase consegui v-lo sorrir.
     - Estou certo que sim, maninho. Vai ser, de certeza.
     Despedimo-nos e, j depois de desligar o telefone, fiquei a olhar os retratos de famlia com que ornamento as estantes do escritrio. Na maior parte, so fotografias 
dos midos; vi os meus filhos como meninos e bebs; havia uma fotografia com os cinco, tirada pelo Natal, poucos meses antes. Ao lado desta, estava uma fotografia 
da Cathy e, num repente, peguei na moldura, a pensar no sacrifcio que ela acabava de fazer.
     No. Era evidente que no estava entusiasmada com aquela ausncia de trs semanas. Nem a entusiasmava a ideia de no me ter junto dela, para a ajudar a cuidar 
dos cinco filhos; enquanto eu passeava pelo mundo, ela ficaria a suportar o fardo por inteiro.
     Ento, que motivo a levara a dizer sim?
     Como j afirmei, a minha mulher compreende-me melhor do que qualquer outra pessoa; e sabia que o meu desejo imperioso tinha mais a ver com a vontade de estar 
junto do meu irmo do que com a prpria viagem.
     Esta , portanto, uma histria de irmos.
      a histria do Micah e de mim, alm de ser tambm uma histria da nossa famlia. Uma histria de tristeza e de alegria, de esperana e de solidariedade.  
a histria das maneiras como nos tornmos adultos, das modificaes por que passmos e dos caminhos diferentes que seguimos, mas, conseguindo, de certo modo, tornarmo-nos 
ainda mais chegados. , por outras palavras, a histria de duas viagens; uma viagem que me levou, e ao meu irmo, a lugares exticos espalhados pelo mundo, e de 
uma outra, a de toda uma vida, que nos tornou os melhores dos amigos.
     
CAPTULO UM
     
     Muitas histrias encerram uma lio simples e a histria da nossa famlia no constitui excepo. Para poupar os leitores, fao um pequeno resumo.
     Para comear, ns, os filhos, fomos concebidos. A lio, pelo menos segundo a verso da minha me catlica,  a seguinte:
     - Nunca se esqueam - avisou, - de que, diga a igreja o que
     disser, o mtodo do calendrio no funciona.
     Eu tinha doze anos e fiquei a olhar para ela:
     - Est a dizer que todos ns somos "acidentes"?
     - Pois estou. Todos, um por um.
     - Mas acidentes agradveis, ou no?
     Sorriu.
     - Do gnero mais agradvel.
     Porm, depois de ouvir esta histria, no sabia muito bem o que pensar. Por um lado, era bvio que a minha me no lamentava ter tido filhos. Por outro, ver-me 
como um acidente, ou poder imaginar que a minha sbita apario neste mundo se devia a umas taas de champanhe a mais, no era bom para o meu amor-prprio. Mesmo 
assim, serviu para eu passar a ver as coisas com maior clareza, pois sempre procurara imaginar o motivo que levara os meus pais a no pensarem melhor antes de terem 
filhos, embora, verdade seja dita, tambm no tivesse a certeza de que eles estivessem preparados para o casamento.
     Os meus pais nasceram no mesmo ano, em 1942, e como tnhamos acabado de entrar na Segunda Guerra Mundial, os meus avs serviram ambos nas foras armadas. O 
meu av paterno era oficial de carreira; o meu pai, Patrick Michael Sparks, passou a infncia em bolandas, de uma base militar para outra, quase sempre educado pela 
me. Era o mais velho de cinco irmos, extremamente inteligente e estudou num colgio interno, em Inglaterra, at ser admitido na Universidade de Creighton, em Omaha, 
Nebraska. Foi ali que conheceu a minha me - Jill Emma Marie Thoene.
     Tambm era a filha mais velha. Tinha trs irmos e irms mais novos; passou a maior parte dos anos de crescimento em Nebraska, onde adquiriu a paixo pelos 
cavalos, que iria durar toda a sua vida. O pai era um empresrio que no decurso da vida se envolvera em diversos negcios. Quando a minha me era adolescente, era 
proprietrio de um cinema em Lyons, vila com umas centenas de habitantes, aninhada ao lado da estrada, no meio de terras de cultivo. De acordo com a minha me, o 
cinema fora uma das razes que a obrigaram a estudar num colgio interno. Segundo queria fazer crer, fora enviada para longe por ter sido apanhada a beijar um rapaz. 
Porm, quando lhe fiz perguntas acerca do caso, a minha av rejeitou a histria energicamente:
     - A tua me sempre gostou de contar histrias - revelou. - Era capaz de inventar as coisas mais estranhas, apenas para provocar a reaco dos outros midos.
     - Sendo assim, por que  que a mandou para o colgio interno?
     - Por causa dos homicdios - explicou a av. - Na altura, foram assassinadas muitas raparigas de Lyons.
     Percebi.
     De qualquer das formas, quando saiu do internato, a minha me matriculou-se na Universidade de Creighton, tal como o meu pai; suponho que foram as similitudes 
entre as suas vidas que lhes despertaram o interesse mtuo. Qualquer que fosse o motivo, comearam a namorar no primeiro ano e acabaram por se apaixonar. Namoraram 
pouco mais de um ano e casaram-se a 31 de Agosto de 1963, ambos com 21 anos de idade, antes do incio do ltimo ano do curso.
     Meses depois, o mtodo do calendrio falhou e a me aprendeu a primeira das suas trs lies. Micah nasceu no dia 1 de Dezembro de 1964. Na Primavera, estava 
novamente grvida e eu vim a seguir, no dia 31 de Dezembro de 1965. Na Primavera seguinte, ficou grvida da minha irm, a Dana, e decidiu que, a partir daquela altura, 
seria ela a encarregar-se do controlo dos nascimentos.
     Concluda a licenciatura, o meu pai decidiu-se por um mestrado em gesto, na Universidade de Minnesota e, no incio do Outono de 1966, a famlia mudou-se para 
perto de Watertown. A minha irm Dana nasceu, tal como eu, a 31 de Dezembro. A me ficou em casa para cuidar de ns, enquanto o marido frequentava a universidade 
durante o dia para,  noite, servir num bar.
     Como os meus pais no podiam pagar rendas altas, vivamos a vrios quilmetros da cidade, numa velha casa rural que, era a minha me que o jurava, estava assombrada. 
Anos mais tarde, contou-me que, a altas horas da noite, costumava ver e ouvir coisas - choros, gargalhadas e conversas murmuradas - mas que, mal se levantava para 
ver como ns estvamos, os rudos desapareciam.
     Uma explicao razovel era que a me sofria de alucinaes. No por ser maluca - a me foi provavelmente a pessoa mais estvel que conheci - mas por ter passado 
os primeiros anos de casada num mundo nebuloso de completa exausto. E no falo daquele tipo de exausto que algum consegue remediar se ficar mais algum tempo na 
cama, durante uns dias. Estou a referir-me a um tipo de total exausto fsica, mental e emocional que faz a pessoa ter o aspecto de quem foi obrigado a andar s 
voltas, preso pelas orelhas, antes de ser deixado cair na mesa da cozinha, mesmo em frente da famlia. A sua vida deve ter sido um verdadeiro inferno. Com 25 anos 
de idade e trs filhos que ainda usavam fraldas de pano, ficou completamente isolada durante dois anos, se exceptuarmos as visitas que a me lhe fez. No havia familiares 
prximos para darem uma ajuda, ramos pobres e vivamos no meio de coisa nenhuma. A me nem podia aventurar-se numa ida  cidade mais prxima, pois o pai levava 
o carro para a universidade e para o emprego. Acrescente-se um par de invernos do Minnesota, em que a neve chegou, literalmente, ao telhado, subtraia-se a eterna 
falta de tempo do marido, some-se o choro e os gritos interminveis de bebs e crianas que mal andavam, e nem assim poderemos imaginar como a minha me se sentiria 
desesperada. Do meu pai no podia esperar muitas ajudas; naquela altura da vida, ele no estava em condies de a ajudar fosse no que fosse. Muitas vezes tenho pensado 
nos motivos que o levavam a no procurar um emprego normal, mas ele apenas fazia o que podia para conciliar o trabalho, a frequncia das aulas e o tempo de estudo. 
Saa de casa logo pela manh e regressava bastante depois de toda a famlia ter ido para a cama. Portanto, excluindo os trs filhos pequenos, a me no tinha mais 
ningum com quem conversar. Devia passar dias, ou talvez semanas, sem conseguir participar de uma nica conversa entre adultos.
     Por ser o mais velho, a me atribua ao Micah responsabilidades excessivas para to tenra idade, responsabilidades que eu nunca pensaria atribuir a um dos meus 
filhos. A minha me sempre procurou meter na cabea dos filhos os antigos valores do Mdio Oeste, pelo que as obrigaes do meu irmo mais velho no tardaram a ser 
impostas: "Haja o que houver, tens a obrigao de tomar conta do teu irmo e da tua irm". E, embora s tivesse trs anos, ele conseguiu. Ajudou a dar-nos de comer, 
a mim e  minha irm, deu-nos banho, guiou os nossos passos incertos atravs do quintal da casa. Nos lbuns da famlia existem fotografias de Micah a embalar a irm 
e a dar-lhe o bibero, apesar de ser pouco maior do que ela. Acabei por compreender que ele at foi beneficiado pela situao, pois no se perde nada com a prtica 
do sentido de responsabilidade. No  um sentimento que aparea de sbito, s por termos necessidade dele. Contudo, penso que, por ser frequentemente tratado como 
adulto, Micah se convenceu de que era adulto e que tinha certos direitos. Suponho que a situao lhe criou um sentimento quase adulto de teimosia, que se manifestou 
muito antes de ele ir para a escola.
     Efectivamente, a minha mais antiga lembrana envolve o meu irmo. Eu tinha dois anos e meio, Micah era um ano mais velho, estvamos num fim-de-semana do final 
do Vero e a erva tinha mais de trinta centmetros de altura. O meu pai preparava-se para a cortar e j tinha retirado o aparador do barraco. Acontece que o meu 
irmo era doido pelo aparador de relva e lembro-me vagamente de o ouvir pedir ao pai que o deixasse cortar as ervas, muito embora no tivesse fora suficiente para 
empurrar a mquina. O pai recusou, mas o meu irmo, com os seus quinze quilos de peso, no conseguia ver a lgica da situao. Nem, segundo me disse mais tarde, 
estava disposto a conformar-se com um tal disparate.
     Nas suas prprias palavras:
     - Decidi fugir.
     Pois, sei o que esto a pensar. Com trs anos e meio, nunca poderia ir longe. O meu filho mais velho, o Miles, quando tinha a mesma idade tambm costumava ameaar-nos 
com a fuga, o que nos levou,  Cathy e a mim, a responder-lhe: "Avana. Mas tens de ter a certeza de no passar da esquina". Sendo uma criana meiga e tmida, Miles 
nunca passaria alm da esquina, at onde eu e a me o podamos vigiar atravs da janela da cozinha.
     Mas o meu irmo era diferente. O seu raciocnio deveria ser mais ou menos este: "Vou fugir para bem longe e, como costumo tomar conta dos meus irmos, acho 
que tenho de os levar comigo".
     E assim fez. Meteu a nossa irm, de apenas dezoito meses, no carrinho, pegou-me na mo e, escondendo-se com as sebes para escapar  deteco dos nossos pais, 
comeou a conduzir-nos para a vila. A vila,  bom que se diga, ficava a trs quilmetros de distncia e o nico caminho para l chegar obrigava ao atravessamento 
de uma estrada com duas faixas de rodagem.
     E quase conseguimos. Recordo-me de caminhar por entre os campos com ervas da minha altura, a observar a exploso de cores das borboletas naquele cu de Vero. 
Pareceu-nos que estvamos condenados a caminhar eternamente, mas conseguimos atingir a estrada. E ficmos ali, na berma da estrada - trs crianas de menos de quatro 
anos e, note-se, uma delas ainda de fraldas - atingidos por poderosas deslocaes de ar provocados pelos camies e automveis que passavam por ns a mais de cem 
quilmetros por hora, a pouco mais de cinquenta centmetros de distncia. Recordo-me do meu irmo ter dito: "Quando eu te disser, tens de correr depressa", dos sons 
das buzinas e do guinchar de pneus que se seguiram  ordem de "Corre!", dos meus passos incertos ao atravessar a estrada, a tentar acompanh-lo.
     Depois disso, as recordaes so menos ntidas. Lembro-me de me sentir cansado e de ter fome, e de acabar por subir para o carrinho onde ia a minha irm, enquanto 
Micah nos arrastava, como um chefe de matilha a arrastar o tren atravs das neves do Alasca. Era giro, era uma aventura. E, apesar de tudo, sentia-me em segurana. 
Micah tomaria conta de mim e a nossa me nunca deixava de me ordenar: "Faz o que o teu irmo mandar! "
     J ento, fazia o que me mandavam. Ao contrrio do meu irmo, cresci a fazer o que me mandavam.
     Recordo-me de que, algum tempo depois, atravessmos uma ponte e subimos um monte; uma vez chegados l acima, avistmos o vale onde se espraiava a vila. Anos 
mais tarde, apercebi-me de que devemos ter caminhado durante vrias horas, pois pernas pequenas como as nossas no conseguiriam grandes velocidades; tambm me recordo 
vagamente de o Micah nos prometer um gelado. Foi ento que ouvimos os gritos e, olhando por cima do ombro, vi a nossa me, a correr pela estrada acima. Gritava-nos 
que parssemos, ao mesmo tempo que brandia o mata-moscas por cima da cabea.
     Era o instrumento que usava para nos castigar. O mata-moscas!
     O meu irmo odiava o mata-moscas.
     Micah era, sem sombra de dvida, o alvo mais frequente do mata-moscas. A mam gostava do objecto pois, embora fizesse barulho, no magoava verdadeiramente quando 
batia por cima da fralda ou das calas. O que interessava era o som, cada pancada parecia o rebentar de um balo; ainda hoje, sinto uma espcie de sentimento de 
vingana quando o uso em casa para matar insectos.
     No foi preciso muito tempo para que Micah tentasse uma nova fuga. Meteu-se num sarilho qualquer, mas desta vez foi o pap que resolveu utilizar o mata-moscas. 
Por aquela altura, o Micah j estava farto daquele tipo de castigo e, por isso, quando viu que o pai ia pegar no mata-moscas disse com firmeza:
     - No vai bater-me com isso!
     O pai voltou-se, de mata-moscas em punho e esse foi o momento que Micah escolheu para arrancar. Sentado na sala, vi o meu irmo de quatro anos passar a correr 
por mim, vindo da cozinha, e lanar-se escada acima, com o pai a persegui-lo a curta distncia. Ouvi os sons de ps no primeiro andar e apercebi-me de que no quarto 
o meu irmo se entregava a diversas acrobacias desconhecidas, para, momentos depois, zarpar escada abaixo, passar novamente por mim, seguindo para a cozinha at 
sair pela porta das traseiras, correndo com uma velocidade que eu nunca lhe conhecera.
     A soprar com falta de ar - fumou durante toda a vida - o pap desceu a escada de roldo e foi atrs dele. Durante horas, no vi nenhum deles. Depois de escurecer, 
quando j estava na cama, vi a mam a trazer o Micah para o nosso quarto. Depois de o deitar e lhe ajeitar a roupa, beijou-o na face. Apesar da escurido, notei 
que ele estava nojento; cheirava a poeira e parecia ter passado as ltimas horas debaixo da terra. Logo que a me saiu, perguntei ao Micah o que tinha acontecido.
     - Disse-lhe que ele no ia bater-me com aquilo - respondeu.
     - E bateu?
     - No. No conseguiu agarrar-me. E depois no foi capaz de me encontrar.
     Sorri, a pensar: "Eu sabia que conseguias."
     
CAPTULO DOIS
     
     O telefone tocou uns dias depois de eu ter enviado as informaes sobre a excurso ao Micah. Estava no escritrio, sentado  secretria, a lutar com outro dia 
de escrita difcil e o meu irmo comeou a falar mal levantei o auscultador.
     - Esta viagem ... espantosa! - exclamou. -j viste bem aonde vamos? Vamos  ilha de Pscoa e ao Camboja! Visitamos o Taj Mahal! Vamos ao deserto australiano!
     - Eu sei. No  fantstico?
     - Mais do que fantstico.  esmagador! Reparaste que vamos viajar num tren puxado por ces, na Noruega?
     - Sim, eu sei...
     - E passear em cima de elefantes, na ndia!
     - Eu sei...
     - E vamos a frica!  frica, meu Deus!
     - Eu sei...
     - Vai ser fantstico!
     - Presumo que a Christine disse que podias ir?
     - Eu disse-te que ia.
     - Eu sei. Mas a Christine aprova a ideia?
     - No se pode dizer que esteja muito entusiasmada, mas concordou. Quero dizer... frica! ndia! Camboja! Com o meu irmo? O que  que ela havia de dizer?
     Podia ter dito que no, pensei. Tinham dois filhos: Peyton, com apenas dois meses, e Alli, com nove anos; e Micah estava a planear uma viagem a comear menos 
de um ms depois do primeiro aniversrio de Peyton. Contudo, como acontecia com Cathy, eu tinha a certeza de que Christine percebera que Micah precisava de estar 
comigo, tanto quanto eu precisava de estar com ele, embora por razes diferentes. Como irmos, tnhamo-nos habituado a depender um do outro em alturas de crise, 
uma dependncia que ainda se tornara mais intensa quando crescemos. Apoivamo-nos mutuamente quando enfrentvamos problemas de ordem emocional, vivamos os bons 
e os maus momentos de cada um. Aprendramos muito acerca de cada um de ns e, embora seja normal a existncia de intimidade entre irmos, comigo e com o Micah o 
sentimento era ainda mais profundo. O som da voz dele nunca deixava de me recordar da infncia que passmos juntos, o seu riso provocava o inevitvel ressurgir de 
memrias distantes, imagens de h muito esquecidas que emergiam sem aviso, como bandeiras agitadas pela brisa.
     - Nick? Est? Ainda ests a?
     - Sim, estou aqui. Estava s a pensar.
     - Sobre o qu? Sobre a viagem?
     - No - confessei. - Estava a pensar sobre as nossas aventuras de midos.
     - Em Minnesota?
     - No. Em Los Angeles.
     - Como  que foste recordar-te disso?
     - No sei muito bem - admiti. - Acontece, por vezes.
     
     Em 1969, trocmos os invernos rigorosos de Minnesota por Inglewood, na Califrnia. O 
     pap fora aceite para fazer o programa de doutoramento na Universidade do Sul da Califrnia e mudmo-nos para uma espcie de bairro social. Incrustada no centro 
de Los Angeles, a comunidade onde vivamos ainda tinha presentes as terrveis memrias dos motins de Watts, em 1965. ramos uma das poucas famlias brancas no prdio 
degradado de apartamentos, a que chamvamos lar, sabendo que os nossos vizinhos mais prximos incluam prostitutas, traficantes de drogas e membros de bandos de 
rua.
     Era uma casa minscula, com dois quartos, sala e cozinha, mas tenho a certeza de que a mam a considerava uma enorme melhoria em relao  vida que levara em 
Minnesota. Mesmo que continuasse longe do apoio dos familiares, pela primeira vez, em dois anos, tinha vizinhos com quem podia falar, mesmo que fossem diferentes 
das gentes com quem fora criada em Nebraska. Tambm podia deslocar-se  loja e comprar as mercearias ou, pelo menos, sair de casa e ver sinais de vida humana.
      normal que os filhos olhem os pais com reverncia e eu, em criana, no era diferente. Com olhos castanhos-escuros, cabelo escuro e pele leitosa, achava a 
minha me bonita. Apesar das dificuldades que enfrentmos em pequenos, no me recordo de ela ter descarregado as suas frustraes sobre os filhos. Era uma daquelas 
mulheres nascidas para ser mes e amava os filhos incondicionalmente; em muitos aspectos, ns ramos toda a sua vida. Sorria mais do que qualquer outra pessoa que 
conheci. No com esses sorrisos postios, que parecem forados e nos causam calafrios. Os sorrisos da mam eram genunos e despertavam-me o desejo de me aninhar 
nos seus braos, que estavam sempre abertos para ns.
     O meu pai, pelo contrrio, de certa maneira permanecia um mistrio para mim. De cabelo louro arruivado, tinha sardas e fazia queimaduras de sol com facilidade. 
Entre ns, era o nico apreciador de msica. Tocava harmnica e guitarra, alm de assobiar compulsivamente quando se sentia cansado, o que parecia estar sempre a 
acontecer. No que o pudssemos censurar. Em Los Angeles adoptara a mesma rotina que tinha em Minnesota: aulas, estudo e trabalho nocturno como porteiro e barman, 
para que pudssemos satisfazer as necessidades bsicas da vida. Mesmo assim, para equilibrar o oramento, tinha de contar com a ajuda dos pais dele e da mulher.
     Quando estava em casa, era vulgar estar preocupado a ponto de parecer ausente. A memria mais constante que guardo do meu pai  de o ver sentado  mesa, de 
cabea inclinada para um livro. Um verdadeiro intelectual, no era o gnero de pai que gostasse de brincar com filhos, de andar de bicicleta ou dar passeios a p; 
como, porm, nunca vivemos experincias diferentes, tambm no nos preocupvamos. Pelo contrrio, o seu objectivo, pelo menos para ns, os filhos, era ser o ganha-po 
e o disciplinador. Quando passvamos das marcas, o que acontecia com excessiva frequncia, a mam ameaava-nos de que informaria o pap, logo que ele chegasse a 
casa. No sei por qu, mas a simples ameaa deixava-nos aterrados; suponho que tal acontecia por no o conhecermos bem.
     Os anos passados em Minnesota tinham cimentado a amizade entre os irmos. Durante anos, Micah, Dana e eu ramos os nicos amigos com que cada um de ns podia 
contar, uma situao que se manteve em Los Angeles. Partilhvamos o mesmo quarto, brincvamos com os mesmos brinquedos e estvamos quase sempre juntos. Nas manhs 
de sbado, enroscvamo-nos  volta do televisor para vermos desenhos animados e podamos passar horas a fio a imitar personagens da agora defunta srie de cowboys, 
de Johnny West. Entre os bonecos tnhamos figuras de aco, como o G.I. Joe, a Famlia West (Johnny, Jane e os midos), soldados (General Custer e o Capito Maddox), 
um foragido (Sam Cobra) e ndios (Geronimo, Chefe Cherokee e Aguja Lutadora), alm de fortes, vages do Oeste, cavalos e manadas de vacas. Ao longo dos anos, devemos 
ter juntado trs ou quatro exemplares de cada componente dos jogos. Brincvamos com as figuras, incluindo-as em aventuras sucessivas, at se desfazerem.
     Como a minha irm era a mais nova, ficava mais em casa a fazer companhia  me, enquanto Micah e eu comemos gradualmente a descobrir o mundo exterior. Os 
nossos pais pareciam acreditar - com bastante ingenuidade, penso eu - que, juntos, estaramos em segurana, quaisquer que fossem os perigos da rua e comearam a 
deixar-nos explorar as proximidades da casa antes de eu chegar aos cinco anos. A nica exigncia era estarmos em casa  hora do jantar. Nem o pap nem a mam se 
deram ao trabalho de estabelecer limites geogrficos para as nossas excurses, desde que cumprssemos a nossa parte; aquela liberdade foi aproveitada ao mximo. 
Eu ia para onde o meu irmo fosse, sempre atrs dele, com o Micah a ser cada vez mais o meu heri. Passmos as tardes a explorar edifcios de apartamentos a cair, 
ou a confraternizar com as raparigas da vizinhana, que estacionavam nos passeios a incentivar os possveis clientes. Passmos horas sem fim a observar rapazes que 
reparavam carros no parque de estacionamento, outras vezes sentvamo-nos nas escadas com vrios bandos de rapazes que bebiam cerveja e se entretinham com as namoradas. 
Era divertido, havia sempre alguma coisa para ver ou para fazer e por vezes ouviam-se tiros, mas longe. No me lembro de nos termos assustado com eles.
     Por qualquer razo, estvamos em segurana naquele bairro. Suponho que toda a gente, incluindo os membros dos bandos, sabia que no representvamos qualquer 
ameaa e que possivelmente ramos ainda mais pobres do que eles. ramos desesperadamente pobres. Em midos fomos criados com leite em p, batatas e papas de aveia. 
S quando fui para a escola  que aprendi que no estado natural o leite  um lquido. Nunca comamos fora, no visitvamos museus, no amos a bailes, nem ao cinema. 
O carro que o pap comprou para ir para o trabalho e para a universidade custou menos de cem dlares. Quando fomos para a escola, tnhamos umas botas e um par de 
calas por ano; quando se rompiam, a mam colocava-lhes um remendo; e ia pondo sempre mais remendos, at as nossas calas parecerem ter sido munidas, na origem, 
de joelheiras. Os poucos brinquedos, quase s Tinkertoys, Lincoln Logs e as figuras da Famlia West, j mencionadas, eram prendas de anos ou de Natal; habitumo-nos 
a no pedir nada que vssemos quando amos ao supermercado com a mam.
     S agora me apercebo de que provavelmente vivamos abaixo da linha de pobreza.  certo que, na altura, no sabamos disso e, para ser franco, no estvamos 
interessados em sab-lo. E a mam no aceitava quaisquer das nossas queixas. Era uma adepta intransigente da firmeza. Detestava lamrias, detestava queixas, detestava 
desculpas e sempre procurou erradicar estes traos da personalidade dos filhos. Se alguma vez dissssemos qualquer coisa do gnero "Mas eu quero aquilo!", obtnhamos 
sempre a mesma resposta. Encolhia os ombros e dizia calmamente: "Recolhe as garras, tigre. O que desejas e o que apanhas so quase sempre duas coisas completamente 
distintas".
     As suas opinies acerca da "firmeza" fariam tremer muitos dos pais dos nossos dias. Quando o Micah foi para a escola, por exemplo, o transporte em autocarros 
escolares estava a ser usado para forar a integrao racial nas escolas urbanas. Resultado: no podia frequentar a escola que existia na rua onde morvamos; em 
vez disso, tinha de caminhar quase dois quilmetros at  paragem do autocarro, atravessando avenidas com trfego intenso e bairros onde imperava a violncia, sem 
contar com um atalho que atravessava uma lixeira. No primeiro dia da escola infantil, a mam acompanhou-o at  paragem do autocarro; no dia seguinte, foi sozinho. 
Passada uma semana, queixou-se  mam de que umas raparigas mais crescidas, talvez do stimo ano, o tinham encurralado na lixeira e lhe tinham roubado o dinheiro 
para o leite. E tinham-no ameaado: se no lhes levasse uma moeda de cinco cntimos em cada dia, batiam-lhe.
     - Disseram que me daro uma tareia das grandes! - concluiu Micah, a chorar.
     Um pai ou uma me tm diversas maneiras de tratar uma situao deste tipo. Por exemplo: a mam podia comear a acompanh-lo regularmente  escola, ou acompanh-lo 
um dia, enfrentar as raparigas e amea-las com a polcia se ocorresse outro incidente. Podia procurar saber quem eram os pais delas e falar com eles ou encontrar 
algum que desse uma boleia ao filho. Talvez at pudesse falar com algum da escola.
     Nada que se ajustasse  mam. Em vez disso, depois de Micah ter contado a sua histria, levantou-se da mesa e ausentou-se da sala durante alguns minutos. Quando 
regressou, trazia na mo uma velha lancheira, ferrugenta e amolgada, que tinha usado na infncia.
     - Amanh, meto-te o almoo aqui dentro, em vez de o levares num saco de papel - comeou, - e se elas tentarem tirar-te o dinheiro, toma balano e bate-lhes 
com isto. Assim...
     Erguendo o brao como se fosse uma domadora de lees, comeou a descrever crculos largos com a lancheira, a demonstrar como se fazia, enquanto o Micah se mantinha 
sentado, a observar.
     No dia seguinte, o meu irmo de seis anos de idade, a transportar a velha lancheira, marchou a caminho da escola. E, como tinham ameaado fazer, as raparigas 
cercaram-no quando ele se recusou a dar-lhes a moeda exigida. Quando a primeira avanou, Micah fez exactamente com a me lhe tinha ensinado.
     Nessa noite, no quarto, Micah relatou-me o que tinha acontecido.
     - Rodei com quanta fora tinha - explicou.
     - No estavas com medo?
     Acenou que sim, de lbios cerrados.
     - Mas continuei a rodar a lancheira e a bater-lhes at fugirem, a chorar.
     Resta acrescentar que as raparigas no voltaram a incomod-lo.
     
     Em 1971, voltmos a mudar de casa, desta vez para Playa del Rey, outro bairro de Los Angeles. Por motivos bvios (os tiros nocturnos comearam a soar excessivamente 
perto), os nossos pais acharam que o local era mais seguro para ns do que Inglewood.
     Entretanto, eu tinha iniciado a pr-primria mas, como havia um
     ano a separar-nos e a cidade de Los Angeles prosseguia a mesma poltica de transportes escolares, eu e o Micah ficmos em escolas diferentes. Se os alunos da 
minha turma se pareciam com os que se poderiam encontrar num subrbio de uma cidade de Iowa, Micah era levado para uma escola da cidade, sendo a nica criana branca 
da turma.
     Apesar disso, passvamos as tardes juntos e a fazer o mesmo que fazamos em Inglewood, como um par de midos sem medo do mundo. Saamos do nosso complexo de 
apartamentos e amos para onde nos apetecia, durante horas; caminhvamos vrios quilmetros at  marina, onde ficvamos a admirar os barcos ancorados, ou subamos 
pelos pilares dos viadutos da estrada, ou pelos postes da electricidade,  procura de ovos de pssaros, quando no decidamos explorar casas vagas, desmoronadas 
ou queimadas pelo fogo  procura de qualquer coisa interessante que tivesse sido abandonada. Outras vezes, seguamos pelas traseiras do nosso complexo de apartamentos, 
atravessvamos umas quantas avenidas e saltvamos algumas cercas para visitar a escola secundria. No final da tarde, o local costumava estar vazio e ns adorvamos 
os grandes espaos ao ar livre, muito mais vastos do que os das nossas escolas elementares. Corramos, jogvamos s escondidas ou limitvamo-nos a percorrer os corredores 
a espreitar as salas vazias. Um dia, descobrimos um corvo em cima de uma rvore e ficmos logo cativados. Comemos a segui-lo enquanto saltava de uma rvore para 
outra. Depois desse dia, sempre que amos at  escola, procurvamos o corvo e quase sempre o encontrvamos. Depois de o chamarmos durante um bocado, amos fazer 
qualquer outra coisa. Porm, no tardvamos a avistar novamente o corvo numa das rvores prximas do lugar onde de momento estivssemos a brincar. Passado pouco 
tempo, no havia lugar da escola onde no vssemos o corvo. Andava sempre  nossa volta. Depressa nos apercebemos de que o corvo nos seguia.
     Comemos a dar-lhe comida. Se lanssemos umas migalhas para o cho, o corvo mergulhava, comia e voava para a rvore. Pouco a pouco, comeou a demorar-se o 
suficiente para permitir a nossa aproximao. Depois, comemos a trazer-lhe passas e a ave passou a confiar mais em ns. Chegmos ao ponto de pormos a passa de 
uva ao alcance da mo e o corvo no hesitava e vinha com-la. Para nosso espanto, o pssaro tinha-se tornado uma espcie de animal domstico e comemos a pensar 
nele como tal. Levmos a mquina fotogrfica da mam e conseguimos grandes planos do corvo, que mostrvamos, cheios de orgulho, depois de as fotografias terem sido 
reveladas. E at lhe demos um nome: Blackie. O Blackie era formidvel. O Blackie era giro. O Blackie, viemos depois a descobrir, era um monstro.
     To interessados no corvo, viemos a descobrir que ele estava ainda mais interessado em ns. Especialmente no nosso cabelo. Como ramos louros, os nossos cabelos 
brilhavam ao sol e os corvos, segundo aprendemos mais tarde, adoram tudo o que brilha. Os corvos tambm constroem ninhos. Juntando as duas coisas, pode imaginar-se 
o que aconteceu de seguida.
     Uma tarde, estvamos na escola quando, de repente, o Blackie veio a voar na nossa direco, mergulhando sobre as nossas cabeas, uma e outra vez, obrigando-nos 
a fugir. O Blackie seguiu-nos. A envergadura das asas do corvo parecia ter aumentado extraordinariamente de um dia para o outro; no tardmos a ter de correr, a 
gritar para salvarmos a vida, enquanto o Blackie zunia por cima das nossas cabeas. Escondemo-nos durante algum tempo perto de umas mquinas, a tentarmos descobrir 
a maneira de voltarmos para casa; acabmos por sair do esconderijo e, vendo o caminho livre, corremos para casa.
     No conseguia acompanhar a passada do Micah e pouco a pouco fui ficando para trs. Num instante, o Blackie mergulhou e pousou na minha cabea, a coisa mais 
aterradora que alguma vez acontecera na minha ainda curta vida. Entrei em pnico, incapaz de respirar ou de mover qualquer msculo. Sentia as garras do corvo a rasgarem-me 
a cabea e, como que para aumentar o horror, a ave comeou a vibrar-me fortes bicadas, com a cabea a descer e a subir como as bombas dos poos de petrleo de Oklahoma. 
Gritei. O Blackie bicou com mais fora. E assim continuou: bicada, grito, bicada, grito, bicada, grito, bicada, grito. Era como se o corvo tentasse por todos os 
meios abrir-me um buraco na cabea para me sugar os miolos.
     Recordo-me vagamente de ver o meu irmo voltar para trs, l de longe, pois s se apercebera do regresso do corvo depois do meu primeiro grito. Rodando sobre 
os calcanhares, Micah correu para mim, gritando-me que me defendesse da ave, mas eu sentia a cabea oca e ficara imobilizado. Tudo o que conseguia fazer era ficar 
para ali, com o Blackie a matar-me, bicada a bicada.
      claro que Micah soube o que devia fazer. A gritar e a agitar os braos energicamente, conseguiu que a demonaca ave deixasse de me bicar o couro cabeludo. 
Depois, como o Blackie continuou a mergulhar sobre ns, Micah despiu a camisa e agitou-a  nossa volta, como se fosse uma bandeira. Finalmente, o Blackie refugiou-se 
nas rvores.
     No caminho para casa senti-me embaraado por ter tido tanto medo. O Micah no tivera medo. O Micah tinha tratado do Blackie quando eu entrei em pnico. O Micah 
lutou, enquanto eu me deixei ficar paralisado. Acabei por crer que, ao contrrio de mim, o Micah podia fazer tudo o que fosse preciso. E, enquanto me esforava por 
lhe acompanhar a passada, desejei, mais do que nunca, ser exactamente como ele.
     
CAPTULO TRS
     
     Depois de confirmados os lugares na excurso  volta do mundo, eu e o Micah entregmo-nos aos necessrios preparativos. Entre outras coisas, precismos de diversas 
vacinas, incluindo as da febre amarela e das hepatites A e B, bem como os passaportes e vistos para a ndia, Etipia e Camboja.
     Com a Primavera a acabar para dar lugar ao Vero, falei muitas vezes com o meu irmo, mas, fenmeno estranho, quanto mais falvamos mais divergiam as nossas 
expectativas a respeito da aventura que se aproximava. Enquanto o Micah demonstrava um entusiasmo crescente em relao aos lugares que amos visitar, eu ficava cada 
vez mais ansioso por causa da partida; quando me ligava para falar da viagem, eu dava comigo a evitar o assunto.
     Chamem-lhe o arrependimento do consumidor, mas, gradualmente, fui encarando a ideia de que cometera um erro ao decidir comprar a viagem. Por mais excitante 
que a ideia fosse, por mais que desejasse visitar todos aqueles lugares, no me imaginava a andar por fora durante semanas. Entre o trabalho e a famlia, parecia-me 
que, desde h sculos, nunca me sobrara tempo para nada. Se a minha casa era um lugar catico, a minha carreira era ainda mais atarefada; a ideia de viajar por prazer 
no s me aumentava a ansiedade, como tambm me fazia sentir complexos de culpa. Se podia dispensar um ms, por que no pass-lo com os midos? Ou com a minha mulher? 
Se o tempo mal chegava para tudo, como diabo podia pensar em ficar um ms por fora, em viagem de turismo.
     Naquela viagem, tudo me parecia errado. Porm, se soubessem a situao em que eu estava em 2002, os leitores compreenderiam os motivos da minha preocupao.
     Gosto de pensar que a vida  como uma corrente de gua, com rpidos e quedas de gua. Na vida de qualquer pessoa existem perodos em que tudo parece flutuar 
calmamente. Seguimos na nossa canoa, a remar sem pressas, a apreciar a paisagem. Um dia corre para o seguinte, faz-se o que  preciso e, sem se saber bem como, ainda 
resta tempo para descansar. Depois, a corrente comea a fluir mais depressa, ainda  possvel controlar tudo, mas j  necessrio um pouco mais de esforo. A seguir, 
vm os rpidos e, de sbito, tudo se torna mais difcil. Pode surgir um novo projecto de trabalho, talvez adoea uma pessoa de famlia, podemos ter de nos mudar 
ou ser despedidos do emprego. Quaisquer que sejam as razes, nestes perodos s pensamos em dirigir a canoa, em nos mantermos a flutuar. De
     manh, logo ao acordarmos, sentimos que j estamos atrasados, pois, para fazer tudo o que  necessrio, cada dia  uma nova correria frentica, um novo contra-relgio. 
E, depois, os rpidos fazem-nos correr ainda mais depressa, temos de ir com a corrente. "Temos de", "precisamos de", "no temos escolha". Continuamos em frente, 
sempre em frente. L mais adiante, ouve-se o estrondear da catarata e convencemo-nos de que s nos resta remar ainda com mais energia. Temos de passar por aqueles 
rpidos e, seja como for, atingir guas calmas. A no ser assim, vamos ser engolidos pela catarata.
     Era a que eu estava no ano de 2002: no meio dos rpidos, a manobrar com frenesim, com a catarata a aproximar-se. Mentalmente. Fisicamente. Emocionalmente. 
E j por ali andara nos trs anos anteriores.
     No me orgulho disso. No  um sinal de xito.  uma vida sem qualquer equilbrio e, a longo prazo, a catarata acabar por nos apanhar. Agora sei isso. O problema 
 que no o sabia naquela altura.
     No entanto, a minha mulher compreendeu a situao. Cat  uma daquelas pessoas para quem  fcil manter o equilbrio. No  apenas uma me atenciosa, pois tem 
dezenas de amigas com quem fala regularmente.  dedicada  famlia e, no entanto, ocupada como estava (cinco filhos, trs deles com menos de dois anos, so o suficiente 
para manter qualquer me ocupada), passava os seus dias sem aquele sentimento de aflio a que eu no conseguia escapar. Ela, mais do que ningum, sabia que eu necessitava 
de um escape; tambm sabia que a minha inclinao natural seria negar que precisava dele e que, de repente, arranjaria uma desculpa para no fazer a viagem. Ou pior: 
recusar-me-ia a desfrut-la, mesmo se fosse.
     Uma noite, j deitada, fez-me perguntas acerca da viagem e voltei a resmungar as minhas dvidas sobre o assunto.
     Virou-se na cama e olhou-me de frente:
     - Vais divertir-te - salientou. - E precisas de ir. Nunca fizeste nada de semelhante.
     - Eu sei. Mas, na realidade, a altura no  boa.
     - A altura boa nunca chegar. Vais estar sempre muito ocupado.
     Faz parte do teu carcter.
     - No faz nada.
     -  claro que faz. De facto, nunca te permites pensar em no
     estares muito ocupado.
     - S nos ltimos dois anos.
     Cathy abanou a cabea:
     - No, meu querido. Andaste sempre muito ocupado, desde que
     te conheo. No podes passar sem isso. - Achas que no?
     - Acho.
     Pensei melhor:
     - Nos prximos dois anos vou estar realmente muito ocupado.
     Mas, depois, vou trabalhar menos. Dentro de uns dois anos, acho que
     terei tempo para uma viagem destas.
     - Disseste o mesmo h uns dois anos.
     - Disse?
     - Pois disseste.
     Fiz uma pausa.
     - Acho que estava enganado. Mas, desta vez, tenho a certeza de que no estou.
     Ao meu lado, ouvi a minha mulher suspirar.
     A despeito das palavras dela, a sensao de angstia que sentia tornou-se ainda maior com a aproximao do Outono. O Micah, tal como a minha mulher, sentiu 
a minha hesitao ao falarmos pelo telefone e comeou a ligar-me com maior frequncia, fazendo o que podia para me animar.
     - Ol, Nick! - dizia-me ao telefone. - Recebeste a encomenda que a TCS nos mandou?
     A TCS era a agncia de viagens encarregada da excurso. Estava no escritrio, a trabalhar no meu novo romance: Laos Que Perduram; as duas caixas, recebidas 
havia duas semanas, estavam a um canto; ainda no lhes tocara.
     - Recebi, mas ainda no a abri.
     - Porqu?
     - Ainda no tive tempo.
     - Pois bem, arranja-o - redarguiu. - Enviaram um material bem interessante. Mandaram um bluso, uma mochila e uma mala, alm de outros utenslios. H tambm 
um itinerrio...
     - Vou abrir as caixas neste fim-de-semana.
     - Devias abri-las j - insistiu. - De facto, penso que j lhes
     devias ter enviado um dos atestados mdicos. E tens de decidir qual o lugar que desejas visitar na Guatemala. Tens de escolher entre as runas e o mercado da 
cidade. Tens de mandar a informao at ao final da semana.
     Fechei os olhos, descontente por ter arranjado mais um motivo de preocupao.
     - Est bem. Vou tratar disso esta noite, se puder.
     Houve uma longa pausa do outro lado.
     - O que  que se passa contigo? - perguntou o Micah.
     - Nada - respondi.
     - No pareces muito entusiasmado com isto.
     - Mas vou animar. Quando chegar a altura da partida. Ainda no tive tempo para pensar nisso, tenho tido muito trabalho. Ficarei mais entusiasmado com o aproximar 
da hora da partida. De momento, estou assoberbado de trabalho.
     O Micah respirou fundo:
     - Ests a cometer um erro.
     - O que  que pretendes dizer?
     - Ainda no percebeste? - perguntou. - A expectativa  a parte essencial de toda a viagem. A excitao da partida, os lugares a ver, as pessoas que vamos encontrar. 
Tudo isso faz parte do gozo.
     - Eu sei. Mas...
     Ele no me deixou prosseguir.
     - No ests a ouvir o que digo, maninho. Nunca te esqueas de que o entusiasmo  uma parte importante da vida. O trabalho  importante, a famlia  importante, 
mas, sem entusiasmo, no te fica nada. Se te recusas a antever o gozo, ests a enganar-te a ti prprio.
     Fechei os olhos, sabendo que ele tinha razo, mas ainda imerso no mar das minhas obrigaes.
     - Acontece apenas que, de momento, tenho outras prioridades.
     - Essa  uma parte do teu problema - alvitrou, na sua voz calma. - Tens sempre outras prioridades.
     
     Enquanto a curiosidade se tornou um dos aspectos regulares do incio da vida escolar do Micah, eu descobri que adorava a escola. Tudo foi fcil no meu primeiro 
ano: a professora era amorosa, os midos simpticos e nada me pareceu difcil de aprender. No entanto, por ser um ano mais velho, o Micah continuava adiantado em 
relao a mim na maioria das matrias. Ou, pelo menos, eu partia desse princpio.
     Os nossos pais inscreveram-nos nos Escuteiros Infantis e um dos nossos projectos foi construir um foguete de madeira, impulsionado por uma carga de COZ e mantido 
em posio por um arame, que depois pusemos a concurso com outros foguetes feitos por outros escuteiros. O Micah e eu fomos sozinhos at ao centro recreativo, uma 
caminhada de cerca de trs quilmetros, ambos nervosos acerca da nossa participao. O meu foguete perdeu na primeira partida. Mas o Micah ganhou a primeira partida 
e continuou a ganhar. O seu foguete acabou por ficar em segundo lugar no conjunto das provas, o que me fez sentir simultaneamente orgulho e inveja em relao a ele. 
Era a primeira vez que experimentava aquele sentimento de inveja em relao ao meu irmo, um sentimento que aumentou quando ele recebeu uma braadeira vermelha como 
prmio, por entre grandes aplausos. Apercebi-me de que ele podia fazer tudo melhor do que eu. Entretanto, tambm recebi uma braadeira, que foi dada a todos os participantes 
que, como eu, no se tinham classificado, mas melhor seria que no ma tivessem dado. Ainda estava a aprender letras e sons, j sabia ler palavras pequenas, mas muitas 
vezes no compreendia as palavras mais compridas. No fazia ideia do que dizia a braadeira; s
     sabia que tinha sido dada aos escuteiros a quem as provas no tinham corrido bem.
     Mesmo assim, fiz um esforo para tentar ler o que dizia a braadeira. Tinha duas palavras e a primeira era "Meno". Consegui l-la sem grande esforo, mas 
a segunda no fazia muito sentido, pelo que tentei vocaliz-la. Comeava por HO, tinha um R no meio, e terminava em SA... Os meus lbios comearam a formar a palavra 
e, de repente, senti-me desfalecer.
     "Oh, no!", pensei. "No pode ser..."
     Recomecei a tentativa de ler a palavra. Mas no havia dvidas, estava ali, para toda a gente ver.
     A palavra comeou a rodar e finalmente entendi. Claro, pensei, fazia sentido. Senti um n no estmago e quis chorar. L longe, no meio dos vencedores, vi o 
meu irmo a exibir com orgulho o foguete e a braadeira que ganhara. Quanto aos outros, os que eram como eu, tinham tido a actuao que a braadeira mencionava. 
Horrorosa. Tinham-me dado uma braadeira que dizia "Meno Horrorosa".
     No me recordo de ter sado de l mas no me esqueci do regresso a casa. O Micah viu que eu estava perturbado mas continuei a abanar a cabea sempre que ele 
me perguntava o que tinha. Finalmente, quando o desgosto se tornou insuportvel, atirei-lhe com a braadeira.
     - Vs! - gritei. - A minha prova foi horrorosa.  o que diz a braadeira.
     - A braadeira no diz isso.
     - Ento, l!
     Comeou a soletrar a palavra, a tentar vocaliz-la, como eu tinha feito; depois, lentamente, olhou para mim, como se tambm ele estivesse prestes a chorar.
     - No  justo - murmurou.
     Oh!... No! Eu tinha razo. Apercebi-me de que estivera a alimentar a esperana de ter lido mal. De que tinha cometido um erro. Mas no tinha e senti que a 
barragem que me continha as emoes estava prestes a rebentar.
     - Fiz o melhor que podia... No podia fazer melhor... - tartamudeei e, logo de seguida, comecei a chorar. Sentia os ombros agitarem-se com violncia e o Micah 
a pr-me um brao  volta dos ombros, chegando-me para ele.
     - Eu sei. E o teu foguete no era horroroso.
     - Mas eles disseram que era.
     - Quem se interessa com o que eles dizem? Eu achei que o teu foguete era um dos melhores.
     - No achaste nada.
     -  claro que achei. Fizeste um bom trabalho. Estou orgulhoso pelo teu foguete. E nunca mais volto aos Escuteiros Infantis. Depois do que eles te fizeram, no 
volto l.
     Nem sei se as palavras dele me fizeram sentir melhor ou pior; s sabia que precisava dele.
     Por aquela altura, eu queria pr a questo para trs das costas, mas o Micah no pensava assim.
     - No posso acreditar que tenham dito que foste horroroso - continuou a resmungar e, de cada vez que o dizia, os ombros tremiam-me ainda mais.
     Quando chegmos a casa, encontrmos a me na cozinha a preparar o jantar. Voltou-se para ns.
     - Ol, pessoal! Como  que correram as coisas?
     Durante algum tempo nenhum de ns abriu a boca. O Micah mostrou a braadeira que ganhara, com a mo em baixo, como que embaraado.
     - Fiquei em segundo lugar - informou.
     A mam pegou na braadeira e levantou-a bem alto.
     - Caramba! Parabns! Um segundo lugar!
     - Quase ganhava - acrescentou o Micah. - Bem, o segundo lugar  fantstico. E tu, Nick?
     Encolhi os ombros, sem responder, a tentar conter as lgrimas. A expresso dela suavizou-se.
     - No conseguiste uma braadeira?
     Acenei que sim.
     - Conseguiste uma braadeira?
     Voltei a acenar que sim.
     - Mas no interessa.
     -  claro que interessa. Posso v-la? - Neguei com a cabea. - Por que no, meu amor?
     - Porque - acabei por dizer, comeando a ir-me abaixo. - Diz
     que eu fui horroroso!
     Cerrei as plpebras numa v tentativa de as conter, mas as lgrimas irromperam.
     - No diz nada disso - informou a mam.
     - Diz, diz sim senhora - interrompeu o Micah. - Diz que foi horroroso.
     Comecei a soluar ainda mais e a mam abraou-me.
     - Posso v-la?
     Talvez fosse a segurana que sentia nos braos da minha me, mas acabei por reunir a coragem de meter a mo no bolso para tirar de l a braadeira amachucada. 
A mam deu-lhe uma olhadela e usou um dedo para me obrigar a levantar o queixo para ela.
     - No diz horrorosa - informou. - O que aqui est escrito  honrosa. Isto  bom, doura. Diz aqui que ficaram satisfeitos com o teu trabalho. Fizeste um trabalho 
honroso.
     De princpio, no tive a certeza de estar a ouvir bem. Porm, passados momentos, quando ela soletrou a palavra, senti-me bastante melhor. No entanto, em parte, 
preferia nunca ter recebido qualquer braadeira.
     
     Em 1971, a regio de Los Angeles foi abalada por uma srie de tremores de terra. O primeiro aconteceu a meio da noite e recordo-me de ter acordado e de sentir 
a cama a tremer violentamente, como se algum estivesse a tentar fazer-me cair.
     A Dana acordou quase ao mesmo tempo e comeou a gritar. Eu ouvia o ribombar e o som das paredes a estalar, vi os brinquedos a cair. O cho vibrava, parecia 
quase lquido e pensei que no fazia ideia do que estava a acontecer. Sabia que no era coisa boa e suspeitei de que corramos perigo. O Micah tambm percebeu o 
mesmo e saltou da cama para nos proteger, a mim e  nossa irm. Estava a conduzir-nos para o centro do quarto, para nos aconchegarmos, quando o pai entrou de roldo 
pelo quarto. Estava nu e de olhos esbugalhados. Nenhum de ns o vira nu, pelo que a viso dele enquadrado pela porta foi ainda mais chocante do que tudo o que nos 
estava a acontecer. A mam vinha logo atrs mas, ao contrrio do marido, vestia uma camisa de dormir. J dentro do quarto, rodearam-nos e foraram-nos a ir para 
o cho, onde ficmos todos, bem juntos. A seguir, na tentativa de nos protegerem do entulho que caa, ambos se deitaram por cima de ns.
     O solo continuava a ressoar, as paredes continuavam a oscilar, mas havia algo de calmante no facto de estarmos amontoados, como uma famlia. Por mais aterradora 
que a situao me parecesse, recordo-me de que, subitamente, senti que no ia suceder-nos nada de mal e que, no sabia muito bem como, aquele sinal evidente de amor 
parental e de preocupao connosco seria suficiente para nos proteger. S quando vi os estragos na televiso  que me apercebi bem da gravidade da situao. Por 
toda a cidade havia edifcios derrubados e as auto-estradas abriram fendas. A magnitude do sismo foi avaliada em 7,2 da escala de Richter, fazendo dele um dos tremores 
de terra mais violentos alguma vez sofridos naquela zona.
     Para o meu irmo e para mim, o sismo obrigou-nos a inspeccionar pessoalmente os prejuzos, pelo que passmos os dias seguintes a inspeccionar e a procurar, 
como se fssemos funcionrios da FEMA (Agncia Federal de Controlo de Situaes de Emergncia). Talvez fosse uma maneira de expulsarmos o medo do nosso sistema e, 
durante o dia, parecia resultar. Porm,  noite, deitados nas camas, sentamos dificuldade em adormecer e tnhamos pesadelos.
     Depois do grande sismo, as rplicas continuaram durante vrios dias. A princpio, os nossos pais continuaram a correr para o quarto dos filhos, como tinham 
feito na primeira noite. Porm, com a continuao das rplicas, a resposta deles tornou-se mais lenta, at que deixaram de vir ver o que se passava connosco. Depois 
disso, comemos ns a correr para o quarto deles.
     No meio de uma nova rplica, vomos para o quarto deles, saltmos como peixes desde os ps da cama e ouvimos o ar escapar-se dos pulmes dos nossos pais quando 
lhes aterrmos em cima do peito. O pap, obviamente cansado por ser acordado a meio da noite, deu importncia  exortao da mam:
     - Faz qualquer coisa, Mike! - e decidiu, de uma vez por todas, pr cobro  situao. Saltou da cama para o meio do quarto e nu, uma vez mais (mas agora j estvamos 
habituados a v-lo assim), comeou a executar o que parecia ser uma dana ndia a pedir chuva. A agitar os braos acima da cabea, andava em crculos, e cantava:
     - Pra, tremor de terra. Pra, oh, ei, poderoso tremor de terra vai-te embora... - e, no momento em que deixou de andar  roda, repentinamente, o cho deixou 
de tremer.
     Ficmos a olhar para ele, embasbacados. Ainda apavorados, vimo-lo regressar  cama e mandar-nos embora.
     Suponho que no  necessrio explicar a importncia de uma cena daquelas em mentes infantis; depois de termos regressado s nossas camas, o significado tornou-se 
claro, tanto para o meu irmo como para mim. Coincidncia? Julgo que no!
     Como o Micah explicou solenemente:
     - O pap tem poderes mgicos.
     O que, valha a verdade, nos fez olhar para o nosso pai de uma perspectiva completamente diferente, v-lo a uma nova e excitante luz e, tenho de o dizer, quando 
voltei  escola no fiz segredo do que acontecera. Os meus colegas de turma tambm ficaram espantados.
     Para alm de fazer parar os tremores de terra, o pap tambm era capaz de fazer parar a chuva. Nem sempre,  bom que se diga; s quando amos de carro e durante 
perodos muito curtos de tempo. A intensidade da chuva no era importante, pois, enquanto seguamos pela estrada, o pap olhava-nos por cima do ombro e por vezes 
perguntava se estvamos preparados para sentir a chuva parar. Se dizamos que sim, mandava que fechssemos os olhos, lembrando-nos que no podamos espreitar, e, 
no momento certo, ordenava "Pra", e a chuva deixava de cair. O silncio era absoluto durante um segundo, no se ouvia a chuva a bater no tejadilho, para, subitamente, 
recomear de novo a bater. Como ele explicava: "Fazer parar a chuva obriga a um enorme dispndio de energia. No  coisa que se possa fazer durante muito tempo".
     Uns anos mais tarde, reparei que o meu pai s parecia dispor de tais poderes quando estvamos prestes a passar por debaixo de uma ponte ou de um viaduto.
     
     Em 1972, a situao da famlia comeou a mudar. Ento, com a minha irm no jardim infantil, a mam pde comear a trabalhar, de modo que, acabada a escola, 
ficvamos sozinhos. Havia uma vizinha idosa que supostamente tomava conta de ns, mas era raro que o fizesse. Em vez disso, subamos at ao apartamento dela, dizamos 
que j estvamos em casa e no lhe ligvamos mais importncia durante o resto da tarde. Uma situao que tambm lhe convinha. Era uma guardi do tipo "chamem-me 
s em casos graves, no quero perder a telenovela" e, alm do mais, estvamos to habituados a ter as tardes por nossa conta que no precisvamos de ter algum para 
nos vigiar.
     Quando ramos pequenos, tanto eu como o meu irmo sofremos um nmero extremamente elevado de acidentes, o que no  de surpreender. Quanto a mim, um adolescente 
partiu-me a cabea com uma pedrada (o que provocou o envolvimento da polcia e uma visita do meu pai, que ameaou o dito adolescente com danos fsicos importantes 
se a situao se repetisse), perdi dois dentes quando estava a aprender a andar de bicicleta, magoei os dois pulsos e os dois tornozelos e quase cortei um dedo com 
um caco de vidro. O meu irmo teve acidentes do mesmo gnero, mas talvez tenham sido mais frequentes e mais graves.
     Mesmo assim, se exceptuarmos as vacinas obrigatrias, raramente fomos levados a mdicos ou a dentistas. Quando digo raramente, quero dizer "talvez uma vez, 
quando havia fortes possibilidades de morrermos". Tinha dezoito anos quando, pela primeira vez, pus os ps num consultrio de dentista. Por vezes, ficava a pensar 
na quantidade de sangue que seria preciso perder para levar os meus pais a ceder e a decidirem levar-me a um posto mdico. No tinham razes de ordem religiosa para 
evitarem os tratamentos mdicos, apenas pensavam que procurar os cuidados de sade era no s uma perda de tempo como tambm incorrer em gastos que eles no tinham 
capacidade financeira para suportar. Acrescente-se a tudo isto a necessidade de sermos duros e chegmos  situao, eu e o meu irmo, de s vermos mdicos na televiso. 
Recordo-me, por exemplo, de que depois de ter sido atingido pela pedra, fiquei com o rosto literalmente coberto de sangue. No via bem e mal consegui cambalear at 
casa.
     - Amanh, ests so que nem um pro - concluiu a mam, depois de observar a ferida. - Tens a cabea dura.
     Felizmente, a minha cabea era realmente dura e conseguiu sarar por si prpria.
     Contudo, foi por essa altura que a minha irm sofreu um ataque de epiglotite, uma inflamao potencialmente fatal da epiglote. Nem eu nem o Micah sabamos exactamente 
o que estava a acontecer com a nossa irm naquela manh; s sabamos que ardia de febre, estava plida, delirava e tinha vomitado durante a noite. Os nossos pais, 
que sabiam distinguir o que era uma verdadeira emergncia, apressaram-se a lev-la ao hospital. Infelizmente, na falta de um seguro de sade, o hospital exigiu um 
depsito de duzentos dlares, pelo que, depois de l deixar a famlia, o pap largou a toda a velocidade, para ir  procura de quem lhe emprestasse aquela importncia.
     A mam foi com a Dana para dentro do hospital e mandou que esperssemos junto de uma rvore,  entrada do parque de estacionamento.
     - S podem ir daqui at ali, e ali - apontou, a desenhar uma sebe imaginria com uns quinze metros quadrados. Mesmo naquela idade, reconhecemos o medo na voz 
da mam e j tnhamos suficiente sensatez para agir exactamente como ela mandou.
     Estava um dia quente, talvez a temperatura rondasse os 38 C. Fomos deixados para li, sem comida nem gua e, para afastarmos o calor da ideia, passmos as horas 
seguintes a trepar  rvore e a caminhar no interior da nossa sebe imaginria. Inventmos um jogo que nos levava at aos limites da vedao imaginria, sem passarmos 
para l da linha. A dada altura, tropecei e ca em cima da linha. Recordo que me levantei rapidamente, mas a ideia de ter desobedecido  minha me, acrescida do 
cansao que ja sentamos, trouxe-me lgrimas aos olhos. Como sempre, naquele tipo de situaes, tinha l o meu irmo para me confortar; com o brao dele  volta 
dos meus ombros, resolvemos sentar-nos  sombra, para passarmos o que nos pareciam ser horas interminveis.
     A dada altura, perguntei:
     - Achas que a Dana vai morrer?
     - No - respondeu.
     - O que  que ela tem?
     - No sei.
     - Ento, como  que sabes que no vai morrer?
     - Porque no vai. Eu sei que no.
     Olhei-o de lado.
     - A mam parecia assustada. O pap tambm.
     Concordou com um aceno de cabea.
     - No quero que ela morra - declarei.
     Era a primeira vez que enfrentava uma situao daquelas e senti medo. Como famlia, tnhamos pouco, mas sempre contramos uns com os outros. Mesmo sendo mais 
pequena e no poder, por isso, meter-se em aventuras como eu e o Micah, a Dana estava j a demonstrar alguns dos melhores aspectos da personalidade da me. Mostrava-se 
sempre alegre; soltava gargalhadas, sorria e era a minha melhor amiga, nos dias em que no andava junto do meu irmo. Tal como eu, adorava o jogo de Johnny West 
e,  noite, passvamos horas a jogar.
     Eu e o Micah formvamos um quadro triste e curioso, ali, naquele parque de estacionamento. Pessoas desconhecidas viam-nos logo que saam dos carros para irem 
visitar algum doente; voltavam, horas depois, e notavam que continuvamos sentados no mesmo lugar. Houve quem nos oferecesse refrescos e comida, mas abanmos as 
cabeas e afirmmos que estvamos bem. Havamos sido ensinados a no aceitar nada de ningum.
     Um pouco mais tarde, quando o meu irmo estava a trepar a rvore, desequilibrou-se e caiu no pavimento. Caiu sobre o pulso e gritou; quando me mostrou o brao, 
vi que o pulso comeava a inchar e a ficar arroxeado. Trocmos impresses, pusemos a hiptese de ele ter o pulso partido. Chegmos a pensar em desobedecer  mam, 
em entrar no hospital para lhe contar o que tinha acontecido; no sabamos se o brao teria de ser engessado.
     Contudo, no samos do mesmo stio. No podamos. No final, acabmos por saber que a minha irm estava salva e descobrimos que o pulso do Micah tinha uma luxao, 
no estava partido, mas na altura no sabamos de nada. Por isso, permanecemos sentados, de corao pesado pelo medo, sozinhos; pouco falmos durante o resto da 
tarde.
     
CAPITULO QUATRO
     
     Depois de ouvir as recriminaes do Micah por no estar a encarar com o devido entusiasmo a ideia de ir viajar  volta do mundo, desliguei o telefone e fiquei 
a pensar no que o meu irmo acabara de me dizer. No que a Cat andava a dizer-me. No que o meu agente andava a dizer-me. Naquilo que, de facto, toda a gente me dizia 
acerca da viagem, sempre que eu a mencionava. A despeito dos argumentos lgicos, apesar de a ideia ter sido minha, a perspectiva
     de iniciar a viagem continuava a no me provocar qualquer entusiasmo.
     No se dava o caso de eu estar a passar os meus dias num estado de tristeza e abatimento. Para ser franco, andava muito atarefado e retirava uma tremenda satisfao 
de tudo o que estava a fazer. A minha mulher tinha razo: eu estava muito ocupado por gostar de estar muito ocupado. Cismava que, provavelmente, o meu problema estava 
no facto de concentrar todas as minhas energias s em trs ocupaes - pai, marido e escritor - que me deixavam pouco tempo para quaisquer outras actividades. Desde 
que tudo se enquadrasse naquelas pequenas divisrias, bem arrumadas, que construra para mim mesmo, eu sentia que dominava a situao. No me limitava a fazer coisas, 
sentia-me bem. No entanto, como tudo o que conseguia fazer estava contido naquelas mesmas ocupaes, a ideia de ultrapassar os limites das divisrias e fazer coisas 
novas, como viajar, partir  aventura ou passar trs semanas com o meu irmo, no s me parecia impossvel, mas tambm um compromisso de que eventualmente viria 
a arrepender-me. E num raro momento de claridade, num ano caracterizado pela nebulosidade, de sbito, apercebi-me de que tinha comeado a impor-me limites demasiado 
estreitos.
     Se no conseguia encontrar excitao na ideia de fazer uma viagem  volta do mundo, que espcie de pessoa era eu? Nem eu sabia. S sabia que no queria ficar 
assim para sempre. De uma forma ou de outra, precisava de readquirir o meu equilbrio.
     Existem, como se sabe, milhares de livros e de programas que nos sugerem mtodos para endireitarmos a vida, alm de especialistas de todo o gnero que se gabam 
de ter as respostas. Porm, instintivamente, quis esclarecer as situaes com a nica pessoa que tinha vivido as mesmas situaes de vida que eu vivera: o meu irmo.
     Durante os trs ltimos anos, o Micah tambm tivera as suas lutas pessoais, especialmente acerca da f. Deixara praticamente de rezar e a religio tornara-se 
um tema em que no se sentia  vontade. A mulher dele, a Christine, dera-me conta das suas preocupaes em mais de uma ocasio, pois era devotada s suas crenas 
crists, tal como Micah j fora; lentamente, comecei a compreender que, de certa forma, aquela era uma oportunidade de nos ajudarmos um ao outro. E, assim, comecei 
a encarar a excurso segundo uma nova perspectiva: seria menos uma viagem  volta do mundo e mais uma viagem para redescobrir quem eu era e as maneiras como me tinha 
tornado no que era.
     Quando reflectia sobre a minha infncia, quase sempre a recordava
     com uma luz sem sombras, como se as bordas escuras nunca tivessem existido. Ou, a existirem, eram algo de que me podia vangloriar, uma espcie de menes honrosas. 
Com a passagem dos anos, situaes perigosas transformaram-se em anedotas divertidas; momentos dolorosos deram origem a narrativas carregadas de inocncia. No passado, 
quando me perguntavam como eram os meus pais, a resposta habitual era que a minha me e o meu pai eram pessoas comuns e normais,
     como normal fora a minha infncia. Contudo, ultimamente tenho
     vindo a aperceber-me de que, embora parcialmente verdadeiros, os meus comentrios continham a sua dose de falsidade; e s depois de terem nascido os meus prprios 
filhos  que comecei a compreender as presses constantes que afligiam os meus pais. Ter filhos  uma fonte de preocupaes e no tenho dvidas de que os nossos 
pais, apesar da liberdade que nos concediam, tinham preocupaes constantes connosco. Contudo, se criar filhos  uma tarefa difcil, aprendi que o casamento representa 
um desafio ainda maior e, quanto a isso, o dos meus pais no foi excepo.
     No incio de 1972, os meus pais lutavam para conservar o lar intacto. ramos crianas e no nos apercebamos dos pormenores; s sabamos que o pap passara 
a assobiar constantemente, o que era um sinal de mau agouro. No meu pai, o som daquelas melodias sem nome, que subia e descia, representava um primeiro sinal que 
ns, os filhos, nos habituramos a detectar, de que ele estava furioso.
     Numa segunda fase, resmungava e assobiava enquanto andava em crculos e se recusava a falar fosse com quem fosse. A terceira fase significava o cerrar dos lbios 
e, na quarta, comeava a ficar vermelho. Por vezes, conseguia parar uma eventual progresso para o lanamento da bomba nuclear, mas, se atingia a quinta fase, aquela 
em que enrolava a lngua por cima dos dentes inferiores, de modo a deix-la fora da boca e mantida naquela posio pelos dentes de cima, os filhos sabiam que chegara 
a altura de se decidirem: ou fugiam ou escondiam-se. Sabamos que ia pegar no cinto, que tinha substitudo o mata-moscas como instrumento de punio.
     Apesar de ainda serem raros, estes momentos estavam a acontecer com frequncia crescente. Olhando para trs, no consigo atribuir-lhe as culpas. Em 1963, era 
um jovem estudante, mal alimentado e recm-casado; nove anos mais tarde, continuava a ser um estudante mal alimentado, mas entretanto contrara a responsabilidade 
de prover as necessidades de uma famlia de cinco pessoas. O trabalho obrigava-o a ir estudando a passo de tartaruga, e tentar escrever uma dissertao com trs 
filhos a usarem o apartamento como espao de recreio era suficiente para pr qualquer pessoa maluca.
     Por sua vez, a mam continuava a adorar-nos sem equvocos. Quando a seguamos at  loja ou quando ela nos levava  igreja, estava sempre disposta a manifestar 
o seu orgulho perante algum que estivesse por perto. Era dotada de uma fantstica capacidade para esquecer o quanto, por vezes, conseguamos ser maus, mas a capacidade 
de perdoar era temperada pela prpria fora de vontade que sempre procurara instilar-nos. Por mais bravios que nos tornssemos, por mais que nos afastssemos nas 
nossas aventuras, para mim e para o meu irmo nunca houve dvidas sobre quem mandava. Se a mam nos mandava estar em casa  hora do jantar, ns cumpramos a ordem. 
Se nos mandava limpar o nosso quarto, encetvamos a tarefa logo de seguida. E se fizssemos asneira, ela faria tudo para que corrigssemos o erro imediatamente. 
Quando o julgava necessrio, defendia-nos como uma fera. Quando a professora deu uma bofetada no Micah, pela tarde, a mam irrompeu pela escola e arrastou-me, a 
mim e ao meu irmo atrs dela.
     - Se volta a bater num dos meus filhos, chamo a polcia e mando-a prender. No volte a tocar nos meus filhos.
     A caminho da sada, eu e o Micah vnhamos de peito inchado, como dois galos, a pensar: "Toma l, velha bruxa. A mam mostrou-te quem  que manda..."
     - Mam, tu s a maior - cantarolou Micah. A me voltou-se
     para ele e encostou-lhe um dedo na cara.
     - No quero que te passe pela cabea que eu desconheo o motivo
     por que ela te bateu. Se calhar, mereceste a bofetada. E se alguma vez
     voltares a falar com ela no mesmo tom, eu me encarregarei de te
     demonstrar o que  levar uma verdadeira bofetada.
     - Est bem, mam.
     - Sabes que te adoro, no sabes?
     - Sei, mam.
     - Sabes que estarei sempre pronta a defender-te, no sabes?
     - Sei, mam.
     - Mas nem por isso deixo de estar desapontada contigo. E vais
     ficar de castigo.
     Micah ficou de castigo, mas o desapontamento dela foi o pior de
     tudo. Odivamos desapont-la.
     
     A despeito das presses a que os nossos pais estavam sujeitos,  medida que fomos crescendo, o pap foi ficando mais  vontade connosco. Por vezes, quando estava 
a dar um filme de terror na televiso - ele adorava filmes de terror - deixava que lhe saltssemos para o colo; acabmos por saborear tais momentos como iguarias 
esquisitas que, na verdade, eram. Naturalmente, tornmo-nos grandes especialistas em mtodos apropriados para matar vampiros e lobisomens, na expectativa de a nossa 
famlia alguma vez ter de enfrentar um desses seres. O meu irmo e eu arranjmos uma coleco de estacas de madeira, que mantnhamos debaixo da cama.
     Em momentos que se foram tornando cada vez mais raros, o pap tambm costumava tocar guitarra para ns. Produzia um som fluido e seguro; um dia, ao sero, informou-nos 
de que tinha pertencido a uma banda.
     Era tremendo pensar que o meu pai tinha tocado numa banda. Para ns, os filhos, significava que o pap, para alm de ter poderes mgicos, tambm era giro, o 
que era bem mais importante para ns. Afinal, sempre nos achramos giros e sempre pensramos que os nossos pais tambm o eram. Porm, agora tnhamos a "prova".
     - A minha banda no era l muito conhecida - tentou explicar, mas no acreditmos nele. Por que motivo havamos de acreditar? Os factos no falavam por si? 
Tinha tocado numa banda. Cantava e tocava como um profissional. E tinha vivido em Inglaterra. No era bvio? Ao fim de algum tempo, acho que nos tnhamos convencido 
de que o pap, alm de conhecer o Paul McCartney e o John Lenon pessoalmente, tivera um papel nada de desprezar no xito dos dois msicos. E era o nosso pai.
     Para alm de vermos filmes fantasmagricos, ouvi-lo tocar tornou-se a nossa actividade preferida sempre que ele estava presente. Habitualmente, estvamos na 
sala entregues s nossas tropelias at o ouvirmos comear a dedilhar a guitarra. Era o sinal para acalmarmos, no tardando que fssemos ocupar os nossos lugares 
aos ps dele.
     Nunca se apressava. Tinha o cuidado de verificar se a afinao estava perfeita. Raramente cantava de incio - penso que se tratava de timidez; em vez disso, 
limitava-se a dedilhar umas quantas canes, controlando o ritmo com a batida do p no cho. Movia os dedos com espantosa rapidez, como se fosse guiado por foras 
desconhecidas e sorria quando olhava para ns, por vezes a fazer trejeitos com as sobrancelhas.
     Acabaria por cantar e ns ficvamos, extasiados, a ouvi-lo at ao fim. E se, eventualmente, ele acabasse por tocar alguma coisa dos Beatles, os trs irmos 
olhavam uns para os outros, a partilharem a mesma ideia: "Ests a ver, eu disse-te que ele os conhecia".
     
     Talvez como resposta s crescentes tenses l em casa - na altura, os meus pais tinham comeado a discutir acerca de qualquer coisa, desde o dinheiro ao distanciamento 
emocional do pap das nossas vidas, discusses que frequentemente a deixavam a chorar - a mam comeou a vir ao nosso quarto  hora de irmos dormir e ficava um bocado 
deitada com cada um de ns. Embora na altura no a tivesse compreendido, por ver naquela atitude apenas uma maneira, mais uma, de nos demonstrar o seu amor, agora 
penso que ela usava aqueles momentos para fugir, por curtos momentos que fosse, ao stress do casamento. Enquanto estava deitada junto de cada um de ns, perguntava 
como nos tinha corrido o dia e ns murmurvamos as nossas respostas, dando-lhe a conhecer tudo o que nos tinha passado pela cabea. Falvamos de Deus, da escola 
e dos amigos e, embora por vezes ela tambm falasse, na maior parte dos dias deixava-nos discorrer, saltar de um assunto para outro. A mam era quente e macia, como 
uma almofada aquecida, e naqueles momentos roubados aos outros sentamo-nos no paraso.
     Mais tarde, o pap comeou a vir ajeitar-nos os cobertores. Na maioria dos dias, como ele chegava a casa muito tarde, j estvamos a dormir, mas acordava-nos 
sempre, porque a porta rangia quando ele a abria e a luz do corredor entrava pelo quarto. Por vezes, para ver o que ele ia fazer, eu fingia que estava a dormir. 
Mas o pap tinha uma rotina que seguia sempre, estivssemos ou no a dormir. Ia de uma cama  outra, ajeitava-nos as roupas  volta do pescoo e dava-nos umas palmadinhas 
carinhosas na cabea. Depois, ficava uns momentos de p, antes de se debruar e nos beijar numa face. No final do dia, mostrava um ar cansado e os plos da barba 
pareciam lixa. A cheirar a Old Spice e a tabaco, murmurava, numa voz calma e para cada um de ns:
     - Adoro-te!
     S ento sentia que o meu dia estava completo. Quente e confortvel, no acordaria em toda a noite.
     Nesse ano, talvez por os nossos pais perceberem que as discusses entre eles estavam a afectar os filhos, experimentmos o nico milagre das nossas curtas vidas. 
Acordei com a minha irm a abanar-me para que acordasse.
     - Vem depressa - pediu, - nem vais acreditar no que eu vi.
     - O que ?
     - Despacha-te. Depressa. J acordei o Micah.
     A esfregar os olhos, corri porta fora, atrs do Micah e da Dana. De sbito, detiveram-se e, quando o Micah se virou, vi-lhe os olhos esbugalhados de espanto. 
Apontou para a mesa da cozinha.
     - Como  que estes brinquedos vieram aqui parar? - perguntei.
     - O que querer dizer? - perguntou a Dana.
     - No faz sentido - acrescentou o Micah. - No estamos no Natal, nem fazemos anos.
     Subimos para cima das cadeiras e ficmos a olhar. Era bvio que queramos tocar-lhes, mas no o fizemos. No conseguimos. A sua chegada inesperada deixara-nos 
aturdidos.
     - Acham que a mam e o pap os compraram para a festa de aniversrio de algum? - perguntei.
     - Acho que no - respondeu o Micah.
     - Talvez sejam para ns - alvitrou a Dana.
     - No sejas ridcula. Os pais no compram coisas para os filhos sem haver um motivo - respondeu o Micah, sem pestanejar.
     - Pois , Dana - acrescentei. -  como uma regra ou coisa assim.
     Contudo, estavam ali, diante de ns. A tentar-nos. E se fossem para ns? No, era impossvel.
     A espada fascinava-me. Seria to fcil tocar-lhe e a mo comeou a deslizar para diante.
     - No faas isso - avisou o Micah. - A mam e o pap ficaro furiosos se tocares nisso.
     - Eu penso que so para ns - sugeriu novamente a Dana.
     - No so nada - respondeu o Micah, mas tambm ele no conseguia tirar os olhos dos brinquedos. A Dana tambm continuava de olhos fixos neles.
     - Talvez fosse melhor irmos perguntar  mam e ao pap - ponderou a Dana.
     - No vou entrar no quarto deles - advertiu o Micah. - Esto
     a dormir. Sabes bem como eles ficam furiosos quando os acordamos.
     - Eu tambm no vou l - concordei, a abanar a cabea.
     - Eu vou - decidiu a Dana, ao levantar-se da mesa. Mesmo
     hesitando um pouco, desapareceu no interior do quarto dos pais.
     -  uma mida corajosa - comentou o Micah.
     - Espero que no se tenha metido num grande sarilho - sussurrei.
     Ficmos  espera dos gritos mas, que coisa estranha, no ouvimos nada. Dana apareceu  porta do quarto, fechou-a, e disparou escada abaixo.
     - Estavam a dormir?
     Muito excitada, a Dana abanou a cabea e aproximou-se da mesa.
     - No, a mam estava acordada. Disse que os brinquedos so para
     ns. Disse que foi ela quem os trouxe para casa, para ns.
     Por momentos, tudo o que consegui fazer foi olhar. Ouvi o que ela
     disse, mas no conseguia convencer-me.
     - De maneira nenhuma!
     - Foi ela que disse.
     - Nesse caso, podemos brincar com eles?
     - Acho que sim.
     - Tens a certeza? Dana, tu tens de ter a certeza do que ests a dizer.
     - A mam disse-me - insistiu.
     Voltmos a olhar para a mesa e, com mos trmulas, agarrmo-los. Nas minhas mos, a espada parecia no ter peso. Era novinha em folha. E no havia motivo para 
aquilo.
     Dana pegou na coroa e colocou-a cuidadosamente na cabea. Micah pegou na outra espada e afastou-se da mesa. Cortou o ar com ela e sorriu.
     - Embora! - gritou. - Vamos brincar l para fora!
     - Queres brincar a qu? - indagou a Dana.
     - Tu s a princesa e ns seremos os cavaleiros. Vamos proteger-te!
     - Contra quem?
     - Contra os drages e os tipos malvados. Vamos embora, vamos procurar um castelo!
     - No seria melhor irmo-nos vestir? Ainda estamos de pijama.
     -j vamos - respondeu o Micah, sem se preocupar em esconder a impacincia. - Primeiro, vamos brincar! E no te esqueas, como foste tu quem perguntou  mam 
e ao pap, podes dar-nos ordens. Ns somos os teus protectores!
     E foi o que fizemos. Brincmos durante horas, a proteger a nossa irm das maldades. Eu e o Micah matmos uma multido de criaturas imaginrias. Dana tratava-nos 
por Sir Micah e Sir Nicky e nesse dia salvmos a sua vida vezes sem conta; na vida real, estivera quase a morrer; na nossa imaginao, tal no voltaria a acontecer.
     De regresso a casa, ela deu-nos as mos.
     - Com os meus cavaleiros, estarei sempre em segurana - afirmou. - Adoro-vos, a ambos!
     Durante semanas, os alcunhas que ela nos pusera mantiveram-se; e, da mesma maneira que os nossos pais pareciam proteger a Dana, tanto o Micah como eu comemos 
a sentir a necessidade de fazer o mesmo. Ao contrrio de ns, ela era calma e amorosa. Ao contrrio de ns, parecia contente com o mundo que a rodeava. A Dana era 
a nossa princesa e decidimos que nunca deixaramos de a proteger.
     
     Os anos passaram e as discusses entre os nossos pais eram cada vez mais frequentes.
     Era habitual que as zaragatas acontecessem  noite, depois de termos ido para a cama. Estaramos a dormir profundamente quando a elevao das vozes nos fazia 
acordar. Um a um, o meu irmo, a minha irm e eu sentvamo-nos nas camas e ficvamos a ouvir; cada imprecao era um sobressalto que nos fazia olhar uns para os 
outros, a querer que eles parassem, sem desejarmos mais nada do que voltarmos a ser felizes. As zaragatas duravam uma hora, ou mais. Uma e outra vez, a Dana e eu 
procurvamos os olhos do Micah,  procura de respostas, mas estvamos num mundo que nem ele conseguia compreender.
     - Por que  que esto zangados? - perguntava a Dana.
     - No sei - respondia o Micah.
     - Quem  que comeou? - indagava eu.
     - Julgo que os crescidos no lutam assim. Acho que eles comeam ao mesmo tempo.
     - Por que  que eles no se beijam e acabam com a discusso? - choramingava a Dana.
     - No sei.
     - E se rezssemos?
     O Micah estava de acordo; rezvamos e ficvamos  escuta, a tentar perceber se as nossas preces tinham sido correspondidas. Umas vezes eram, outras no, mas, 
de qualquer maneira, acabvamos sempre por nos voltarmos a deitar, mesmo contra a nossa vontade. A olharmos o tecto, seguamos o desenho das sombras, mais assustados 
do que alguma vez nos tnhamos sentido a ver os filmes de terror do nosso pai.
     
     Fort Lauderdale, Florida 22 a 23 de Janeiro
     
     Nos dias que antecederam o incio da viagem, eu e a minha mulher comemos a comprar tudo aquilo que precisava de levar comigo. A agncia tinha pedido que metesse 
tudo numa nica mala, ao mesmo tempo que informava que eu devia ir preparado para condies de tempo de todos os gneros. Mais fcil de dizer do que de fazer, considerando 
que comevamos pelo Hemisfrio Sul, no Vero, com temperaturas que, na Austrlia, andariam perto dos 40 graus, para no final da viagem, na Noruega, nos encontrarmos 
quase 500 quilmetros acima do Crculo Polar rctico.
     Depois havia diversos produtos de conforto que, na sua maioria, se compram com facilidade nos Estados Unidos, mas so menos acessveis em terras do Camboja 
ou da Etipia, dois dos pases em que o rendimento mdio dos habitantes  inferior a 500 dlares por ano. Acabei por comprar trs pares de calas, trs cales e 
seis camisas, alm de roupa interior e todos os artigos que julguei necessrios. Tambm comprei um par de sapatos robustos, feitos de couro e borracha sinttica.
     Alm disso, assinei contratos para dispor de telefone por satlite durante toda a viagem, mas fui avisado de que nem sempre podia contar com ele. Por ir a locais 
pouco acessveis e devido s variaes do terreno e  posio sempre varivel em relao ao satlite, a recepo de chamadas seria impossvel na maioria dos casos. 
E embora me fosse possvel falar  Cathy, os voos e as mudanas constantes de fuso horrio tornariam difceis os contactos regulares. Coube tudo na mala e fiquei 
com espao livre no saco de mo, pois sabia que iria comprando algumas recordaes ao longo da viagem.
     
CAPTULO CINCO
     
     O volume de trabalho no diminura coisa que se visse: um romance, que j deveria ter sido entregue, ainda ia a meio e no via como poderia continuar a histria. 
Aquela sensao tinha comeado a perseguir-me, a ponto de  noite no conseguir adormecer, mas prometi  Cathy que no ia trabalhar no romance. No entanto, escondi 
um caderno de notas na mala de viagem, s para o caso de mudar de ideias.
     Durante a ltima semana passei o mximo de tempo com os midos, sempre a tentar esquecer-me de que estar junto dos meus filhos ainda me atrasava mais o trabalho 
que tinha entre mos. Na noite anterior  partida, Cat e eu fizemos um jantar de despedida. Ao meio-dia do dia seguinte ela conduziu-me ao aeroporto. Embora a viagem 
 volta do mundo s tivesse incio na sexta-feira, 24 de Janeiro, o meu irmo e eu seguimos para Fort Lauderdale com dois dias de antecedncia e combinmos o encontro 
no aeroporto.
     - Pronto, est feito - resumi, a ver se fazia despertar o meu prprio entusiasmo pela excurso. Apesar de tudo, no estava muito excitado com a ideia de partir. 
Chegado quele ponto, suponho que a minha ambivalncia se havia tornado um hbito.
     - No te esqueceste de nada, pois no? - inquiriu Cat. - Passaporte, telefone, dinheiro...
     - Tenho tudo.
     Ela assentiu.
     - Diverte-te!
     - Vou tentar. Abracei-a. - Amo-te, Cat.
     - Eu tambm te amo.
     - Beija os midos por mim, todas as noites.
     - Fica descansado.
     - Tenta no trabalhares muito enquanto eu estiver fora.
     Ela riu-se, estava a pensar dizer-me o mesmo.
     - Com isto, ficas em dvida comigo, como sabes. Nem te passa
     pela cabea o quanto  que ficas a dever-me.
     - Eu sei. Sei perfeitamente que durante uns meses tenho de me
     esquecer do saldo do carto de crdito.
     - Julgo que deves pensar em termos de anos - redarguiu. - Ou
     at de dcadas.
     Trocmos um ltimo beijo. Durante o voo, no consegui deixar de pensar em Cat e na sorte que tivera ao casar com ela. As antevises da viagem nem me passaram 
pela cabea.
     Cheguei a Fort Lauderdale cerca de duas horas mais tarde, com cu limpo. Recolhi a mala e esperei pelo meu irmo no sector de bagagens do aeroporto. Telefonei 
 Cat a dizer que tinha chegado e depois sentei-me num dos bancos,  espera dele.
     O Micab chegou meia hora depois e no me foi difcil v-lo a caminhar pela sala do aeroporto. Alto e louro, tinha a tendncia para se destacar no meio da multido. 
Logo que me descobriu do outro lado do terminal de bagagens, agitou as duas mos acima da cabea. Sabia o que estava para vir e encolhi-me de medo.
     - NICKY, MEU IRMO! FINALMENTE CHEGUEI! PODE COMEAR A FESTA!
     A voz dele ressoou pelo terminal. Os estranhos encararam-no estupidamente e olharam na minha direco. Senti todos aqueles olhos focados em mim.
     -  bvio que o meu irmo no regula l muito bem - murmurei. Uns momentos depois, no meio de uma multido que apressadamente abrira uma clareira para ns, 
estvamos a abraar-nos.
     - Micah, pareces estar em grande forma!
     - Bebi uns copos no avio - respondeu, bem-disposto. - Para
     me preparar.
     Logo que desfizemos o abrao os olhos dele pareceram brilhar ainda mais.
     - Consegues acreditar que estamos mesmo a caminho? - perguntou. - A nossa aventura comea dentro de dois dias - prosseguiu. - Ainda no sentes o entusiasmo?
     -  claro que sinto.
     - No, no sentes. Esta - disse, a apontar para si prprio -  a
     imagem do entusiasmo. Tu no pareces entusiasmado.
     - Estou excitado por dentro.
     Ele rolou os olhos.
     - Como  que correu o teu voo?
     - Bem. E o teu?
     - Fantstico! Viajei com umas pessoas catitas. Falei-lhes da excurso. Nem queriam acreditar. J telefonaste  Cat, a dizer que chegaste?
     Assenti.
     - Falei com ela h alguns minutos. Queres que ligue para a
     Christine?
     - j ligo. Primeiro, tenho de me descontrair. De esticar as pernas
     durante algum tempo. Tenho de me pr em forma, como sabes. Nas
     prximas semanas, vou ter de fazer uns quilmetros a p.
     - Vais?
     - No te contei - comeou, com a voz a aumentar sempre de
     volume - que vou DAR A VOLTA AO MUNDO COM O MEU IRMO?
     A multido afastou-se ainda mais, algumas pessoas sentiam-se mesmo assustadas.
     - Eh! Tens fome? - perguntou, de repente.
     - Comia qualquer coisa.
     - Pois, bem, estou esfomeado. Queres ir comer qualquer coisa depois de deixarmos a bagagem no hotel?
     - De acordo!
     Finalmente, o carrocel das bagagens deu sinal de vida e entreguei-me  tarefa de descortinar a mala dele, no meio de tantas, at que ele apontou:
     - Aquela ali. A vermelha.
     Era, sem sombra de dvida, a maior mala que eu alguma vez vira, um verdadeiro monstro. Tinha, pelo menos, o dobro do tamanho da minha, mas estava a rebentar 
pelas costuras e fazia uma grande barriga no meio. O Micah precisou das duas mos e de um par de grunhidos para a recuperar. Quando ele a ps de p, para poder arrast-la 
em cima das rodas, pareceu-me ainda mais volumosa.
     - Ora bem, estou pronto - disse, satisfeito. - Vamos. - Tens a certeza de que trouxeste o suficiente. - Trouxe tudo aquilo de que preciso. Olhei para a mala.
     - Parece que conseguiste meter um animal a dentro.
     - H uma coisa que aprendi: quando se viaja nunca se leva
     material a mais.
     - Sempre me convenci do contrrio. Micah sorriu.
     - No, isso no passa de um mito propagado pelas companhias de aviao. Durante a viagem, quando se te acabar alguma coisa, no te preocupes. Eu divido as minhas 
coisas contigo.
     
     Descobrimos um restaurante na baixa de Fort Lauderdale, onde
     pudemos comer no exterior e ficar a ver as pessoas que deambulavam
     pela rua e entravam nos bares.
     Dissemos uns disparates, at que o Micah fez uma pausa. Recostando-se na cadeira, encarou-me de olhos semicerrados.
     - No ests c, pois no? Onde  que estavas, quero dizer? - Estou a chegar.
     - J pensaste que podes estar com uma depresso.
     - No estou deprimido. S estou atarefado.
     -  de famlia, como sabes. Alguns dos nossos familiares sofrem
     de depresso.
     - Eu no estou deprimido.
     - Eles esto a tomar medicamentos. Talvez te fizessem bem.
     - No preciso de medicamentos. - Nicky, o sentimento de negao  prejudicial.
     - No estou em negao.
     - Vs o que quero dizer? Isso  negao.
     - s um chato, sabias?
     - Sabia.  o que a Christine me diz.
     -  uma mulher esperta.
     - L isso . Mas no est aqui e, de momento, estamos a falar de
     ti. Por isso, maninho, essa depresso deve-se a qu? Decididamente, no ests entusiasmado com a viagem e estamos prestes a partir. Fala comigo. Faz de conta 
que sou o teu psiquiatra.
     - No estou deprimido - repeti. - Como te disse, estou cheio
     de trabalho. No fazes ideia do que tenho para fazer. S que... no  a
     melhor altura para uma coisa destas.
     - Isso no  verdade - replicou o Micah, a abanar a cabea. - Ests a deixar que a vida te domine, quando devia ser ao contrrio.
      esse o grande segredo. Temos de escolher o gnero de vida que queremos viver.
     - Ests sempre a dizer isso.
     - Porque  verdade. Servindo-me de ti como exemplo, ests afogado em trabalho por estares atrasado no cumprimento dos prazos e queres recuperar, no  assim?
     - Exactamente.
     - E o que  que acontece se falhares o prazo? No vais ser despedido, pois no?
     - No, mas...
     O Micah resolveu acabar a frase por mim:
     - Mas pensas que vai acontecer uma desgraa. Portanto, por outras palavras, ests a fazer uma escolha. E qualquer que seja a tua escolha, aceita-a, mas no 
deixes que ela te domine. Na mesma ordem de ideias, podes entusiasmar-te ou no com a viagem. A deciso  tua, inteiramente.
     Olhei para o lado, a abanar a cabea.
     - Nem sempre  assim to fcil - murmurei lentamente. - No
     podemos escolher tudo. Por vezes, a vida troca-nos as voltas. -Julgas que no sei isso? - perguntou, em voz baixa. - Escuta, como muito bem sabes, esta viagem 
vai ser fantstica. S tens de aguardar mais um pouco. Depois de acabar, vais olhar para trs e vais sentir-te feliz por teres vindo. E nessa altura ters de agradecer-me 
por te ter trazido.
     - Eu  que te convidei para vires, recordas-te?
     Ele concordou:
     - Ah, pois foste! Tens razo. Bem, nesse caso, s um bom anfitrio e deixa de beber do meu copo.
     Voltou-se, a tentar despertar a ateno do empregado de mesa.
     - Este homem precisa de uma bebida.
     Apesar de tudo, soltei uma gargalhada.
     
     Talvez fossem os estmulos do meu irmo, ou talvez fosse o cocktail; qualquer que fosse o motivo, a ideia de partir comeava a agradar-me cada vez mais. Afinal, 
ter ou no ter tempo para ir era agora um dado irrelevante; e a boa disposio do Micah era contagiosa. O meu irmo sempre exercera aquele gnero de influncia sobre 
mim. Com a sua confiana e o seu ar folgazo, era um sucesso em qualquer festa e j tinha sido padrinho em seis casamentos. Seis.
     No dia seguinte, fomos  agncia e confirmmos a nossa presena. Inscrevemo-nos, entregmos os passaportes e recebemos as etiquetas para as bagagens. Eram grandes, 
cor-de-rosa e numeradas, de maneira que o pessoal da agncia pudesse ter a certeza de que no ficaria nenhuma mala para trs. Um dos pormenores agradveis da excurso, 
percebemos depois, era a agncia encarregar-se de tudo o que dizia respeito  bagagem. S tnhamos de pr as malas no exterior do hotel, na hora marcada.
     Passmos a tarde a descansar junto da piscina e, mais tarde, assistimos a uma festa de boas-vindas e a um jantar da organizao. Foi a primeira oportunidade 
de conhecermos os nossos companheiros de viagem.
     A excurso inclua oitenta e seis pessoas, na sua maioria bastante mais velhos do que o Micah ou do que eu. Inicimos o processo gradual de conhecimento dos 
restantes excursionistas.
     Juntmo-nos e conversmos em pequenos grupos e, pouco a pouco, fomo-nos encaminhando para o salo de baile, onde tinham sido postas as mesas. Enquanto comamos, 
fomos apresentados ao pessoal da agncia; alguns seguiam viagem connosco, para haver a certeza de que iria tudo correr bem. Tambm fomos apresentados a especialistas 
convidados para a ocasio e a Ji11 Hannah, a mdica que trataria de quaisquer problemas de sade que pudessem surgir.
     Poucos anos mais velha do que ns, tinha o sorriso fcil e acabaria por se tornar uma das nossas melhores amigas durante a viagem. Ainda bem que ficou sentada 
 nossa mesa.
     - Que conselhos  que nos da! - perguntei.
     - No comer vegetais ou saladas, por mais interessante que seja o
     hotel.
     - Por causa dos fertilizantes usados na agricultura?
     - No - respondeu. - Por serem lavadas na gua da terra, que
     nunca sabemos se foi purificada.
     - Mais alguma coisa?
     - Tambm no utilizem gua da torneira para lavar os dentes.
     Tomadas estas precaues,  provvel que passem muito bem. Mais
     tarde, quando chegar a minha vez de falar, vou fazer as mesmas
     recomendaes aos restantes membros do grupo. Mas posso assegurar-vos de que metade das pessoas no vo ligar ao que eu digo e talvez
     acabem por adoecer. Ningum deseja adoecer numa viagem destas.
     Acreditem. No  brincadeira nenhuma.
     Enquanto ela falava, reparei que olhava alternadamente para mim
     e para o Micah.
     - So irmos, no so? - Assentimos. - Gmeos?
     Na verdade, achmos muita graa  pergunta. Neguei com um
     movimento de cabea.
     - No.
     - Mas voc  mais velho, no ?
     - No, o mais velho  ele - respondi, a sorrir.
     O Micah inclinou-se num cumprimento, parecendo encantado com
     o comentrio da mdica. Apreciava o facto de, quando estvamos
     juntos, toda a gente julgar que ele era mais novo do que eu.
     - Sempre lhe disse que devia ter mais cuidado com ele - esclareceu o Micah.
     Ela sorriu.
     - So casados?
     - Ambos - respondi.
     - Por que motivo viajam juntos, sem as respectivas mulheres?
     Explicmos que tnhamos filhos e mostrmos fotografias das famlias. Finalmente, a mdica voltou a olhar para ns.
     - Acho fantstico que faam esta viagem juntos. Os irmos nem
     sempre so to amigos como deveriam. Foram sempre assim amigos?
     Hesitei.
     - Nem sempre - acabei por admitir.
     
     A meio do ano escolar, mudamo-nos para Urand lsland, no estado de Nebraska. Ou melhor, mudou-se toda a famlia, com excepo do meu pai. Na altura, a mam disse-nos 
que saamos para que o pap pudesse concluir a dissertao; fomos viver num pequeno duplex, junto da casa dos nossos avs maternos. Embora o pap conclusse a dissertao 
nesse mesmo ano, ele e a mam estavam, de facto, separados. No entanto, passaram anos antes que soubssemos a verdade acerca da separao. A mam no se importava 
de guardar segredos se pensasse que a verdade nos magoaria.
     Grand Island era uma pequena cidade sonolenta, encravada no centro do estado de Nebraska, um lugar totalmente diferente de Los Angeles. As casas eram separadas 
por grandes quintais e a escola elementar que frequentvamos ficava mesmo em frente da casa dos nossos avs. Ao contrrio das escolas que havamos frequentado, a 
Gates Elementary dispunha de enormes relvados, de campos de basebol e, no ponto mais afastado, logo a seguir aos terrenos da escola, havia carris, onde passavam 
comboios com regularidade.
     No foi preciso muito tempo para o meu irmo e eu comearmos a colocar pequenas moedas nos carris, esperando a passagem do comboio que as ia achatar, mas, ao 
contrrio do que sucedia em Los Angeles, no havia muito mais que fazer para quem costumava andar  aventura e a meter-se em sarilhos. No havia edifcios vagos 
ou queimados em que pudssemos construir fortes, no havia pontes para escalar e, embora existissem corvos, nenhum deles ousou atacar-nos. Como acontecia em Los 
Angeles, a mam arranjou um emprego, desta vez como assistente de um optometrista; depois da escola, amos para casa dos avs. A av fazia-nos batidos de chocolate 
e tostas com canela (o lanche mais esquisito do mundo); depois, brincvamos no quintal ou amos para a cave, onde o nosso tio Joe guardava a sua coleco de modelos 
de aeroplanos. Talvez tivesse mais de uma centena de modelos, incluindo Spitfires e Zeros japoneses, e o nosso tio tinha-os montados como se, um dia, acabassem expostos 
num museu. As pinturas eram perfeitas, cuidadas ao mnimo pormenor, e, embora no nos fosse permitido mexer nos avies, passvamos horas a olhar para eles.
     Entrar numa nova escola a meio do ano  sempre complicado; durante as primeiras semanas o meu irmo e eu passmos a maioria das tardes juntos, como fazamos 
em Los Angeles. Descobrimos os parques onde podamos andar de bicicleta; na maioria das vezes, vamos dezenas de midos, alguns das nossas turmas, entretidos em 
jogos. Um ms depois, continuavam l, a escorregar pelos montes abaixo.
     Porm, naquela idade as diterenas entre ns comearam a notar-se. Micah era mais alto, mais robusto e mais atltico do que eu, e parecia no ter medo de nada. 
Encarou a mudana como uma nova aventura, fez amigos com facilidade e comportava-se com uma confiana que eu considerava enganosa. Eu sempre fora mais pequeno, menos 
atltico e tambm mais inseguro. E vivia sempre preocupado. Preocupava-me com a possibilidade de arranjar trapalhadas, com a obteno de boas notas e com aquilo 
que as outras pessoas poderiam pensar de mim. Procurava fazer tudo certinho e brincar com os midos que devia. E, embora conseguisse fazer novos amigos, levei bastante 
mais tempo a adaptar-me ao novo meio.
     Quando a Primavera se sucedeu ao Inverno, o Micah comeou a precisar cada vez menos da minha companhia; quando tentava acompanh-lo, comeou a tratar-me como 
um incmodo. Ele passara a preferir a companhia de Kurt Grimminger, um rapaz da sua turma que tinha uma quinta logo  sada da cidade. Ia para l quase todas as 
tardes e passavam o tempo a praticar luta no silo do milho, a conduzir tractores, a montar cavalos e a incomodar os porcos e as vacas com espingardas de presso 
de ar. Em casa,  hora do jantar, Micah contava-nos histrias, uma seguida de outra. No conseguia deixar de sentir inveja, pois, o que quer que eu tivesse feito 
durante o dia, nunca parecia to excitante como aquilo que o meu irmo andara a fazer.
     Foi por essa altura que tivemos a nossa primeira luta. No recordo o motivo da discusso, mas uma palavra levou a outra e os punhos entraram em aco. Ele assentou-me 
um soco no estmago, o que me deixou sem flego, e atirou-me ao cho. No tardou a lanar-se para cima de mim e recebi uma saraivada de golpes. No consegui defender-me, 
encaixei socos sucessivos. Depois, s me recordo do som dos gritos da minha me. Levantou o Micah, aplicou-lhe um bofeto e mandou-o para o quarto. Ele safou-se, 
a caminho de casa, e enquanto eu lutava para me levantar a mam agarrou-me pelo brao.
     - O que  que aconteceu?
     - Ele odeia-me! - gritei.
     Mesmo ento, no soube o que era pior: a dor ou a humilhao; quando a mam tentou confortar-me, soltei o brao que ela me agarrava.
     - Largue-me!
     Girei sobre os calcanhares e corri.
     No sabia para onde ia, s sabia que no queria falar com quem quer que fosse. No queria ver ningum. No queria ser pequeno, no queria viver em Nebraska 
e no queria que tivessem pena de mim. S desejava que as coisas voltassem a ser como tinham sido; continuei a andar sem parar, como se alimentasse a esperana de 
ver o tempo andar para trs.
     Mais tarde, dei comigo junto dos carris, a alguma distncia de casa. Sentei-me debaixo de uma rvore,  espera do comboio. Os comboios andavam sempre dentro 
do horrio e eu sabia que passavam com intervalos de uma hora. Impus a mim prprio que ficaria sentado at passarem dois. Porm, quando passaram, mal dei por eles. 
Em vez de estar a observ-los, fiquei sentado, com a cara escondida nas mos, com os ombros a estremecer com os soluos, a desejar que aquela luta nunca tivesse 
acontecido, a chorar como nunca tinha chorado.
     Senti os olhos da famlia cravados em mim, quando, finalmente, cheguei  porta. J era escuro e todos estavam sentados  mesa, mas a mam pareceu compreender 
que eu no tinha fome e limitou-se a um aceno de cabea quando lhe perguntei se podia ir para o meu quarto. Ou, melhor, para o nosso quarto. Ns, os trs irmos, 
continuvamos a partilhar o mesmo quarto; no escuro, deitei-me na cama e fiquei a olhar na direco do tecto.
     Sentia-me confuso, mesmo que a fria estivesse a desvanecer-se. Disse a mim prprio que desejava estar s, que era prefervel tratar os meus sentimentos  minha 
maneira, mas no conseguia afastar o desejo de ver a mam entrar pelo quarto adentro. Como a maioria das crianas, acreditava que a ateno era praticamente igual 
ao amor e que, se entre os trs filhos a mam me dispensasse menos da primeira, estava tambm a dar-me menos amor. Afinal, o Micah sempre fora tratado como um adulto 
e, como fora o primeiro a experimentar tudo, desde o andar at ao meter-se em sarilhos, recebeu sempre a ateno que  reservada a quem est  frente da fila. Por 
outro lado, a minha irm, simultaneamente a mais nova e a nica rapariga, tinha, na prtica, privilgios a dobrar. Passava mais tempo com a me do que eu ou o meu 
irmo, tinha menos obrigaes, raramente se metia em sarilhos, e era a nica de ns que tinha mais de um par de sapatos ao mesmo tempo, com a desculpa de que "era 
rapariga".
     Acontecia sentir-me cada vez mais posto de lado.
     Ningum bateu  porta e, ao fim de uma hora, estava a sentir uma imensa pena de mim prprio.
     - Entre - pedi, ao sentar-me na cama, a tentar imaginar o que a mam iria dizer-me. Porm, quando a porta se abriu, no foi a mam que entrou no quarto, foi 
a Dana.
     - Ol! - saudou.
     - Ol! - respondi, a olhar por cima do ombro dela. - A mam
     no vem c?
     - No sei. Mandou-me perguntar se tens fome.
     - No - menti.
     A minha irm aproximou-se e sentou-se na cama. Com os compridos cabelos louros apartados ao meio, pele clara e sardas, parecia a Jan
     Brady dos primeiros episdios da srie The Brady Bunch.
     - Di-te o estmago?
     - No.
     - Ainda ests zangado com o Micah?
     - No. Nunca mais me interesso por ele.
     - Oh!
     - Quero dizer, ele no se interessa por mim, certo?
     - Certo.
     - E a mam tambm no.
     - Interessa, sim. A mam adora-te.
     - Preocupou-se enquanto andei l por fora?
     - No. Sabia que estavas bem. Mas adora-te.
     Deixei descair os ombros.
     - Ningum gosta de mim.
     - Eu adoro-te.
     Embora a minha irm parecesse totalmente sincera, no estava
     com disposio para ouvir aquilo.
     - Eia, obrigado.
     - Mas no foi por isso que vim aqui. Quero dizer, no vim c para
     falar disso.
     - Eu disse que no tinha fome.
     - Tambm no vim c para te perguntar isso.
     - Ento, o que  que vieste c fazer?
     Ps um brao  volta da minha cintura.
     - Vim dizer-te que se o Micah j no quiser ser o teu melhor amigo, ficarei muito feliz por ser a tua melhor amiga.
     - No preciso de amigos.
     - Est bem.
     Olhei  volta do quarto e acabei por soltar um suspiro.
     - Queres brincar com o jogo do Johnny West?
     - Est bem.
     
     Durante os meses seguintes, com o Micah a passar mais tempo com os amigos, comecei a andar mais com a minha irm. No era to excitante como o Micah, mas embora 
nunca quisesse saltar das rvores altas, era espantosamente fcil lidar com ela. Mesmo assim, por vezes era demasiado duro com a Dana e frequentemente ela acabava 
a chorar e eu a pedir-lhe que no contasse nada  mam.
     Apesar dos meus pedidos, contava. A Dana contava tudo  me, mesmo que no o fizesse para me meter em trabalhos, de onde resultava que a mam me olhava com 
ar sombrio, para me encarregar de mais umas quantas tarefas.
     Sem a presena do nosso pai, sem o terror implcito no sistema de defesa sempre activo, o meu irmo comeou a tentar perceber at onde podia esticar a corda. 
Ficava fora at mais tarde do que devia, respondia mal  me e, com a avanada idade de nove anos, comeou a tentar agir como um adolescente.
     No deve ter sido fcil para a mam. Tinha 30 anos de idade, trabalhava a tempo inteiro e estava s; a ltima coisa de que precisava era que ns os trs lhe 
arranjssemos preocupaes "adicionais" (o contrrio das "normais" ou "sofrveis"). Passou a ser mais dura com o Micah, que comeou a responder-lhe ainda pior, mas, 
aos nove anos, o meu irmo no era adversrio  altura da mam. Ela acreditava tanto na cenoura como no pau e manejava ambas as coisas com destreza, como o samurai 
a usar a espada. No tinha escrpulos de conscincia quando fazia afirmaes do gnero: "Fui eu quem te trouxe a este mundo e diabos me levem se no sou capaz de 
te tirar de c", para, pouco depois, ser mais doce que o acar e abrir os braos para o abraar.
     Tambm no modificara as suas ideias acerca da afeio entre irmos. Por exemplo: se lhe agradava que a minha irm e eu estivssemos a passar mais tempo juntos, 
tambm reconhecia que as relaes entre mim e o Micah se tinham alterado. Alguns teriam considerado a nova rivalidade entre ns como uma fase passageira, mas a mam 
no a apreciou e no parecia disposta a suport-la. Comeou a fazer comentrios do gnero "Como nunca deixareis de ser irmos,  melhor que agora se tratem bem", 
ou "Os amigos aparecem e desaparecem, os irmos e irms nunca se separam". Embora o meu irmo e eu a ouvssemos, sendo at provvel que a compreendssemos de uma 
forma instintiva, continumos a discutir, a lutar um com o outro e a seguir caminhos divergentes.
     Contudo, certa noite, quando nos estvamos a preparar para ir para a cama, a mam foi ao nosso quarto. O Micah e eu tnhamos andado envolvidos noutra luta, 
pela manh, por eu lhe ter derrubado a bicicleta; um puro acidente. A mam no se referira ao incidente durante o jantar e supus que, daquela vez, tivesse decidido 
esquecer o caso. Ajudou-nos nas nossas oraes, como sempre fazia; depois, ao apagar as luzes, sentou-se na cama do Micah quando ele estava a deslizar para dentro 
dos lenis. Ouvi-os sussurrar durante o que me pareceu ser muito tempo e fiquei a tentar imaginar o que estariam a dizer. A seguir, para minha surpresa, a mam 
veio sentar-se junto de mim.
     Inclinando-se para mim, passou-me a mo pelo cabelo e sorriu com doura. Ento, sussurrou-me:
     - Diz-me trs coisas simpticas que a Dana fez hoje para ti. Qualquer coisa. Pode ser grande ou pequena.
     Fiquei surpreendido com a questo, mas as respostas no foram difceis:
     -jogou comigo, deixou-me ver o meu programa na televiso e ajudou-me a limpar os brinquedos.
     A mam sorriu.
     - Agora fala-me de trs coisas simpticas que o Micah te tenha feito hoje.
     Esta questo, tinha de o admitir, era um pouco mais difcil.
     - Ele hoje no fez nada simptico por mim.
     - Pensa bem. Pode ter havido qualquer coisa.
     - Foi mau durante todo o dia.
     - No foi contigo para a escola?
     - Foi.
     - Nesse caso, j temos uma coisa. Pensa em mais duas.
     - No me bateu com demasiada fora quando lhe fiz cair a bicicleta.
     A mam no tinha a certeza de poder aceitar aquela, mas acabou por concordar.
     - J so duas.
     - E...
     Fiquei perplexo. No havia mais nada, absolutamente nada, a dizer. Levei muito tempo a descobrir um pormenor qualquer, mas no me recordo do que acabei por 
dizer. Julgo que tentei inventar qualquer coisa, a mam aceitou a resposta, deu-me um beijo, desejou-me boa noite e foi para junto da cama da Dana. A minha irm 
no precisou de mais de dez segundos para responder s mesmas perguntas e logo depois a mam saiu de mansinho.
     No escuro, estava a virar-me e a fechar os olhos, quando ouvi a voz do Micah.
     - Nicky?
     - O que ?
     - Desculpa ter-te batido hoje.
     - No faz mal. E eu peo desculpa por ter feito cair a tua bicicleta.
     Por momentos, fez-se silncio, que foi interrompido pela Dana:
     - E agora, no se sentem ambos melhor?
     Noite aps noite a mam fazia-nos recordar trs gestos bonitos de cada um dos nossos irmos e, em cada noite, acabvamos por ter alguma coisa para lhe contar.
     E, para minha surpresa, o meu irmo e eu comemos a espaar cada vez mais as nossas desavenas.
     Talvez fosse demasiado difcil compor as coisas; s que, passado algum tempo, tudo comeou a parecer-nos mais fcil, no s sermos mais simpticos como tambm 
reparar que estavam a ser simpticos connosco.
     Acabmos o ano escolar; eu completei o segundo ano e Micah o terceiro. Em junho, o av decidiu substituir o telhado da casa, um empreendimento em que, foi ele 
quem decidiu, Micah e eu podamos ajudar. O nosso conhecimento sobre construo de telhados e a nossa experincia de lidar com ferramentas podia resumir-se a uma 
simples palavra: zero. Mas logo decidimos que era um pormenor que no deixaramos de ultrapassar. Afinal, tratava-se de algo de novo, de outra aventura, e durante 
umas duas semanas aprendemos a arte de pregar pregos, at ficarmos com bolhas nas mos e nos dedos.
     Trabalhmos durante uma das mais severas ondas de calor das nossas ainda curtas vidas. As temperaturas aproximaram-se dos 40 graus e a humidade era insuportvel. 
Mais de uma vez, sentados no telhado da casa que parecia arder, sentimo-nos prestes a desfalecer. Contudo, se o av no tinha problemas de conscincia por nos pr 
a trabalhar perto da beira do telhado, no ramos ns que os teramos.
     Se eu escapei ileso, e ganhei sete dlares por duas semanas de trabalho, o meu irmo teve menos sorte. Uma tarde, durante um perodo de descanso, decidiu mudar 
a escada, que lhe parecia estar a estorvar. S no sabia que o cortador de telhas (uma ferramenta pesada, afiada, parecida com uma tesoura) tinha sido deixada junto 
do degrau cimeiro. Quando Micah tentou afastar a escada, o cortador de telhas deslizou e veio por ali abaixo como uma bomba. Atingiu-o a dois ou trs centmetros 
da testa. Segundos depois, tinha a cabea coberta de sangue.
     O Micah gritou e o av correu para ele.
     - Parece bastante fundo - avaliou, com ar severo. Passado um instante, decidiu-se: -  melhor ir buscar a mangueira.
     No tardou que a gua da mangueira escorresse pela cabea do meu irmo. Aquele, diga-se de passagem, foi todo o tratamento mdico que ele recebeu naquele dia. 
No foi visto por um mdico nem levado ao hospital. Nem teve folga durante o resto do dia. Recordo-me de ver a gua ficar cor-de-rosa ao passar pela cabea do Micah, 
satisfeito por ele ter a "cabea dura", como eu.
     
     Na altura do recomeo das aulas, no Outono, j me tinha habituado  vida em Nebraska. Ia bastante bem na escola, at ento nunca tinha recebido uma classificao 
inferior a A, e tinha-me tornado amigo de outros midos da turma. As tardes eram passadas a jogar futebol mas, na medida em que o calor do Vero comeava a dar lugar 
ao frio do Outono, a nossa vida ia sofrer nova alterao.
     Um dia,  hora do jantar, a mam informou-nos:
     - Vamos voltar para a Califrnia. Vamo-nos embora umas semanas antes do Natal.
     Os nossos pais haviam-se reconciliado (embora, na altura, ainda no nos tivssemos apercebido de que eles estavam separados) e o meu pai tinha aceitado um lugar 
de professor na Universidade da Califrnia, em Sacramento, onde daria aulas de gesto.
     A nossa vida em Nebraska acabava to abruptamente como tinha comeado.
     
CAPTULO SEIS
     Yaxhd e Tikal, Guatemala 24 e 25 de Janeiro
     
     Na manh de sexta-feira, o Micah e eu aterrmos na Guatemala e entrmos num mundo totalmente distinto do que tnhamos deixado para trs.
     Depois da passagem pela alfndega, o grupo foi acomodado em pequenos autocarros e seguimos para Petn, passando por bairros de lata e pequenas aldeias que pareciam 
construdas de materiais amontoados ao acaso. De certa maneira, era como recuar no tempo e tentei imaginar aquilo que os conquistadores espanhis tero pensado ao 
chegar a esta zona. Foram os primeiros a descobrir as runas daquela que fora uma florescente civilizao, cujas grandes cidades incluam templos que se erguiam 
a mais de setenta metros de altura, contra o fundo composto pela densa folhagem da floresta.
     Interessava-me pela civilizao maia desde que, ainda criana, lera algo sobre ela e sabia que os Maias tinham atingido nveis intelectuais sem paralelo no 
Novo Mundo. Na sua Idade de Ouro, entre 300 e 900 da nossa era, esta civilizao abrangia a Pennsula de lucato, o Sul do Mxico, Belize, a Guatemala, algumas regies 
das Honduras e de El Salvador. A cultura atingiu o znite entre as florestas e pntanos de Petn, na Guatemala, onde foram erigidas as cidades de Yaxh e Tikal.
     Aquela civilizao era um modelo de contrastes; com uma cultura por vezes brutal, que se entregava a sacrifcios humanos, os Maias, mil anos antes dos Europeus, 
j conheciam o conceito de zero e faziam clculos com nmeros da ordem das centenas de milhes. Os seus conhecimentos de matemtica permitiram-lhes calcular a posio 
das
     estrelas, prever com exactido os eclipses lunares e criar um calendrio de 365 dias, mas a lenda afirma que no conheciam o uso da roda.
     Chegmos  Reserva da Biosfera Maia, o vasto parque de Petn em que se situam as runas e onde nos foi fornecido um almoo ao ar livre, numa tenda instalada 
junto do lago. Continumos a tarefa de irmos conhecendo os companheiros de viagem, a maioria dos quais j tinha viajado bastante mais do que o Micah ou do que eu. 
Voltmos  estrada uma hora mais tarde e seguimos para Yaxh.
     Yaxh  o nome de uma lagoa e da cidade que, h mais de 1500 anos, foi construda entre as suas margens e a floresta. Yaxh chegou a ser a terceira maior cidade 
do imprio maia; fica a cerca de trinta quilmetros de Tikal, a maior e mais importante cidade santa. Contudo, quando chegmos s vimos rvores e caminhos de terra 
a serpentear por entre os morros. Ouviam-se os bugios pretos, mas como rudo de fundo, pois, de to espessa, a folhagem que tnhamos por cima da cabea no nos permitia 
enxerg-los.
     O nosso guia comeou a falar da cidade e da cultura maia e foi apontando para vrias direces. Eu no via nada. Enquanto ele continuava a falar, olhei para 
o Micah, que se limitou a encolher os ombros. Quando o guia indagou se havia perguntas, levantei o brao:
     - Mas quando  que l chegamos? - perguntei. - A Yaxh, quero eu dizer?
     -  onde estamos neste momento - respondeu.
     - Mas, onde  que esto as construes?
     Apontou para os montes que nos rodeavam.
     - Em qualquer direco que aponte - respondeu. - O que est a ver no so morros. Por debaixo de cada um deles existe um edifcio ou um templo.
     As rvores desta parte da floresta, aprendemos, do folhas trs vezes por ano. Quando caem, as folhas formam uma camada de folhagem que acaba por dar origem 
a uma nova camada de solo. Essa camada alimenta as rvores nascentes, que podero vir a crescer at se tornarem rvores de grande porte. As rvores crescem, vivem 
e morrem, para que outras cresam no seu lugar. A floresta engoliu as construes, uma por uma.
     A informao no nos surpreendeu. A cidade foi abandonada h mil anos, que originaram trs mil camadas de folhas densamente compactadas de folhas e razes, 
o que permitiu o crescimento descontrolado da floresta. Havia razes para no conseguirmos ver a cidade.
     Mas estvamos enganados. Efectivamente, vrias zonas de Yaxh haviam sido totalmente restauradas pelos arquelogos, menos de oitenta anos antes, da mesma forma 
que Tikal tinha vindo a ser restaurada. A floresta foi limpa e dezenas de edifcios e templos totalmente postos a descoberto. Porm, como as runas comeassem a 
destruir lentamente as construes havia poucas restauradas, e devido  escassez de fundos que pudesse obviar  sua destruio, o Governo no teve outro remdio 
seno permitir que a floresta se apoderasse uma vez mais de Yaxh, em benefcio de Tikal.
     O Micah comeou a olhar  volta, com a expresso maravilhada prpria de uma criana.
     - Consegues acreditar que toda esta vegetao se desenvolveu em apenas oitenta anos? - perguntou-me. - Foi durante a vida dos nossos avs.
     - No posso crer.
     - Gostaria de saber qual ser o aspecto disto daqui a oitocentos anos.
     - Provavelmente estar igual, no achas? - alvitrei. - S os morros  que sero um pouco mais altos.
     - Julgo que sim - anuiu, a semicerrar os olhos para tentar ver atravs da floresta espessa. - Como diabo  que algum conseguiu descobrir um lugar destes? Quero 
dizer, quando vejo um morro de terra no penso automaticamente que h uma pirmide por debaixo dele.
     Pus-lhe um brao  volta da cintura.
     -  por isso que no s arquelogo - sentenciei.
     O guia comeou a levar-nos por um carreiro e, ao mesmo tempo, ia descrevendo diversos aspectos da cidade. O meu irmo e eu fechvamos o grupo, de cabeas a 
girar de um lado para o outro. De sbito, ele comeou a esfregar as mos; o que acontecia sempre que estava excitado.
     - Nick, acreditas que estamos aqui? Numa cidade maia submersa na floresta da Guatemala? Apenas h seis horas, estvamos em Fort Lauderdale, a comer!
     - No parece real, pois no?
     - No - concordou. - E digo-te mais - prosseguiu, a apontar para o que o rodeava. - Nunca imaginei que viesse a sentir-me to excitado s de olhar para um monte 
de terra.
     Minutos depois entrmos no que antes fora uma praa; diante de ns erguia-se o nico templo que fora totalmente escavado e, pela primeira vez, tommos conscincia 
do gnero de coisas que amos ver durante a viagem. Com a forma de um trapzio preto e cinzento, o tempo erguia-se mais de trinta metros para o alto. O guia informou 
que fora abandonado  volta do ano 900 d. C., uns seiscentos anos antes da chegada de Colombo. O que significava que o perodo de tempo decorrido entre o abandono 
do templo e a chegada de Colombo era igual ao tempo que passou desde a chegada do navegador  Amrica, uma concluso que me fascinou. Postas em confronto com o fluxo 
e refluxo da Histria, com a emergncia e a queda das civilizaes, as minhas preocupaes correntes pareceram-me minsculas.
     Tambm o meu irmo estava a examinar com grande interesse o templo que tnhamos diante de ns, embora os seus pensamentos fossem ligeiramente diferentes dos 
meus.
     - Repara na altura! Tenho de escalar aquela coisa!
     Foi o que fizemos, com autorizao do guia. No lado mais afastado do templo, havia um conjunto instvel de pranchas de madeira em mau estado, colocadas a distncias 
irregulares e mantidas no lugar por uma corda. O meu irmo e eu fomos os primeiros a chegar ao topo e, durante uns quantos minutos, tivemos o lugar s para ns.
     O cu estava toldado por nuvens negras que se acumulavam no horizonte distante. Por detrs de ns, avistava-se a lagoa e a densidade impenetrvel da floresta 
que se estendia uns cinquenta quilmetros em cada direco. A viso atravs da copa das rvores era impossvel, mas conseguimos avistar os pinculos de trs ou quatro 
pirmides que espreitavam acima da folhagem, como se tentassem alcanar o cu. E, com excepo do som da nossa respirao, um pouco alterada pela subida, havia um 
silncio total, absoluto. Os lados da pirmide pareciam cair a pique e a aproximao da beira da parede provocou-me uma espcie de vertigem. Mesmo assim, nem o Micah 
nem eu conseguimos deixar de sorrir. Tnhamos iniciado a viagem das nossas vidas havia apenas umas horas; agora, estvamos em cima do que parecia ser o tecto do 
mundo, num lugar que sempre sonhramos ver.
     - Tira-me uma fotografia - pediu o Micah, de repente. - A Christine vai adorar!
     - Se ela tivesse vindo, achas que subiria at c acima?
     - Nem penses. Detesta as alturas. Teria sido mais uma daquelas pessoas que vemos l em baixo - explicou, a apontar para o stio onde estvamos antes da subida. 
- E a Cathy?
     - Tambm no aprecia as alturas, mas acabaria por subir. No entanto, no se chegaria tanto  borda.
     Tirei-lhe a fotografia e ele tirou a minha. Tirmos mais uma, cada um. E continumos a olhar, maravilhados, mesmo quando fui buscar o telefone por satlite 
 mochila.
     - Tenho de ligar  Cat - expliquei, a sentir a necessidade de partilhar aquele deslumbramento com ela. Marquei o nmero e ouvi o telefone comear a tocar. Um 
espanto! Estava a fazer uma chamada do meio de coisa nenhuma. Quando ela atendeu, as minhas palavras foram: - Estou no topo de um templo maia, no meio da floresta! 
- e ouvi a Cathy respirar com a mesma excitao que eu estava a sentir.
     -  fantstico? - perguntou.
     Olhei  minha volta, maravilhado.
     -  incrvel. S poderia ser melhor se estivesses aqui comigo.
     - Ah! Tambm tenho saudades de ti.
     Depois de eu desligar, Micah pediu-me o telefone para ligar  Christine. Infelizmente, ela no estava em casa e, desapontado, desligou, depois de deixar uma 
mensagem.
     Um minuto depois, com a chegada do resto do grupo, o nosso momento de solido acabou.
     Nessa noite, houve uma recepo no hotel, seguida de jantar. Uma refeio no sistema de bufete e, a despeito dos avisos acerca das saladas e dos vegetais crus, 
vimos muitas pessoas a com-los. E, tal como a mdica previra, dentro de dias adoeceu mais de uma dezena; alguns ficaram doentes durante a maior parte da viagem.
     Jantmos na companhia de Bob e Kate Devlin, que dividiam o seu
     tempo entre o Connecticut e a cidade de Nova Iorque, e com quem nos relacionmos facilmente. Tinham dois filhos mais ou menos da nossa idade e disseram que 
ns lhes fazamos lembrar os seus midos. Para ns, o relacionamento tambm se revestiu de aspectos pessoais.
     - A Kate no te faz recordar a mam? - perguntou o Micah, quando estvamos a sair da sala.
     - Pois faz - respondi, espantado por ele ter estado a pensar exactamente como eu.
     Perdidos em reflexes, pouco falmos durante o resto do sero.
     
     Por ser o centro principal da vida maia, Tikal foi declarada Patrimnio Mundial pela UNESCO. A descoberta, escavao e reparao prosseguem h dcadas e, a 
despeito do nmero de visitantes, manter a floresta sob controlo exige o trabalho de um pequeno exrcito.
     Houve um tempo em que a zona envolvente de Tikal albergou 100 mil pessoas, cuja proteco e modo de vida dependiam inteiramente da cidade. Porm, em finais 
do sculo X, a civilizao comeou a desintegrar-se. Quanto ao motivo, existem vrias teorias: excesso de populao, guerras, derrota da classe dominante, seca, 
fome, esgotamento da produtividade dos solos ou simples descontentamento das populaes que as levou a procurar a proteco de tribos invasoras. Mas, na vida de 
poucas geraes, a cidade foi completamente abandonada e a populao dispersou-se pelos campos. O aparecimento e a sbita queda dos Maias ainda hoje  considerado 
um dos grandes mistrios da Histria; era nisso que eu pensava enquanto nos dirigamos para a cidade.
     As runas de Tikal so compostas por cerca de trs mil estruturas, incluindo palcios, templos, tribunais, recintos de jogos, praas e terraos, construdas 
ao longo de um perodo de seiscentos anos. Portanto, algumas seces so sensivelmente mais velhas do que outras e  possvel observar as mudanas por que passou 
a arquitectura maia, o que tambm permite que os arquelogos estabeleam a datao correcta de outros monumentos maias espalhados pela Amrica Central e pelo Mxico.
     Contudo, foram as aras sacrificiais que intrigaram o meu irmo. Eram altares em que as pessoas eram mortas como oferendas aos deuses. O nosso guia maia estava 
a dissertar sobre as razes histricas e culturais da existncia das aras; a certa altura, o Micah inclinou-se para diante e sussurrou:
     - Haja algum que me tire uma fotografia deitado em cima do altar, enquanto tu finges apunhalar-me. No ser giro?
     Na verdade, achei a ideia um tanto mrbida mas, embora com
     relutncia, concordei. Passei a mquina a outra pessoa e pusemo-nos em posio. No preciso momento em que a fotografia ia ser tirada, o guia correu para ns, 
a agitar os braos para que parssemos.
     - No, no! - gritou, de rosto vermelho. - Ningum se pode deitar nos altares ou tirar fotografias! Os altares tm um profundo significado religioso.
     - Eu sei - retorquiu o Micah, - e  por isso que quero a fotografia.
     - No  autorizado!
     - S uma fotografia.
     - No!
     - V l! - implorou, a sorrir. - S uma. No contamos a ningum.
     Embora eu soltasse uma gargalhada, o guia encarou-nos com um olhar furibundo. Era um maia, como a maioria dos guatemaltecos que vivem na zona, e creio que julgou 
que estvamos a insultar o seu povo e a sua cultura. Quando viu que no lhe arrancaria o mais leve sorriso, embora com relutncia, o Micah levantou-se. Quando recomemos 
a andar, na cauda do grupo, abanei a cabea.
     - Onde  que tu vais buscar essas ideias? - perguntei, incrdulo. Riu-se.
     - O tipo no apreciou muito a ideia, pois no?
     Abanei a cabea.
     - Pareceu bastante zangado, tal como as pessoas que dirigem a excurso. Ests a insultar a cultura deles. Vais meter-nos em sarilhos.
     - Oh, eles vo ultrapassar isso. Nem se lembraro mais do caso.
     Mas lembraram-se. Uma hora mais tarde, uma das pessoas que trabalhava para a agncia de viagens ps-se ao nosso lado enquanto caminhvamos. Teria uns dez anos 
a mais do que ns e j se ocupara de numerosas excurses. Tinha desenvolvido a capacidade de avaliar rapidamente as pessoas.
     - Esto ambos a preparar-se para provocar complicaes nesta excurso, no  verdade? - observou.
     
     Percorremos a que antes fora a avenida principal de entrada em Tikal e visitmos um palcio, com os bugios pretos a soltar os seus gritos de aviso por cima 
das nossas cabeas. Dali, seguimos para a praa principal.
     H duas pirmides na praa principal, uma em cada ponta. Esto entre as mais fotografadas de todas as pirmides maias. Os turistas so mantidos afastados de 
uma delas, mas podem escalar a outra.
     No topo, a vista era de cortar a respirao. Finalmente, o Micah conseguiu apanhar a Christine ao telefone e quando acabou de falar sentmo-nos na borda da 
pirmide, com os ps a balouar no vazio. O solo ficava a centenas de metros mais abaixo e conseguamos ver as restantes pessoas espalhadas pela antiga praa, juntas 
em pequenos grupos. Como houve poucos candidatos  subida, ficmos com o lugar s para ns.
     - Ento, como  que est a Christine? - perguntei.
     - Est bem. Diz que sente a minha falta.
     - Como  que tem corrido a vida l em casa?
     Sorriu.
     - Ela est a ficar um bocado maluca. Ao contrrio da Cat, no est habituada a que eu esteja fora de casa. No deixou de me dizer que no tem mos a medir, 
que nunca mais parou desde que eu sa para o aeroporto. Disse que foram quatro dias de inferno e que vai ligar  Cathy,  procura de apoio moral.
     Tive de sorrir.
     - Diz-lhe para ligar quando os midos mais velhos estiverem na escola. De outra forma, a Cat no vai conseguir falar com ela. Quando os cinco esto em casa 
aquilo  um pandemnio. Especialmente entre as cinco e as nove da noite.  quando os mais pequenos se sentem cansados, os mais velhos resmungam por terem de fazer 
os trabalhos escolares, ela comea a fazer o jantar e, sem se saber como, consegue orientar todos os filhos. Depois disso, chega a hora do banho e, se alguma vez 
tivesses tentado fazer que cinco midos tomassem banho em simultneo, saberias que no  um trabalho para descontrair. S que ela encara tudo aquilo com um excelente 
nimo.  uma grande esposa mas, como me,  um gnio.
     Micah ps-me um brao  volta do ombro.
     - Fizemos bons casamentos, no foi?
     - Pois fizemos - admiti. - Acho que foi o que aprendemos com a mam. Quero dizer, quando nos casmos sabamos o que queramos. Ambos casmos com mulheres inteligentes 
e de grande corao, que adoram os filhos inequivocamente. Foi o que a mam nos ensinou.
     - No fundo, ests a querer dizer que casei com a minha me?
     - Ambos o fizemos.
     Ergueu uma sobrancelha.
     - E com o pap, aprendemos o qu?
     - A gerir a clera? - alvitrei. - Recordas-te, o movimento da lngua?
     Ele riu-se.
     - Ah, sim, era extraordinrio, no era? Parecia verdadeiramente aterrador quando fazia aquilo. Ainda me provoca pesadelos - confessou, a olhar de lado para 
mim. - Contei-te que uma vez fiz aquilo  Alli? S para ver como ela reagia.
     - E?
     - Fugiu, aos gritos, e trancou-se no quarto.
     Soltei uma gargalhada.
     - No, o que penso que aprendi com o pap foi o gosto pelo estudo - admiti, passados momentos.
     - Tambm penso o mesmo. Quando cresci, pensei que a mam era esperta. Muito esperta. Mas o pap... movia-se num universo muito prprio.
     - Faziam um grande casal, no faziam?
     - Sim - concordou Micah. - E restabeleceram o equilbrio entre ns. Se eles no se tivessem reconciliado, depois daquela estada em Grand Island sabe-se l que 
futuro nos estaria reservado.
     A 1 de Dezembro de 1974, a famlia foi reunida na Califrnia, em Fair Oaks, um subrbio a nordeste de Sacramento. Minutos depois da nossa chegada, o pap ligou 
o televisor para ver Kolchak: The Night Stalker [Demnios da Noite], uma srie de terror, banal, mas que se via com agrado, e era, sem dvida, a sua preferida. Sentmo-nos 
os trs no sof, junto do pap, a comer pipocas e a ver algo de medonho no ecr, como se acreditssemos nunca termos estado afastados dele.
     A habitao - outra casa alugada, pois claro - tinha quatro quartos, um luxo quase inacreditvel para as nossas mentes jovens, mas no deixei de reparar que 
o meu pai tinha ocupado uma das divises para lhe servir de escritrio. Com o quarto principal obviamente ocupado, ficavam dois quartos para ns, os trs filhos; 
a mam desde logo decidiu que seria a minha irm a ter quarto prprio, por "ser rapariga".
     Como o primeiro perodo lectivo estava a terminar, os nossos pais decidiram que s iramos  escola no incio do segundo, depois do Ano Novo. Tambm compraram 
uma cadela, uma doberman pinscher chamada Brandy, e como fazamos sempre que mudvamos de casa, o meu irmo e eu comemos a explorar as vizinhanas, desta vez acompanhados 
da cadela. A nossa rua acabava depois de passarmos umas poucas casas, terminando no que havia de mais parecido com uma paisagem natural, e o nosso primeiro instinto 
foi "conhecer o terreno". Hoje, Fair Oaks est quase totalmente coberta de construes mas, na altura, havia grandes espaos abertos e montes, uma casa abandonada 
e rvores para trepar, tudo aquilo de que os rapazes pequenos necessitam para as suas brincadeiras. Ainda melhor, na mesma rua viviam mais midos da nossa idade. 
Quase todos os nossos vizinhos tinham levado um estilo de vida nmada semelhante ao nosso; portanto, o facto de sermos os midos que acabavam de chegar ao bairro 
no se revelou muito importante. Durante a tarde, brincavam na rua e, pouco a pouco, o meu irmo e eu passmos a dar-nos com eles. E, como j acontecera em Nebraska, 
o Micah comeou a deixar-me para trs, preferindo a companhia dos novos amigos.
     
     A despeito de se terem reunido, os meus pais continuaram a viver vidas bastante independentes. A mam, que tinha arranjado um novo emprego de assistente de 
optometria, levantava-se ao mesmo tempo que ns e levava-nos  escola, enquanto o meu pai ficava ainda a dormir; depois de sair do emprego, ela chegava a uma casa 
vazia, pois, duas ou trs vezes por semana, ele tinha aulas  noite. Nas noites em que no tinha de dar aulas, tinha de preparar exerccios e exames, ou ler, na 
tentativa de se manter actualizado na disciplina que ensinava.
     Como a todos os professores universitrios, tambm lhe era exigido que publicasse trabalhos; era frequente ouvi-lo a escrever  mquina, fechado no escritrio. 
Uma vez por outra, a mam e o pap podiam encontrar-se na cozinha mas, regra geral, pareciam passar pouco tempo juntos.
     Embora fosse fcil supor que no apreciavam a companhia um do outro - nenhum parecia desviar-se do seu caminho para procurar aproximar-se do parceiro - tinham 
uma relao confortvel. Ao jantar, na mesa de cozinha, contavam piadas e riam-se; por vezes, quando no se apercebiam de que eu estava a observar, cheguei a ver 
o pap a fazer festas no rabo da mam. Se, na maioria das ocasies, no se mostravam abertamente carinhosos, tambm no pareciam carentes, dominadores ou ciumentos. 
Nunca ouvi qualquer deles dizer algo de negativo acerca do outro e raramente voltei a ouvi-los discutir. Tinham conseguido enterrar o passado, com mais facilidade 
do que a maioria das pessoas, e pareciam representar exactamente aquilo de que o outro necessitava.
     At quela altura, tinham passado uma vida de sacrifcios, o que, penso, tambm os unia. Afinal, nenhum deles estava a desfrutar a vida com que sonhara. O pap 
desejaria uma vida com menos presses e menos problemas financeiros; embora no procurasse grandes riquezas, por vezes deixava-se abater pelas lutas dirias para 
manter a famlia  tona de gua. Tambm no antevia grandes mudanas futuras, uma ideia bastante penosa. A mam no era diferente. Uma vez encontrei-a a chorar, 
no quarto, uma descoberta que me deixou aterrado. Era to imprprio dela que, tambm eu, rompi em soluos, o que a levou a abraar-me.
     - Estava para aqui a pensar como seria belo viver no campo, como acontecia quando eu era pequena - explicou. - Podia ser uma casinha pequena, onde fssemos 
montar a cavalo nos fins-de-semana... seria maravilhoso. Gostaria que tivssemos conseguido proporcionar-vos esse tipo de vida.
     Os sonhos so arrasadores sempre que no se convertem em realidades. Porm, na maioria dos casos, so os sonhos simples os que provocam maior sofrimento, por 
parecerem to pessoais, to razoveis, to fceis de realizar. Aquelas coisas que a pessoa est sempre prestes a tocar, mas nunca suficientemente perto para as possuir, 
uma situao capaz de destruir a vontade.
     Quanto a Micah e a mim, durante os quatro anos seguintes as nossas vidas seguiram caminhos relativamente distintos. Ele continuou a abrir as asas e a fazer 
novos amigos com facilidade. A minha irm tambm arranjou boas amigas e uma delas depressa se transformou quase numa irm. Eu, porm, fui menos feliz com as amizades, 
no exclusivamente por qualquer defeito meu (pelo menos, gosto de pensar assim) mas apenas por falta de sorte.
     No terceiro ano, o meu melhor amigo foi o Tim; no quarto, foi transferido para a escola paroquial e, depois disso, os nossos caminhos raramente voltaram a cruzar-se. 
O meu melhor amigo no quarto ano foi o Andy; no quinto, foi transferido para a escola paroquial e tambm no voltei a v-lo. O meu melhor amigo do quinto ano foi 
o Warren; quando chegou o sexto ano, foi viver para a Austrlia. No sexto ano foi o Kevin; no ano seguinte, quando fomos para a escola secundria, nunca tivemos 
uma nica aula juntos.
     Por sua vez, o Micah teve muito mais sorte. As amizades que fez tornaram-se ainda mais fortes com a passagem dos anos. Tal como o Micah, os seus amigos tendiam 
a ser temerrios; passavam as tardes e os fins-de-semana nos campos perto da nossa casa ou no rio American, afastado uns quilmetros.
     Entretanto, comecei a encontrar crescente prazer no acto solitrio da leitura. Como no tnhamos possibilidades de comprar livros e a biblioteca local era muito 
pequena, com um nmero relativamente pequeno de ttulos, no tinha muito por onde escolher e tive de me contentar com a Encyclopaedia Britannica, que havia l em 
casa. Sem saber bem o que queria, comecei pelo primeiro volume e, durante os dois anos seguintes, li todo o conjunto de vinte e seis volumes, todas as entradas, 
uma a uma. Quando terminei, voltei a ler tudo do princpio. A seguir, li a Bblia de uma ponta  outra.
     Com isto no quero dizer que passasse todo o tempo, ou a maior parte do tempo, a ler. Como ramos (uma vez mais) midos  solta depois da escola, o mundo exterior 
 casa era uma tentao constante e havia ocasies em que o grupo de amigos do Micah se juntava ao meu grupo, quase dando a ideia de que voltvamos aos tempos
     antigos.
     Gostvamos de brincar com as armas de presso de ar que os pais nos tinham dado pelo Natal. Um prazer que, suponho,  comum a todos os rapazes da nossa idade; 
fora do comum era aquilo que fazamos com elas. No essencial, o meu irmo e eu, mais algum que fosse suficientemente estpido para nos acompanhar, depressa aprendemos 
que atirar contra o outro era muito mais excitante do que atirar ao alvo, pelo que concebemos um jogo muito simples. Algum gritava "Comear" e todos corramos por 
entre as rvores, ou para dentro da casa abandonada, e comevamos a dar caa aos outros. No havia equipas, cada um tratava de si, e tambm no havia um verdadeiro 
fim do jogo. Continuvamos a esconder-nos, a procurar os outros e a atirar sobre eles at  hora do jantar, quando toda a gente tinha de ir para casa. S havia duas 
regras: no atirar contra o rosto e s se podia dar duas bombadas na espingarda (o que limitava um pouco a velocidade de sada do chumbo); mas, mais do que regras 
estritamente observadas, eram simples "regras de conduta". Por conseguinte, todos faziam batota. Sentia-se uma alegria perversa em atirar contra um outro, em ouvi-lo 
gritar, em v-lo andar s voltas a tentar ver-se livre dos bagos de chumbo. Como se sabe, quem vai  guerra d e leva, e as marcas ficaram-me no corpo durante muitos 
anos. Em muitos casos, mais do que aqueles que consigo recordar, cada um de ns teve de extrair chumbos que haviam penetrado na pele.
     Contudo, os piores ferimentos pareciam sempre reservados para o Micah. Em parte, por ser ele quem pressionava mais, quem queria ir sempre mais alm. Uma vez 
em que brincava com a presso de ar numa casa abandonada e cheia de lixo, pensou que seria engraado acabar de partir o vidro de uma janela. Suponho que pretendeu 
imitar o que costumava ver fazer na televiso, mas ningum o avisara de que a televiso usa um tipo de vidro especial que no se fragmenta em lascas. Seja como for, 
depois de partir o resto do vidro e atirar a algum que andava  volta da casa, julgou chegada a altura de procurar novo esconderijo e comeou a deslocar-se.
     De seguida, ouviu um barulho de qualquer coisa a partir-se, uma espcie de esguicho, e notou que o barulho vinha do sapato. Pensou que tivesse pisado uma poa 
de qualquer lquido desconhecido e continuou a andar, sem ligar importncia ao som.
     Como ele depois contou:
     - Mas apercebi-me de que o som parecia aumentar. Quando olhei para o sapato reparei que a meia estava a ficar cor-de-rosa e que o sapato estava molhado.  bvio, 
disse para mim mesmo, que pisei vinho deixado aqui por quaisquer adolescentes. E continuei: um passo, um esguicho, um passo, um esguicho. Tambm notei que o p estava 
a ficar molhado e, de repente, pensei que talvez me tivesse cortado no vidro partido. Por isso, sentei-me e tirei o sapato. Tanto a meia como o sapato estavam encharcados 
de sangue e, de sbito, vi o sangue brotar de um golpe no tornozelo, mais parecendo gua a correr de um fontanrio. Gorgolejava a cada batida do pulso. Olhando para 
trs, reconheo que devo ter cortado, ou pelo menos picado, uma artria, porque, na realidade, o sangue gorgolejava.
     Gritou pelos amigos, que chegaram a correr. Recorrendo  meia ensanguentada, fizeram-lhe um torniquete no tornozelo; com a ajuda deles, o Micah conseguiu chegar 
a casa e pedir ajuda  mam.
     Como era fim-de-semana, ela estava em casa e examinou a ferida que sujou de sangue toda a cobertura de linleo da cozinha.
     - Tem muito mau aspecto - avaliou, calmamente. E, como sempre, sabia exactamente o que fazer.
     Colocou-lhe um penso rpido.
     Depois, ordenou que o Micah pusesse a mo em cima do penso e sugeriu que ele devia descansar, antes de voltar a sair para a brincadeira.
     Por muito traquinas que fssemos, a mam fazia questo de nos levar  igreja todos os domingos, um costume que manteve depois do nosso regresso  Califrnia. 
No era raro que o meu irmo e eu nos sentssemos aborrecidos e comessemos a dar belisces um ao outro. Contudo, o que dava gozo era a imposio de o atingido 
ter de se manter firme, enquanto o atacante tinha de parecer imvel, para no sermos apanhados pela mam.
     A Dana no era grande apreciadora deste jogo e, embora a minha me no soubesse o que se passava, a minha irm no deixava escapar nada. Levava as idas  igreja 
muito a srio, porque a mam o fazia, suponho, e a Dana queria ser como ela; no intervalo entre as oraes, repreendia-nos com o olhar, a mandar-nos parar com a 
brincadeira.
     A Dana adorava a orao. Rezava pela manh e rezava  noite. Pedia a Deus que concedesse bnos a todas as pessoas que conhecia, uma de cada vez. Rezava pelos 
familiares e amigos, pelos ces, gatos e animais do jardim zoolgico. Rezava para se tornar mais simptica e mais paciente, apesar de no carecer de ajuda em qualquer 
destes aspectos. Parecia completamente  vontade neste mundo e tinha o dom de fazer felizes as pessoas que a rodeavam. Na sua maneira gentil, calmamente, tinha-se 
transformado na rocha a que o meu irmo e eu nos agarrvamos sempre que a infelicidade nos batia  porta.
     No entanto, por muito que a Dana adorasse a igreja e a orao, era ela a culpada de nunca chegarmos a tempo  missa. Era habitual entrarmos com um atraso de 
dez minutos, j depois de toda a congregao estar sentada. O atraso no me afectava (como j disse, aborrecia-me com frequncia), mas no me agradava a maneira 
como toda a gente se voltava enquanto andvamos  procura de espao para nos sentarmos. Em momentos como aqueles, desejaria que a Dana fosse mais parecida comigo 
e com o Micah, pelo menos nesse aspecto.
     A Dana, a despeito das suas qualidades maravilhosas, no era muito activa. De manh, ao acordar, no se levantava logo de seguida. Em vez disso, ficava sentada 
na cama, de pernas cruzadas, a olhar para o vazio, com ar sonhador e desorientado. Mantinha-se naquela posio durante vinte minutos ("a acordar", como ela dizia) 
e s depois comearia a preparar-se para sair. Comia devagar, vestia-se com lentido, gastava muito tempo a pentear-se. Quando a mam chamava, eu e o Micah ficvamos 
prontos em poucos minutos, mas a Dana levava o seu tempo. O Micah e eu amos a p para a escola mas, quase todos os dias, a mam tinha de levar a minha irm para 
ela no chegar atrasada. Por vezes, conseguia pr-nos malucos, mas nunca se deixou influenciar pelas nossas queixas.
     - Acontece que as pessoas so diferentes - costumava observar, com serenidade, sempre que a admoestvamos. E a mam nunca deixou que os atrasos da filha a incomodassem. 
Como nos explicava:
     - Ela s necessita de um pouco mais de tempo para se aprontar.
     - Porqu? - perguntaramos, eu ou o Micah.
     - Porque  rapariga.
     Oh!
     No entanto, uma vez por outra, a Dana tinha os seus momentos de traquinice. Nas nossas nicas frias passadas no campo, no Vero de 1976, a famlia enfiou-se 
dentro da carrinha Volkswagen, o nico carro que tivemos entre 1974 e 1982, e passmos umas semanas a viajar pelo Oeste. Visitmos o Deserto Pintado e Taos, no Novo 
Mxico, antes de chegarmos, finalmente, ao Grand Canyon. Uma das maiores paisagens do mundo, sem dvida, mas como crianas que ramos no a aprecimos grandemente. 
Contudo, aproveitando uma sugesto da minha irm, decidimos que seria muito mais engraado passarmos para l das cordas que delimitavam o espao reservado aos turistas 
e aproximarmo-nos da borda instvel e esboroada da parede da garganta, enquanto os nossos pais se afastavam para irem comprar o almoo. Chegados ali, descobrimos 
uma pequena salincia, cerca de um metro mais abaixo.
     - Vamos at l - sugeriu a Dana.
     O Micah e eu entreolhmo-nos, observmos a salincia e encolhemos os ombros. E concordmos. Ou melhor, pensmos, por que no? No deveria ser muito perigoso. 
A salincia no parecia muito instvel.
     De qualquer forma, descemos e sentmo-nos na salincia durante uns minutos, trs crianas com as pernas a oscilar no vazio. L muito em baixo, vamos o rio 
Colorado a insinuar-se por entre as rochas da garganta e os falces que pairavam abaixo de ns. Os diversos estratos de rocha pareciam formar um arco-ris vertical 
finamente matizado. Contudo, passado pouco tempo, deixmos de achar graa quilo.
     - Eh! - exclamou a Dana. - Tive uma ideia. Vamos fingir que escorregmos da beira da garganta para assustarmos as pessoas.
     Impressionados, o Micah e eu voltmos a trocar olhares. Normalmente, aquela poderia ter sido uma ideia nossa.
     - Est bem - respondemos, em unssono.
     Depois, deitados na salincia, levantmo-nos com lentido e fizemos a cabea e as mos aparecerem na beira do abismo. A princpio, ningum reparou em ns. Para 
l das cordas, a cerca de dez metros, vimos um grupo de pessoas que tiravam fotografias e olhavam em todas as direces, maravilhadas com a beleza do lugar. A um 
sinal da Dana, comemos a gritar por socorro, com quanta fora tnhamos.
     As cabeas viraram-se de sbito na nossa direco e as pessoas viram o que pareciam ser trs crianas pequenas a tentarem fincar as unhas na terra, na tentativa 
de se aguentarem. Uma senhora idosa desmaiou, outra levou a mo ao peito, uma outra enterrou os dedos no brao do marido. Ningum sabia o que fazer. Continuaram 
a olhar para ns, de olhos esbugalhados e cheios de medo, paralisados pelo choque e pelo horror.
     Finalmente, um homem libertou-se do encantamento em que cara e j estava a agachar-se para passar por debaixo da corda, no preciso momento em que vimos a mam 
a correr para ns.
      provvel que consigam adivinhar o que aconteceu de seguida.
     - Fiquem onde esto para eu tirar uma fotografia! - gritou a mam.
     Por muito engraado que tivesse sido, no pudemos permanecer no Grand Canyon. Uns minutos mais tarde, a nossa famlia foi convidada a sair.
     - Imediatamente! - como o guarda do parque nos informou, com toda a amabilidade.
     Seis meses mais tarde, o meu irmo e eu vimos as nossas espingardas de presso de ar serem confiscadas pelo xerife. No por causa das guerras com as armas de 
presso, mas porque o meu irmo foi um pouco longe de mais. Em resumo, aconteceu o seguinte: numa tarde em que no havia guerra, o Micah recrutou uns quantos midos 
do primeiro ano para um jogo diferente. Ordenou-lhes que se agachassem e puxassem as bainhas das calas para fora, de forma que ele pudesse ver atravs do tecido.
     - No se mexam, no quero atingi-los acidentalmente nas pernas - explicou o Micah com toda a pacincia. - S pretendo afinar a minha pontaria.
     Contudo, como disse, o xerife veio e levou a espingarda.
     Uma semana depois, voltou e levou tambm a minha. O meu irmo tinha-a usado para fazer uns buracos nas janelas dos vizinhos.
     E foi assim que os nossos dias de brincar s guerras chegaram ao fim.
     
CAPTULO SETE
     Lima, Peru
     Domingo, 26 de Janeiro
     
     Chegada a altura de dizermos adeus  Guatemala, embarcmos no avio e vomos at ao nosso prximo destino: Lima, capital do Peru, uma cidade de oito milhes 
de habitantes, um tero da populao do pas. Lima foi capital do imprio espanhol da Amrica do Sul, que englobava o Equador, a Colmbia, a Bolvia, o Chile e o 
Peru e, durante os sculos XVI, xviI e xvIIi esteve entre as cidades mais ricas e luxuosas do mundo. Contudo, explorao, mau governo e falta de planeamento acabaram 
por enfraquecer o imprio espanhol, levando  derrota das foras espanholas s mos de Simn Bolvar, em 1824. Uma sucesso de governos, durante 175 anos, levou 
finalmente s eleies democrticas de 1980, mais um motivo de ansiedade para mim, desejoso de ver o que se estava a passar.
     Lima sofria uma vaga de calor na altura em que aterrmos. Era Vero na Amrica do Sul e a temperatura era muito mais elevada do que na Guatemala. Embarcmos 
em autocarros e a agncia forneceu-nos garrafas de gua, apresentando-nos os guias locais, os que nos iriam falar da cultura e da histria dos lugares a visitar. 
Tambm nos foi entregue um rdio e um auricular, que sintonizmos na mesma frequncia do rdio do guia. Assim, mesmo a uma distncia de trinta metros, continuvamos 
a ouvir tudo o que ele dizia.
     Quando chegmos, a praa principal estava apinhada de gente.  um dos poucos espaos abertos no centro da cidade; de traa colonial,  atravessada em todas 
as direces por passeios em curva que delimitam canteiros de flores plantadas de fresco. As crianas brincavam nos relvados e fontanrios, procurando manter-se 
frescas naquela fornalha. Outras tentavam por todos os meios vender-nos lembranas, depois de rodearem o nosso grupo logo que samos do autocarro.
     Tirmos fotografias do palcio presidencial e da catedral onde Francisco Pizarro foi sepultado. De Pizarro sabia que era uma das figuras histricas constantes 
de uma longa lista cuja reputao depende muito da perspectiva de cada crtico; conhecido em Espanha como explorador, foi ele que capturou Atahualpa, o chefe dos 
Incas. Depois de exigir, e receber, uma sala cheia de ouro como resgate, no tardou a executar o rei, no sem que antes tivesse reduzido os nativos  escravido. 
No consegui deixar de pensar no que os descendentes dos Incas pensaro daquela sepultura construda num local consagrado pela Igreja.
     Dali, seguimos para a Casa Aliaga, situada logo a seguir  praa principal. A casa  um dos mais espantosos exemplos da primitiva arquitectura espanhola da 
cidade, mas, vista do exterior, integra-se nas outras construes do quarteiro onde se situa. Quem no souber que a casa est l, pode passar sem reparar nela.
     Porm, para l da entrada, existe um mundo de nos deixar tontos.
     A Casa Aliaga est na posse da famlia Aliaga h mais de quatrocentos anos; ainda hoje  ocupada por membros da famlia. Construda  maneira das casas das 
fazendas, as divises do para um ptio descoberto, onde uma figueira estende os seus mais de trinta metros em direco ao cu. Tambm alberga uma das melhores coleces 
de pintura de toda a Amrica do Sul. Como a casa  demasiado grande e de manuteno muito cara, os Aliaga abrem as portas aos turistas e foi assim que Micah e eu 
pudemos percorrer todas aquelas salas, sempre de olhos bem abertos. Tudo, com excepo das paredes de estuque - corrimes, aros de portas, cornijas e balaustradas 
- foi talhado com figuras complicadas e todos os espaos de parede disponveis foram cobertos de quadros. As moblias, na sua maior parte dos sculos XVII e XVIII, 
eram to ornadas que tornavam impossvel a focagem das mquinas fotogrficas.
     Depois de percorrermos parte da casa, Micah virou-se para mim, a perguntar:
     - Fazias ideia de que pudesse ser assim?
     - No. Aquela rvore... bem, na verdade  tudo...  incrvel.
     - Aposto que ests a registar algumas excelentes ideias para a prxima vez que remodelares a casa, ou no?
     Ri-me.
     - Tenho de admitir que seria agradvel poder expor pinturas de
     antepassados famosos.
     - Se tivssemos alguns, queres tu dizer.
     - Exactamente. Quando a famlia Aliaga andava a construir esta casa,  provvel que os nossos antepassados estivessem a cravar ferraduras ou a trabalhar no 
campo.
     Ele assentiu e olhou  volta. O nosso grupo tinha-se dispersado pelas diversas divises da casa.
     - Mas, s honesto, gostarias de viver aqui?
     Neguei com a cabea.
     - No. ... inacreditvel, mas no , de maneira nenhuma, o meu estilo. E a manuteno deve ser suficiente para tirar o sono aos proprietrios.
     - Percebo o que queres dizer. Imaginas quanto tempo  preciso para aspirar o p a uma casa destas? A Christine morria.
     O pessoal da agncia comeou a juntar-nos, a contar as cabeas para ter a certeza de que ningum se perdera. Depois de sairmos da Casa Aliaga, voltmos ao autocarro 
e seguimos para o hotel.
     Aquela seria a rotina das semanas seguintes. Embora uma excurso como a nossa tenha as suas vantagens, em muitos dos lugares visitados o horrio cuidadosamente 
estabelecido no permite hesitaes nem exploraes por conta prpria.
     Era a noite da Super Bowl. Os Tampa Bay Buccaneers jogavam contra os Oakland Raiders, um jogo a que alguns membros do nosso grupo gostariam de assistir, o Micah 
includo. Como vivia em Sacramento, os Raiders eram a sua equipa preferida e at j tinha assistido, ao vivo, a alguns dos jogos do ano. No sabamos se o jogo seria 
transmitido no Peru e notou-se um suspiro de alvio quando o pessoal da agncia de viagens confirmou a transmisso. O jogo seria transmitido por satlite e visvel 
no bar, cujo aparelho ficaria sintonizado durante todo o jogo; segundo me pareceu, aquilo obrigara o pessoal da agncia a negociar arduamente; poucos peruanos se 
preocuparo com a Super Bowl e para mostrarem aquele jogo no poderiam transmitir um jogo de futebol, esse sim, verdadeiramente importante para eles.
     Por desejarmos um bom lugar, o Micah e eu fomos dos primeiros a chegar e comemos a mandar vir o que  tradicional comer e beber antes dos jogos. Pouco a pouco, 
foram chegando outras pessoas. Metade da assistncia era a favor de Tampa, a outra metade preferia Oakland e, chegada a hora do jogo comear, o bar do hotel parecia-se 
com um estabelecimento similar de qualquer cidade dos Estados Unidos. No havia lugar para mais ningum  volta da sala.
     No houve qualquer espectculo antes do jogo; em vez disso, cinco
     minutos antes da hora marcada, perdemos a imagem uma ou duas
     vezes; quando a recupermos, as equipas estavam alinhadas para o
     pontap de sada.
     - Ests a ver, tudo o que estamos a fazer  novidade - gabou-se
     Micah. - S franco, conheces algum que j tenha visto a Super Bowl
     em Lima?
     - No, ningum - admiti.
     - J ests mais entusiasmado?
     - Estou a tomar flego - respondi.
     - Ests a pensar no trabalho?
     - No. Estou apenas a pensar no jogo.
     Acenou-me com uma batata frita.
     - ptimo. Ainda podes alimentar esperanas.
     - Levanta o som! - algum gritou l de trs. - Aqui no fundo
     no se ouve nada!
     O empregado do bar usou o controlo remoto e o volume de som
     comeou a aumentar. Com isso, comemos a entender os sons nossos
     conhecidos. Ouvimos o rugir da multido, os nomes dos jogadores 
     medida que foram apresentados no estdio, at o lanar da moeda ao
     ar. S ento, se fizeram ouvir os primeiros comentrios.
     Toda a gente se inclinou para diante.
     - Que raio esto eles a dizer? - gritou algum.
     - No sei - respondeu outra voz. - Penso que esto a fazer o
     anncio em... espanhol.
     Claro, fazia todo o sentido se pensssemos um pouco.
     - Em espanhol?
     -  a lngua oficial do Peru - informou o Micah. - E da
     Espanha.
     Ningum lhe achou graa.
     - Pensei que chegava via satlite - resmungou um fulano. - A
     partir dos States. Talvez esteja em ingls, noutro canal.
     O empregado do bar tentou outros canais, nada feito. Espanhol,
     ou nada.
     Debrucei-me para o lado do Micah.
     -- Agora sim, tens uma histria para contar - zombei. - No s
     viste a tua equipa preferida jogar a Super Bowl, sentado em Lima, no
     Peru, mas podes tambm dizer que ouviste o jogo em espanhol.
     - Agora ests a entrar na onda. Era exactamente isso que eu me
     preparava para dizer.
     Instalmo-nos para ver o jogo. Os Raiders no estavam a jogar bem e depressa se atrasaram no marcador. Os aplausos do Micah tornaram-se menos frequentes; ao 
intervalo, mostrava-se desiludido.
     - Deves ter f - aconselhei.
     - Sinto que estou a perd-la.
     - Ouvi falar disso - afirmei, a recordar a conversa que tivera com a minha cunhada Christine. - Ento, continuas a evitar a igreja?
     Sorriu, mas no olhou para mim. F e religio eram dois temas que abordvamos com frequncia, mesmo quando ramos pequenos. Contudo, desde que o Micah se casara, 
o assunto aparecia mais vezes na nossa conversa. Christine no era catlica e, em vez de irem  missa, assistiam a um servio religioso cristo sem denominao especial. 
Em vez da missa que eu prefiro, que tem uma tradio arreigada, que regista apenas ligeiras alteraes entre uma semana e outra, o Micah apreciava um servio menos 
rgido e que deixasse mais espao para a reflexo pessoal. Ou, para falar com maior clareza, essas foram as razes que apresentou ao explicar-me a mudana. Porm, 
em dias mais recentes, at essas diferenas pareciam ser importantes.
     - Deixa-me adivinhar. A Christine pediu-te que aproveitasses a viagem para me falar do assunto, no pediu?
     No respondi. O Micah remexeu-se na cadeira.
     - Vou  igreja, s vezes. Mas s por isso ser do agrado da Christine. Acha importante que eu v, por causa dos midos.
     - E?
     - E o qu?
     - Ests a conseguir algum resultado?
     - Na verdade, no.
     - Mas ainda rezas?
     - H trs anos que no rezo.
     Uma vida sem orao  algo que no me passa pela cabea. De certa maneira, estive dependente da orao durante todo o tempo que ele tem passado a evit-la.
     - No sentes que te falta qualquer coisa?
     - No rezo porque no resulta - respondeu apressadamente. - A orao no resolve coisa alguma. O que  mau no deixa de acontecer.
     - Ento, no achas que ajuda a ultrapassar esses momentos mais difceis?
     No me respondeu e aquele silncio deu-me a saber que ele no queria falar do assunto. Pelo menos, ainda no queria.
     
     Afinal, o jogo foi um fiasco. Tampa Bay tinha o jogo na mo e o
     Micah e eu deixmos o bar, antes de comear a segunda parte, e fomos
     treinar para o ginsio do hotel. Corremos e levantmos pesos; a seguir, fomos para o quarto e deixmo-nos cair nas camas.
     - Lamento a derrota da tua equipa.
     - No me interessa muito - respondeu. - No sou como tu costumavas ser. Recordas-te? Quando eras mido? Costumavas chorar sempre que os Vikings perdiam.
     Os Minnesota Vikings foram a equipa preferida da minha fase de crescimento; tinha-a escolhido por ser l que a Dana nasceu.
     - Recordo. Fiquei de rastos quando perderam a Super Bowl.
     - Qual? Perderam um monte delas.
     - Obrigado por me lembrares.
     - No tens de qu - zombou. - Sabes que ficavas maluco
     quando se tratava dos Vikings, no sabes?
     - Eu sei. Tinha tendncia para exagerar numa srie de coisas.
     - Ainda tens.
     - Todos temos os nossos problemas. At tu.
     - Isso no  verdade. Sou totalmente feliz. Ainda no notaste? Fui
     eu quem, graas  minha personalidade extrovertida, apenas h uns
     dias, te ergui das profundezas do desespero.
     Esbugalhei os olhos.
     - Apenas por estarmos na excurso. Tens de te recordar de que
     entrar numa coisa destas sempre foi mais prprio de ti do que de
     mim. Crescestes  procura de aventuras. Andavas sempre em busca
     delas. Eu limitava-me a seguir-te, a tentar que no me metesses em
     encrencas muito grandes.
     Mostrou os dentes num sorriso.
     - Costumava meter-me em trabalhos, no era?
     - Na verdade, arranjaste muitos. Especialmente quando se tratava de armas.
     Um claro de reminiscncias passou-lhe pelo rosto.
     - Sabes, ainda no consigo perceber o que acontecia. No era um
     mido mau. Procurava apenas divertir-me.
     Sorri, a pensar: "E conseguiste, sem dvida".
     
     Os nossos pais, sendo as pessoas sensatas e maravilhosas que eram, acabaram por se aperceber de que os dois filhos no eram seres responsveis quando estavam 
em causa armas de presso de ar. Por muito que implorssemos, recusaram-se a comprar-nos outras. Nem aceitaram a ideia de nos comprarem rifles, uma soluo de compromisso. 
Em vez disso, deram-nos arcos e flechas.
     Divertimo-nos com aqueles arcos. A pontaria no era muito boa, mas o que perdamos em preciso, ganhvamos na velocidade que imprimamos ao projctil. Podamos 
mandar aquelas setas a zunir at ficarem praticamente enterradas nos troncos das rvores. O meu irmo fazia-o com um pouco mais de destreza e acabou por conseguir 
atingir alvos de tamanho razovel, a distncias de dez metros, em pelo menos cinco por cento das tentativas, contra os meus trs por cento.
     - Eh! Vamos pr uma ma em cima da tua cabea e eu tento tir-la de l - acabou por sugerir o Micah.
     - Tenho uma ideia melhor - respondi, - vamos pr uma ma em cima da tua cabea.
     - Hum! Talvez no seja muito boa ideia.
     Um dia, quando andvamos pelo bosque com os arcos e as flechas, uma das flechas errou o alvo e seguiu na direco de um grupo de operrios que estavam a construir 
uma casa. (A construo de novas casas tinha-se iniciado em fora depois da nossa mudana para ali.) A seta nem caiu muito perto dos trabalhadores, mas tambm no 
foi muito longe; um dos carpinteiros ficou bastante zangado connosco, mesmo depois de tentarmos explicar-lhe que fora um acidente.
     - Nem pensem que vo andar por aqui a atirar flechas - ameaou e, ainda pior, recusou-se a devolver a flecha, por mais que lhe pedssemos. Como dispnhamos 
apenas de trs flechas, a perda de uma era um acidente grave.
     O meu irmo e eu afastmo-nos sem reagir, dirigindo-nos para o morro, de onde voltaramos  nossa rua, mas estvamos revoltados. Quando atingimos o cimo do 
morro, o Micah decidiu que no estava disposto a acatar ordens de um estranho qualquer, especialmente de um homem que se recusara a devolver-lhe a flecha.
     Como explicou:
     - Ele no pode dar-me ordens!
     O meu irmo carregou uma seta e esticou o arco, inclinando-se para trs com a inteno de atirar para o cu, num gesto de desafio, uma espcie de "toma l!". 
Lanou a flecha que zuniu em direco ao cu, alta, cada vez mais alta, at ser um ponto minsculo.
     Como  evidente, no contara com a ligeira brisa da tarde. Nem o meu irmo conseguiu atirar directamente para cima, embora, Deus  minha testemunha, essa fosse 
a sua inteno. Em vez disso, a seta foi lanada num ngulo que a levou a desviar-se um pouco, na direco da casa em construo (e dos trabalhadores) na base do 
morro; a partir da o vento encarregou-se do resto. Vi a flecha mudar de rumo e senti
     um aperto no peito quando me apercebi da direco que ela tinha
     tomado.
     - Micah, aquela flecha vai na direco que eu penso?
     - Oh, no... no... NO, NOOO!!!
     O meu irmo, que empalidecera, tal como eu, dava pulos como quem queria exprimir a mais veemente negativa, como se esperasse alterar o que era bvio. Ficmos 
a observar o arco descendente da seta, que caa em direco ao trabalhador que nos tinha confiscado a outra. Se o Micah tivesse feito pontaria, se a tentativa fosse 
propositada, no teria qualquer possibilidade de lanar uma flecha a duas centenas de metros e com tamanha preciso.
     - NOOO... NOOO!!! - gritava Micah, que continuava aos pulos.
     Vi a flecha descer ao inferno, mais convencido, a cada segundo que passava, de que amos matar o homem. Nunca me sentira to aterrorizado. O tempo parecia ter 
comeado a andar mais devagar; tudo se movia com uma temvel determinao. Sabia que amos acabar no reformatrio para delinquentes juvenis; ou na prpria priso.
     Seria o fim.
     A flecha atingiu o solo, a menos de trinta centmetros do stio onde o homem estava a manejar uma p, caindo sobre um monte de p. Perturbado, deveras assustado, 
o homem saltou para o lado.
     - Oh, graas a Deus! - murmurou o Micah, ao soltar um grande suspiro. Sorriu.
     - Bem podes agradecer a Deus - concordei. - Foi por pouco.
     Como era bvio, naquela idade, e naquele preciso momento, no conseguamos adivinhar a maneira como o trabalhador iria reagir perante aquele incidente. Ao contrrio 
de ns, ele no ficara nada satisfeito. Num momento estava a trabalhar, no minuto seguinte quase era morto por uma seta lanada do topo do morro por dois midos. 
No, no estava satisfeito, de maneira nenhuma. Estava enfurecido! Mesmo  distncia de quase duzentos metros, vimo-lo erguer os olhos para ns, atirar com a p 
e comear a dirigir-se para o camio.
     - Achas que chegou a altura de fugirmos? - perguntei, ao virar-me para o Micah.
     Mas ele j no estava ao meu lado, corria na direco da nossa rua, com as pernas a mexerem-se a uma velocidade que eu nunca tinha visto.
     Corri atrs dele; trinta segundos depois, quando j ia a atravessar o relvado dos nossos vizinhos, olhei por cima do ombro e vi o camio travar junto  orla 
do bosque; e tambm vi o homem saltar do camio e comear a perseguir-nos, agora a p.
     Oh, no lhe foi difcil apanhar-nos e, de perto, parecia ainda mais furioso do que ao longe. O nosso pai tambm ficou furioso quando soube da histria; fomos 
proibidos de sair durante duas semanas. Pior ainda: para o fim da tarde, o xerife veio e confiscou os arcos e as flechas.
     
     Com excepo daquela nica excurso ao Grand Canyon, as nossas frias eram passadas com pessoas de famlia, em San Diego.
     Por quaisquer motivos, a maioria dos nossos familiares, tanto maternos como paternos, tinha-se mudado para l e, por conseguinte, podamos ir visit-los e gozar 
da praia sem gastarmos muito dinheiro. Uma coisa excelente, devo acrescentar, para uma famlia que no dispunha de fundos para gastar em turismo.
     Fazamos a viagem de carro, dez horas de estrada, os trs apertados no bando traseiro da carrinha Volkswagen, juntamente com a Brandy (a nossa cadela doberman) 
e bagagem variada. Embora tivssemos de parar duas vezes, para reabastecimento, fazamos a viagem de dez horas sem comprarmos comida ou bebidas; em vez disso, as 
nossas refeies consistiam em sanduches de fiambre, batatas fritas e limonada que a mam levava de casa.
     Eram umas grandes viagens. Os nossos pais no exigiam que pusssemos os cintos (ficaram realmente surpreendidos com esta revelao?) e lamos, jogvamos ou 
lutvamos no banco traseiro, enquanto percorramos a N5, a caminho da casa da av Sparks. No era o gnero de luta em que se d um belisco a sorrir; eram lutas 
a srio, completas, com golpes de tesoura ao pescoo, socos, toro de braos e pernas, tudo acompanhado de gritos e lgrimas. Habitualmente, os nossos pais ignoravam 
a situao durante algum tempo, mas por vezes chegvamos ao ponto que provocaria uma olhadela do pap por cima do ombro e o grito de "Deixem de abanar a maldita 
carrinha!", o que iniciava a inevitvel contagem decrescente do alerta de segurana, que parecia nunca conseguirmos evitar. E ficvamos sempre a olhar para o nosso 
pai, como se ele tivesse espigas de milho a crescer nas orelhas, a tentar descobrir o que poderia ter despertado a sua ira.
     - A culpa foi tua - sibilaria o Micah. - No devias ter gritado.
     - Mas estavas a magoar-me - protestaria eu.
     - Tens de te habituar a ser mais forte.
     - Estavas a torcer-me a orelha! Pensei que ias arranc-la!
     - Ests a exagerar.
     - s um idiota.
     Nesta altura, ele semicerrava os olhos:
     - O que  que me chamaste?
     A Dana resolvia intervir, de boa vontade:
     - Chamou-te idiota.
     O Micah rosnava:
     - j te digo quem  o idiota...
     Chegados a este ponto, recomevamos o combate. Costumo dizer s pessoas que nunca percorremos a estrada para San Diego; na maioria dos casos, a carrinha parecia 
saltar at l.
     Quando visitvamos os nossos familiares era como se "o campo descesse  cidade". Normalmente eram famlias com situaes financeiras superiores  nossa e, logo 
que chegvamos, entrvamos casa dentro  procura dos quartos dos nossos primos. Sabamos que para l daquelas portas estava o prprio paraso; ficvamos um momento 
a olhar, maravilhados, sentindo pequenas lgrimas a quererem sair-nos dos cantos dos olhos.
     - Eli! O que  isto? - perguntaramos, a agarrar qualquer coisa. No tardvamos a agitar as peas, a tentar descobrir o que era.
     -  novo.  uma grua de construo e funciona a pilhas - informaria o nosso primo, a impar de orgulho. - Pode montar casas, a partir do nada...
     Zs!
     O primo ficaria paralisado de horror ao ver o brinquedo feito em dois.
     - O que  que aconteceu? - perguntvamos.
     - Tu... tu... partiste o brinquedo - choramingava o mido.
     - Oh, desculpa. Hum!.., para que serve esta coisa?
     -  o novo carro com controlo electrnico melhorado, completo com...
     Zs!
     - Oh, desculpa - diramos de novo. - E isto, para que ?
     Uma vez partidos os brinquedos (sempre nos maravilhvamos por tantos acidentes poderem acontecer em to pouco tempo), tentvamos brincar com os primos. No 
que eles encarassem o que fazamos como um jogo. No fazamos nada com eles que no fizssemos em nossa casa; para ns, era uma brincadeira normal, mas para eles 
era uma tortura quase sem fim. Nenhum deles, segundo parecia, vivera uma infncia como a nossa, isto , sem verdadeiras normas. Por exemplo: divertamo-nos imenso 
a enrolar os mais pequenos num tapete at eles ficarem presos e sufocados, incapazes de se mexerem. Ento, o meu irmo e eu saltvamos, um de cada vez, de cima do 
sof para o
     stio onde eles estavam, e gritvamos "Bingo!" sempre que acertvamos em cheio. Outras vezes, obrigvamos a que mergulhassem na piscina - um mergulho total, 
durante muito, muito tempo - at quase morrerem afogados. Havia ocasies em que tentvamos ensinar os primos a baterem forte, fazendo a demonstrao nos prprios 
braos deles.
     - No, assim no. Leva o brao atrs e usa bem os ns dos dedos, Assim...
     Zumba!
     O nico problema com aquelas estadas juntos dos primos, e custa-me admiti-lo por serem da minha famlia, era eles revelarem-se uns chores. Enquanto estvamos 
l no deixavam de chorar. Nem sei como os pais deles conseguiam suportar aquilo.
     De qualquer das formas, a estada chegava ao fim e era tempo de partirmos. Caminhvamos para a carrinha e voltvamo-nos para vermos os nossos primos, brancos 
como a cal, com os bracitos cobertos de ndoas negras.
     A despedida era feita em voz alta:
     - At para o ano!
     Mais tarde, no caminho de regresso a casa da av, o meu irmo perguntaria:
     - Que cara era aquela, a que tinham quando nos viemos embora?
     - Ests a falar dos piscares de olhos, de eles arquearem as sobrancelhas e inclinarem a cabea de repente para um lado?
     - Pois.
     - No sei. Deve ser um tique facial qualquer.
     O Micah abanava a cabea.
     - Pobres midos. No estavam assim quando chegmos. Foi coisa que lhes deu subitamente.
     S por si, as viagens tambm eram verdadeiras aventuras. De uma das vezes que partimos para San Diego o meu pai levava 21 dlares na carteira. Isso mesmo, o 
total que conseguira arranjar para levar toda a famlia de frias durante uma semana. Por azar, a carrinha avariou-se nas montanhas Tehachapi, cerca de uma hora 
de viagem a norte de Los Angeles. Fomos rebocados at  nica estao de servio existente nos arredores, onde foi detectada uma fuga de leo. A pea sobressalente 
levaria pelo menos uma semana a chegar, mas o mecnico achou que com uma soldadura, que faria naquela mesma noite, poderamos seguir viagem e chegar ao nosso destino. 
Como  evidente, a reparao custava dinheiro, uma coisa de que o pap no dispunha.
     O pap tinha uma relao engraada, quase contraditria, com o dinheiro. Suponho que ele queria poder dispor de mais mas, chegada a hora de transformar o desejo 
em deciso, no tinha ideia do que era necessrio fazer para ganhar mais. Mesmo que nunca desejasse pensar em dinheiro, a situao da famlia forava-o a pensar 
nele constantemente. Tudo tinha de ser oramentado e aquela avaria no estava prevista no oramento. Dizer que ficou zangado no chega; metia medo, ultrapassou a 
fase de segurana e passou directamente para a fase de lanamento da bomba nuclear. Ligou para San Diego e falou com a me, que prometeu enviar um vale telegrfico 
com o dinheiro necessrio  reparao, mas a carrinha s ficaria pronta no dia seguinte. Passou o dia a andar para diante e para trs, a assobiar a cano dos mortos, 
com a lngua dobrada para fora da boca.
     Para o final da tarde, comemos a ltima das sanduches e as batatas fritas e bebemos a limonada que restava, o que deixou o pai ainda mais furioso. Sem dinheiro 
para comprar comida, ou para pagarmos o hotel, acabmos por passar a noite na parte de trs da carrinha, juntamente com a cadela. Quando acordmos, tambm no havia 
dinheiro para o pequeno-almoo; s voltaramos a comer depois de chegarmos a San Diego, durante a tarde do dia seguinte.
     No entanto, aquela no foi a parte pior das frias. Nem aquela em que mais se manifestou a fria do pap. Quando penso naquela viagem, as minhas recordaes 
centram-se sempre no primeiro dia, no que aconteceu uma hora, ou pouco mais, depois de chegarmos  oficina.
     Como disse, o pap estava mais do que furioso; tnhamos aprendido que em momentos daqueles era melhor que nos mantivssemos distantes dele. Sem mais nada para 
fazer, Micah, Dana e eu decidimos ver o que a vila tinha para nos oferecer, mas depressa nos apercebemos de que no era muito. Nem se poderia dizer que aquilo fosse 
uma verdadeira vila, era mais um local, j ento degradado, de descanso. Era quente como uma fornalha e tinha apenas uns quantos prdios decrpitos, alinhados de 
cada lado da estrada, nos dois sentidos, sem uma nica sombra. Nem existia caf nem restaurante que tivesse um televisor num canto, o que nos poderia ajudar a passar 
o tempo.
     Foi a primeira vez que me senti verdadeiramente aborrecido. Felizmente, no tardmos a encontrar um co que parecia merecedor da nossa ateno. Passmos uns 
momentos a acarici-lo e o animal mostrou-se incrivelmente amistoso, mexido e feliz; comemos a chamar-lhe Sparky (por causa do nosso nome,  claro). Passado algum 
tempo, ps-se de p e vimo-lo afastar-se a trote, de lngua pendente, parecendo feliz como um pnei. Olhou para trs, para ns, a rir-se (ainda hoje acredito nisso) 
e correu para a estrada onde, no mesmo instante, foi atropelado por um automvel que circulava a cem quilmetros  hora.
     Vimos os pormenores todos. Ouvimos o estrondo e ficmos a ver o co fazer uma pirueta que nada tinha de natural, antes de voar na nossa direco, com o sangue 
a espirrar-lhe da boca, para vir aterrar a menos de um metro de ns. O carro abrandou um pouco mas no parou. A famlia que transportava pareceu to horrorizada 
como ns. Passados uns momentos, depois de gemer, estremecer e soltar um ltimo suspiro, o Sparky morreu aos nossos ps. Com o pap to furioso e a mam a tentar 
acalm-lo, para enfrentarmos aquele horror fizemos o que sempre tnhamos feito: abramo-nos os trs, como irmos. Apenas trs crianas pequenas, abraadas na berma 
de uma estrada, a chorar e a tentarem compreender como  que aquelas coisas terrveis podiam acontecer.
     
CAPTULO OITO
     Peru: Cuzco e Machu Picchu 27 e 28 de Janeiro
     
     Depois da breve paragem em Lima, preparmo-nos para seguirmos para Cuzco, o mais antigo estabelecimento permanente do Hemisfrio Ocidental, a antiga capital 
do imprio inca. Com uma populao de 275 mil almas,  uma cidade resplendente de casas de adobe, telhados de telha vermelha, sinuosas ruas calcetadas, catedrais 
magnficas e mercados ao ar livre; ao voarmos por cima da cidade, eu e o Micah sentimo-nos comovidos com tanta beleza.
     Durante o voo, tnhamos sido avisados da existncia do mal da altitude. Aninhada nos Andes, Cuzco est situada a 3500 metros de altitude, pelo que fomos aconselhados 
a caminhar pausadamente quando sassemos do avio. Os funcionrios da agncia de viagens encontravam-se colocados em diversos pontos do terminal e repetiam os avisos, 
 medida que o nosso grupo ia passando.
     - Vo com calma. No se cansem. Caminhem devagarinho.
     - Dir-se-ia que vamos escalar o monte Everest - sussurrou o Micah, - e no a passar pelo terminal de um aeroporto.
     Assenti, concordando que tudo aquilo parecia ridculo. Talvez algumas pessoas se sentissem afectadas, mas ns ramos jovens e estvamos em relativa boa forma. 
Sem ligarmos aos avisos, caminhmos no nosso passo normal e acabmos por ter de esperar que todos os outros chegassem junto dos autocarros.
     No entanto, enquanto espervamos notei um ar preocupado no rosto do Micah. Respirou profundamente, vrias vezes.
     - Sabes, acho que estou a senti-la - anunciou.
     - A srio?
     - Um pouco. Parece que me est a pr um pouco... esquisito.
     Afinal, acabmos por nos sentir, ambos, verdadeiramente esquisitos, como se tivssemos abusado da cerveja. Por qualquer razo, comemos a soltar risadinhas 
e no conseguamos parar. Com o autocarro j em andamento, tudo nos parecia extremamente engraado; as roupas que as pessoas vestiam, os buracos e o calcetado da 
estrada que faziam as nossas vozes vibrar e, especialmente o nome do lugar para onde nos dirigamos: Sacsayhuaman.
     Quando pronunciado correctamente - Socsi Vumam - soava como "sexy woman" dito por uma pessoa com sotaque russo. Dado o nosso estado de aturdimento, no conseguamos 
esquecer o pormenor. Nem parecamos capazes de falar de outra coisa.
     - Mal consigo esperar para ver a mulher sexy - dizia o Micah, e o meu crebro carente de oxignio fazia-me redobrar o riso.
     - Gostaria de saber onde vamos encontrar a mulher sexy - acrescentou ele. - Sabes que para mim no h nada melhor do que uma mulher sexy.
     - Por favor... cala-te, est bem? - implorei.
     - Quero realmente, realmente, realmente montar uma mulher sexy. Sabes que o Peru  famoso por ter mulheres muito sexy?
     Eu j tinha lgrimas nos olhos.
     Almomos no hotel, em Cuzco. Um antigo mosteiro, ficaria assinalado como um dos hotis mais interessantes de toda a viagem. Como a Casa Aliaga, foi construdo 
 volta de um ptio central, mas em escala muito maior. A construo original  de 1640, mas as salas foram modificadas para permitir a entrada do oxignio. Como 
o Micah observou quando entrmos no vestbulo:
     - Isto  ainda melhor do que uma mulher sexy.
     
      tarde, depois de as risadas terem parado, conseguimos ir visitar a fortaleza inca. No era bem aquilo de que estvamos  espera. Situada num planalto largo 
e aberto, a dominar Cuzco,  cercada de muros de pedra, parecendo mais um anfiteatro do que uma fortaleza. Os muros foram construdos com gigantescos blocos de granito 
e as pedras foram cortadas com uma preciso tal que, ainda hoje,  impossvel enfiar uma folha de papel nos espaos entre elas.
     Por cima de ns, as nuvens pesadas davam  paisagem um ar de mau agouro. Percorremos a rea na companhia de Bob e Kate Devlin, de quem rapidamente nos tornramos 
amigos. Enquanto ouvamos o guia falar acerca da intrincada construo de pedra, informaram-nos de que tinham comemorado havia pouco tempo o 45 aniversrio do seu 
casamento. Um pouco depois, quando o Micah e eu nos afastmos um pouco, vimos, mais longe, o Bob e a Kate juntos. Por momentos, ficmos a observ-los.
     - Parecem felizes, no parecem? - perguntou o Micah.
     - Pois parecem. E julgo que parecem felizes porque so realmente felizes.
     - Quarenta anos  muito tempo. Tm mais anos de casados do que eu tenho de vida.
     - O mesmo que acontece com muitos dos nossos companheiros de viagem.
     - Qual , na tua opinio, o segredo de um casamento duradouro? - indagou o Micah.
     - No sei se existe algum segredo. Os casais so todos diferentes. O que funciona para um pode no funcionar para outro.
     - Eu sei. Mas se tivesses de salientar um pormenor, qual  que escolherias?
     Hesitei. Por cima de mim, o cu parecia desenhado a carvo; as nuvens corriam, mudavam de cor e assumiam novas formas a cada minuto que passava.
     - Dedicao - acabei por decidir. - Ambas as pessoas tm de ser dedicadas. Penso que se duas pessoas forem dedicadas ao casamento, se desejarem realmente que 
ele funcione, acabaro por encontrar a maneira de o fazer funcionar. Acontea o que acontecer na vida. Se casares com algum que no for dedicado, ou se tu no o 
fores, o casamento no resistir quando qualquer coisa correr mal. O casamento no  brincadeira nenhuma.
     - Hum! - foi a resposta do Micah.
     - E tu? Qual  que pensas que  o segredo?
     - No fao ideia. Estou casado s h quatro anos. Mas, para mim e para a Christine, penso que  a comunicao. Quando falamos dos assuntos e somos realmente 
francos um com o outro, tudo  fantstico entre ns. Quando guardamos as coisas para ns, as dores e os ressentimentos acumulam-se e acabamos a zaragatear.
     No fiz qualquer comentrio.
     - O qu? No consideras a comunicao importante?
     Encolhi os ombros.
     - De que serve conversar se nenhum de vs for realmente dedicado? Se um de vs tiver um caso, ou se comear a viciar-se em drogas, ou a insultar o outro, a 
simples conversa no suprime o desgosto. Nem repe o sentimento de dedicao que se perdeu. Ao cabo e ao resto, o casamento resume-se a actos. Julgo que as pessoas 
falam demasiado daquilo que as preocupa, em vez de se limitarem a fazer aquelas pequenas coisas que podem fortalecer o casamento. Tens de perceber o que o teu cnjuge 
precisa que faas, e faz-lo. E tens de evitar fazer aquelas coisas que prejudiquem a relao. Se o cnjuge agir da mesma maneira, o teu casamento conseguir resistir 
a tudo.
     O Micah sorriu.
     - Como tu e a Cat?
     - Acertaste - respondi calmamente. - Como eu e a Cat.
     
     Depois da fortaleza de Sacsayhuaman, regressmos para visitar a catedral de Cuzco, cuja riqueza desafia a imaginao. Maior do St. Patrick, em Nova Iorque, 
a catedral alberga centenas de frescos e quadros a leo que representam figuras religiosas, enquanto o ouro e a prata brilham por toda a parte, no s nos macios 
altares forrados de metais preciosos, mas tambm nas paredes. Quando pensamos que os espanhis enviaram a maior parte da riqueza para Espanha, torna-se fcil perceber 
o motivo que levou Pizarro a procurar com tanto afinco a derrota dos Incas.
     Por mais fascinante que a igreja fosse, o Micah parecia ter uma fixao por um determinado aspecto. Com algum esforo, conseguiu chamar a ateno do guia.
     - Onde  que est o quadro em que Jesus est a comer a cobaia? - perguntou.
     Segundo nos informaram, no Peru as cobaias no so consideradas animais de estimao. Em vez disso, consideradas uma iguaria, so comidas, grelhadas, em certas 
ocasies especiais. Quando os primeiros missionrios espanhis estavam a trabalhar na converso dos Incas ao cristianismo, para tornar a religio mais aceitvel 
por parte dos nativos tiveram de operar uma simbiose com a cultura local. Assim, quando os missionrios encomendaram uma pintura da ltima Ceia, no  de pensar 
que tivessem ficado muito surpreendidos por o pintor ter escolhido a cobaia como alimento de Jesus.
     No tardou que pudssemos ver o quadro de Jesus Cristo rodeado pelos discpulos. Para alm do po e do vinho, no prato que tinha  frente, l estava a cobaia 
grelhada.
     Enquanto estvamos a admirar o quadro, o Micah inclinou-se para mim e segredou-me:
     - Sabias que a turma da Alli tem uma cobaia por mascote?
     - Ah, sim?
     - . Ela vai adorar isto.
     Sem mais ningum notar, conseguiu fotografar o quadro.
     Museus.
     A qualquer lado aonde fssemos, ramos levados a visitar museus, de modo a podermos observar os artefactos representativos da histria de cada povo. Para ser 
franco, alguns revelaram-se bastante enfadonhos. Aprendemos, por exemplo, que praticamente todos os povos do passado dispunham de - surpresa! - cermica; por conseguinte, 
passmos imenso tempo a ver potes e tigelas. Por maiores que sejam as diferenas em que pensemos, passado algum tempo a excitao era a mesma que sentiramos ao 
observar os potes e as tigelas que guardamos no armrio da nossa prpria cozinha. Mas os nossos guias adoravam potes e tigelas. Parecia que podiam passar horas a 
falar de potes e tigelas. Falavam com reverncia dos seus potes e tigelas.
     - E este... este  o pote que usavam para guardar gua! - informavam. - E aquele, ali, reparem na diferena com aquele, que era usado para guardar vinho! Conseguem 
notar as diferenas de forma e de cor? At o tamanho  diferente!  fantstico podermos verificar at que ponto esta civilizao tinha evoludo. Lquidos diferentes, 
potes diferentes! Imaginem!
     - Uf! - repetia o Micah. - Imaginem!
     - Estou a tentar - acrescentava eu.
     - Lquidos diferentes! Potes diferentes!
     - Um difcil problema mental, no ?
     Uma vez por outra, aprendamos coisas verdadeiramente intrigantes. Os ossos, por exemplo, quase sempre nos faziam parar. E as armas. E as caveiras. Especialmente 
as caveiras. No museu de Cuzco vimos uma coleco de caveiras que estavam alinhadas numa vitrina. Embora as informaes estivessem em espanhol, conseguimos decifrar 
parte delas e ler a palavra "cirurgia".
     O guia no estava to entusiasmado como ns em relao s caveiras e  ideia de haver ali sinais de uma cirurgia primitiva. Pareceu querer desvalorizar aquilo 
que o Micah e eu estvamos a ver, como se, de certa forma, estivssemos a pr em dvida a civilidade dos primitivos Incas.
     - Isso no tem importncia - desculpou-se. - Vamos, deixem que lhes apresente estes potes e tigelas. Ainda temos mais que ver, l  frente.
     - J o apanhamos - respondemos.
     Percebemos que os Incas operavam o crebro, uma ideia que nos fascinou. Ainda se viam os buracos que tinham aberto nos ossos dos crnios. Eram grandes como 
moedas de 25 cntimos de dlar e, pelo nmero e variaes de colocao dos buracos, no constituiriam uma prtica fora do comum. Ao olharmos para eles, tentvamos 
imaginar o sofrimento dos pacientes ou o que o chefe lhes diria ao explicar a necessidade de se sujeitarem  operao.
     "Hum, tens andado deprimido, no tens? Bom, estou convencido de que os espritos animais se esconderam entre as tuas orelhas. Penso que ser melhor tir-los 
de l."
     "Est bem, chefe. Desde que saiba o que tem a fazer."
     " claro que sei o que fao. No viste os nossos potes e tigelas? Ora bem, passa-me esse osso de jaguar, deita-te sobre essa rocha e deixa-me escavar um pouco."
     "Est bem, chefe."
     
     Na manh seguinte fomos conduzidos  estao principal de Cuzco, para percorrermos o lendrio vale de Urubamba, a caminho de Machu Picchu. Os guias tinham afirmado 
que as paisagens do vale estavam entre as mais belas do mundo e a nossa viagem oferecia tudo o que a publicidade proclamava, ou ainda mais. Micah e eu passmos trs 
horas e meia colados aos vidros das janelas, a observar os altos desfiladeiros de granito e a olhar, maravilhados, o rio que por vezes parecia quase ao alcance da 
mo. A espaos, avistavam-se runas dos Incas, construes que se tinham desmoronado por falta de reparao: uma parede aqui, um palheiro mais adiante.
     Ultrapassado o vale, quando comemos a subir os Andes, o azul do cu comeou a dar lugar s nuvens inchadas de humidade. As florestas transformaram os Andes 
em manchas verdes e desembarcmos numa aldeia de construo periclitante, nas margens do rio Urubamba, que na altura era uma torrente caudalosa.  chuva, percorremos 
uma rua estreita, ocupada por uma multido de vendedores, que tambm servia de mercado da povoao. Dali, tommos um autocarro que nos levaria atravs de estradas 
sinuosas que terminavam em Machu Picchu, a mais de 320O metros de altitude.
     Quando Hiram Bingham chegou ao Peru, em 1911, a lenda de uma cidade inca perdida nos Andes era por muitos considerada simples folclore. Disposto a provar a 
sua existncia, Bingham contratou guias locais e preparou uma expedio para encontrar a cidade. Os guias foram contratados por se supor que conheciam a localizao 
e, depois de o levarem a percorrer o vale, acabaram por conduzi-lo  base de uma montanha rochosa, cujo pico estava envolto em nuvens. Ao subirem, ele e a equipa 
encontraram um grupo de nativos, que lhes anunciaram que "as casas estavam a seguir a uma curva do caminho". Poucos minutos mais tarde, Bingham deu com as runas 
da lendria cidade, que se presume tenha albergado 2500 pessoas. At  data, ningum encontrou um motivo para a construo da cidade. Poder ter servido como posto 
avanado de defesa contra os saqueadores espanhis; outros elementos descobertos parecem dar a entender que se tratava de um lugar de repouso do rei, uma espcie 
de refgio de frias. Tambm h autores que destacam as provas de que a cidade poderia ter sido ocupada por uma maioria de mulheres, o que veio complicar ainda mais 
as teorias. De certeza, sabe-se que o lugar foi abandonado pouco depois da chegada dos espanhis.
     Quando Micah e eu saltmos do autocarro, comemos por no conseguir ver nada devido ao nevoeiro. Porm, seguindo ao longo da borda de um desfiladeiro, as runas 
comearam a aparecer lentamente, como se fossem sendo destapadas. Primeiro, no havia nada de ntido; as imagens formaram-se pouco a pouco. Depois, de repente, avistmos 
tudo e o que vimos foi suficiente para nos reduzir ao silncio.
     Parte do impacte de Machu Picchu deve-se ao local estranho em que foi construda; se algumas das runas nos aparecem no topo da montanha, outras parecem nascer 
directamente das faces laterais do penhasco. Os terraos parecem degraus gigantes cavados na face do penedo e, logo atrs deles, construdos com blocos de granito, 
aparecem as habitaes e os templos dos antigos Incas. Os telhados originais, feitos de madeira e colmo, h muito que desapareceram, mas ainda se notam as estruturas. 
A interligar as casas, foram construdas escadarias ngremes entre os edifcios. A povoao tinha diversos locais de culto, com zonas ao ar livre e aras para os 
sacrifcios. Estvamos rodeados pelas encostas luxuriantes dos Andes. Fragmentos de nuvens esgueiravam-se por entre os picos. Se Tikal nos tinha impressionado, a 
arquitectura de Machu Picchu deixou-nos sem palavras. Seria a minha paragem preferida, em toda a viagem.
     Percorremos as runas acompanhados de um guia que nos falou da histria e da cultura do lugar. Porm, a espaos, senti-me forado a afastar-me do grupo, apenas 
para ficar s durante algum tempo. Aquele era o gnero de lugar que merecia ser "vivido", no apenas visitado. Micah sentiu o mesmo. A certa altura, sentmo-nos 
 beira de uma runa, com as pernas pendentes, a sorver aquela paisagem fantstica, sem que algum de ns desejasse quebrar o silncio.
     Ainda continumos a explorar as runas durante mais algumas horas. Segundo o programa, a visita acabava com o almoo no restaurante local. Micah e eu teramos 
preferido permanecer naquele lugar, mas o horrio da excurso no o permitiu e, de m vontade, fomos juntar-nos aos outros.
     Depois do almoo, voltmos ao hotel de Cuzco, onde chegmos logo aps o anoitecer. Um dos conferencistas da excurso ligou-nos para o quarto, a pedir que descssemos; 
quando chegmos, vimos o que ele mandara vir de um restaurante local.
     Cobaia assada.
     - Venham c, vamos experimentar isto. Pedi a um dos guias que a fosse buscar a um restaurante daqui. Tiraremos fotografias.
     A viso fez-me sentir enjoado. Apoiei-me no Micah.
     - Ainda tem a cabea. E as garras.
     Micah encolheu os ombros.
     -  considerada uma iguaria. Alm do mais, a pintura indica que
     foi isto que serviram na ltima Ceia.
     - No ests a pensar comer aquilo, pois no?
     - Talvez experimente...  a minha nica oportunidade. Vou aproveitar. No me parece que sirvam este prato l na nossa terra.
     - A srio? Vais dar uma dentada?
     - julgo que no posso deixar de o fazer. Olha, faz-me um favor.
     - O que ?
     - Tira uma fotografia. Para a Alli.
     - Isso  ignbil. Ela vai sentir-se mal.
     - No, no vai. Vai achar graa. E tambm te tiro a fotografia a
     provares o petisco.
     - Eu?
     - Claro. No posso deixar que desperdices um momento como
     este. Como costuma dizer-se: "Em Roma, s..."
     Voltei a olhar a cobaia.
     - Sinto-me bastante agoniado s de pensar nisso.
     -  por isso que eu estou aqui. Para te ajudar a provar coisas
     novas. Para te descontrares.
      - Obrigadinho.
     - Eia! - exclamou, encolhendo os ombros: - Para que servem os irmos? V, prepara a mquina fotogrfica.
     Assim fiz e tirei a fotografia do Micah a comer. Ele fez o mesmo para mim quando tirei um pedacinho, com o estmago a arder como
     se fosse um candeeiro que tomasse anfetaminas.
     - Ora bem, no foi assim to mau, pois no?
     - Acho que vou vomitar - admiti.
     Riu-se e ps-me um brao  volta dos ombros.
     - V a situao nestes termos: foi apenas um gesto estpido numa longa sucesso de asneiras que j fizemos. E desta vez nem sequer fizemos nada de perigoso.
     
     Durante aqueles primeiros anos em Fair Oaks, mesmo quando comemos a testar a nossa coragem em manobras perigosas, continumos a afastar-nos um do outro. Micah 
passava mais tempo junto dos seus amigos e eu passava mais tempo com os meus. Uma vez por outra, os nossos amigos encontrar-se-iam no mesmo stio, mas no era a 
situao mais frequente.
     No entanto, houve certos ritos de passagem que ambos tivemos de ultrapassar, embora em alturas diferentes. Com os campos e os bosques da vizinhana a desaparecerem 
para dar lugar a novas construes, ambos comemos a passar mais tempo no rio prximo. Havia trilhos para bicicletas e locais para praticar skimboard (parecido 
com o esqui aqutico, mas a prancha  mais larga e amarra-se a uma rvore da margem do rio, em vez de se prender a um barco; a corrente mantm-nos de p). Tambm 
existia uma ponte para pees, que atravessava o rio a uns catorze metros acima do nvel da gua; um dos rituais consistia em saltar da ponte e mergulhar nas guas 
geladas do rio. Uma m entrada na gua e ficava-se completamente sem flego. Saltei pela primeira vez quando tinha dez anos; um ano antes, o Micah fizera o mesmo. 
Mais tarde, saltei da vedao que havia sobre a ponte (destinada, pois claro, a evitar que os nadadores saltassem), o que acrescentava mais trs metros  altura 
do salto. O Micah tambm fizera o mesmo, muito antes de mim. Contudo, a nossa actividade preferida era a corda elstica, uma brincadeira que durava horas. A corda 
era presa ao centro da ponte e esticada, tendo uma prancha na outra ponta. Saltvamos da ponte, com a prancha presa entre as pernas e, agarrados  corda, sentamos 
a fora da gravidade ao deslizarmos sobre a gua a uns 130 quilmetros por hora, antes de sermos atirados de volta para a ponte. Era perigoso, era ilegal e no era 
raro que o xerife viesse confiscar a corda. Ao faz-lo, olhava para mim ou para o meu irmo e, por vezes, perguntava:
     - No vos conheo j?
     - No vejo como - respondamos, com ar inocente.
     O Micah e eu tambm escalvamos as escarpas existentes na margem do rio. Eram cortadas quase a pique e a terra era instvel; ambos caamos, com certa frequncia, 
por vezes de alturas superiores a trs metros, arriscados a partir os tornozelos e as pernas. Uma vez, quase perdi um dedo numa dessas escaladas; o golpe na falange 
foi profundo, mas a minha me disse que no me preocupasse, pois ela sabia exactamente o que fazer. (Colocou um penso rpido sobre a ferida.)
     No entanto, na maioria das vezes, o Micah e eu no estvamos juntos naquelas aventuras. Se eu ia ao rio uma vez por outra, o Micah estava l quase todos os 
dias. Se eu saltava uma vez da ponte, o Micah saltaria dez vezes e arranjaria maneira de tornar o salto mais perigoso, como quando teve a ideia de saltar de bicicleta. 
Se eu ia a casa de um amigo  segunda-feira, o Micah estaria em casa de um amigo todas as tardes. Resumindo: o Micah era simplesmente "superior" em tudo, incluindo 
nos transtornos que comeava a causar. Embora fosse um estudante relativamente bom, continuava a entrar em discusses com os professores e em lutas com os restantes 
alunos, obrigando a que os meus pais fossem chamados ao gabinete do director umas trs vezes por ano, pelo menos. Eu, pelo contrrio, passava os anos a obter ptimas 
classificaes nos exames e a conseguir prmios especiais, sempre a ouvir os professores comentarem: "s muito mais fcil de aturar do que o teu irmo". E passava 
o tempo a ler. No s enciclopdias e a Bblia, mas tambm atlas e almanaques. Pode dizer-se que devorava os livros mas, por mais estranho que parea, sentia que 
toda a informao, por mais obscura e irrelevante, era assimilada. Quando andava pelo sexto ano, era um prodgio com os pormenores: se algum apontasse para qualquer 
pas do mundo, eu conseguia recitar as respectivas estatsticas, dizer qual era a capital e as principais exportaes, ou alinhar os meses segundo a pluviosidade 
mdia. Contudo, no eram coisas capazes de impressionar os midos da minha idade.
     Podia acontecer que nos juntssemos num grupo, durante o intervalo, e algum dos meus colegas perguntasse a outro:
     - Eh!, como  que correu o acampamento em Yosemite?
     - Oh, foi fantstico. Eu e o meu pai levmos uma tenda e fomos  pesca. Meu, nem imaginas a quantidade de peixe que apanhmos. E tambm vimos as sequias. Meu, 
so as maiores rvores que alguma vez vi.
     - Andaste  volta da Half Dome? - perguntava outro.
     - No, mas o meu pai disse que poderemos fazer isso na prxima
     viagem. Ele diz que deve ser um espanto.
     - Pois . Fiz isso no ano passado com o meu pai. Foi muito giro. Entretanto, por me verem muito calado,  parte, algum tentava
     incluir-me na conversa.
     - Eh!, Nick, alguma vez estiveste em Yosemite?
     - No, ainda no - respondia eu. - Mas sabiam que, ainda antes de ter sido criado o parque nacional, em 1890, a terra tinha sido colocada  guarda do estado 
de Califrnia por uma lei aprovada pelo Congresso, em 1864, que foi assinada por Abraham Lincoln? Poder-se-ia pensar que no auge da Guerra Civil o Presidente no 
teria tempo para pensar nessas coisas, mas ele f-lo. E, afinal, foi a colocao dessas terras sob tutela que preparou o terreno para a criao do primeiro parque 
nacional, o de Yellowstone, em 1872. E sabiam que a catarata de Yosemite, a quinta mais alta do mundo, com 748 metros, , na realidade, composta por trs quedas 
de gua distintas? Ou que...
     Os meus amigos comeariam a olhar para o lado, mas eu continuava.
     Era isso. Eu era o Senhor Popularidade.
     Tambm a minha irm estava a desenvolver a sua prpria personalidade. Tal como eu, tinha um relacionamento fcil com os professores, embora as classificaes 
dela andassem  volta do C em quase todas as disciplinas. Conquanto os meus pais fossem ambos licenciados e considerassem a educao importante - a mam preparou-se 
para o ensino elementar e o pap era professor universitrio - nenhum parecia importar-se com os resultados obtidos pela minha irm. No a estimulavam para que estudasse 
mais, no a ajudavam nos estudos, nem se preocupavam se ela chegava a casa com ms classificaes, e isto por uma nica razo: "era rapariga."
     Contudo, no deixaram de lhe proporcionar lies de hipismo, pensando tratar-se de uma aptido que, a longo prazo, viria a revelar-se til.
     Quanto melhores resultados obtinha na escola, mais me esforava por fazer ainda melhor, quando mais no fosse para me destacar em relao aos meus irmos. De 
certa maneira, acreditava que, assim, os meus pais me dariam a ateno que era concedida automaticamente ao meu irmo e  minha irm. Se o Micah recebia atenes 
por ser o mais velho e a Dana as recebia por ser a nica rapariga, eu tambm procurava ser distinguido por uma qualidade, por qualquer coisa. Ansiava por momentos 
em que pudesse ser o centro das atenes quando estvamos a jantar mas, por mais que fizesse, as atenes recebidas nunca me pareciam suficientes. Se nunca pus em 
dvida o amor dos meus pais por mim, no conseguia deixar de pensar que, se a mam tivesse de fazer a escolha de Sofia, eu seria o sacrificado para salvar os outros 
dois. Uma concluso terrvel - agora, como pai, sei que ateno no  o mesmo que amor - mas o sentimento mantinha-se. Pior, desenvolvi uma acuidade crescente para 
reparar naquelas situaes. No Outono, quando chegava a altura de comprar roupas novas para a escola, davam-me duas ou trs coisas novas e as que tinham deixado 
de servir ao Micah; tanto o Micah como a Dana recebiam mais coisas do que eu. E a mam, mesmo quando reparava na minha reaco, limitava-se a encolher os ombros 
e a dizer: "Para ti, as roupas do Micah so novas." A medida que fui crescendo os meus pais pareciam-me incapazes de perceber a forma como uma criana julgaria as 
aces deles.
     Nunca esquecerei o Natal em que, ao acordarmos, encontrmos trs bicicletas debaixo da rvore. Para ns, o Natal era, de longe, o dia mais excitante do ano, 
porque nos restantes raramente conseguamos o que pretendamos. Contvamos os dias que faltavam e mantnhamos conversas infindveis sobre aquilo que desejvamos; 
nesse ano, as bicicletas estavam no topo da lista. As bicicletas significavam liberdade e alegria; as que tnhamos estavam inutilizveis pelo desgaste e pela idade. 
Quando nos dirigimos  sala, as luzes da rvore brilhavam
     e ficmos a olhar, maravilhados, as nossas prendas.
     A bicicleta do Micah era nova e brilhava.
     A bicicleta da Dana era nova e brilhava.
     A minha bicicleta... brilhava.
     Pensei, por momentos, que tambm era nova. Mas... ento, muito lentamente, comecei a reconhec-la, apesar da pintura nova. Como se vivesse um pesadelo, apercebi-me 
de que os meus pais me tinham dado a minha velha bicicleta, embora reparada. A reparao teria certamente custado dinheiro mas, mesmo assim, fui esmagado pela sensao 
de me terem dado uma prenda que j era minha, enquanto o Micah e a Dana tinham recebido prendas novas.
     De uma das vezes que trouxe as minhas notas, que os nossos pais costumavam colar na porta do frigorfico, esperei ansiosamente a chegada da mam para lhe mostrar 
os resultados do meu trabalho. Quando as viu, a mam disse que estava orgulhosa; porm, ao acordar na manh seguinte, verifiquei que as notas tinham sido descoladas 
e metidas na gaveta. Quando perguntei  mam qual o motivo, respondeu-me que o fizera para "no ferir os sentimentos dos outros filhos".
     Depois disso, as notas nunca mais foram afixadas. Provavelmente, e s mais tarde me apercebi disso, o Micah e a Dana tambm teriam sentimentos de insegurana.
     Apesar de por vezes me sentir menosprezado por ela, adorava a minha me. O que, nunca  demais repeti-lo, acontecia com todos os que a conheciam, incluindo 
todos os meus amigos e a nossa cadela: a Brandy, que com os seus 36 quilos de peso saltava e deitava-se no colo da mam quando ela se sentava na sala, a ler.
     Pela sua maneira de ser, era difcil no gostar da mam. Andava sempre bem-disposta, por muito m que a situao se apresentasse, e fazia esprito acerca de 
coisas que a maioria das pessoas acharia insuportvel. Por exemplo: a mam trabalhava (como faziam muitas outras mes), mas tinha de ir para o emprego de bicicleta. 
Quer chovesse a potes quer a temperatura fosse de 35 graus, a mam vestia-se para ir trabalhar, montava a bicicleta e comeava a pedalar para percorrer os mais de 
seis quilmetros que a separavam do consultrio. A bicicleta tinha um cesto no guiador e mais dois atrs do selim; depois do trabalho, ia de bicicleta ao supermercado, 
enchia-os de tudo o que precisava e seguia para casa. E sempre - repito, sempre - chegava  porta de casa com um ar radiante. Por mais difcil que tivesse sido o 
dia de trabalho, por mais calor que houvesse, por mais afogueada ou encharcada que estivesse, dava a ideia de ser a pessoa mais feliz do mundo e de que a vida no 
poderia correr-lhe melhor.
     - Ol, malta! Bons olhos vos vejam! Nem calculam o quanto senti a vossa falta durante todo o dia!
     Depois, dirigia-se a cada um de ns, a saber como nos tinha corrido o dia. E, um por um, o Micah, a Dana e eu amos dando as nossas informaes enquanto ela 
comeava a fazer o jantar.
     Tambm tinha o riso fcil. A minha me podia rir-se de tudo, o que naturalmente atraa as pessoas. No era Pollyanna, mas parecia pensar a vida como um conjunto 
de boas e ms situaes; e no valia a pena gastar energias com as ms, pois elas seriam inevitveis e acabariam por ter um fim.
     A minha me tambm parecia conhecer os pais de toda a gente; quando eu travava conhecimento com algum, era frequente que o meu novo amigo se referisse ao facto 
de a sua me gostar de se dar com a minha. Sempre me pareceu um mistrio, pois a mam no tinha vida social. Quase todas as noites e fins-de-semana eram passados 
em casa, na nossa companhia, e almoava sozinha. A propsito, devo esclarecer que os meus pais no tinham amigos comuns, no saam juntos para nada que se parecesse 
uma sada de namorados. Durante os meus anos de crescimento, recordo-me apenas de uma ocasio em que os meus pais foram juntos a uma festa; foi um choque tremendo 
para ns quando eles anunciaram, como se fosse a coisa mais natural, que iam sair  noite. Na altura, eu tinha 13 anos e, logo que eles saram, o Micah, a Dana e 
eu fizemos uma reunio para debater aquele acontecimento extraordinrio. "Vo deixar-nos entregues a ns prprios? O que  que eles estaro a pensar? Somos apenas 
uns midos!". (Aqui estvamos a esquecer-nos de que ficvamos entregues a ns prprios todos os dias... mas quem  que recorre  lgica quando est cheio de pena 
de si mesmo?)
     Assim sendo, como  que as pessoas a conheciam? Verifiquei que muitos dos pais dos meus novos amigos eram atendidos pela mam no consultrio do optometrista 
e costumavam conversar com ela. Mas no se tratava apenas de conversa para passar o tempo; a mam tinha um jeito especial de levar as pessoas a abrirem-se com ela. 
As pessoas contavam-lhe tudo, era um verdadeiro orculo de Fair Oaks e, uma vez por outra, quando eu mencionava um novo amigo, ela abanaria a cabea e diria algo 
do gnero: "Ele pode c vir, mas tu no podes ir a casa dele. Eu sei o que se passa naquela casa."
     No entanto, para mim a mam era e ser sempre um enigma. Embora soubesse que me amava, no conseguia encontrar explicao para o facto de ela no reconhecer 
os meus xitos. Embora os filhos fossem a sua razo de viver, deixava-nos  solta em lugares perigosos, empenhados em brincadeiras perigosas. Estas inconsistncias 
sempre foram um enigma para mim e, mesmo agora, no consigo explic-las muito bem. Desisti, desde h muito, de perceber as suas motivaes; no entanto, a haver um 
fio condutor na maneira como nos criou, esse foi a sua recusa em permitir que qualquer de ns se apiedasse de si prprio. Conseguiu-o graas a um estilo insano de 
argumentao, em que os trs princpios seguintes eram repetidos em diversas sequncias:
     A. A vida  tua + um comentrio de carcter social.
     B. O que se deseja e o que se consegue obter so quase sempre duas coisas inteiramente distintas.
     C. Nunca foi dito que a vida  justa.
     A ttulo de exemplo, vejamos uma discusso entre mim e ela, tinha eu 11 anos:
     - Quero inscrever-me na equipa de futebol - anunciei. - Vai haver um campeonato e todos os meus amigos vo jogar.
     - A vida  tua - respondeu. - Mas no quero ser responsvel por andares de muletas durante toda a vida por teres destroado um joelho em criana. E, alm do 
mais, no temos dinheiro para isso.
     - Mas eu quero.
     - O que se deseja e o que se consegue obter so quase sempre duas coisas inteiramente distintas.
     - No  justo. Est sempre a dizer isso.
     Encolheu os ombros:
     - Nunca foi dito que a vida  justa.
     Fiz uma pausa para tentar nova abordagem.
     - No me vou magoar, se  isso que a preocupa.
     Mediu-me dos ps  cabea:
     - Com a tua estatura? Vais magoar-te, de certeza. Eu conheo os jogadores de futebol. Para eles, no sers mais do que uma mosca no pra-brisas. s demasiado 
pequeno.
     Naquilo tinha razo. Eu era pequeno.
     - Bem gostaria de ser mais alto. Como os meus amigos.
     Acariciou-me o ombro com uma mo consoladora:
     - Oh, meu amor, nunca foi dito que a vida  justa.
     - Eu sei. Mas, mesmo assim...
     - S quero que te lembres do que te digo, est bem? - acrescentou, numa voz suavizada pela afeio maternal: - Mais tarde, sempre que te sentires desapontado 
com qualquer coisa, o que eu digo vai ajudar-te. O que se deseja e aquilo que se consegue obter so quase sempre duas coisas inteiramente distintas.
     - Talvez tenha razo. Talvez eu deva tentar outro desporto.
     A mam presenteou-me com um sorriso terno, como se finalmente tivesse sido convencida:
     - Olha, faz como quiseres. A vida  tua.
     Quanto mais velho, mais odiava aquelas discusses, porque perdia sempre. No entanto, l no fundo, nunca conseguia ultrapassar o sentimento de que, provavelmente, 
a mam tinha razo. Afinal, ela estava a transmitir-me o que a experincia lhe ensinara.
     
CAPTULO NOVE
     Ilha de Pscoa, Chile 29 e 30 de Janeiro
     
     A ilha de Pscoa apareceu lentamente no campo de viso da janela do avio, um cenrio remoto e extico que serviu para sublinhar ainda mais o facto de estarmos 
to afastados da nossa paisagem habitual.
     Como a maioria das ilhas do Pacfico Sul, a ilha de Pscoa foi colonizada pelos Polinsios. No entanto, por estar to afastada do resto da Polinsia habitada 
- situada a 3500 quilmetros da costa do Chile,  a mais remota ilha habitada do mundo - os primitivos povoadores deram origem a uma cultura prpria, onde se inclui 
a escultura das esttuas gigantes conhecidas por Moai.
     De todos os lugares mencionados na brochura original, a ilha de Pscoa era para mim o mais intrigante. Tinha-me informado acerca dos Moai e, desde os meus tempos 
de menino, desejava ver as esttuas. Por se tratar de um lugar to remoto, compreendi que aquela excurso poderia ser a nica oportunidade de alguma vez vir a pr 
os ps na ilha. Estiquei o pescoo, a olhar pela janela, enquanto o avio descrevia uma curva larga, a preparar-se para a aterragem.
     O que me impressionou de imediato foi a escassez de rvores. Suponho que tinha imaginado a ilha coberta de palmeiras e de floresta virgem to tpicas do Sul 
do Pacfico, mas, em vez disso, a maior parte da ilha era coberta de prados, como se uma parte do Kansas tivesse sido largada no meio do oceano. Mais adiante, iramos 
saber, atravs dos arquelogos, que a ausncia de rvores explica em parte a histria cultural da ilha de Pscoa; porm,  primeira vista, s me recordo de quo 
estranha a paisagem me pareceu.
     Outro pormenor interessante acerca da ilha de Pscoa  o fuso horrio onde se situa. Como vovamos para ocidente, amos atravessar fusos horrios e perder um 
dia no nosso caminho para a Austrlia, mas isso tambm nos permitia aumentar a durao dos dias. Se partssemos s dez horas, por exemplo, e vossemos durante cinco 
horas, chegaramos ao nosso destino apenas trs horas depois da partida, medidas pelo tempo local. Mas como a ilha pertence ao Chile, usa a hora da costa oriental 
dos Estados Unidos (a mesma hora de Nova Iorque e Miami, embora esteja situada a oeste da Califrnia); fomos informados de que o Sol no se poria antes das 22h45.
     O jantar foi servido ao ar livre; depois, alguns dos excursionistas foram at  beira-mar e instalaram-se em cima de uma escarpa a ver o Sol afundar-se no oceano. 
As ondas esmagavam-se com violncia contra as rochas, formando colunas de gua que subiam a mais de quinze metros. Para ocidente, o cu ficou rubro e cor-de-rosa, 
antes de se colorir com o vermelho mais vivo que eu alguma vez tinha visto. A seguir, desceu sobre ns uma escurido impenetrvel.
     O Micah e eu estvamos sentados lado a lado, a observar tudo, quando ele se virou para mim.
     - Julgo saber qual  o teu problema - afirmou.
     - Qual problema?
     - O motivo de andares constantemente sob stress.
     - Porque  que continuas a falar do mesmo assunto? Estou aqui, a gozar o meu primeiro pr-do-sol do Sul do Pacfico e tu insistes com as tuas anlises psicolgicas?
     - O teu problema - continuou, sem ligar  minha resposta -  que precisas de mais amigos.
     - Eu tenho amigos. Tenho uma quantidade de amigos.
     - Homens?
     - Sim.
     - Mas fazes alguma coisa com eles? Sais com eles? Vais  pesca, andas de barco com eles?
     - As vezes.
     - As vezes, ou raramente?
     Hesitei.
     - Ora bem, no convivemos muito.  que no posso. Se quisesse ter tempo para passar com os amigos, teria de passar menos tempo com a famlia. Tenho demasiados 
filhos para poder pensar nisso. Alm disso, a maioria dos meus amigos tambm tem filhos. No sou s eu a no ter muito tempo para andar na pardia.
     - Mas devias ter. Para andar na pardia. Nem sempre,  claro, mas devias tentar faz-lo com maior frequncia. Como eu fao. Passei a fazer parte de uma equipa 
de futebol de salo e jogamos todas as quintas-feiras. Somos apenas um grupo de amigos que procura divertir-se. Devias fazer algo de semelhante.
     - No temos nenhum campeonato de futebol de salo. Vivo numa pequena cidade, recordas-te?
     - No tem de ser futebol. Podes fazer qualquer outra coisa. O que importa  que devias fazer qualquer coisa. As relaes humanas so o mais importante da vida 
e os amigos so parte integrante delas.
     Sorri.
     - Por que  que tenho a impresso de que tu pensas que a soluo de
     todos os meus problemas  parecer-me mais contigo?
     - Hum!, se a carapua te serve.
     Encolheu os ombros e eu soltei uma gargalhada.
     - Continuas a pensar que tens de tomar conta de mim, no ?
     - S quando me conveno de que necessitas de ajuda, maninho.
     - E se eu comeasse a falar-te de Deus, por pensar que essa conversa te seria til?
     - Avana - respondeu. - Sou todo ouvidos.
     Acima de mim, o cu cintilava de estrelas agrupadas em constelaes que eu no reconhecia e as palavras brotaram quase sem que desse por isso.
     - "Deus  fiel, o qual no permitir que vs sejais tentados mais do que podem as vossas foras, antes far que tireis ainda vantagem da mesma tentao, para 
a poderdes suportar."
     Ele olhou para mim. A despeito da escurido, vi-o franzir o sobrolho.
     - "Primeira Epstola aos Corintios" - informei. - Captulo 10.
     - Impressionante.
     Encolhi os ombros.
     - Sempre gostei deste versculo. Recorda-me a histria das pegadas, tu sabes, aquela em que Deus caminha pela praia na companhia de um homem. As cenas da vida 
do homem projectam-se no cu e, durante a projeco dos transes mais dolorosos da vida do homem, este v apenas um conjunto de pegadas. No por Deus o ter abandonado 
quando o homem precisava... mas por Deus estar a carregar o homem s costas.
     O Micah manteve-se uns momentos calado.
     - Assim, s de opinio que Ele no nos abandonou?
     - Sou. E no penso que Ele queira que tu o abandones.
     Na manh seguinte, partimos para ir ver a primeira das esttuas gigantes conhecidas como Moai, que se encontrava a poucos minutos de caminho do hotel, mesmo 
junto  costa. Se soubssemos para onde olhar, poderamos t-la visto da janela do hotel.
     Enquanto rodvamos nas carrinhas com os arquelogos que ganhavam a vida a estud-las, fomos informados de que em tempos houvera umas catorze tribos na ilha, 
cada uma com o seu chefe. Foram esses lderes que ordenaram a escultura das esttuas a partir da rocha vulcnica - na sua maioria, eram feitas de modo a parecerem-se 
com os chefes - e, no decorrer do tempo, as esttuas foram sendo cada vez maiores, com cada um dos chefes a tentar impressionar o povo com a sua prpria importncia. 
Algumas das Moai pesam trinta toneladas e tm mais de doze metros de altura; uma esttua inacabada mede vinte metros e estima-se que pese quase cinquenta toneladas.
     Mais tarde, fomos informados dos motivos da inexistncia de rvores.
     Quando foi colonizada, a ilha de Pscoa parecia-se com outras ilhas do Pacfico, mas com o aumento da populao as rvores tornaram-se o mais utilizado de todos 
os recursos naturais. Foram usadas na construo de casas e como combustvel para cozinhar; as rvores maiores foram utilizadas para deslocar as Moai. Durante as 
migraes polinsias do passado, quando uma ilha tinha excesso de populao, as pessoas metiam-se nas suas canoas e partiam em busca de novos territrios; como a 
ilha de Pscoa estava to isolada, a partir dali no havia para onde ir. Habitantes em excesso e uso desordenado dos recursos naturais levaram  ecloso de guerras 
civis, que continuaram durante geraes. Durante todo o processo, as rvores continuaram a ser derrubadas. No final, a maioria delas tinha desaparecido e as populaes 
tiveram de queimar tudo o que puderam, incluindo as casas e as canoas, para continuarem a cozinhar. A pesca  beira-mar tornou-se a nica fonte de alimento, mas 
suspeita-se que "La Nia" tenha arrefecido as guas  volta da ilha. Durou dois anos, matando boa parte da fauna dos recifes e o peixe tornou-se menos abundante. 
Os habitantes acabaram por recorrer ao canibalismo.
     Com o tempo, nasceram algumas palmeiras mas, para acelerar o processo de florestao, foram importadas palmeiras adultas da ilha de Tahiti. Aconteceu, porm, 
que tais rvores estavam doentes e secaram todas, acabando por contaminar e matar a maior parte das palmeiras que ainda havia na ilha. Actualmente, h uns poucos 
lugares onde ainda florescem.
     A primeira esttua que vimos deixou-nos fascinados. O que tambm aconteceu com a segunda e a terceira. Quando chegmos junto da quarta e da quinta, a sensao 
de novidade comeou a desvanecer-se. Embora os arquelogos locais assegurassem que cada uma era diferente, para os meus olhos pouco treinados todas pareciam praticamente 
iguais: buracos dos olhos, grandes orelhas, narizes e bocas, tudo esculpido em lava.
     A seguir visitmos a pedreira vulcnica, onde foram esculpidas. Para l chegar  preciso atravessar a ilha, pelo que a distncia a que as esttuas foram transportadas 
acabou por se revelar ainda mais impressionante do que as prprias esttuas. Enquanto rodvamos, tentei imaginar quantas pessoas teriam sido necessrias para mover 
uma s esttua; deveriam ser s centenas.
     Durante a deslocao at  pedreira onde as esttuas Moai foram esculpidas vimos, de cada lado da estrada, prados abertos e luxuriantes. E vimos tambm manadas 
de cavalos de aspecto selvagem.
     Na ilha de Pscoa, os cavalos eram smbolos de prosperidade. Foram importados em finais do sculo XIX; porm, dado o isolamento da ilha, a importao de raes 
atingia preos proibitivos. Os donos deixaram os cavalos  solta, para que eles pudessem alimentar-se nos prados naturais. Os animais que vimos tinham msculos flexveis 
e as crinas brilhavam ao sol, o que levou o Micah a tirar-lhes uma fotografia.
     O vulco ergue-se a mais de 400 metros de altura;  volta da base o solo est pejado de esttuas abandonadas. Algumas esto de lado, outras meio sepultadas 
ao longo de um caminho que leva ao outro lado da ilha. Na pedreira propriamente dita, h outras que foram abandonadas em vrias fases de acabamento. Uma vez mais, 
no conseguimos respostas sobre o motivo; especulou-se com as guerras mas, como aconteceu em muitos dos lugares onde fomos, no se sabe ao certo. Ali, para todos 
os efeitos parecia que os trabalhadores tinham acabado a sua jornada e que tinham a inteno de voltar no dia seguinte.
     Para se chegar ao cume do vulco  preciso percorrer um carreiro sinuoso e cerca de um tero das pessoas do nosso grupo conseguiram l chegar. L de cima,  
possvel observar a curvatura da Terra; o Micah e eu fomos os primeiros a chegar. Sob um cu azul e sem nuvens, com uma temperatura na casa dos 2O graus, o passeio 
foi agradvel. Nada  nossa volta, a no ser a extenso do mar sem fim; tentei imaginar como os primeiros polinsios tinham conseguido sobreviver na imensidade do 
Pacfico durante o tempo que levaram
     at descobrir a ilha.
     Tirmos fotografias no cimo do vulco e depois sentmo-nos numa rocha cortada a pique. Enquanto descansvamos, o Micah pegou na fotografia que tinha tirado 
 manada de cavalos e ficou a olhar para ela.
     - A mam adoraria esta - observou. - Teria desejado emoldur-la.
     - Sem dvida - respondi. - E a Dana tambm.
     - Recordas-te de quando tivemos aquelas lies de hipismo?
     - Na verdade, no. Tu e a Dana  que tiveram essas lies, recordas-te?
     - Sim, mas porque  que no foste connosco?
     - Porque no havia dinheiro suficiente e vocs os dois estavam
     mais entusiasmados com a ideia do que eu.
     Micah ps o brao  volta dos meus ombros.
     - O infeliz irmo do meio. Sempre com a sensao de ser posto de lado.
     - No me sentia posto de lado. Eu era posto de lado.
     - No, no eras. A mam e o pap sempre tiveram orgulho em ti. Costumavam dizer-me que eu tinha de conseguir fazer melhor na escola, ser como tu.
     - Foi por isso que tiraram o boletim das minhas notas da porta do frigorfico, no foi?
     - No fizeram nada disso.
     - Sim, fizeram.
     - A srio?
     - A srio.
     - No me recordo disso.
     - No tens um motivo para te recordares.
     Riu-se.
     - A maneira como a memria funciona  engraada, no ? Recordamos coisas diferentes, especialmente as que nos atemorizaram, o gnero de eventos de que as pessoas 
falam quando se deitam no sof e conversam com o psicanalista. Lembro-me de um Natal em que pedi uma alta-fidelidade e uns auscultadores. No queria uma das grandes, 
apenas um aparelho que pusesse no meu quarto. Devia ter uns 12 anos e implorei que me dessem aquilo. Devo ter andado a perseguir a mam durante meses e, na manh 
do Dia de Natal, recordo que me levantei e fui ver: l estavam, debaixo da rvore, os auscultadores e o aparelho. Havia um bilhete que dizia "para o Micah". Fiquei 
to excitado. Era o melhor presente que recebera at ento. A mam apareceu e quando principiava a agradecer-lhe ela comeou a dizer: no, no, no. "S os auscultadores 
 que so teus. A alta-fidelidade  para toda a famlia". Fiquei destroado, era a nica coisa que eu queria. Alm disso, sem a alta-fidelidade, para que servem 
uns auscultadores?  como ter s um sapato.
     - Por vezes, os nossos pais eram malucos, no eram?
     - Por vezes? Sim. Pode dizer-se que sim.
     Fiquei sentado durante uns momentos, em silncio e a reflectir sobre o passado. Pouco a pouco, as pessoas comearam a abandonar o cume do vulco; a excurso 
tinha um horrio a cumprir.
     - Anda da - acabei por dizer. - Vamos embora. Ainda temos de ver mais algumas esttuas.
     Quando olhei para o Micah, achei-o estranhamente contemplativo. Percebi que, de sbito, tambm ele comeara a reflectir sobre o passado. Tinha os olhos postos 
no horizonte e contrariou-me, na sua voz calma:
     - No. Ficamos aqui mais uns minutos. Depois, vamos.
     Fixei os olhos na direco do horizonte, seguindo o olhar do meu irmo.
     - Como queiras.
     Depois de descermos o monte do vulco, dirigimo-nos ao local mais fotografado da ilha de Pscoa.
     Gigantescas esttuas Moai, umas vinte, encontram-se alinhadas ao longo da orla costeira. Todas tinham sido derrubadas e algumas reduzidas a p, num processo 
que durou at h poucos anos. Os arquelogos que nos acompanhavam como guias tinham ajudado a repar-las e tambm a recoloc-las na posio erecta.
     Aquelas eram, pensei, as esttuas que Jakob Roggeveen, um almirante holands, deve ter visto quando se tornou o primeiro europeu a avistar a ilha, na vspera 
do domingo de Pscoa de 1722. Segundo a lenda, o almirante comeou por pensar que a ilha era habitada por gigantes. S quando se aproximou da praia  que se apercebeu 
da presena de homens de estatura normal a trabalhar entre as esttuas.
     Contudo, as esttuas nunca foram completamente restauradas. Segundo nos disseram, na altura em que foram esculpidas todas as esttuas receberam olhos. Esculpidos 
em madeira, foram pintados e tinham pupilas, mas acabaram por se degradar e ficaram apenas os buracos que do s esttuas aquele aspecto espectral.
     - Quem sabe se no voltaro a colocar-lhes os olhos? - perguntou o Micah. - Puseram-nas de p, por isso no devemos concluir que acham que as esttuas no devem 
ser perturbadas.
     - No fao ideia. Talvez pensem que os turistas poderiam enervar-se.
     Ele encarou as esttuas.
     - No me enervaria mesmo nada.
     - Nem eu.
     Fez uma pausa.
     - Penso que os olhos lhes dariam melhor aspecto.
     - Tambm eu.
     - Talvez devssemos iniciar um movimento. Podamos chamar-lhe "Olhos Para as Esttuas".
     - Soa bem. Avana!
     Mas ele continuou a olhar:
     - A verdade  que penso que ficariam melhor, no achas?
     Ao lado do Micah, apercebi-me de que em certas alturas falvamos
     um para o outro no por termos algo de importante a comunicar, mas
     simplesmente por cada um de ns gostar de ouvir a voz do outro.
     
     Depois de tirarmos fotografias, voltmos s carrinhas e seguimos para Anakena, uma enseada com uma praia de areia branca que ostenta um dos poucos palmeirais 
ainda existentes na ilha. Pela primeira vez, vimos uma parte da ilha com aparncia tropical; um antigo Moai parecia estar de guarda  entrada da praia, para observar 
os banhistas.
     Depois de um churrasco na praia, o Micah, eu e mais algumas pessoas fomos dar um mergulho. Por aquela altura, o nosso grupo comeava a ser formado por vrias 
cliques. Havia os aventureiros que pretendiam experimentar tudo; outros pareciam encarar as visitas como inconvenincias que tinham de suportar nos intervalos entre 
as refeies e as festas. Algumas das posies tinham a ver com a idade, outras eram reflexo da maneira de ser das pessoas. O Micah e eu alinhvamos no grupo dos 
aventureiros; preferamos os passeios de "passada larga" aos passeios de "passada curta", pelo que a oportunidade de mergulhar no Pacfico era algo que nunca perderamos. 
Embora de somenos importncia, seria outro numa longa lista de eventos em que, juntos, tomaramos parte, "pela primeira vez".
     - Eles nem fazem ideia do que perdem, pois no? - observou o
     Micah, a dirigir-se a mim e a apontar para os que tinham ficado sentados na praia.
     -  provvel que no seja importante para eles. Muitas destas pessoas j fizeram viagens deste gnero.
     -  provvel - admitiu. - Mas tambm pode acontecer que nunca as tenham feito. Algumas pessoas no sabem, pura e simplesmente, como devem divertir-se. Nem querem 
saber.
     Subitamente alerta, olhei para o Micah, a tentar descobrir se ele estaria a referir-se a mim.
     
     No stimo ano, o Micah foi para a Barrett Junior High School e continumos a crescer separados. A minha irm e eu, pelo contrrio, ramos cada vez mais chegados. 
A Dana estava sempre a rir-se e tinha um feitio to amoroso que quase me fazia sentir culpado de eu ser como era. Raramente se zangava e por vezes ouvia-a contar 
 me o quanto se sentia orgulhosa de ns. Para ela, o Micah e eu ramos incapazes de fazer mal e, sempre que ramos postos de castigo, a nossa irm seria a primeira 
a ir ao quarto para ouvir as nossas queixas acerca da injustia que os nossos pais tinham cometido ao castigarem-nos.
     A minha irm parecia saber sempre o que me ia na alma; era a nica pessoa a perceber que a procura da excelncia na escola tinha mais a ver com o meu complexo 
de inferioridade do que com qualquer amor especial pelo estudo. Por vezes pedia-me que a ajudasse nos trabalhos escolares e usava essas oportunidades para aumentar 
o meu nvel de autoconfiana.
     - Gostaria de ser inteligente como tu - costumava dizer, ou: - A mam e o pap esto to satisfeitos com as tuas notas.
     Ao crescer, a Dana foi a nica com direito a festa de aniversrio porque, como a mam dizia, "era rapariga". O que no teria nada de insuportvel - nem o Micah 
nem eu alguma vez pedimos uma festa de anos - mas, como eu e a minha irm fazamos anos no mesmo dia, sempre achei estranho que fizessem uma festa s para ela, enquanto 
eu era deixado de fora. Contudo, se a minha me no conseguia perceber uma coisa to simples, a Dana percebia e, em cada ano, ia ao meu quarto na manh do nosso 
aniversrio e sentava-se na borda da minha cama. Desperto com o afundar do colcho, perguntava-lhe o que estava a fazer ali.
     E ela comeava a cantar: - Parabns a voc...
     A seguir, era eu quem cantava para ela; durante anos, aquele foi o nosso ritual secreto. Cantvamos um para o outro, s ns os dois, e nunca ningum soube de 
nada. Era o nosso segredo, continuaria a s-lo por muitos anos, e depois de cantarmos um para o outro, ficvamos a falar durante um bocado. Contava-lhe tudo: esperanas 
e medos, lutas e xitos; e a Dana fazia o mesmo comigo.
     Quando ela tinha doze anos, perguntei-lhe.
     - O que  que queres ser quando fores crescida? O que  que mais
     desejas na vida?
     Com um sorriso sonhador, a minha irm olhou  volta do quarto.
     - Quero casar e quero ter filhos. E desejo ter cavalos.
     Um desejo que herdara da me. Mais do que tudo o que existia no
     mundo, a mam sempre desejou ser dona de um cavalo. Ao crescer,
     tivera um cavalo chamado Tempo e muitas vezes falava do animal e dos
     seus maravilhosos passeios que dera com ele.
     - S isso? - perguntei.
     - S isso.  tudo o que desejo da vida.
     - No desejas ser rica ou famosa, nem fazer coisas excitantes?
     - No. Isso fica para ti e para o Micah.
     - Mas no vais aborrecer-te com essa vida?
     Respondeu-me com toda a convico:
     - No. No vou aborrecer-me.
     Soube ento que a minha irm no era um emaranhado complicado
     de nervos como eu. Quando ela saiu do quarto percebi que, a no
     poder ser como o Micah, gostaria de ser como ela.
     
     No ano seguinte, quando entrei na Barrett Junior High School, passei a viajar no autocarro com o Micah, mas nunca nos sentvamos juntos, nem sequer falvamos. 
Os do oitavo ano ocupavam um territrio totalmente distinto do dos caloiros do stimo. Eram os "grandes homens" da escola e os nossos caminhos raramente se cruzavam, 
quer nos corredores quer nos intervalos. Depois da escola, e tambm nos fins-de-semana, o Micah corria para junto dos seus amigos, enquanto eu ficava a competir 
em diversas provas de atletismo. Era bom atleta, nada de extraordinrio, e no consegui grandes distines, nem nos campos de futebol nem nas pistas de atletismo.
     No ano seguinte, o Micah entrou no curso secundrio e passmos a andar separados, durante o perodo das aulas e depois da sada da escola. Chegado quele ponto 
j me habituara a ser independente.
     A meio do meu oitavo ano escolar, em 1978, houve nova mudana da famlia, desta vez para a nica casa de que os meus pais foram proprietrios.
     Ns prprios fizemos a mudana. Quem  que precisa de pagar a uma empresa de mudanas quando dispe de um par de rapazes fortes e de uma carrinha Volkswagen? 
Assim, dia aps dia, carregmos toda a moblia na parte de trs da carrinha e descarregmo-la na casa nova.
     Mas as carrinhas Volkswagen no foram concebidas para cargas
     excepcionalmente pesadas e nem eu nem o meu irmo nos preocupvamos muito com o que metamos dentro da nossa. Podamos encher toda a parte traseira com os livros 
do pap, at no haver um centmetro disponvel. Talvez pesassem meia tonelada, o que obrigava a traseira da carrinha a ir demasiado baixa. Entretanto, o nariz do 
veculo apontava para cima, como algum que olhasse um horizonte distante.
     - Mam, j carregmos tudo.
     A mam ficou a olhar para a carrinha.
     - D a ideia de que est empenada. Parece que um dos pneus no
     tarda a rebentar.
     -  por causa do peso na traseira. Endireita-se logo que a descarregarmos.
     - Achas que se pode conduzir com segurana? - perguntou a mam. Para qu perguntar-nos, como  que poderamos saber? Nem o Micah nem eu tnhamos carta de conduo.
     -  claro que pode. Por que no havia de poder?
     A boa notcia foi que a carrinha conseguiu chegar  casa nova. A m notcia foi que, mesmo depois de descarregada, a carrinha no voltou a endireitar-se. Nunca 
mais. Tnhamos destrudo quaisquer apoios da parte traseira.
     - A frente ainda est a apontar para cima, ou  apenas impresso minha?
     - Talvez no estejamos a olhar do ngulo correcto. Pode ser que o piso no seja direito.
     Inclinmos as cabeas, inspeccionmos toda a carrinha, verificmos o nivelamento da rua.
     - Julgo que partimos qualquer coisa - acabou por admitir a mam.
     - Nada disso - respondemos -, est tudo bem, s precisa de
     algum tempo para voltar ao normal.
     - O vosso pai vai ficar furioso.
     - Nem vai dar por nada - assegurmos. - Mas, mesmo que
     veja, no nos preocupa.
      claro que o pap viu e a contagem decrescente do estado de alerta comeou logo que ele chegou a casa, embora tivssemos sido suficientemente espertos e j 
estivssemos longe. Graas a Deus, quando voltmos a casa, ele j estava calmo, pois a carrinha parecia andar bem, apesar daquele aspecto esquisito. E, se andava 
bem, isso queria dizer que no havia motivo para a mandar reparar. A reparao exigia o gasto de dinheiro que no tnhamos. Assim, a carrinha nunca foi reparada 
e rodou durante mais trs anos, at ser trocada por um novo modelo, bastante melhorado, da Volkswagen. Durante esse tempo percorremos a cidade com ela, mais parecendo 
que estvamos a transportar baleias bebs para o jardim zoolgico.
     A nova casa era pequena. Tinha um s piso e uma garagem adaptada, quatro quartos, escritrio, sala e cozinha. Duas das divises (o escritrio e o quarto principal) 
tinham sido adaptados de parte da garagem. Tratava-se de uma construo com vinte e cinco anos, a precisar de reparaes urgentes. Mesmo com a converso de parte 
da garagem, ocupava menos de 120 metros quadrados.
     Contudo, para ns era enorme. Cada um - o Micah, a Dana e eu - passou a ter o seu prprio quarto e a poder decor-lo  sua maneira. A mam sentira um tremendo 
orgulho por, finalmente, habitar uma casa a que podia chamar sua e iria passar os anos seguintes em consertos e a marcar aquele lugar com alguns dos traos da sua 
personalidade. Havia dezasseis paredes, cada uma pintada de cor diferente; a mam mudava a cor das paredes mais vezes do que a maioria das pessoas muda de escova 
de dentes; todos os fins-de-semana, antes de podermos ir brincar, o Micah e eu tnhamos de terminar a "lista" de tarefas que a mam destinara a cada um de ns. Passvamos 
as manhs de sbado a construir vedaes, a pintar paredes, uma e outra vez, a plantar rvores e arbustos, a limpar os armrios da cozinha e a executar todos os 
trabalhos de que se lembrava que tnhamos de fazer enquanto ela estava no emprego.
     Como a famlia dispunha de pouco dinheiro para gastos daquele tipo, o processo foi moroso. Para construir a vedao, por exemplo, a mam teve de comprar doze 
tbuas por semana, o mximo que podia gastar. Levou cerca de cinco meses a acumular toda a madeira necessria para a construo da sebe mas, graas a Deus, o trabalho 
era grtis;
     pelo menos essa era a opinio dela. O Micah e eu, certamente para
     aproveitar a experincia que havamos adquirido em Nebraska, fomos encarregados de construir a vedao; e construmo-la. Acabou por ser notoriamente desigual 
em altura, seguia os desnveis do terreno em vez de ser alinhada pelos topos, o que ficou a dever-se  nossa convico de que a mam deveria ter pensado no assunto 
antes de nos entregar o trabalho.
     Partindo do princpio de que ns continuaramos a fazer a maior parte dos trabalhos de melhoria da casa, os nossos pais comearam a oferecer-nos ferramentas 
pelo Natal. Era uma maneira de matarem dois coelhos de uma s cajadada. No s recebamos coisas de que no estvamos  espera (como poderia eu estar a contar com 
um martelo como prenda de Natal se no desejava nenhum?), como ainda se poupava dinheiro. Era muito melhor do que voltarem a dar-nos armas. Numa manh de Natal, 
j tarde, sentei-me ao lado do Micah, no sof.
     - O que  que tu pensas do Natal deste ano? - perguntou ele.
     - Foi fantstico, para um carpinteiro - respondi, a apontar para as minhas prendas. - O que  que eu vou fazer com um mao de madeira? Pretendero que eu comece 
a fazer moblias?
     O Micah abanou a cabea e respirou fundo.
     - Pois, sei o que queres dizer. Mas, ao menos, deram-te um monte de ferramentas. Eu recebi um serrote. A mam pretender que eu use aquilo para fazer o qu? 
Por amor de Deus, eu queria um par de Levi's.
     Ficmos sentados, em silncio.
     - Os nossos pais so esquisitos, no achas? - perguntei.
     O Micah no respondeu. Quando me voltei para ele, vi-o de olhos
     fixos no serrote.
     - O que ?
     Abanou a cabea, de cenho franzido.
     - Nada, na verdade. Aqui na caixa diz que esta coisa pode serrar
     madeiras duras, como carvalho.
     - E ento?
     - No meu quarto no h madeira de carvalho?
     - Acho que sim.
     Ficou a reflectir no assunto.
     - E estarias de acordo se eu dissesse que os nossos pais so um pouco violentos?
     - Absolutamente - concordei. - Parecem guardas do Gulag.
     Piscou os olhos, como se, de sbito, lhe tivesse aparecido um marciano.
     - Nick, de que  que tu ests a falar?
     - No interessa.
     - Sabes, por vezes tambm s esquisito.
     J ouvira aquilo muitas vezes.
     - Eu sei. O que  que ias dizer?
     - Bom, e se tirssemos partido desta ferramenta?
     - Em que  que ests a pensar?
     Debruou-se para mim e sussurrou-me o plano; tive de admitir
     que ele pensara uma coisa em grande. E se bem o disse melhor o fez:
     logo que os nossos pais saram para o trabalho (ns ainda estvamos em frias), o meu irmo usou o serrote para abrir um buraco no fundo do armrio do seu quarto, 
que abria directamente para o espao livre por debaixo da casa. Por conseguinte, depois de nos julgarem na cama, poderamos deslizar para fora de casa, atravs do 
quarto dele, sem que os nossos pais tivessem conhecimento.
     E no deixmos de o fazer.
     Foi por esta altura que a mam decidiu que estava cansada de trabalhar em horrio completo, alm de cozinhar e fazer os restantes trabalhos em casa. O pap 
foi mobilizado para o posto de chefe de cozinha.
     Recordo-me de ter sabido a novidade numa tarde, ao regressar da escola, e fui ingnuo ao ponto de acreditar que o meu pai estava entusiasmado com a soluo. 
Informou-nos que iria cozinhar uma das suas receitas preferidas, um prato que costumava comer quando era criana. Proibiu-nos a entrada na cozinha, para no podermos 
ver o que ele estava a preparar.
     -  uma surpresa.
     Nem o Micah, nem a Dana, nem eu sabamos o que pensar. A nica comida que vira o pap preparar sozinho fora um prato de moelas de galinha. Nada de asas, de 
pernas ou de peitos, apenas moelas. O pap adorava aquelas coisas. Fritava um monto delas e, embora acabssemos por gostar do prato, era bvio que as moelas no 
entravam no menu daquela noite.
     Fritar moelas, ou fritar outra coisa qualquer, enchia a cozinha de um odor agradvel. Mas s nos cheirava a queimado, a algo esturrado, como se tivesse cado 
no lume e, mais do que uma vez, ouvi o pap praguejar e correr a abrir o postigo das traseiras, para que o fumo da cozinha se dissipasse. Depois, abrindo uma fresta 
da porta da sala, dizia: "Vocs vo adorar este prato!", ou "Cozinhar para vs vai ser fantstico! Ardo em desejos de partilhar as receitas com os meus filhos! J 
comeo a tomar o gosto a isto! "
     Por fim, depois de proferir mais trs ou quatro pragas, chamou-nos para a mesa. A mam ainda no tinha regressado do trabalho e ocupmos os nossos lugares. 
O pap tirou a comida do fogo e p-la diante de ns.
     Havia duas coisas. Um prato de tostas e... e...
     Olhmos mais de perto, mas continumos na mesma. Estava num tacho, o que quer que fosse. Qualquer coisa cinzenta, castanha e grumosa, como molho de carne, com 
bocados de gordura preta. A colher estava pousada no lquido que solidificava lentamente.
     Talvez tenha ficado um bocadinho queimado, mas deve estar ptimo. Comam.
     Ningum se mexeu.
     - Pap, o que  isto? - acabou por perguntar a Dana.
     - Feijes - foi a resposta. - Cozinhei-os segundo uma receita secreta.
     Voltmos a olhar para o tacho. No se parecia nada com feijes. E tampouco o cheiro era prprio dos feijes. O cheiro era quase... no natural. Fazia lembrar 
qualquer coisa que o co tivesse comido, algo parcialmente digerido e voltado a servir. Mas, muito bem, feijes e tostas e...
     - Qual  o prato principal? - perguntei.
     - O que  que pretendes dizer?
     - Um hambrguer? Ou galinha?
     - No  necessrio. No com este prato.
     - Que prato  este? - indagou Micah.
     - Feijes em tosta - respondeu o pap, impante de orgulho.
     - A mam nunca vos fez este prato, pois no?
     Olhmos uns para os outros e abanmos as cabeas. O pap estendeu a mo para o tacho.
     - Quem vai ser o primeiro?
     Nem eu nem o Micah mexemos um msculo. Finalmente, a Dana
     aclarou a garganta.
     - Comeo eu, pap.
     Os olhos dele brilharam. Colocou uma tosta no prato dela e comeou a tirar a comida do tacho. Era espessa e dura, o pap tinha de fazer fora com a colher. 
O cheiro foi-se tornando ainda pior com o remexer da substncia. Vi o pap torcer o nariz.
     - Como j disse, talvez tenha ficado um pouco queimado - esclareceu. - Mas deve estar ptimo. Experimentem.
     - O pap tambm vai comer? - perguntou Dana.
     - No, comam os trs. Eu fico a ver. Os meus filhos ainda esto a crescer e necessitam de muita energia. Micah?
     O pap voltou a mergulhar a colher no tacho, a sorrir enquanto mexia os feijes, como se estivesse a tentar partir um bloco de gelado.
     - No, obrigado. Combinei jantar em casa do Mark. No quero perder o apetite.
     - Por que no me avisaste?
     - Acho que me esqueci. Mas,  verdade, so horas de me preparar.
     H dez minutos que deveria l estar.
     Levantou-se rapidamente e desapareceu.
     - Muito bem. Come tu, Nick!
     - Ah, sim - murmurei, a erguer o prato. Coloquei um pedao de tosta no prato; a substncia gordurosa de feijes queimados caiu em cima da tosta como se fosse 
uma bola de basebol, esteve quase a rolar e a cair em cima da mesa.
     - Espalha-a um pouco - sugeriu o pap. - Fica melhor.
     A minha irm e eu comemos a picar a comida, a tentar espalh-la pelo prato, sem o conseguirmos e aterrados com a ideia de que amos comer aquilo. Porm, no 
momento em que parecia que no poderamos aguentar mais, a mam apareceu  porta da cozinha.
     - Ol, malta! Como  que esto? Que bom ver-vos aqui... - parou, e ficou a cheirar o ar. - Que diabo de pivete  este?
     -  o jantar - esclareceu o meu pai. - Despacha-te. Estamos  tua espera.
     Aproximou-se da mesa, deu uma olhadela  comida e disse:
     - Meus filhos, levem esses pratos para o lava-loua.
     - Mas... - comeou o pap.
     - No h nenhum mas. Vou fazer esparguete. E vocs, meus filhos, no preferem esparguete?
     Concordmos com grandes acenos de cabea e saltmos da mesa.
     - Muito bem. Tirem as mercearias do cesto. Fica pronto em poucos minutos.
     Por qualquer razo, o meu pai no pareceu nada aborrecido. De facto, penso que ele concebeu todo aquele esquema, pois, a partir daquela noite foi proibido de 
cozinhar para ns. E, sempre que a mam protestava por ele no assumir maiores responsabilidades domsticas, o pap poderia sempre responder:
     - Eu tentei. Mas no me deixaste...
     
     Falando na generalidade, na nossa casa a comida tornou-se uma espcie de obsesso. Por no podermos dispor das mesmas iguarias que pareciam ao alcance das outras 
crianas - biscoitos, doces, etc. - desenvolvemos uma mentalidade de alarves, que se manifestava logo que dispnhamos de oportunidade. Por exemplo: se fssemos a 
casa de algum devorvamos tudo o que podamos, comendo at parecermos prestes a rebentar. Para ns, no era nada comermos trinta ou quarenta bolachas de chocolate, 
a seguir umas s outras. Por vezes, deixvamos os nossos amigos nos seus quartos, esgueirvamo-nos para a cozinha, assaltvamos as caixas de bolos e comamos ainda 
mais.
     Acontecia o mesmo sempre que a mam cometia a tolice de comprar qualquer coisa doce. Cereais, por exemplo. Por norma, l em casa havia apenas Cheeraos. Se a 
mam comprava Froot Loops ou 1rix, logo de seguida comamos a embalagem toda. S parvamos quando despejvamos a caixa, no deixvamos nada para a manh seguinte. 
Pensvamos: "Se no como agora, comem os outros, tenho direito ao meu quinho". Comamos at nos doer o estmago. Uma vez, depois de cada um de ns ter comido cinco 
grandes tigelas de Froot Loops em menos de meia hora, o Micah e eu estvamos sentados no sof, de barrigas esticadas.
     - Acho que ainda h o suficiente para encher uma tigela - alvitrou o Micah.
     - Eu sei. Estava agora mesmo a pensar nisso.
     - Devemos deix-la para a Dana?
     - No. De maneira nenhuma. Da ltima vez foi ela quem comeu
     a ltima tigela.
     - Estava a pensar o mesmo. Mas sinto-me to cheio. No consigo comer mais.
     Tentmos instalarmo-nos confortavelmente. Finalmente, o Micah virou-se para mim.
     - Queres dividir? Metade para cada um?
     - Quero.
     O meu pai tambm era guloso. Tinha sempre bolachas de chocolate em casa mas, conhecendo-nos bem, escondia-as no escritrio.
     Por isso, assaltvamos o escritrio,  procura dos doces. Costumvamos encontr-las passados poucos minutos e tirvamos uma ou duas bolachas cada um, de modo 
que ele no desse por falta delas. Mas voltvamos uma segunda ou uma terceira vez, sempre a ajeitarmos as bolachas para que a embalagem no parecesse mexida. Quando 
chegava a hora de o pap regressar do trabalho s restavam umas bolachas partidas.
     A segurar o saco praticamente vazio em frente do nariz, olhava as migalhas, de olhos esbugalhados.
     - Abutres! Os meus filhos so abutres selvagens! - gritava; depois ouvamo-lo a procurar as chaves. Quando as encontrava, metia-se no carro e dirigia-se  loja 
mais prxima para comprar outra embalagem. Do interior do escritrio, ficava a olhar-nos, com olhos maus, durante todo o sero.
     No dia seguinte, recomevamos a busca do saco de doces. E, uma vez encontrado, comamos compulsivamente, at restarem apenas uma ou duas bolachas partidas.
     - Abutres! - voltaramos a ouvi-lo gritar. - So um bando de abutres selvagens!
     
CAPTULO DEZ
     Rarotonga, Ilhas Cook 31 de Janeiro
     
     Na nossa ltima manh na ilha de Pscoa, levantmo-nos cedo e acabmos o pequeno-almoo quando o sol estava a despontar.
     Estar a p de madrugada tinha-se tornado normal na nossa excurso. Por hbito, o pequeno-almoo era s 6h30 e juntvamo-nos no trio antes das oito horas para 
iniciarmos as visitas programadas. Eram precisas duas horas para deslocar o grupo para qualquer lado; com quase noventa pessoas e duas centenas de malas, parecamos 
mais uma caravana de deslocao lenta do que uma fora rpida de ataque. A partida para o avio costumava acontecer por volta das dez horas; por essa altura, j 
estaramos levantados havia cinco horas e ainda no teramos feito coisa que se visse.
     Levantar cedo, jantar tarde, passar longas horas nas visitas e muitas horas de viagem nos sete dias anteriores tinham deixado marcas; na altura da partida da 
ilha de Pscoa, os excursionistas mostravam-se, na sua maioria, cansados. Contudo, havamos percorrido apenas um tero da viagem.
     O voo para Rarotonga, a maior ilha do arquiplago do Sul do Pacfico conhecido como ilhas Cook, demorou sete horas; a voar para ocidente, recupermos algumas 
dessas horas e aterrmos ao princpio da tarde. No havia visitas programadas; em vez disso, tnhamos o resto do dia por nossa conta e partamos na manh seguinte 
para a Austrlia. A paragem em Rarotonga serviu para dividir ao meio o voo de catorze horas entre a ilha de Pscoa e Ayers Rock.
     Rarotonga estava enevoada quando samos do avio e sentimos mais calor do que havamos sentido na ilha de Pscoa. Era um dia normal na una: ceu azul cheio de 
nuvens vaporosas que anunciavam chuva para a tarde, alto nvel de humidade e uma brisa suave, mas constante. Em si, a ilha  bonita; a estrada principal circula 
 volta da ilha e vemos os picos centrais envoltos em nuvens e cobertos de vegetao densa. Tal como a ilha de Pscoa, foi originalmente colonizada por povos polinsios, 
mas talvez seja mais famosa por causa do capito Bligh e dos revoltosos do navio Bounty que ficaram isolados na ilha em finais do sculo XVIII.
     O grupo dispersou-se depois da chegada ao hotel. Alguns foram almoar, outros foram para os quartos dormir um pouco. Mas tambm houve quem fosse at  praia 
e quem se instalasse  volta da piscina; poucos se decidiram pelo mergulho. O Micah e eu decidimos alugar motoretas e fomos dar uma volta pela ilha.
     A ilha tem cerca de quarenta quilmetros de circunferncia e, tal como em Inglaterra, a circulao faz-se pelo lado oposto ao que estamos habituados a usar 
nos Estados Unidos. Embora levssemos algum tempo a habituar-nos, as estradas tinham pouco movimento e l fomos andando, a parar aqui e ali para fazermos fotografias. 
Os palmeirais estendiam-se at onde a vista alcanava e demos connosco a pensar se a ilha de Pscoa j teria sido assim. A ideia deixou-nos algo tristes. A ilha 
de Pscoa mostrara-se austera e adorvel  sua maneira; a diferena entre as duas ilhas era abissal.
     As ilhas Cook so famosas pelas prolas negras e tanto o Micah como eu comprmos algumas para levarmos s nossas mulheres. Na semana anterior, o Micah tinha 
falado duas vezes com a Christine e eu fiz quatro chamadas para a Cat. Nenhuma das conversas durara mais do que uns minutos. As vidas delas estavam a ser mais febris 
do que era habitual, mas continuavam a seguir as mesmas rotinas; quase parecia impossvel termos visitado tantos lugares desde a ltima vez que as vramos.
     H algo de calmante quando rodamos com o vento a bater-nos na cara e, ao dar a volta  ilha, senti o esprito libertar-se. Parte da sensao devia-se ao facto 
de andar por ali, na companhia do Micah, sem nenhum de ns ter horrios a cumprir. Pensei na nossa infncia, nos lugares onde vivemos e nas coisas que fizemos. Tentei 
pensar no que os meus filhos estariam a fazer e revi a imagem da Cathy quando, pela manh, se sentava diante do espelho.
     E, melhor do que tudo, durante o passeio no pensei em trabalho, nem por um breve instante. Finalmente, pela primeira vez em muitos anos, comecei a sentir que 
estava em frias.
     O meu irmo e eu comprmos umas garrafas de gua e parmos
     numa das praias pblicas, do outro lado da ilha. As praias eram rodeadas de bancos de corais e as ondas baixavam ligeiramente antes de se esmagarem contra eles. 
Eu e o Micah ramos os nicos banhistas e da praia no conseguamos ver as casas. Sem o som do trfego que passava pela estrada, atrs de ns, seria fcil acreditar 
que ramos as nicas pessoas presentes na ilha. Durante muito tempo, limitmo-nos a ficar sentados e a observar as ondas.
     O oceano apresentava-se com um ligeiro azul-turquesa e do nosso ponto de observao era possvel ver o fundo do mar. Seguamos com os olhos os cardumes de peixes 
coloridos que passavam. Muitas das ilhas do Sul do Pacfico tm espcies prprias; em Hawaii e nas Fiji existem peixes que s se encontram ali e dei comigo a pensar 
se no estaria a ver espcies que no voltaria a encontrar.
     - Ora bem - raciocinou o Micah, - valeu a pena virmos a Rarotonga. Bela praia, tempo magnfico, liberdade. Consegues imaginar coisa melhor?
     - Nada de parecido com as nossas frias no Grand Canyon, no achas?
     Sorriu.
     - Essa foi uma viagem fantstica, no foi?
     - Sim, fantstica - respondi.
     - Foi horrvel - corrigiu. - Eras demasiado pequeno para te recordares do que realmente aconteceu. Para o final, o nosso pai estava quase maluco. Ele conduzia 
durante todo o dia, vamos umas paisagens e acampvamos para passar a noite dentro do Volkswagen por no termos dinheiro para pagar hotis. E deves lembrar-te de 
que no tnhamos ar condicionado. Atravessmos o deserto em pleno Vero, com o sol a dardejar atravs da janelas e a queimar-nos no interior da carrinha. Assmos 
dia e noite, alm de passarmos os dias a protestar. Lutvamos um com o outro at os nossos corpos ficarem escorregadios por causa do suor e no parvamos de berrar. 
O pap andava bastante acabrunhado.
     Mostrei-me incrdulo:
     - O nosso pai? O valento? Deves estar a pensar noutra pessoa qualquer.
     Soltou uma gargalhada.
     - Penso que recordamos esses momentos de clera do pai por ele ser um homem to sossegado. Metade do tempo nem sabia se ele estava em casa e, de repente, zs! 
O pap deixava de ser o pap, subitamente passava a ser o papo. Recordas-te de quando nos levou a ver o filme Alien - O Regresso, na noite de estreia, por ter ouvido 
dizer que se tratava do filme mais assustador que alguma vez fora feito? Ou quando vimos Salem's Lot na televiso? Que idade tnhamos? Uns onze anos?
     - Mais ou menos.
     - Deixarias a Alli ver esse gnero de filmes? Quero dizer, daqui a uns anos?
     Alli, a enteada do Micah tinha dez anos.
     - Nem pensar. A Christine matava-me. Nem me deixa levar vdeos desse gnero para casa.
     - A Cathy pensa o mesmo - informei, a respirar fundo. - j te disse que aluguei O Segredo da Bala de Prata para o Miles?
     - No. O que  isso?
     -  aquele filme sobre lobisomens, baseado num romance de Stephen King. Pensei que o Miles gostasse de o ver na minha companhia. Era o que o pap costumava 
fazer, no era? Por isso, deixei-o ver.
     - E?
     - Teve pesadelos durante meses. A Cathy ficou absolutamente lvida, deitou-me olhares de reprovao que nem consegues imaginar; ainda me recorda o caso sempre 
que levo o Miles ao cinema. "Ser melhor que ele no venha a ter pesadelos", avisa, e "Se os tiver, s tu quem tem de ficar toda a noite ao lado dele".
     O Micah sorriu.
     - As nossas mulheres e os nossos filhos parecem no apreciar uma boa histria de terror, como ns.
     -  uma pena - admiti. - Tudo o que desejava era partilhar com o Miles algo que o meu pai partilhou comigo quando eu estava a crescer.  como ir  pesca, jogar 
 bola ou visitar um museu.
     - Concordo inteiramente contigo, maninho - disse o Micah ao pr um brao  volta dos meus ombros. - Temos de dar esse crdito ao pap. Ensinou-nos a apreciar 
as coisas importantes da vida.
     
     Regressados ao hotel, decidimos ir praticar mergulho.
     Embora eu j tivesse praticado mergulho nas Carabas e em Hawai, nunca me impressionara tanto como naquele dia. Na gua quente e lmpida nadavam milhares de 
estrelas-do-mar azuis, bicudas e peixes coloridos dos bancos de corais, notando-se uma ligeira corrente que permitia que me mantivesse  superfcie da gua pouco 
profunda sem necessidade de grande esforo. Sobre as nossas cabeas, o cu enchera-se de nuvens, deixando que andssemos a descoberto sem apanharmos um escaldo; 
deixmo-nos ficar dentro de gua, mesmo depois de ter comeado a chover.
     Mais tarde, jantmos no ptio descoberto do hotel. Estvamos a tentar decidir o que fazer no resto do dia; sem nada planeado, parecia um desperdcio irmos enfiar-nos 
no quarto. O empregado do bar, que tambm nos servia  mesa, recomendou uma volta pelos bares e informou que, se nos inscrevssemos, uma carrinha viria buscar-nos 
ao hotel, cerca das oito da noite.
     Uma volta pelos bares  isso mesmo: a carrinha vem buscar-nos e leva-nos de um bar para outro, durante todo o sero. Beber ou no beber, acaba por no ser a 
questo mais importante. Ao longo dos anos, tenho visitado diversos pases e aprendi que, se no virmos as pessoas num ambiente descontrado, a fazer coisas que 
fazem normalmente, no podemos dizer que compreendemos esse pas. Quase todas as pessoas que conheci em tais situaes revelaram-se amistosas; na sua maioria, as 
pessoas que encontramos por esse mundo fora gostam de praticar o seu ingls e de ouvir falar da Amrica. Com todos os seus excessos, o meu pas  um lugar que os 
estrangeiros acham encantador e intrigante; adoram certos pormenores e detestam outros, mas ningum deixa de ter a sua opinio sobre ele. Ao mesmo tempo, sinto-me 
sempre admirado por as pessoas serem to semelhantes, qualquer que seja o local onde vivem. Por toda a parte, as pessoas pretendem no s melhorar a sua vida pessoal, 
mas tambm que os filhos disponham de mais oportunidades do que elas tiveram. Os polticos so quase sempre pouco estimados; bem como os demagogos, da direita e 
da esquerda.
     O empregado do bar no era diferente, e embora se mostrasse desapontado por a excurso no incluir uma passagem pela Nova Zelndia, pas de onde era natural, 
no deixou de acrescentar que j tinha visitado os Estados Unidos.
     - Ah, sim! - exclamou o Micah. - Onde  que esteve?
     - Estive em Los Angeles, So Francisco, Seattle, Las Vegas, Denver, Dallas, Nova Orlees, Chicago, Detroit, Filadlfia e Nova Iorque. Passei um Vero a percorrer 
o pas.
     - Viu o Grand Canyon? - inquiriu o Micah.
     - E claro - respondeu. - Achei-o fantstico. E tambm o monte Rushmore. E as sequias gigantes. Magnficas. O lugar de que gostei mais foi Las Vegas.
     - Ganhou dinheiro em Las Vegas? - perguntei.
     - No, perdi. Joguei nas mquinas, sabe? Foi engraado.  a mais louca das cidades. Adoro-a. J l estiveram?
     Claro - respondeu o Micah. - De Sacramento at l  pouco mais de uma hora de voo.
     O empregado do bar abanou a cabea, com um ar de felicidade a perpassar-lhe pelo rosto.
     - Costumo dizer s pessoas que, se querem conhecer a Amrica, devem ir a Las Vegas. As luzes, os espectculos, a excitao - aquilo  a Amrica.
     Jill Hannah, a mdica, juntou-se a ns quando estvamos a jantar. Tinha andado muito atarefada nos ltimos dias, pois muitos dos viajantes estavam a sofrer 
de males do estmago. Como todos ns, parecia num estado de letargia e franziu o cenho quando a informmos de que amos sair  noite.
     - No esto cansados?
     - Um pouco - respondeu o Micah. - Mas devia vir tambm. Vai ser engraado.
     - Obrigada, mas vou para a cama. Vai mais algum convosco? - Veremos - respondeu o Micah. - Daqui a pouco, vamos perguntar.
     No nos surpreendemos quando a maioria disse que no, por mais tentadoras que parecessem as nossas propostas. Devemos ter falado com umas duas dezenas de pessoas, 
mas s o Charles, um dos conferencistas presentes na excurso, disse que ia. Combinmos esperar por ele no trio, s vinte horas.
     - Vamos s dormir uma pequena soneca - informou o Micah, - e encontramo-nos de seguida.
     Voltmos para o quarto, deitmo-nos e adormecemos profundamente; s acordmos na manh seguinte.
     Ao pequeno-almoo, Charles acercou-se da nossa mesa:
     - Onde  que se meteram ontem  noite? Estive  vossa espera. Estava tudo preparado para um sero fantstico.
     O Micah mostrou-se algo embaraado:
     - Temos de lhe pedir desculpa.
     - No quero crer que os manos Sparks pudessem ter-se sentido cansados.
     - Por vezes - acrescentou o Micah, -  uma doena que afecta os melhores.
     Depois de Charles nos ter deixado, voltei-me para o Micah:
     - Nem posso acreditar que dormimos a noite toda. No te parece que estamos a ficar velhos?
     - Sei o que ests a querer dizer. Quando andava na universidade parecia que nunca me poderia sentir cansado. Podia ficar a p durante toda a noite. Era um exagerado.
     - Na universidade? - zombei. - Quem  que pretendes enganar? J eras um exagerado quando andavas na escola secundria.
     
     Em 1979, o Micah foi para a escola secundria e, durante os dois anos seguintes, o meu irmo teve um relacionamento bem escasso com o resto da famlia. Chegara 
 idade em que comeava a questionar abertamente a autoridade dos pais e agia em conformidade. Contudo, como seria de esperar, o Micah pisou o risco e exagerou, 
mesmo considerando que estava na adolescncia. Embebedava-se junto do rio e a mam encontrou marijuana nos bolsos das calas dele, o que lhe valeu um ms sem sair 
de casa e a ameaa de inscrio num colgio militar. Quando tinha quinze anos, o Micah apareceu em casa com uma orelha furada; graas a uma nova ameaa com o colgio 
militar, a mam forou-o a tirar o brinco.
     A mam estava sempre a ameaar-nos com o colgio militar. Tanto ela como o pap tinham estudado em colgios internos e cada um deles contava as respectivas 
histrias de terror, que acabavam sempre com a expresso: "mas, ao menos, no era um colgio militar". Em crianas, tais instituies inspiravam-nos um verdadeiro 
terror, acreditvamos que tinham sido criadas pelo prprio Satans. Mas o Micah cada vez ligava menos ao que os pais diziam, alm de se ter apercebido de que nunca 
o mandariam para um desses colgios, porque a famlia no tinha posses para isso. Portanto, o seu comportamento ia de mal a pior. Durante o primeiro ano, o ambiente 
em casa esteve extremamente tenso; a minha irm e eu ficvamos muitas vezes espantados com a maneira de levantar a voz, tanto  mam como ao pap.
     A imagem  importante para a maioria dos adolescentes e o Micah no era excepo. Estava cansado de ser pobre e, ainda pior, de se mostrar pobre. Aos dezasseis 
anos arranjou emprego a lavar pratos numa loja de gelados e comeou a juntar dinheiro. Comprou um carro usado e aprendeu a repar-lo, comprou roupas novas e comeou 
a namorar. Depressa teve uma relao sria com uma rapariga chamada Juli e comeou a passar junto dela todo o tempo disponvel. A mam
     no achava que fosse boa ideia ter um namoro srio numa idade
     daquelas, mais um tema de discusso entre eles. Uma vez, apanhou-os a dormir no quarto do Micah e foi um pandemnio. No me recordo de ter visto a minha me 
to furiosa.
     Foi mais ou menos por essa altura que a mam decidiu invadir o escritrio do marido. O meu pai sempre fora irrelevante em tudo o que se relacionara com a nossa 
educao, mas a mam entendeu que no podia continuar a dispensar a ajuda do marido.
     - Criei-os at este ponto - anunciou. - Agora chegou a tua vez.
     O meu pai limitou-se a um sinal de concordncia. Talvez tenha pensado que a tarefa era um pouco mais fcil do que cozinhar ou arrumar a casa.
     Depois disso, lembro-me de muitas noites em que vi o Micah sentado no escritrio do pai, a conversar. O pap era dotado de uma inteligncia excepcional e passava 
quase todo o tempo a ler. Ensinava teorias do comportamento e de gesto na Universidade da Califrnia em Sacramento e lia todos os livros publicados sobre essas 
matrias. No estou a exagerar. Em qualquer altura, tinha milhares de livros no escritrio - alinhados em prateleiras, empilhados no cho, guardados em caixas - 
e ele j os lera todos. Todas as noites, encontrava-o com os ps assentes na secretria, a ler. Lia com uma velocidade espantosa; em mdia, acabava um ou dois livros 
por noite, sem deixar de tomar notas enquanto prosseguia a leitura. O horrio dele era diferente do de todos ns. Como leccionava  tarde, era normal que ficasse 
acordado at s cinco horas da manh, para depois dormir at ao meio-dia.
     Embora mantivesse a porta do escritrio sempre aberta, todos sabamos que o pap preferia estar s. Era um ouvinte calmo e atento; quando o via em conversa 
com os colegas, ficava sempre fascinado por verificar o quanto eles o adoravam. O meu pai deixava que qualquer pessoa discorresse longamente, sem sentir necessidade 
de a interromper. E tambm no dava conselhos, a no ser que algum os pedisse. Em vez disso, esclarecia os assuntos, reordenava o que ouvira de maneira a que o 
interlocutor se centrasse no problema e acabasse por resolv-lo sozinho.
     Quando falava com o Micah - e, mais tarde, quando falava comigo - seguia sempre o mesmo esquema. Perguntava o que se passava a respeito de determinada situao 
e ficava a ouvir as nossas explicaes. E quanto mais falssemos - eu ou o Micah -, mais tempo ele ficava calado. Por vezes, aquela espcie de monlogo prolongava-se 
quase uma hora. Era normal sairmos do escritrio mais esclarecidos e com a convico de que ele era a pessoa mais inteligente que alguma vez encontrramos.
     Afinal, o nosso pai transmitiu-nos trs regras de ouro que devamos aplicar durante toda a adolescncia. Eram elas:
     A. Se conduzires no bebas.
     B. No engravides nenhuma rapariga.
     C. Respeita a hora de recolher: meia-noite no primeiro ano, au
     mentando meia hora por cada ano passado na escola.
     O meu pai,  bom que se diga, fora muito esperto ao definir-nos aquelas trs regras e na altura em que o fez. No tardvamos a atingir a idade em que qualquer 
delas se podia tornar problemtica, mas como j estvamos a segui-las, na altura pareceram-nos inteiramente razoveis. Alm do mais, ao chegarmos  adolescncia 
estvamos de tal forma habituados  liberdade que, maior presso do que aquela pareceria pouco vivel (pouca e vinda demasiado tarde) e levaria, sem sombra de dvida, 
 rebelio aberta. Contudo, como as normas pareciam bem pensadas, o Micah concordou com a sua aplicao.
     O Micah, tenho de o dizer, seguiu aquelas regras e apenas aquelas. Tudo o resto era, segundo parecia, territrio a explorar; e durante os dois anos seguintes 
ele continuou a forar os limites. Recordo-me de, em inmeras noites, ouvir os meus pais a queixarem-se dele.
     - Est cada dia mais indomvel - diria um. - O que  que
     vamos fazer?
     Seguia-se um longo silncio.
     - No sei - era a resposta mais frequente do outro.
     
     Esse ano tambm trouxe mudanas para mim. Comecei a praticar atletismo de competio e, sem ser excepcional, era um dos melhores principiantes da minha equipa. 
O que no diz muito, se pensarmos que nas corridas de fundo ramos apenas uma mo-cheia.
     Mesmo assim, eu adorava o atletismo e o destino quis que vivesse em Fair Oaks uma verdadeira lenda deste desporto: Billy Mills, um ndio sioux da tribos dos 
Oglala, que ganhou a medalha de ouro dos 10000 metros nos jogos Olmpicos de Tquio, em 1964. Ainda  considerado a maior surpresa da histria do atletismo nos jogos 
Olmpicos.  o nico americano que venceu os 10000 metros nas Olimpadas e, para deixar prova do seu talento para a posteridade, no ano seguinte bateu o recorde 
da prova. Uns anos antes, tinha lido um artigo sobre ele, num dos vrios almanaques que devorei quando era criana, e ficara fascinado com a sua histria. Fiquei 
deslumbrado quando soube que ele vivia em Fair Oakes e recordo-me de ter corrido  cozinha para dar a novidade  minha me.
     - Oh, o Billy! - exclamou, com um aceno de compreenso. - Conheo-o e conheo a mulher dele, a Par.
     Abri ainda mais os olhos:
     - A srio?
     - Sim - respondeu, como se fosse a coisa mais natural. - Compram os culos no nosso estabelecimento. So umas pessoas maravilhosas.
     No consegui mais do que ficar a olhar para ela, a pensar que estava ao lado de uma pessoa que, na realidade, tinha falado com um genuno heri americano. Ficava 
excitado sempre que o via entrar no supermercado (tinha fixado as feies dele) ou num restaurante, mas nunca consegui reunir coragem para lhe falar. Quando soube 
que na escola secundria local se disputavam provas de carcter informal, quis l ir por suspeitar que ele poderia estar presente. E acertei; l estava ele; quando 
o vi, senti-me transfigurado. Observei como andava e pensei: " assim que caminha o homem mais rpido do mundo"; e tentei imit-lo. Nem  preciso dizer que pretendia 
impression-lo com o meu talento mas, para ser franco, nunca o consegui. Billy tinha trs filhas e a mais nova tambm era atleta. Porm, ao contrrio do que acontecia 
comigo, ela era fantstica e nunca perdeu uma corrida.
     Conhecer os feitos de Billy levou-me s leituras acerca de outros grandes corredores. Sonhava correr como Henry Rono, Sebastian Coe ou Steve Ovett, mas no 
passei da, do sonho. No entanto, entrei para a equipa de atletismo e pouco a pouco tornei-me amigo de Harold Kuphaldt, um jnior que tambm fazia parte da equipa.
     Tal como Billy, Harold era quase uma lenda, embora a nvel da escola secundria. Harold era um dos corredores mais rpidos de todo o pas (tinha o melhor tempo 
nacional nas duas milhas e durante algum tempo foi detentor do recorde nacional de juniores nesta distncia) e eu idolatrava-o de longe, como acontecia em relao 
ao Billy. Porm, havia um fosso enorme entre a vida de um caloiro e a dos alunos dos anos mais avanados. No entanto, numa tarde, perto do final da temporada, a 
equipa estava a correr junta e dei comigo a correr ao lado de Harold. Fomos conversando, at que ele acabou por se calar.
     - Tenho-te observado a correr - admitiu Harold, depois de seguir algum tempo em silncio. - Se trabalhares, podes ir longe. No s apenas bom, s fantstico. 
Nasceste para isto.
     Para alm daquilo, no me recordo de mais nada sobre a corrida. Pareceu-me que flutuava, que era levado pelas palavras que ele dissera. Ningum poderia dirigir-me 
palavras mais significativas do que aquelas. As palavras de Harold no s alimentaram as minhas fantasias como tambm tocaram no mais profundo do meu ser, no corao 
daquela pessoa que estava sempre a implorar a aprovao dos pais. "Posso ser fantstico", disse ele. "Nasci para..."
     Naquele momento, decidi que aquelas palavras viriam a ser consideradas profticas; em vez de passar o Vero a flanar, como de costume, decidi treinar. Treinei 
muito, mais do que treinara durante a temporada normal, e, quanto mais trabalhava mais desejava trabalhar. Corria duas vezes por dia, por vezes com temperaturas 
perto dos 40 graus, e era frequente correr at vomitar de exausto. A despeito das palavras de Harold, eu no era um corredor nato, mas o que me faltava em talento 
era compensado pela vontade e pelo esforo.
     Entretanto, o meu irmo trabalhava e ganhava dinheiro; assentara nos ltimos dois anos e tornava-se rapidamente um homem. E um homem bonito. Combinando a confiana 
e o encanto naturais, depressa se tornou irresistvel para o sexo oposto. O facto de ter namorada certa, no parecia ser importante; as raparigas juntavam-se  volta 
dele ou admiravam-no de longe. No essencial, o meu irmo era um magnete para as midas.
     O que no acontecia comigo. Era mais baixo do que o Micah, magro de braos e pernas, e no possua a autoconfiana do meu irmo. Tambm no me interessava muito. 
Correr proporcionava-me a oportunidade de me distinguir, desde que trabalhasse o suficiente, e comecei a concentrar-me na pista de corridas, com excluso de tudo 
o resto.
     Bem, de quase tudo. Partilhava inteiramente das preocupaes dos nossos pais acerca do Micah. Para o final do Vero, depois de grandes esforos, convenci-o 
a juntar-se a mim na equipa de corta-mato. A equipa, capitaneada por Harold, era considerada uma das melhores da Califrnia e iria participar em provas, tanto na 
zona de So Francisco e em Los Angeles, onde, depois das corridas, teramos oportunidades de visitar parques de diverses e de dar passeios, coisas que normalmente 
no podamos fazer por falta de dinheiro e de motivo. Tentei convenc-lo:
     - Tudo o que tens de fazer  correr o suficiente para ficares entre os sete primeiros; vamos divertir-nos mais do que alguma vez imaginaste.
     Acabou por se deixar convencer. Depois de ter comeado a treinar, rapidamente passou a figurar entre os sete primeiros. A nossa equipa tornou-se invencvel 
e, na maioria dos casos, o mesmo aconteceu com o Harold. Batia recordes das pistas em quase todas as corridas e terminou em segundo lugar nos campeonatos nacionais 
de estudantes do ensino secundrio.
     Embora o Micah no se concentrasse nas corridas como eu, com a minha determinao de me exceder, mesmo assim, modificou-se para melhor. Fazia parte de uma equipa, 
uma equipa que contava com ele e surpreendentemente, atendendo  forma como tinha sido criado, levou a responsabilidade a srio. Pouco a pouco, foi fazendo menos 
desacatos e, quanto mais vitoriosa a equipa se tornava, mais ele se orgulhava de fazer parte do grupo. No parecia afectado pelo facto de eu ser mais rpido do que 
ele; na verdade, era sempre o primeiro a dar-me os parabns pela minha prova.
     Contudo, para mim o mais importante era voltarmos a andar juntos, o que no acontecera durante anos. E, ainda melhor, estvamos a gostar disso.
     O meu ano de caloiro representou uma viragem. No s aprendi a adorar o desporto e a corrida mas tambm, pela primeira vez, consegui ser superior ao meu irmo 
em termos fsicos.
     Em simultneo, continuei empenhado na obteno de boas notas. Infelizmente, esse empenho estava a transformar-se numa obsesso: no queria apenas obter a classificao 
mxima, queria ser o melhor aluno em cada uma das disciplinas.
     Tambm comecei a devorar romances. A minha me, tal como o meu pai, era uma leitora vida e ia  biblioteca duas vezes por ms. Trazia entre seis a oito livros 
de cada vez e lia-os todos; apreciava de forma muito especial as obras de James Herriot e de Dick Francis. Quanto a mim, descobri os clssicos: Dom Quixote, O Retorno 
de Um Nativo, Crime e Castigo, Ulisses, Emma e Grandes Esperanas, entre outros, e comecei a apreciar as obras de Stephen King. Como fora criado a ver velhos filmes 
de terror, este autor dizia-me qualquer coisa e esperava com ansiedade cada nova obra que publicava.
     Foi tambm no primeiro ano que tive a minha primeira namorada a srio. Chamava-se Lisa e, como eu, praticava corta-mato. Era um ano mais nova do que eu e, por 
ironia do destino, era filha de Billy Mills, o heri da minha infncia.
     Namormos durante os quatro anos seguintes; apaixonei-me pela Lisa e pela famlia dela. Num aspecto, pelo menos, Billy e Pat eram diferentes dos meus pais: 
pareciam genuinamente agradados com os meus sucessos. Alm disso, Billy falava comigo sobre treino e sobre os meus objectivos, levando-me a acreditar que era capaz 
de os alcanar.
     A minha vida estava a ficar mais ocupada; com a escola, as corridas, os trabalhos de casa e a Lisa, no me ficava muito tempo para outras actividades. Tambm 
no tinha dinheiro e comecei a aperceber-me de que a situao no favorecia em nada o namoro. Como os nossos pais no nos davam mesadas, nem abriam os cordes  
bolsa se quisssemos ir ao cinema, decidi seguir o caminho do meu irmo e, para alm de tudo o que tinha para fazer, arranjei um emprego a lavar pratos no mesmo 
restaurante em que o Micah trabalhava. De incio, duas vezes por semana, trabalhava at  hora de fechar; dentro de poucos meses, estava a trabalhar trinta e cinco 
horas por semana e tinha sido promovido a ajudante dos empregados de mesa. Acabei por ser empregado de mesa e, entre ordenado e gorjetas, conseguia uma soma interessante 
para um estudante do curso secundrio. Cada minuto, de cada dia, estava programado, desde as sete da manh at cerca da meia-noite, sete dias por semana; um horrio 
que se manteve praticamente inalterado at acabar o curso, dois anos mais tarde.
     
     Nas nossas corridas de treino, eu e o Micah falvamos muitas vezes
     tanto do passado como do futuro; numas ocasies falvamos dos nossos sonhos, noutras o assunto era o dinheiro.
     - Alguma vez deixaste de pensar na nossa pobreza quando ramos
     mais pequenos? - perguntou-me.
     - j me aconteceu. Mas, para ser franco, s h uns dois anos  que
     me apercebi de que ramos realmente pobres.
     - Odeio ser pobre - respondeu. - Sempre odiei. No sei o que
     vou fazer quando for crescido, mas no vou ser pobre. Quero ser
     milionrio aos 35 anos de idade. No sei como, mas  isso que vou
     fazer.
     - Vais conseguir.
     - E tu?
     Sorri.
     - Quero ser milionrio aos 30.
     O Micah no respondeu. Seguamos em passada certa, com os ps
     a assentarem no cho com um ritmo quase perfeito.
     - O qu?- acabei por perguntar. - Achas que no vou conseguir?
     - No sei - respondeu. - Penso apenas que 35  mais realista.
     - Nesse caso, o que  que vais fazer para o conseguires?
     - Quem sabe? E tu?
     - No fao a mnima ideia.
     
     O meu irmo e eu corramos juntos, trabalhvamos no mesmo local e nos nossos tempos livres comemos a andar com os mesmos amigos. Harold, Mike Lee (outro membro 
da equipa de corta-mato), Tracy Yeates (campeo de luta do estado de Califrnia), Micah e eu atriburamos a ns prprios o nome de Mission Gang.
     Apesar da nossa reputao genrica de estudantes-atletas modelo, a nossa vida era do tipo da do protagonista de O Mdico e o Monstro. Foi nessa altura que me 
embebedei pela primeira vez e gozvamos imenso com o uso de material pirotcnico de maneiras no inteiramente inteligentes, nem legais. Com regularidade, fazamos 
explodir as caixas de correio dos amigos, pulando de alegria quando elas saltavam no ar com um grande estampido. Tambm decorvamos as casas dos amigos com tanto 
papel higinico que mais parecia ter nevado na noite anterior. Uma vez, por alturas do Natal, entrmos numa rua em que todas as casas estavam decoradas com luzes 
intermitentes. Durante as duas horas seguintes, a julgar-nos muito engraados, desenroscmos todas as lmpadas e levmo-las connosco. Enchemos seis sacos dos usados 
para o lixo com as lmpadas e as casas ficaram s escuras. No encontro uma explicao cabal para aqueles actos. Foram criancices de que sinto vergonha, mas penso 
que, se tivssemos a possibilidade de recuar no tempo, acabaramos por voltar a fazer as mesmas asneiras.
     Devido ao tempo que passvamos juntos, o meu irmo e eu voltmos a ser ntimos. Contudo, por essa altura a nossa relao tinha mudado. J no ramos simples 
irmos, tnhamo-nos tornado bons amigos. A partir do meu ano de caloiro, nunca mais tivemos desavenas nem voltmos a lutar um com o outro.
     Na Primavera, eu e o Micah competimos nas mesmas provas e o meu treino comeou a dar dividendos. Comigo a fazer o primeiro percurso e Harold a fazer o do meio, 
batemos recorde atrs de recorde e a nossa equipa de estafetas acabou por fazer o tempo mais rpido do pas. Harold venceu o campeonato estadual das duas milhas 
e o meu tempo nos 800 metros foi dos melhores a nvel nacional, entre todos os estudantes do segundo ano.
     Da famlia, s tinha l o Micah para me aplaudir. Os meus pais raramente assistiam s provas; efectivamente, em toda a minha carreira, s me viram correr uma 
vez, num dia em que bati um recorde.
     Embora haja quem ache esquisita esta falta de interesse dos meus pais, a questo nunca me preocupou. Afinal, eles tambm no vinham ver o Micah correr, nem 
assistiam aos treinos da Dana. O mais importante era estarmos a agir por nossa conta; como havia tanto tempo estvamos entregues a ns prprios, tambm no espervamos 
que viessem assistir quele gnero de eventos; penso que todos ns percebemos que os nossos pais andavam to atarefados durante a semana - trabalhar, arrumar a casa, 
cumprir as obrigaes dirias, tomar conta dos filhos e lutar com as dificuldades financeiras - que no parecia justo pedir-lhes que nos dedicassem tambm os fins-de-semana, 
quando todos compreendamos que podiam dedicar-se a outras actividades mais relaxantes.
     A minha me, por exemplo, adorava trabalhar no quintal ou em casa; nada a tornava mais feliz do que plantar rvores e arbustos, ou pintar uma das divises da 
casa. Sempre que regressava de uma prova, encontrava-a com restos de tinta na cara e com as calas to manchadas como as de qualquer pintor profissional. O meu pai, 
por sua vez, usava o fim-de-semana para pr o trabalho em dia, numa casa em silncio, e adorava arrumar, e voltar a arrumar, os livros nas estantes. No havia dvidas 
de que era agradvel, uma vez por outra, passar algum tempo numa casa silenciosa. Se tiravam partido da nossa ausncia para passarem tempo juntos, foi coisa que 
nenhum dos filhos veio a saber. Os nossos pais eram muito ciosos em tudo o que dizia respeito s relaes entre eles e no nos falavam muito da forma como passavam 
os dias. E nenhum de ns se mostrava interessado em lhes perguntar.
     
     O Micah treinou juntamente comigo durante o Vero seguinte e como estudante snior tornou-se um dos melhores corredores da regio. Em muitas provas acabvamos 
entre os trs primeiros, mas nunca levou o treino to a srio como eu.
     Acabado o curso secundrio, matriculou-se na Universidade da Califrnia em Sacramento e passou a dedicar-se aos prazeres da vida. Namorou uma sucesso de raparigas 
bonitas, fazia esqui nos fins-de-semana, comeou a praticar snowboarding e apaixonou-se pelo ciclismo de montanha. Andava de barco e fazia esqui aqutico, passava 
semanas em So Francisco, no lago Tahoe ou em Yosemite. Dedicou-se  descida dos rpidos em canoa e acabou por dominar to bem este desporto que se tornou guia. 
Era membro de uma tripulao de vela que entrava em provas durante os fins-de-semana. Mudou-se para um apartamento prximo da universidade e acompanhava outros estudantes 
a bares e a discotecas. Segundo parecia, fazia qualquer coisa nova em cada fim-de-semana, qualquer coisa excitante, encantado com a sua nova liberdade. Ao mesmo 
tempo, ia aguentando as notas e trabalhava como administrativo numa firma de compra e venda de propriedades.
     Pelo meu lado, passei o meu ltimo ano do secundrio numa pilha de nervos. Obter boas notas tinha-se tornado uma obsesso; estava em condies de me tornar 
o melhor aluno do curso e no queria que essa honra me escapasse no ltimo momento. Alm disso, sabia que se tudo me continuasse a correr de feio tinha a possibilidade 
de obter uma bolsa de estudos, um objectivo que tinha estabelecido para mim mesmo, mas faltava-me receber uma proposta, o que no aconteceria antes de Abril. Continuava 
a trabalhar trinta e cinco horas por semana e a passar com a namorada todo o meu tempo livre. O stress acumulado em todas estas actividades provocava-me terrveis 
perodos de insnia e sentia-me constantemente enervado.
     Em parte, invejava a vida que o Micah levava. Admirava-o por ter uma vida relativamente simples, sem a preocupao de obter resultados. Nos corredores da escola, 
ouvia os colegas descreverem os seus fins-de-semana em Folsom Lake, ou o quanto se tinham divertido a esquiar em Squaw Valley. Talvez eu devesse divertir-me mais, 
dizia-me uma voz interior, mas, sempre que a ouvia, fazia um esforo para a esquecer. Abanando a cabea, diria a mim mesmo que no dispunha de tempo, que no podia 
arriscar-me a sofrer um acidente, que estava demasiado perto da meta para desistir.
     Contudo, no me sentia muito feliz. Os meus objectivos tinham-se tornado fins em si mesmos e no havia grande alegria na tentativa de os alcanar. No entanto, 
consegui sobreviver. E tal como que desejava, fui o melhor aluno do curso. Um ms antes, aps ter corrido um dos 800 metros mais rpidos de todo o pas, tinha aceitado 
uma bolsa de estudo desportiva para a Universidade de Notre Dame. Trs meses mais tarde, estava a viver em South Bend, estado de Indiana, a mais de trs mil quilmetros 
da nica famlia que conhecera.
     
     Em parte, no desejava ir para a universidade. Quem vive uma infncia como a minha,  forado a criar laos fortes com a famlia. Os meus irmos, o Micah e 
a Dana, tinham sido, juntamente com os meus pais, as nicas constantes da minha vida e, embora soubesse que tal era inevitvel, deixar de viver junto deles ainda 
era uma ideia algo assustadora.
     Conquanto tenha escrito extensivamente acerca do Micah e de mim, no quero deixar a impresso de que dava menos importncia  minha irm. Nos primeiros anos, 
brincava com ela quase tanto como brincava com o Micah, embora de formas diferentes. Ela foi sempre a confidente das minhas aventuras; era a pessoa que me ouvia 
logo que surgiam problemas entre mim e a Lisa. Com o tempo, acabei por conversar com a minha irm sobre tudo o que dizia respeito ao meu processo de crescimento 
e ela, mais do que qualquer outra pessoa, parecia compreender as razes que me levaram a ser a pessoa que sou. Melhor ainda: a minha irm adorava-me e parecia ser 
a nica pessoa capaz de me ajudar a avaliar qualquer assunto. As minhas lutas sempre foram as suas e as dela sempre foram as minhas. Se perguntarem ao meu irmo, 
ele dir exactamente as mesmas coisas acerca dela, pois ela mantinha o mesmo tipo de relacionamento com os dois irmos.
     Para finais do meu ltimo ano na escola secundria, recordo-me de ter ouvido a minha irm a chorar, fechada no quarto. Depois de bater, entrei e encontrei-a 
sentada na cama, a cara escondida nas mos.
     - O que  que correu mal? - perguntei ao sentar-me ao lado dela.
     - Tudo.
     - No me digas. O que  que aconteceu?
     - Odeio a minha vida.
     - Porqu?
     - Porque no sou como tu e como o Micah.
     - No percebo.
     - Vocs, ambos, tm tudo. So bons em tudo. Tm bons amigos, so bons nos desportos, conseguem boas notas. So populares e ambos tm namoradas. Toda a gente 
vos conhece, todos querem ser parecidos convosco. No me posso comparar contigo em nada. Parece que no sou filha dos mesmos pais.
     - Tu sempre foste a melhor - respondi. - s a pessoa mais amorosa que alguma vez conheci.
     - E depois? Ningum se interessa por essas coisas.
     Agarrei-lhe a mo.
     - O que  que est realmente a preocupar-te?
     No queria responder-me. Em silncio, olhei  volta do quarto; como muitas adolescentes, tinha as paredes forradas com fotografias recortadas de revistas. Em 
cima da cmoda, tinha disposto uma coleco de sinos e cavalos de cermica. Havia tambm uma Bblia na mesa de cabeceira, junto de um rosrio, e um crucifixo na 
parede, por cima da cama. Levou muito tempo a recompor-se, at conseguir falar.
     - A Holly foi convidada para o baile da escola.
     - Bom para ela, no ?
     Como no me respondeu, apercebi-me do motivo por que estava triste e senti um baque no corao.
     - E ests triste por ningum te ter convidado?
     Recomeou a chorar e pus-lhe um brao  volta dos ombros.
     - Vou fazer com que te convidem - disse, a confort-la. - s uma rapariga fantstica. s bonita e simptica; no foste convidada porque eles so demasiado estpidos 
e no conseguem saber o que perdem.
     - Tu no compreendes - lamentou-se. - Tu e o Micah... bem, todas as raparigas vos acham bonitos. Esto sempre a lembrar-me que sou uma felizarda por ter irmos 
assim. Mas  difcil... quero dizer, ningum me diz que sou bonita.
     - Tu s bonita - insisti.
     - No, no sou. Sou vulgar. Vejo isso sempre que olho para o espelho.
     Continuou a chorar e recusou-se a falar mais do assunto. Finalmente, ao sair do quarto dela, apercebi-me de que a minha irm lutava com os mesmos sentimentos 
de insegurana que toda a gente sentia. Passara a vida a escond-los de todos. Todavia, ao afastar-me eu sabia que ela ia ser convidada; no lhe fizera uma promessa 
v.
     Porm, com a passagem dos dias sem aparecer um rapaz montado num cavalo para ser o seu cavaleiro de armadura reluzente, a dor e o ar desapontado tornaram-se 
evidentes para mim. Mortificava-me pensar que ningum parecia perceber como ela era especial, do muito amor que tinha para oferecer a quem se dignasse pedir-lho. 
Adorava a minha irm da mesma forma que sempre adorara o meu irmo e, como acho que tambm sucedia com os meus pais, sentia a necessidade de a proteger.
     Portanto, numa noite, quando faltava cerca de uma semana para o
     baile, fui ao quarto da Dana. Se as suas amigas pensavam que eu era
     bonito, se pensavam que eu era popular, ento era chegada a altura de
     toda a gente ver a forma como nos podamos divertir juntos. Para mim,
     pouco interessava que fssemos irmo e irm; sentir-me-ia orgulhoso
     por ser visto na companhia dela e queria que todo o mundo o soubesse.
     - Dana - comecei, com ar grave, - queres ir ao baile comigo?
     - No sejas parvo - respondeu.
     - Vamos divertir-nos - prometi. - Levo-te a jantar num bom
     restaurante, alugo uma limusina e danaremos durante toda a noite.
     Vai ser a tua melhor festa de sempre.
     Sorriu mas acenou que no com a cabea.
     - No, est tudo bem. De qualquer das formas, eu no quero ir.
     J ultrapassei isso. No me interessa.
     Hesitei, queria ter a certeza de que ela no queria mesmo ir.
     - Tens a certeza? Significaria muito para mim.
     - Sim, tenho a certeza. Mas obrigada por me convidares.
     Olhei para ela.
     - Sabes que ests a despedaar-me o corao, no sabes?
     Soltou uma pequena gargalhada.
     - Que engraado! O Micah disse exactamente o mesmo. - O que  que ests a dizer? - Ele tambm me convidou para o baile. Ontem.
     - E tambm no vais com ele?
     - No.
     Rodeou-me com os braos e apertou-me num abrao. E depois
     beijou-me na face.
     - Mas quero que saibam, ambos, que so os melhores irmos que
     uma rapariga pode ter. Sinto tanto orgulho quando penso nos dois.
     Sou a rapariga mais feliz do mundo e amo-vos muito, aos dois.
     Senti um n na garganta:
     - Oh, Dana, eu tambm te amo muito.
     
CAPTULO ONZE
     Ayers Rock, Austrlia 2 e 3 de Fevereiro
     
     Quem nunca viajou pelo Pacfico no se apercebe de quanto o oceano  grande. Vomos quatro horas para chegar  ilha de Pscoa e viajmos mais sete horas at 
Rarotonga. Atingirmos Brisbane, na Austrlia, exigiu mais sete horas de avio, durante as quais atravessmos a linha internacional da data e, dali, ainda gastmos 
mais trs horas para chegarmos finalmente a Ayers Rock, no Parque Nacional de Uluru-Kata Tjuta, em pleno deserto australiano.
     A passagem da linha internacional da data apenas serviu para tornar a viagem mais longa. E uma sensao estranha, a de nos apercebermos de que um dia foi riscado 
da nossa vida. E no s isso, pois, como a nossa paragem em Brisbane foi de duas horas, no total passmos mais de doze horas em viagem; uma ideia esquisita, considerando 
que, ao comearmos, j tnhamos percorrido metade do oceano.
     Quando chegmos ao hotel, todos ns aparentvamos estar esgotados. Na recepo era possvel contratar excurses para o dia seguinte. Como toda a gente iria 
a Ayers Rock durante a tarde, a manh ficava livre. Podamos, por exemplo, alugar uma Harley e explorar por conta prpria a regio circundante, ou alugar um helicptero 
para um voo sobre as Olgas: um macio de rochedos e ravinas existente perto de Ayers Rock. Tambm havia um circuito a p atravs de parte das Olgas e um passeio 
a Ayers Rock ao nascer do sol, que obrigava a sair do hotel antes do amanhecer.
     Embora eu e o meu irmo quisssemos dormir, conseguimos acordar a tempo de nos juntarmos  expedio da manh. O deserto
     estava frio e escuro como breu; sem luzes, foi possvel vermos milhares de estrelas, ou seriam milhes. O nosso autocarro foi um dos muitos que percorreu o 
caminho durante aquela manh; soubemos, mais tarde, que o nosso hotel era suficientemente grande para acomodar trs mil hspedes. O que no seria nada de especial 
no meio de uma cidade como Orlando, ou Chicago, torna-se motivo de espanto em pleno deserto australiano. Segundo fomos informados, a cada momento, o prprio hotel 
tem mais populao do que qualquer cidade existente num raio de centenas de quilmetros, em qualquer direco.
     Ayers Rock  o maior monlito, ou rochedo singular, de todo o mundo. Com cerca de oito quilmetros de circunferncia, eleva-se a uma altura de cerca de 300 
metros e a parte subterrnea atinge uma profundidade de quase cinco quilmetros. No negrume de antes de amanhecer, Ayers Rock apareceu-nos como uma simples mancha 
escura, quase impossvel de ver a menos que estivssemos a olhar directamente para o penedo. O nosso grupo de pessoas estremunhadas saltou do autocarro e seguimos 
aos tropees at ao miradouro.
     Chegou o momento de a luz brilhar no horizonte e o seu alastramento obrigou-nos a fixar os olhos no rochedo. Formado por calcrio de granulao grossa, rico 
em feldspatos, Ayers Rock deveria variar consoante a hora do dia e as condies atmosfricas. Contudo, pelo menos de incio, foi-nos difcil perceber o motivo de 
tanta gente achar o rochedo fascinante; no vimos aquele brilho flamejante que o tornou famoso. O meu irmo e eu tirmos fotografias, depois mais fotografias, e 
comemos a sentir um certo desapontamento. Porm, o sol subiu o suficiente para iluminar o cu do Oriente e, no preciso momento em que estvamos a concluir que 
a reputao de Ayers Rock era mais propaganda do que realidade, o fenmeno aconteceu.
     O sol atingiu o rochedo de forma que este comeou a tornar-se vermelho, como um enorme bloco de carvo incandescente. E, durante os minutos seguintes, tudo 
o que o Micah e eu conseguimos fazer foi olhar, a pensar que aquele era o espectculo mais extraordinrio a que alguma vez tnhamos assistido.
     O Micah e eu optmos pela excurso de helicptero, em vez do passeio a p pelas Olgas, e s oito da manh estvamos de novo no aeroporto, prontos a descolar.
     Havia, como viemos a descobrir, uma boa razo para levantarmos voo to cedo. Quando chegmos, j estava calor - afinal, era Vero no deserto - e a carlinga 
do helicptero servia apenas para tornar o calor ainda mais intenso. Com cinco pessoas a acotovelarem-se l dentro, momentos depois de iniciado o voo toda a gente 
transpirava.
     Estivemos no ar pouco mais de trinta minutos, mas conseguimos ver paisagens impossveis de enxergar por outros meios. Vomos em crculo sobre Ayers Rock e atravessmos 
as Olgas; observmos camelos selvagens que trilhavam o deserto. Na Austrlia havia, segundo fomos informados, milhares de camelos selvagens. No so animais indgenas; 
os primeiros foram importados para porem a sua capacidade de sobrevivncia ao servio dos primeiros povoadores do deserto. Alguns fugiram e procriaram; com o tempo, 
o seu nmero aumentou. Actualmente, esto a ser reexportados para o Mdio Oriente.
     A conversa era impossvel por causa do barulho do motor e da rotao das ps. No entanto, sempre que olhei para o Micah vi-o a sorrir, sem parar.
     
     Regressados da excurso de helicptero, tivemos algum tempo livre at ao almoo; decidimo-nos por uma corrida  volta do hotel.
     Com milhares de quilmetros acumulados nas pernas ao longo da vida, correr pareceu-nos a coisa mais natural. Comeando por uma corrida lenta, no tardou que 
as passadas entrassem num ritmo sincronizado.
     - D a ideia de que regressmos aos velhos tempos - alvitrei. - Parece que voltmos  escola secundria.
     - Ia justamente a pensar nisso.
     - Actualmente, corres com frequncia?
     - No corro muitas vezes - respondeu. Continuava com a respirao certa. - Corro quando jogo futebol mas, se tento faz-lo todos os dias, fico com dores nas 
costas.
     - Sei o que isso . Costumava correr mais de trinta quilmetros em cada domingo, mas actualmente s o posso fazer em imaginao. Se consigo fazer seis quilmetros, 
j me dou por satisfeito.
     -  por estarmos a ficar mais velhos - resmungou o Micah. - j pensaste que a festa do vigsimo aniversrio da concluso do meu curso  daqui a uns meses?
     - Vais assistir?
     - Julgo que sim. Vai ser engraado rev-los a todos. Quando penso na escola secundria, penso no Mike, no Harold, em ti e no Tracy. Aquilo  que era vida.
     Durante um bocado s ouvi o som das nossas passadas no caminho de terra batida.
     - Recordas-te de uma vez em que foste namorar, numa sada a quatro juntamente com o Harold e a namorada dele? Quando o Tracy e eu vos encontrmos e vos mandmos 
descer os vidros da janela do carro para podermos enfiar um projctil dentro do carro?
     Soltei uma gargalhada.
     - Como poderia esquecer? Aquela coisa explodiu aos nossos ps, pregando-nos um susto de morte.
     - So essas as recordaes que guardo da ocasio - acrescentou o Micah. - Aqueles tipos eram fantsticos e ainda hoje falo com eles regularmente.  difcil 
aceitar que tudo se tenha passado j l vo vinte anos.
     
     Depois do almoo e de um duche, dirigimo-nos para Ayers Rock com o resto do grupo. Na altura, a luminosidade era implacvel. A temperatura chegara aos 38 graus 
e, com o Sol mesmo a pique, Ayers Rock tinha a cor do calcrio, nada de especial. As moscas enchiam o ar; tnhamos de fazer movimentos constantes para evitar que 
nos aterrassem nos lbios ou nas pestanas, nos braos ou nas costas. Havia ali trilies de moscas. Os turistas pareciam sofrer de uma qualquer doena de pele.
     Durante as horas seguintes, o autocarro parou em diversos locais  volta de Ayers Rock, considerado um lugar sagrado para os aborgenes. Saamos do autocarro, 
ouvamos uma histria e regressvamos aos nossos lugares. Fomos levados a cavernas com pinturas e a um poo de abastecimento de gua, onde tivemos de ouvir conferncias 
interminveis sobre a histria dos aborgenes.
     Na terceira ou quarta paragem, voltei-me para dizer qualquer coisa ao Micah. Ele tinha os olhos vidrados e perdidos no vazio. Tnhamos estado a ouvir uma histria 
acerca de uma das fendas do cimo do rochedo. Falava de um esprito guerreiro que se perdera no deserto, onde tivera de se bater com outro esprito e, no se sabe 
como, as marcas do combate ficaram impressas na rocha. Marcas que acabaram por permitir que o povo descobrisse onde se encontrava a mina de gua; bastou procurarem 
a dita imagem na rocha para ficarem a saber que a gua estava por perto. A histria era mais ou menos assim. O calor abrasador punha-me tonto, o que tornava difcil 
a compreenso de todos os pormenores da lenda.
     - J reparaste que quanto menos interessante for o assunto mais as pessoas desejam falar dele? - suspirou o Micah, a tentar afastar as moscas  palmada.
     - Deixa l. Trata-se de uma cultura de que no sabemos nada.
     - No sabemos nada dela porque  aborrecida.
     - No  nada aborrecida.
     -  apenas um grande rochedo no meio do deserto.
     - E as cores?
     - Ao amanhecer, vimos as cores.  luz do dia  um grande rochedo. De manh quase era comido pelas moscas e senti-me quase assado pelo sol, enquanto agora tenho 
de ouvir histrias interminveis que falam de combates entre espritos.
     - No te espanta que as pessoas tenham conseguido sobreviver, durante milhares de anos, num stio destes?
     - Espanta-me que nunca se tenham ido embora. O qu? Ests a pretender dizer-me que nenhuns aborgenes foram at  costa, que nunca viram as praias nem sentiram 
a brisa do mar enquanto pescavam o que haviam de comer ao jantar e diziam para si mesmos: "Hum!, no estar na altura de pensar em mudar-me?"
     - Julgo que o calor est a afectar-te o raciocnio.
     - Pois est. Sinto-me a morrer. Parece que j sinto os btios por cima da cabea,  espera de me apanharem desprevenido.
     
     No mesmo dia, mais tarde, fomos a Ayers Rock pela terceira vez. Teramos a oportunidade de ver a mudana de cores ao pr-do-sol.
     - Comeo a ter a impresso de que por estes lados h pouco que fazer, a no ser olhar embasbacado para o rochedo - confidenciou o Micah.
     - No  assim to mau - redargui. - Ouvi dizer que esta noite tocaro msica aborgene.
     - Bravo! - exclamou, a levar as mos ao alto. - Como  que vou conseguir esperar?
     Contudo, o sero acabou por ser um dos mais memorveis de toda a viagem. Comeou por um cocktail - e, sim senhor, com toda a gente a olhar para Ayers Rock quando 
o Sol comeou a descer - mas depois fomos levados para uma clareira onde tinham posto as mesas, com toalhas de pano, velas e belos arranjos florais. O pr-do-sol 
foi belo e a comida estava deliciosa. Entre outras coisas, o bufete apresentava carnes de canguru e de crocodilo cortadas aos pedaos e cozinhadas na perfeio. 
A temperatura descera e at as moscas pareciam ter desaparecido.
     Jantmos no deserto sob um cu que ia escurecendo lentamente; a seu tempo, as estrelas apareceram em toda a sua pujana. Depois, as velas foram apagadas e o 
astrnomo comeou a falar. Usando uma lanterna para apontar as diversas regies do firmamento, descreveu o mundo que havia l em cima.
     No s o cu estava suficientemente escuro e limpo para permitir identificar algumas estrelas da Via Lctea, mas tambm, por nos encontrarmos no Hemisfrio 
Sul, era um cu totalmente estranho para ns. Ficmos encantados. Em vez da Ursa Maior e da Polar (a Estrela do Norte), vimos o Cruzeiro do Sul e soubemos como os 
marinheiros o utilizavam na navegao. Jpiter havia dcadas que no se encontrava to prximo da Terra e brilhava intensamente no cu. Tambm Saturno estava visvel 
e, pela primeira vez, consegui ver os dois planetas ao mesmo tempo. Ainda melhor, descobrimos que a agncia tinha alugado telescpios. Naquela noite, vi as luas 
de Jpiter e os anis de Saturno, que conhecia dos livros mas nunca vira atravs das lentes. Para o Micah, era tambm a primeira vez.
     No caminho de regresso ao hotel, recostou-se no assento, a verdadeira imagem do contentamento.
     - A manh foi fantstica e o sero foi o melhor que passmos nesta excurso.
     - No entanto, passvamos bem sem a tarde, no ?
     Sorriu sem descerrar os olhos.
     - Ests a ler-me a mente, maninho.
     Tambm me recostei e fechei os olhos. No autocarro, ningum falava; na sua maioria, os excursionistas pareciam descontrados como ns. No silncio, deixei a 
mente divagar. Os anos haviam passado to depressa que no podia deixar de sentir uma certa irrealidade na minha vida, como se estivesse a observ-la com os olhos 
de qualquer outra pessoa. Talvez fosse por causa do sero que acabvamos de passar, ou talvez fosse apenas exausto, mas, de sbito, no meio daquela terra estranha, 
no me vi como um escritor de 37 anos de idade, ou como marido, ou at como pai de cinco filhos. Em vez disso, parecia-me que acabava de nascer e que perante mim 
se abria um futuro incerto, uma sensao semelhante  que senti quando sa do avio em South Bend, estado de Indiana, em Agosto de 1984.
     
     O meu primeiro ano em Notre Dame constituiu um verdadeiro desafio. Pela primeira vez na vida, no era o mais inteligente da turma e os estudos eram muito mais 
exigentes do que eu pensara. Estudava uma mdia de quatro horas por dia e no conseguia resultados to bons como esperava; durante os quatro anos seguintes, o nmero 
de horas dirias de estudo iria sempre aumentar.
     Era-me difcil viver longe de casa. Sentia saudades da famlia e dos amigos, da Lisa, e no me dava bem com o meu novo colega de quarto. Pior do que tudo: na 
segunda semana aps a chegada, magoei o tendo de aquiles, tentei treinar apesar das dores e contra uma tendinite grave. A zona do tendo inchou at ficar do tamanho 
de uma bola de golfe. De acordo com os mdicos, a nica cura era parar de correr imediatamente.
     Naquela altura, o desporto tinha-se tornado a coisa mais importante da minha vida e a ideia de parar contrariava tudo aquilo em que eu acreditava. O meu sonho 
era seguir as pisadas de Billy Mill, representar os Estados Unidos nos jogos Olmpicos e ganhar a medalha de ouro. Agora sei que, mesmo que no tivesse contrado 
aquela leso, o sonho era inatingvel. Era o mesmo que alimentar o sonho de voar.
     Como disse, era um bom corredor, no era um corredor excepcional. No tinha a velocidade natural nem a resistncia necessrias para ser um atleta de classe 
mundial;  certo que, por treinar mais do que a maioria dos alunos do secundrio, conseguira bons resultados. S compreendi estas verdades com a passagem do tempo; 
na altura, a leso foi devastadora. Pela primeira vez na vida, senti que podia falhar.
     A leso apoquentou-me durante o Outono; no Inverno, houve uma pequena melhoria, antes de voltar a lesionar-me. Foi por essa altura que eu e a Lisa acabmos 
o namoro, dois apaixonados da escola secundria vencidos pela distncia que nos separava. A escola continuava a ser um desafio, em parte por eu ter a cabea noutro 
stio qualquer.
     Acabei por conseguir cumprir parte da temporada de pista e at bati um recorde da universidade, como membro de uma equipa de estafetas. Foi a minha ltima prova 
daquele ano. Quando acabei a corrida mal conseguia andar. O tendo de Aquiles estava do tamanho de um limo; qualquer movimento provocava uma dor excruciante; sempre 
que dava um passo, o tendo rangia como uma dobradia ferrugenta. Ao ir para casa nas frias de Vero, sa do avio em muletas.
     
     Senti-me muito mal durante as primeiras semanas de Vero. No tinha emprego, nem namorada e, por o meu irmo se ter mudado, tambm no tinha companheiro para 
dar umas voltas. Alm disso, os mdicos tinham proibido qualquer corrida durante um perodo de trs meses, o que s serviria para me atrasar em relao aos restantes 
concorrentes.
     A mam tentava arranjar pretextos para me animar. Pelo menos, era assim que lhes chamava. "Pinta a sala de estar", alvitrou, "vais sentir-te mais animado", 
ou: "Passa a porta  lixa para eu a poder pintar de outra cor. Ajuda-te a passar o tempo."
     Se as ideias dela resultassem, eu seria o rapaz mais feliz deste planeta. Limitava-me, porm, a andar pela casa, com roupas sujas de tinta, a trabalhar durante 
todo o dia em variados projectos, a resmungar que queria era correr e a tentar perceber as razes que levavam Deus a no me ajudar e a no ouvir as minhas splicas. 
Em meados de Junho, j a mam se sentia exasperada com a minha atitude e, ao ouvir-me lamentar a minha pouca sorte pela centsima vez, quando estava sentado  mesa 
da cozinha, acabou por abanar a cabea, e dizer:
     - O teu problema  o aborrecimento. Precisas de arranjar qualquer coisa para fazer.
     - A nica coisa que desejo fazer  correr.
     - E se no puderes?
     - Onde  que pretendes chegar?
     - O que acontecer se a tua leso nunca se curar? Ou se, mesmo que melhore, no conseguires treinar como desejas, com medo de te lesionares outra vez? No queres 
passar o resto da vida sem fazer nada?
     - Mam...
     - Eh!, s estou a falar do que  bvio. Sei que no  justo, mas nunca ouvi dizer que a vida fosse justa. - Baixei a cabea sobre a mesa. - Oh, no - continuou, 
com voz firme, - no vais ficar para a sentado sem fazer nada. No amues. Faz qualquer coisa por ti.
     - Fao o qu?
     - A vida  tua.
     Frustrado, levantei a cabea:
     - Mam...
     - Eu no sei - acrescentou, com um encolher de ombros. Depois, olhou para mim e proferiu as palavras que acabariam por mudar a minha vida: - Olha, escreve um 
livro.
     Nunca, at quele momento, pensara em escrever.  verdade que passava a vida a ler, mas sentar-me e inventar toda uma histria? Uma ideia perfeitamente ridcula. 
No sabia nada do ofcio de escritor, no ardia em desejos de ver as minhas palavras impressas. Nunca tivera uma lio de escrita criativa, nunca tinha escrito para 
o livro de curso ou para o jornal da escola, nem suspeitara alguma vez de possuir um talento oculto para compor uma prosa. Contudo, e mesmo sabendo tudo isso, a 
ideia tinha o seu interesse e dei comigo a responder:
     - Est bem!
     Na manh seguinte, sentei-me diante da mquina de escrever do meu pai, coloquei uma folha de papel e comecei a escrever. Escolhi o romance de terror e inventei 
um personagem que causava mortes em qualquer Lugar aonde fosse. Seis semanas e cerca de trezentas pginas mais tarde, depois de escrever sete horas por dia, a obra 
estava completa. Ainda hoje me recordo de escrever a ltima frase e de um sentimento de misso cumprida como nunca tinha sentido at ento.
     O nico problema era o prprio livro. Era horrvel e eu sabia-o. Era atroz, em qualquer sentido da palavra mas, ao cabo e ao resto, que interessava isso? No 
tinha a inteno de public-lo; s o tinha escrito para ver se era capaz. J ento sabia que existe uma grande diferena entre comear um romance e termin-lo. Mas 
tive uma surpresa ainda maior: na verdade, o trabalho agradou-me.
     Tinha 19 anos de idade e tornara-me escritor por acidente. Estranha, a forma como as coisas acontecem na vida!
     
     Como vivia oito meses por ano afastado de casa, o meu irmo e eu
     tnhamos pouco tempo para conviver. O Micah continuava a aproveitar os fins-de-semana para experimentar coisas novas e excitantes. Entretanto, a leso continuava 
a atormentar-me; no fiz pista nem corta-mato, mas concentrei-me na preparao do regresso.
     No ano anterior fizera bons amigos entre os restantes caloiros, alguns dos quais tambm faziam parte da equipa de atletismo, e foi deles que passei a depender 
para sobreviver a mais um ano difcil. No entanto, com a ida para a universidade aprendera uma coisa. A minha dependncia em relao  famlia era menor que a dos 
meus irmos. A Dana era caloira na universidade mas continuava a viver em casa; embora o Micah tivesse o seu prprio apartamento, continuava a ir a casa trs ou 
quatro vezes por semana. Parecia estar l sempre que eu ligava para casa.
     Pouco depois de eu ter sado para frequentar o primeiro ano, a mam informou-me de que a Brandy no estava bem. Tinha 12 anos, no muitos para certas raas, 
mas uma idade avanada para uma doberman; pela voz, vi que a mam estava preocupada. Adorava a cadela, como todos ns; quando lhe fiz mais perguntas sobre o animal, 
mostrou-se ligeiramente evasiva.
     - Bom, perdeu um pouco de peso e parece ter piorado da artrite.
     Quando voltei a casa para as frias a seguir ao primeiro perodo, fiquei chocado com o aspecto da Brandy. Estivera dois meses sem a ver mas, durante esse perodo, 
ela deixara de ser um animal relativamente saudvel para passar a ser um esqueleto ambulante. Tinha o estmago metido para dentro e eu conseguia contar-lhe as costelas, 
mesmo que estivesse sentado do lado oposto da sala. Quando se aproximou lentamente de mim, pude ver-lhe os olhos felizes por me ter reconhecido. A cauda, esqueltica 
e quase sem plo, agitou-se num dbil cumprimento. Ajoelhei-me e afaguei-a com suavidade, a senti-la tremer debaixo da minha mo. Senti um n na garganta.
     Passei a maior parte dos dois dias seguintes na companhia da cadela, sentado ao lado dela e a dar-lhe palmadinhas. J sabia que o animal no chegaria ao Natal; 
falava-lhe calmamente ao ouvido, a recordar-lhe todas as nossas aventuras quando estvamos ambos a crescer.
     No dia anterior ao meu regresso a Notre Dame, encontrmos a
     Brandy morta.
     O Micah e eu contivemos as lgrimas e fomos buscar a nossa irm. A Dana no procurou armar-se em forte e desatou de imediato a chorar. Foram os soluos dela 
que obrigaram o meu irmo e eu a chorar tambm; um pouco mais tarde, com olhos ainda marejados de lgrimas, abrimos uma cova no quintal das traseiras e enterrmo-la. 
Tinha desaparecido, s deixando para trs as memrias que ns guardaramos para sempre.
     - Esperou que estivesses em casa - afirmou o Micah, com ar convicto. - Acho que sabia que estavas de regresso e quis ver-te uma ltima vez.
     Anos mais tarde, descobrimos a verdade acerca da morte da cadela. A Brandy, soubemos depois, no morreu durante o sono. Tinha morrido, na mesma manh, no consultrio 
do veterinrio, com a minha me a segur-la para lhe ser administrada a injeco final. Depois, a mam levou-a para casa e, enquanto ainda estvamos a dormir, foi 
colocar a cadela na cama. No quis que soubssemos que a cadela tinha sido abatida; quis que pensssemos que a Brandy morrera pacificamente enquanto dormia. A mam 
sabia que ficaramos devastados com a ideia de pr o animal a dormir, pensou que era importante proteger os nossos sentimentos.
     Apesar de j sermos crescidos, mesmo que sempre tivesse acentuado a necessidade de sermos firmes, no deixou que a morte da Brandy se tornasse ainda mais dolorosa 
para ns.
     
     No segundo ano da universidade, fui operado ao tendo de Aquiles e ao p. Tanto o tendo de Aquiles como o feixe plantar (um tendo que corre ao longo da planta 
do p) tinham sido gravemente afectados pelo treino intensivo. Era provvel que no voltasse a correr. Como continuava a alimentar o sonho, empenhei-me na reabilitao 
e, em Julho, recomecei a fazer corrida ligeira sem sentir dores. Treinei muito e depressa consegui superar os meus tempos anteriores; no segundo treino pesado do 
dia, por exemplo, corria oito quilmetros em pouco mais de 23 minutos e mantinha a respirao controlada.
     Contudo, em Outubro, a dor voltou e fui injectado com cortisona na zona da antiga leso. Como o anti-inflamatrio tornou aquela zona insensvel, continuei a 
correr. Quando a dor reapareceu, seis semanas mais tarde, fiz outra injeco de cortisona. Passado pouco tempo estava a ser injectado todos os meses mas, mesmo assim, 
consegui uma poca razovel. Chegado o Vero, precisava de injeces semanais para continuar a treinar; tinha feito cerca de trinta injeces desde a operao; tinha 
de me preparar para a minha ltima poca. Tanto o tendo de Aquiles como o feixe plantar estavam inchados. Recordo-me de um dia em que coxeava a caminho da pista 
para mais um treino e, de repente, decidi com toda a lucidez que no podia voltar a fazer aquilo.
     Pendurei as sapatilhas para sempre, a sentir tristeza e, facto estranho, com um certo alvio. Com a excepo de um recorde escolar batido, que detenho passados 
dezanove anos, falhei todos os outros objectivos que me tinha proposto alcanar. Porm, a despeito de a corrida ter sido o fio condutor da minha vida nos sete anos 
anteriores, compreendi que sobreviveria sem o atletismo.
     Tinha dado o meu melhor e no deveria ter acabado assim. E se tivesse de fazer tudo de novo, decerto que o faria, mesmo que voltasse a no realizar o meu sonho. 
Quando alimentamos um sonho, apreendemos a conhecer-nos. Aprendemos a conhecer as nossas capacidades e os nossos limites, e o valor do trabalho rduo e da persistncia.
     Quando falei ao meu pai na deciso que tomara, partilhando com ele o desapontamento que sentia e tambm o alvio de ter conseguido finalmente tomar uma deciso, 
ele ps-me um brao  volta dos ombros.
     - Toda a gente tem sonhos. E se os teus no se realizaram como pretendias, no me sinto menos orgulhoso de ti. Na sua maioria, as pessoas nem sequer tentam.
     
     Nesse ano, a mam conseguiu finalmente o cavalo com que sempre sonhara. Uma gua rabe de trs anos de idade, a que ps o nome de Chinook.
     A Chinook era guardada num estbulo que havia perto do rio American e a mam ia aliment-la duas vezes por dia, antes e depois do trabalho. Passava horas a 
escovar-lhe o plo, a limpar o estbulo e depois a sujidade das prprias unhas.
     Apesar de haver pistas de hipismo ao longo do rio, decorreram alguns meses antes que a minha me pudesse montar. A Chinook passara a maior parte da vida numa 
pastagem (em companhia de um bode) e nunca tivera nada de parecido com uma sela em cima do lombo, uma das razes para a mam ter dinheiro suficiente para a comprar. 
Era extremamente nervosa, como muitos cavalos rabes, mas a mam tinha um talento natural para a acalmar. No tardou que a Chinook deixasse que lhe pusessem a sela; 
mal se habituou  sela, a mam saltou-lhe para cima. A gua no pareceu apreciar a ideia, mas a mam era paciente e nunca me esqueo da alegria da voz dela, num 
dia em que me telefonou.
     - Esta manh, montei a Chinook durante horas! - anunciou. - Nem calculas como foi maravilhoso!
     - Fico feliz por ti, mam - foi a minha resposta. A minha me vivera uma vida de sacrifcios, com os seus desejos sempre em segundo lugar em relao aos nossos. 
No podia deixar de sentir que era chegada a altura de ela conseguir dispor de algo que a tornasse feliz.
     Mais tarde, viria a adquirir um segundo cavalo, chamado Napoleon. Este era um animal de bom feitio e de reaces previsveis; o tipo de cavalo perfeito para 
o meu pai. E, para minha surpresa, ele concordou em montar.
     Embora o meu pai nunca se tivesse sentido confortvel na sela, penso que foi uma forma de mostrar que desejava investir no casamento. Anos de afastamento emocional 
tinham afectado a relao deles e o Micah dizia com frequncia que a mam estivera vrias vezes a atingir o ponto de ruptura. Se, antes, quis manter o casamento 
para salvaguarda dos filhos, agora era frequente perguntar-se, em voz alta, se no seria mais feliz sem a companhia do marido. No sei se algum deles chegou a pensar 
seriamente no divrcio. Sei, no entanto, que a mam proferia a palavra com frequncia crescente, tanto ao telefone como em casa. E o meu pai ouvia-a, sem sombra 
de dvida.
     A reaproximao  sempre difcil; e muitas vezes, quando o afastamento foi aumentando ao longo dos anos,  praticamente impossvel. No entanto, os passeios 
a cavalo deram aos meus pais a possibilidade de a conseguirem e, pouco a pouco, pareceram apreciar a renovao do sentimento de camaradagem entre eles.
     
     O meu irmo continuava a viver a sua existncia descuidada. Depois da formatura, em 1987, ele e um amigo foram para a Europa e gastaram quase um ms a percorrer 
a Espanha, a Frana e a Itlia em bicicleta. Depois do regresso, contou muitas histrias acerca da aventura e seguiu para as montanhas, para praticar a descida dos 
rios em canoa.
     Em Agosto comeou a trabalhar a tempo inteiro numa firma de compra e venda de propriedades; continuou a namorar energicamente. Em cada quinzena levava uma namorada 
a casa, para conhecer os meus pais, e cada uma das raparigas parecia estar louca por ele. A certa altura, a mam anunciou-me pelo telefone que ele tinha levado a 
mesma rapariga duas vezes. Para o Micah, em muitos anos, aquela era a situao que mais se aproximava de um namoro estvel. E quando a levou l uma terceira vez, 
penso que a mam julgou tratar-se de um caso srio.
     Em Notre Dame, eu estava prestes a concluir a formao em gesto financeira, com a esperana de frequentar a Faculdade de Direito aps a licenciatura. Em Maro 
de 1988, eu e uns amigos decidimos ir de carro  Florida para assinalar as nossas ltimas frias da Pscoa. Como o pai de um dos meus companheiros de quarto era 
proprietrio de um condomnio na ilha Sanibel, optmos por ir para l em vez de escolhermos os destinos habituais, como Daytona ou Fort Lauderdale.
     Na segunda noite da nossa estada, reparei numa mulher que atravessava o parque de estacionamento do condomnio na companhia de duas amigas.
     Era atraente, um aspecto comum a quase toda a gente depois de se passar uma tarde na cidade, e depressa me saiu do pensamento. Contudo, momentos depois, quando 
eu estava a chegar ao trio na companhia dos meus amigos, ouvimos vozes a chamar-nos, vindas do corredor exterior do sexto piso.
     - Eh!, rapazes, tambm esto hospedados aqui?
     Olhmos para cima e reparei nas trs raparigas que vira havia pouco.
     - Estamos - respondemos.
     - Ora bem, tnhamos combinado um encontro com uns amigos, mas eles ainda no chegaram, e temos mesmo de ir  casa de banho. Podemos usar a vossa?
     - Com certeza - gritmos. - Estamos no oitavo piso.
     Subiram, apresentaram-se como finalistas da Universidade de New Hampshire e deixmo-las entrar para se servirem da casa de banho. Momentos depois, encontrmo-nos 
com as trs na cozinha, mas os meus olhos continuaram colados na mulher em que reparara primeiro. De perto, tinha os olhos mais belos que eu alguma vez vira, de 
uma cor to pouco habitual que nem pareciam verdadeiros. No conseguia deixar de olhar para eles.
     - Ol! - acabei por cumprimentar. - Sou o Nick.
     Sorriu.
     - Ol, Nick. Eu sou a Cathy.
     Adoraria dizer-vos que a atraco inicial foi mtua, mas estaria a
     mentir se o fizesse. As raparigas ficaram no nosso quarto durante meia hora e a seguir convidaram-nos a descer at ao quarto dos amigos. Enquanto l estivemos, 
consegui o nmero de telefone delas atravs de uma das amigas da Cathy, a quem prometi ligar no dia seguinte a perguntar se queria ir para a praia existente nas 
traseiras do condomnio.
     Quando decidiram juntar-se a ns na manh seguinte, fiquei nitidamente nervoso com a hiptese de voltar a ver a Cathy. Esperava ter-lhe causado uma boa impresso 
e, quando a vi na praia, juntamente com as amigas, a dirigir-se para mim, levantei-me de imediato.
     - Ol! - saudei, impulsivamente, - ainda bem que conseguiram vir.
     Ao que a Cathy respondeu:
     - Oh, ol, eu sou a Cathy. No nos conhecemos na noite passada, pois no?
     A despeito da mossa no ego, no estava disposto a desistir. Acabmos por conversar durante vrias horas. Quando falaram em ir a uma discoteca das proximidades, 
convenci os meus companheiros de quarto a irmos logo para l e atrelei-me de imediato  Cathy. Depois de danarmos durante uma hora, inclinei-me para ela e disse:
     - Sabes que um dia havemos de nos casar?
     Ela limitou-se a soltar uma gargalhada de descrena:
     - julgo que precisas de mais uma cerveja.
     Como pudera saber to rapidamente que ela era a mulher ideal para mim? Foi um momento esquisito de intuio, mas posso afirmar com toda a franqueza que soube.
     Tnhamos muito em comum. Tal como eu, ela era finalista da licenciatura em gesto. Era catlica como eu e frequentava a igreja todos os domingos. Era tambm 
uma filha do meio, embora num grupo de quatro. Como eu, tinha um irmo mais velho e uma irm mais nova. Os seus pais, como os meus, tinham sido pobres antes de conseguirem 
ascender  classe mdia, nunca tinham sido divorciados e, suprema coincidncia, partilhavam o aniversrio de casamento com os meus (31 de Agosto). Tambm era atleta 
(campe estadual de ginstica). Desejava ter filhos, como eu, e preferia ficar em casa a cri-los, como eu esperava que a minha mulher viesse um dia a fazer.
     Porm, mais do que tudo, o que me atraiu nela foi a sua maneira de ser. Ria-se muito e era fcil comear a gostar de algum que via o lado cmico de cada situao. 
Tambm era inteligente, lera muito e falava bem, gostava de ouvir e tinha confiana nos seus princpios. E, alm do mais, era cordial. Tratava os meus amigos como 
se fossem amigos de longa data, sorria e saudava tanto as crianas como os idosos. Parecia genuinamente interessada em todas as pessoas.
     Tinha-lhe detectado todos aqueles predicados e, enquanto danvamos, dei comigo a pensar que ela era tudo o que eu desejava numa companheira para toda a vida.
     Depois de regressar a Notre Dame, liguei ao meu irmo, a informar:
     - Micah, encontrei a rapariga com quem vou casar.
     - Quando? Onde? No foste apenas passar uns dias de frias?
     - Pois fui. Conhecia-a l.
     - Trouxa - redarguiu, - estavas a passar as frias da Pscoa.
     Para que diabo  que pensas que serve o casamento?
     - Espera at a conheceres.
     - Mas eram as frias da Pscoa!
     - Eu sei - respondi alegremente. - No  fantstico?
     
     Nos dois meses anteriores  concluso da licenciatura, escrevi uma centena de cartas  Cathy. Ela foi visitar-me duas vezes a Notre Dame e, no dia da cerimnia 
de graduao, os meus pais tambm foram, pela primeira vez, ver-me  universidade. Enquanto lhes mostrava o lugar onde tinha vivido os quatro anos mais recentes, 
falei principalmente da Cathy e do que ela tinha representado para mim durante os dois meses finais de estudos. Depois da cerimnia, enquanto os meus pais tomaram 
o avio para casa, eu segui para New Hampshire para assistir  cerimnia de graduao da Cathy. Fui apresentado aos pais dela e, dez dias depois, levei-a a Sacramento, 
para ela conhecer os meus.
     Os meus pais receberam-na com abraos espontneos e a Cathy
     ficou na cozinha, a falar com a mam durante uma hora. Nessa noite,
     depois de ela ter ido para a cama, a minha me declarou:
     - A Cathy  maravilhosa.  ainda melhor do que tu dizias. Senti o corao prestes a rebentar.
     - Ainda bem que gostou dela, mam - foi tudo o que consegui
     dizer.
     
     Em Maio de 1988, concluda a licenciatura, o meu primeiro pensamento foi: "E agora?"
     Durante anos, fora simultaneamente estudante e atleta e perseguira os meus objectivos com uma tenacidade inabalvel. Tinha feito o que mandavam, tinha obedecido 
s normas. Porm, de uma assentada, ambos os mundos tinham ficado para trs e dei comigo  deriva. No fazia ideia de quem era, do que desejava fazer ou aonde o 
futuro ia conduzir-me. Sempre acreditara que, por seguir as normas, o mundo criaria um caminho para mim. Mas o mundo parecia no se importar minimamente comigo.
     A despeito de me ter licenciado com as melhores notas, no fui aceite em nenhuma das faculdades de direito onde pretendi matricular-me, uma porta fechada ainda 
antes de se abrir. Todos os meus amigos aceitaram empregos em empresas de Nova Iorque ou de Chicago, mas esses empregos tendiam a estar localizados perto dos lugares 
onde eles tinham crescido. Tambm eu desejava ir para casa e, com a cabea cheia de ideias nebulosas quanto ao futuro, dei comigo dentro de um avio com destino 
a Sacramento. O meu primeiro emprego foi a servir  mesa. Mesmo com uma licenciatura, aceitei um emprego a ganhar o salrio mnimo.
     Entretanto, comecei a informar-me sobre carreiras, a tentar descobrir um trabalho que me interessasse. Embora confuso, no me sentia especialmente preocupado 
e, na altura em que a Cathy se mudou para Sacramento, em Agosto, tomara a deciso de tentar as minhas aptides como avaliador de bens imveis. Por essa altura, o 
Micah e eu comprmos duas pequenas casas de aluguer, numa rea degradada da cidade, procedemos a reparaes e alugmo-las. No pouco tempo que me sobrava, escrevi 
um novo romance, com o ttulo The Royal Murders, um policial clssico. Sabia, no entanto, que no era suficientemente bom para ser publicado.
     Comecei a trabalhar, durante o dia como avaliador estagirio para uma empresa local, enquanto  noite continuava a servir  mesa e a escrever; acabei por conseguir 
juntar dinheiro para comprar um anel com um pequeno brilhante. No dia do aniversrio da Cathy, a 12 de Outubro de 1988, de joelho em terra, propus-lhe casamento 
e ela aceitou.
     Uns dias depois, convidei o Micah para meu padrinho, a pensar que ele estivera a meu lado durante a nossa juventude e que continuaria a estar a meu lado, para 
onde quer que fosse que o destino nos mandasse.
     
     Angkor, Camboja 4 e 5 de Fevereiro
     
     Os templos de Angkor, no Camboja, que ocupam uma rea de 300 quilmetros quadrados, foram construdos entre os anos 879 e 1191 da nossa era, durante o apogeu 
do Imprio Khmer. Descobriu-se mais de uma centena de templos que j estiveram rodeados de cidades, a partir das quais os reis khmers governaram uma vasta poro 
do Sudeste da sia, que inclua a Birmnia, a Tailndia, o Laos, o Vietname, o Sul da China e o Camboja. Reinaram durante quase cinco sculos, at 1432, ano em que 
os Siameses (ou Tal) saquearam Angkor e a capital foi deslocada para sul, para Phnom Penh. Angkor nunca readquiriu o anterior estatuto e acabou por entrar em decadncia 
e permitir que a floresta virgem a invadisse progressivamente. Angkor entrou na lenda - as pessoas que viram as runas afirmaram que tinham sido construdas pelos 
deuses - e alguns exploradores aventureiros idos da Europa divulgaram histrias das famosas runas entre os seus pares. Foi preciso esperar at 1860, por Henri Mouhot, 
o explorador francs que voltou a chamar a ateno do mundo para Angkor.
     Os exploradores franceses ficaram encantados com as runas e deram incio a um assinalvel esforo de restaurao. Porm, tudo o que restava de Angkor eram 
os prprios templos, que so considerados uma das mais importantes manifestaes arquitectnicas da Humanidade. As cidades, com edifcios construdos de madeira, 
havia muito que se tinham desmoronado e desaparecido no seio da floresta invasora.
     Na sua grande maioria, os templos da regio de Angkor so influenciados pelo hindusmo; os restantes so budistas. Ambos estes sistemas de crenas prevaleciam 
no Imprio Khmer na altura da construo e havia uma certa alternncia entre os dirigentes, ora hindus ora budistas, que as construes teriam forosamente de reflectir. 
No entanto, as variaes na arquitectura so ligeiras; a maior parte das construes tm no centro um templo com a forma de uma montanha estilizada, rodeado de muros 
circulares ou quadrados, ou terraos, que por sua vez so rodeados por um fosso ou por um muro envolvente.
     Angkor Wat, que  letra significa "Cidade-Templo", no  apenas o maior templo do complexo de Angkor,  tambm o maior monumento religioso do mundo. Construdo 
durante a primeira metade do sculo xIi por Suryavarman Ii,  considerado o znite da arquitectura khmer. As esculturas dos muros exteriores representam importantes 
cenas da literatura hindu, bem como acontecimentos registados durante o reinado de Suryavarman II, com grande riqueza e exactido de pormenores. Para estudar e compreender 
totalmente as esculturas em relevo - em muros com quatro metros de altura e mais de um quilmetro de comprimento - seriam precisos anos. H livros que lhes so inteiramente 
dedicados e esta obra no tem o intuito de as comentar.
     Como se costuma dizer,  preciso ver para crer.
     
CAPTULO DOZE
     
     Para chegarmos ao Camboja tivemos de suportar mais sete horas de voo; comeava a aperceber-me de quanto era difcil uma viagem  volta do mundo. No final da 
viagem, teramos voado 58 mil quilmetros, o equivalente a trs dias inteiros passados no ar.
     Ao chegar ao Camboja, no sabia muito bem o que me esperava. Embora tivesse estado em Hong Kong e na Coreia para disputar provas de atletismo, no ia preparado 
para uma cidade como Phnom Penh, onde aterrmos. Fui tomado por uma sensao estranha, um misto de curiosidade e de tristeza. As ruas principais fervilhavam de gente 
como acontece em muitas cidades  volta do mundo, mas, em vez de automveis, as pessoas conduziam scooters. Por detrs de casas modestas erguiam-se novos arranha-cus 
envidraados; por cada homem vestido de fato completo, via-se outro que perdera uma perna no rebentamento de uma das minas que continuam enterradas pelos campos. 
Para onde olhasse, tinha de reparar nas contradies do pas: uma terra em luta para se desligar do passado como condio para assegurar um futuro mais prspero.
     A nossa paragem em Phnom Penh foi de curta durao. Do programa constavam visitas ao Museu Nacional e ao Palcio Real; depois, voltaramos ao aeroporto para 
voarmos para Angkor.
     Na minha opinio, o Museu Nacional tambm se pode considerar representativo do Camboja. Do lado de fora dos portes, havia numerosos mendigos, que estendiam 
a mo aos turistas e lhes pediam uma moeda; l dentro, viam-se outras recordaes da guerra que durante dcadas tinha devastado o pas. Embora o museu se encontrasse 
cheio de objectos valiosos e imagens de vrios deuses hindus (Shiva, Vishnu e Brama), nenhuma das janelas tinha vidros. Todo o recheio interior estava  merc dos 
elementos; as janelas tinham sido destrudas durante a guerra, um quarto de sculo antes, e no havia dinheiro para substitu-las. Poucos, ou nenhuns, dos objectos 
expostos estavam fixados aos pedestais; tinham sido ali colocados, pura e simplesmente. Na sua maioria, as imagens apresentavam-se partidas e o estuque em mau estado 
das paredes estava cravejado de buracos de balas. O tecto mostrava manchas de humidade que tambm desciam pelas paredes.
     No entanto, os guias falavam com orgulho do seu museu, da cultura e da alma do seu povo; chegada a altura de partir, tanto eu como o meu irmo nos sentamos 
subjugados. O Camboja pareceu-nos o mais estranho e incompreensvel de todos os lugares onde tnhamos estado at quela altura; ambos nos sentimos deslocados.
     Depois percorremos o Palcio Real que, na realidade,  um conjunto de cerca de vinte edifcios e templos, tudo rodeado por um muro, com as dimenses de um quarteiro 
citadino. Um dos edifcios  o palcio propriamente dito, onde o Rei vive; outro  o Salo das Recepes, uma estrutura magnfica com altos tectos pintados, uma 
longa carpete vermelha e colunas sublimes, onde os dignitrios so recebidos em audincia pelo Rei. Num templo prximo, ainda nos terrenos do palcio, vimos o gigantesco 
Buda de Prata. Ao contrrio do sucedido com muitos dos smbolos da cultura, escapara s destruies provocadas pela guerra e parecia ocupar um lugar central no corao 
dos cambojanos, pois encontrava-se rodeado por centenas de pequenas oferendas, constitudas por raminhos de flores.
     A paragem em Phnom Penh durou menos de trs horas, embora nos tivesse parecido muito mais longa. Ajoujados pelo peso do passado, seguimos a caminho das florestas 
de Angkor, onde chegaramos logo depois do sol posto.
     
     A estrada principal que sai do aeroporto conduz simultaneamente aos templos e aos enormes hotis erigidos na antiga floresta. O esplendor de alguns daqueles 
estabelecimentos  desconcertante (seriam considerados hotis de cinco estrelas em qualquer pas do mundo). Estruturas refulgentes, rodeadas de jardins bem desenhados 
e de iluminao suave. Palmeiras altas como torres e sebes viosas bordejavam os caminhos de entrada; as flores brotavam de todos os lados para onde olhssemos. 
Meia dzia de hotis a reclamarem dirias que custam mais do que ganha o cambojano comum durante um ano inteiro; alguns dispem de centros de sade e de sales de 
beleza; todos tm restaurantes de categoria, onde  obrigatrio o fato completo.
     Tudo isto, enquanto na estrada em frente passam as pessoas em bicicletas e scooters.
     No hotel, fomos informados de que estava planeada uma excurso a Angkor Wat, logo ao nascer do sol. A maior parte das pessoas, o Micah includo, resolveu no 
participar. Foi a primeira e a nica excurso de toda a viagem em que no estivemos juntos. E, tirando uns momentos aqui ou ali, era a primeira vez, nas duas ltimas 
semanas, em que nos encontrvamos afastados um do outro.
     Na viagem de autocarro, um dos membros do grupo perguntou-me como  que estvamos a dar-nos.
     - Muito bem - respondi. -  fcil viajar com uma pessoa como o Micah.
     - No o incomoda? No o aborrece passar todo o tempo com ele?
     Reflecti um pouco e apercebi-me de que o caso poderia parecer estranho.
     - Na verdade, no. Parece que desejamos quase sempre as mesmas coisas, que os desejos de um se adaptam aos do outro.
     -  espantoso - comentou o meu companheiro, sem deixar de abanar a cabea. - Os dois entendem-se melhor do que a maioria dos casais. Se os observar de perto, 
poder constatar que comea a notar-se um certo cansao em alguns deles.
     
     Estava ansioso por ver Angkor Wat. Para se chegar  estrutura principal - um quadrado com o alto templo-montanha, trs cercaduras quadrangulares concntricas 
e um muro exterior com cerca de 270 metros de comprimento, tudo rodeado por um fosso gigantesco - atravessa-se um longo passadio; dirigimo-nos para o muro exterior. 
Logo que o atravessmos, o guia pediu-nos que parssemos. A escurido no nos permitia ver o que quer que fosse.
     A seu tempo, o cu para l do templo comeou a tingir-se de vermelho, a seguir foi-se tornando cor de laranja e finalmente amarelo. Contra o cu que ia mudando 
de cor, o templo era apenas esboado pelo jogo de sombras que no permitiam distinguir a sua verdadeira forma. Mas no consegui tirar os olhos dele. Mesmo  distncia, 
e embora j a conhecesse atravs de leituras, a dimenso de Angkor Wat obrigou-me a parar. Se fosse de construo recente seria considerado enorme. Quando foi construdo, 
h oitocentos anos, deve ter constitudo um verdadeiro desafio  imaginao.
     Ficmos ali o tempo suficiente para o cu passar de amarelo a azul, altura em que regressmos ao autocarro. Enquanto rodvamos, os campos  volta de Angkor 
estavam a voltar  vida. As estradas encheram-se de scooters que ziguezagueavam s cegas  volta do pesado autocarro. No me pareceu que existissem regras de trnsito; 
as pessoas conduziam nos dois sentidos, entravam e saam da fila de trnsito, viravam inesperadamente, mas, sem se saber como, o sistema parecia funcionar.
      sua maneira, os condutores de scooters eram quase to impressionantes como Angkor Wat. Aprendemos que a maioria daqueles veculos era de produo chinesa 
e que cada um custava  volta de 600 dlares. Eram a verso cambojana do Chevy Suburban.
     - Vo quatro pessoas naquela scooter! - exclamou um dos meus companheiros de viagem, provocando a deslocao de todos os restantes para junto de uma janela, 
para verem o fenmeno.
     - Acol, vai outra com cinco! - anunciou outro, e todos nos deslocmos para o outro lado do autocarro.
     - Eu contei seis!
     - No pode ser!
     - Ali! Olhem!
     E olhmos. Olhmos embasbacados para uma scooter que transportava seis pessoas; ia devagar, mas movia-se, e ziguezagueava como todas as outras.
     - Nem vo acreditar nisto - acabou algum por dizer. -  nossa frente. Olhem bem.
     - O que ?
     Ele apontou.
     - Conto sete, em cima daquela.
     E tinha razo. Um homem ia sentado no meio e parecia levar os filhos. Duas meninas pequenas iam sentadas atrs do pai, trs outras crianas pequenas iam  frente. 
O ltimo, que parecia ser o mais pequeno, um rapaz que teria uns cinco anos, ia empoleirado nos ombros do pai. Todas as crianas vestiam uniformes, dando a ideia 
de estarmos a ver um pai a levar os filhos  escola.
     Enquanto durou o percurso a caminho do hotel, toda a gente procurou, sem xito, encontrar uma scooter que transportasse oito pessoas. Como se, naquele ambiente 
memorvel, sete no fossem suficientes.
     Devido ao calor e  humidade do pas, o dia foi dividido em dois perodos. Pela manh, visitaramos os outros templos e demais pontos de interesse: Ta Prohm, 
Bayon e o Terrao dos Elefantes. Depois do almoo, passaramos algumas horas no hotel. Mais para o final da tarde, visitaramos Angkor Wat.
     A primeira paragem foi em Ta Prohm, no que seria eleito o nosso templo preferido, apesar da grandiosidade de Angkor Wat. No  grande e encontrava-se muito 
arruinado, mas o crescimento da floresta intrigou-nos. Envoltas na sombra, as gigantescas razes das figueiras e o algodo de palmeira enredavam-se nos portais e 
irrompiam das paredes como se emanassem dos prprios troncos. Era como se a floresta tivesse sido surpreendida no prprio acto de devorar o templo, como em tempos 
tinha devorado todos os outros.
     As razes so imparveis. Embora fossem as gigantes a captarem primeiro a nossa ateno, uma inspeco mais cuidada revelou a existncia de razes mais finas 
que tentavam forar o caminho por entre os blocos de pedra; com o tempo, o bloco acabaria certamente por se soltar. Num par de dcadas, aqueles blocos encontrar-se-o 
junto do nmero imenso de pedras que nos rodeavam na altura.
     A despeito do estado lastimoso de conservao, o templo, sem se saber bem como, mantinha a sua forma original. Como todos os templos que iramos ver, tinha 
quatro muros quadrados concntricos (que, na realidade, so tneis) que rodeiam um templo-montanha; pouco a pouco, encontrmos o caminho atravs das runas e em 
direco ao centro. Ao contrrio de tantos outros lugares que visitmos, logo que dobrvamos uma esquina deixvamos de ver os nossos companheiros.
     - Isto  fantstico! - exclamou o Micah. - Espantoso, no ?
     - Faz-me recordar o Indiana Jones e a viagem pelo "Temple of Doom" na Disneylndia.
     - s to incuravelmente americano - protestei.
     - Achas que sim? Olha, tambm poderia ser o cenrio para um filme. Como se algum tivesse imaginado qual seria o aspecto de um templo em runas. Para ser real, 
parece demasiado real.
     - Demasiado real para ser real?
     - Exactamente - assentiu. - Como se algum o tivesse planeado.
     Quarenta minutos depois, estvamos de regresso ao autocarro, a caminho da paragem seguinte: Bayon. Ali, a floresta tinha sido cortada e podemos chegar facilmente 
s runas. Ao contrrio do calor australiano, o calor de Angkor era intensificado pela humidade. Os mosquitos estavam por toda a parte e tivemos de recorrer ao repelente 
de insectos.
     Quando comparado com Ta Prohm, Bayon no tem nada de notvel. Tem a mesma configurao dos outros templos, embora fosse ali que vimos os primeiros exemplares 
dos relevos que deram fama a estes lugares. A pedra calcria revelou diversas figuras, cada uma das quais acompanhada da sua histria.
     Contudo, as histrias eram difceis de entender. De todas as lnguas com que j tnhamos contactado durante a viagem, a do Camboja parecia a mais afastada da 
nossa. Os sons so to diferentes que tornam incompreensveis as palavras mais simples. Por isso, mesmo que os guias falassem ingls, havia dificuldades com os sotaques 
pesados e com as longas pausas que os guias cambojanos faziam para procurar as palavras adequadas. Ns sentamos dificuldades para os perceber, mas eles tambm as 
sentiam para compreender o que lhes dizamos.
     - Por que  que lhes chamam esculturas em relevo, em vez de esculturas? - perguntou o Micah.
     - Bom... estas so... na verdade esculturas em relevo - respondeu o nosso guia com um sorriso complacente.
     - Mas porqu em relevo?
     - Est a ver? - perguntou, a apontar para o muro. - Esculturas em relevo - acrescentou, a acentuar cuidadosamente a palavra "relevo".
     - Ah! - concluiu Micah ao descobrir que nunca se entenderiam. - Mesmo assim, obrigado.
     O guia inclinou-se num cumprimento:
     - No tem de qu.
     
     O sol estava a pino e atacava em fora quando finalmente chegmos ao Terrao dos Elefantes. Foi-nos dito que os reis costumavam sentar-se em cima do muro - 
no essencial, uma parede espessa com elefantes esculpidos - para assistir a espectculos que se realizavam na praa  sua frente.
     - Que gnero de espectculos? - perguntou o Micah. - Como os... bem...
     - Teatro? - No...
     - Circo? - alvitrou o Micah.
     - Isso, o circo. Com os acrobatas no... no... - o guia agitou a mo,
     a tentar dizer por mmica o que no conseguia dizer por palavras. - Trapzio?
     - Sim. Trapzio. E tambm havia mulheres... que... - o guia deu um passo, a agitar os quadris.
     - Danarinas?
     - Sim, danarinas. E... e...
     - Elefantes? - sugeriu o Micah.
     - No, elefantes no.
     
     O intervalo de trs horas que nos foi concedido no regresso ao hotel foi devidamente apreciado. Antes de seguirmos para Angkor Wat, eu e o Micah fizemos uns 
exerccios, almomos e dormimos um pouco. Tinham-nos repetido por mais de uma vez que as duas horas de que dispnhamos para a visita no permitiriam que aprecissemos 
devidamente o monumento.
     Como viemos a perceber, eles tinham razo, dado o tamanho e a importncia do templo. No entanto, a menos que o visitante conhea bem as histrias que contam 
acerca do deus hindu Vishnu e tenha a pacincia de aprender a forma como essas histrias foram representadas em figuras, duas horas  tempo mais do que suficiente. 
Um dos especialistas contratados pela agncia de viagens estava absolutamente fascinado pelos altos relevos de Angkor Wat, que tinha estudado profundamente. Ficou 
muito excitado logo que chegmos junto da muralha principal, depois de termos percorrido o passadio de acesso. Enquanto nos dedicvamos a fotografar pormenores 
dos relevos - de uma espantosa riqueza de pormenores, tenho de o admitir - o nosso especialista detinha-se depois de dar uns poucos passos e ia apontando para diversas 
seces do muro, para as descrever com pormenores ainda mais abundantes, com uma voz que ressoava de entusiasmo.
     Para ser franco, as explicaes s serviram para nos confundir.
     - Agora, isto aqui - diria ele, - representa a travessia do rio
     por Vishnu. Vejam onde ele se encontra. Esto a ver o templo, em primeiro plano?
     Ns semicerrvamos os olhos, procurvamos o templo e acabvamos por ach-lo, a pensar "at agora, percebo tudo". Mas, infelizmente, o especialista continuava.
     - Como provavelmente sabem, o templo que est por detrs dele representa o cosmos como se o seu centro fosse o Monte Meru; por outras palavras,  o modelo do 
universo num microcosmo! Esta, como tudo o que respeita a Angkor Wat,  a mesma representao! E todos estes relevos tm por fonte o Ramayana e o Mahabharata, sem 
esquecer o Bhagavad-Gita, o que, se pensarmos bem,  absolutamente extraordinrio. Alm disso, se andarmos um pouco mais, veremos tambm cenas da vida do prprio 
Suryavarman II que, segundo parece, decidiu identificar-se com Rama e Krishna, as encarnaes de Vishnu, transformando-se, assim, num Devaraja! Poderemos imaginar 
o que Jayavarman II pensaria disso, especialmente depois de ter derrotado os Chams. Oh, e apenas um passo mais adiante, veremos o famoso relevo que representa o 
mito da renovao csmica, tambm conhecida por Encrespar do Mar de Leite!
     Por aquela altura, os olhos do Micah j tinham adquirido o brilho habitual.
     - Leite?
     - Foi isso que ele disse.
     - O que  que isso querer dizer? - continuou. - E quem  o Rama, e que diabo  um Devaraja?
     - Queres que lhe pergunte?
     - No - respondeu apressadamente. - Se no lhe perguntarem nada, talvez ele se despache - acrescentou e fez uma pausa. - Ser que ele pensa que nos interessamos 
por toda esta conversa acerca de Shiva?
     - Vishnu. O homem est a falar do deus Vishnu.
     - Qualquer que ele seja - respondeu. - S quero dizer que no percebi patavina disto, que no me vou lembrar de nada do que estou a ouvir.  demasiado, isto 
, o muro tem trs metros de altura e rodeia todo o templo. Tem mais de quilmetro e meio de comprimento.  espantoso como monumento arquitectnico e percebo os 
motivos por que levou dez anos a ser construdo. Porm, a menos que s penses neste gnero de coisas, as esculturas parecem um friso contnuo.
     - Esculturas em relevo - emendei. Em relevo.
     - Como queiras.
     Entretanto, cada vez mais excitado, o nosso especialista continuava a falar.
     - E reparem, l fora, nas quatro cabeas de mrmore acima do muro exterior! Esto a v-las? Pensamos que representam os Guardies dos Quatro Pontos Cardeais, 
ou podem mesmo ser representaes de Bodhisattva Avalokiteshvara!
     Quando chegmos ao centro de Angkor Wat e nos detivemos junto da base do templo-montanha, o nosso especialista ainda continuava a todo o gs.
     -  interessante comparar as correntes mahayana e theravada do budismo, mas, para compreender o processo histrico, no nos podemos esquecer de que o animismo 
ainda era uma corrente importante no primitivo imprio khmer; a crena em Neak Ta, por exemplo. Talvez tenham reparado em Naga, o deus serpente, junto  entrada? 
Este...
     Foi aqui que o Micah resolveu interromp-lo:
     - Desculpe!
     O        especialista interrompeu o discurso:
     - Faa favor!
     O        Micah apontou para o templo-montanha:
     - Podemos subir aquela coisa?
     
     Passmos a hora seguinte a explorar as runas por nossa conta. Subimos a escadaria abrupta e em mau estado, percorremos os corredores empedrados, posmos para 
fotografias e observmos Angkor Wat dos pontos mais elevados que conseguimos alcanar.
     - Espero que no tenhamos de fazer um teste sobre este tema - observou Micah quando regressvamos pelo passadio. - Eu chumbava, de certeza.
     - Tu e eu, chumbvamos ambos.
     Fez uma pausa.
     - J te apercebeste de que andamos por fora h duas semanas?
     - Nem parece que  h tanto tempo.
     - Reconheo isto com uma certa tristeza. Andei meses a sonhar
     com esta viagem e j fizemos mais de metade. Tudo est a correr to
     depressa.
     - Os sonhos so coisas estranhas - observei. - Desejas qualquer coisa desesperadamente, consegues obt-la e, to subitamente como a conseguiste, ela desaparece. 
 como o atletismo: todo aquele treino para dois minutos de pista. O segredo, penso ter aprendido, est em gozar o processo de l chegar.
     - Ests a dar-me lies de filosofia?
     - No - tive de admitir. - Estou a falar s para no estar calado.
     - ptimo. Para um dia, j tive uma dose suficiente de filosofia. Caminhmos um pouco mais.
     - Sentes saudades da Christine? - perguntei.
     - Sinto. E tambm dos midos. E tu?
     Assenti.
     - Sinto saudades desde que parti.
     
     Casmo-nos em Manchester, New Hampshire, a terra natal da Cathy. Nos seis meses antecedentes, ela teve de preparar tudo estando a viver no outro extremo do 
pas. S foi a casa duas vezes; eu comeara a perceber que a minha noiva, quando havia necessidade, era uma mulher muito eficiente.
     O casamento foi celebrado a 22 de julho de 1989, na igreja que ela tinha frequentado durante toda a vida e no consegui afastar os olhos dela enquanto o pai 
a conduzia ao altar. Os olhos brilhavam-lhe por baixo do vu e as mos tremiam-lhe ligeiramente quando as tomei nas minhas. Mal me recordo da cerimnia. S guardo 
na memria o momento em que lhe enfiei a aliana no dedo. O copo-d'gua constitui outra memria difusa e estvamos ambos exaustos quando chegmos ao Hawai para iniciarmos 
a lua-de-mel. A viagem de npcias fora um presente de Billy e Par Mills, que se tinham habituado a gostar tanto da Cathy quanto eu. A Lisa, que h muito encontrara 
um novo companheiro para a vida, comeou a referir-se jocosamente a mim como "o ex-namorado que nunca se afastou".
     Como a cerimnia e o copo-d'gua se realizaram do outro lado do pas, poucos dos meus amigos puderam assistir. Contudo, a minha me resolveu dar uma festa em 
nossa honra, em Sacramento. Decorou o quintal das traseiras, fez um bolo, ps comida e cerveja  disposio dos convidados e todos os meus conhecidos de infncia 
passaram por l para me saudar. A festa prolongou-se por vrias horas e em certos aspectos foi mais interessante do que a festa original. Tinha regressado da lua-de-mel 
em Maui; juntamente com o        Micah, era proprietrio de duas propriedades arrendadas e acabara
     o meu terceiro romance que, tal como os dois primeiros, aguardava publicao. Sentia-me entusiasmado com a profisso que ia iniciar e estava profundamente apaixonado 
pela minha mulher. Foi, ainda hoje penso assim, uma das melhores tardes, e um dos melhores veres, de toda a minha vida.
     Se assim se pode dizer, a minha me estava ainda mais excitada do que ns. No decurso da festa, falou em deixar o emprego. Agora que tnhamos sado da universidade, 
e com o meu pai a ganhar mais do que nunca, no havia motivo para ela continuar a ir diariamente para o        emprego. J trabalhara o suficiente, declarou, e pretendia 
passar o tempo com a famlia e a passear a cavalo com o marido.
     - De facto - disse, de olhos a brilhar de contentamento, - no prximo fim-de-semana vamos passear novamente.
     Na noite de sexta-feira seguinte, apenas seis semanas depois de estarmos casados, a Cathy e eu fomos a um churrasco em casa dos meus pais. ramos os nicos 
filhos presentes. O Micah estava em Cancun e s chegaria a casa na manh de sbado, enquanto a Dana estava em Los Angeles com o namorado. Foi um sero calmo. Cozinhmos 
e jantmos; mais tarde, instalmo-nos na sala para ver um filme. Como estava a fazer-se tarde, disse  minha me que tnhamos
     de ir para casa, beijei-a na face e deixei-a sentada no sof.
     - Talvez passemos por c amanh  noite.
     - Est bem - respondeu. - Gostaramos que viessem. Vo com cuidado.
     Despedi-me:
     - Adeusinho, mam.
     Pelo meio-dia de sbado, os meus pais seguiam a cavalo pelos trilhos que correm ao longo do rio American. Como na maioria dos dias de Agosto no vale de Sacramento, 
a temperatura andava pelos 32 graus e o ar estava seco e calmo. Havia apenas umas nuvens a salpicar o horizonte; os meus pais fizeram um piquenique numa das muitas 
reas de sombra que se encontram no parque. Um pouco depois, recomearam o passeio a cavalo; porm, devido ao calor, os cavalos no seguiam a trote nem a galope. 
Em vez disso, os meus pais conduziram-nos num andamento lento e foram apreciando a paisagem, com pequenas conversas de vez em quando.
     Quando o rio faz uma curva, o trilho torna-se mais estreito e o meu pai seguiu  frente com o Napoleon, logo seguido da minha me com a Chinook. De acordo com 
o meu pai, em seguida no aconteceu nada de extraordinrio; no houve rudos sbitos, no apareceu qualquer cobra, nada que pudesse assustar os cavalos. Notou que 
havia algumas pedras no trilho de terra; em alguns pontos notava-se uma ligeira inclinao mas, uma vez mais, nada que pudesse perturbar o andamento de qualquer 
dos cavalos. Na realidade, o cavalo e a gua, e milhares de outros cavalos ao longo dos anos, j tinham passado pelo mesmo stio umas dezenas de vezes.
     Contudo, naquele dia e por qualquer razo, a Chinook tropeou.
     Estava na cozinha quando o telefone tocou. Ao responder, notei que o meu pai estava sem flego, quase a desfalecer.
     - A me sofreu um acidente... - comeou. - Caiu da gua... Levaram-na para o Centro Mdico Davis, da Universidade da Califrnia...
     - Como  que ela est?
     - No sei. No sei - respondeu numa voz simultaneamente assustada e robtica. - Tive de trazer os cavalos de volta. Ainda no falei com o mdico... Tenho de 
ir agora para l...
     - J vou a caminho.
     Cathy e eu dirigimo-nos para o hospital, aterrados e a tentar convencer-nos a ns prprios de que no acontecera nada de grave. Logo que chegmos s urgncias, 
procurmos que a enfermeira de servio nos prestasse informaes.
     Depois de consultar umas notas e de ter ido falar com algum, voltou para junto de ns.
     - A sua me est na cirurgia - informou. - Pensa-se que sofreu uma ruptura do bao. E  provvel que tenha um brao fracturado.
     Suspirei de alvio; sabia que, apesar de graves, aqueles ferimentos no eram necessariamente fatais. Momentos depois, Mike Marotte, um velho amigo da escola 
secundria que praticou corta-mato comigo, entrou por ali dentro a correr.
     - O que  que ests aqui a fazer? - perguntei.
     - Ia a correr pelo trilho e vi um grupo de pessoas, em que reconheci o teu pai. Ajudei-o a trazer os cavalos de volta e vim de l directamente para aqui. O 
que  que se passa com a tua me?
     O Mike, tal como todos os meus amigos, adorava a minha me e parecia to assustado quanto eu.
     - No sei - respondi. - Dizem que houve uma ruptura do bao, mas ainda ningum veio falar comigo. Mas, tu estavas l? Foi grave? Como  que ela ficou?
     - No estava consciente.  tudo o que sei. O helicptero chegou uns dois minutos depois de mim.
     Parecia-me que o mundo comeara a rodar em cmara lenta.
     - Precisas de alguma coisa?  necessrio avisar algum?
     Dei-lhe os nmeros de telefone de pessoas das famlias do pai e da me.
     - Diz-lhes o que aconteceu e pede-lhes que avisem os outros.
     Mike tomou nota dos nmeros.
     - E descobre o Micah - pedi. - A viagem dele, de Cancun, estava marcada para esta tarde. Vem a caminho de So Francisco.
     - Em que companhia?
     - No sei.
     - Qual  a hora de chegada?
     - No sei. Faz o que puderes... E tenta encontrar a Dana. Est em Los Angeles com o Mike Lee.
     O Mike assentiu.
     - Fica descansado. Eu encarrego-me disso.
     O meu pai chegou minutos depois, plido e trmulo. Disse-lhe o que sabia e ele desatou a chorar. Abracei-o com fora e momentos depois ele balbuciou, a lutar 
contra as lgrimas:
     - Agora, j estou bem. Estou bem.
     Sentmo-nos e os minutos foram passando, sem uma palavra. Dez. Vinte. Tentei ler uma revista, mas no conseguia concentrar-me nas palavras. A Cathy, que estava 
sentada ao meu lado, com a mo apoiada na minha coxa, chegou-se mais para o sogro. Ele punha-se de p e dava uns passos, depois voltava a sentar-se. E a seguir repetia 
os mesmos movimentos.
     Entretanto, tinham passado quarenta minutos e ningum sabia o que se passava.
     
     O Micah acabava de sair do avio quando ouviu chamar pelo seu nome atravs do sistema de informaes do Aeroporto Internacional
     de So Francisco; pediam-lhe que se dirigisse a um dos telefones
     grtis do servio de informaes.
     - Por favor, dirija-se directamente ao Centro Mdico Davis, da Universidade da Califrnia - ouviu uma voz dizer do outro lado da linha.
     - O que  que se passa?
     -  tudo o que a mensagem diz.
     Subitamente em pnico, saltou para uma limusina, por no haver
     txi disponvel, e dirigiu-se a casa de um amigo, onde tinha guardado
     o carro durante o fim-de-semana. Estava a duas horas de Sacramento.
     
     Passada uma hora, um homem de maneiras polidas, de fato completo, dirigiu-se a ns.
     - Mr. Sparks?
     Pusemo-nos todos de p, a tentar adivinhar se o homem seria mdico. Disse que no era.
     - Colaboro com o hospital, como advogado - informou. - Sei que isto  penoso, mas faam o favor de me acompanhar.
     Seguimo-lo at uma pequena sala de espera; ramos a nica famlia na sala. Parecia que estava reservada para ns. O ar estava opressivo; sentia um peso no peito, 
ainda antes dele falar.
     - A sua esposa sofreu uma hemorragia cerebral - informou o funcionrio, dirigindo-se ao meu pai. A voz era amvel e via-se que lamentava o que acontecera.
     As lgrimas voltaram aos olhos do meu pai:
     - Mas ela vai ficar bem? - conseguiu balbuciar, numa voz a ficar progressivamente mais fraca; notei o pedido implcito nas palavras dele: - Por favor... por 
favor... diga-me que ela vai ficar bem...
     - Lamento muito - sussurrou o homem, - mas a situao no parece boa.
     A sala comeou a rodar; no conseguia tirar os olhos dele.
     - No vai morrer, pois no? - tartamudeei.
     - Lamento muito - repetiu o homem e, embora ele permanecesse junto de ns, no me lembro de ter ouvido mais nada. Tudo o que recordo  ter abraado a Cathy 
e o meu pai. De os ter chegado para mim, a chorar como nunca tinha chorado antes.
     A Dana fora informada; ia apanhar o primeiro avio com destino a Sacramento. Telefonei a alguns familiares e contei-lhes o que estava a acontecer; ouvi-os desatar 
a chorar, um por um, e prometerem chegar junto de mim o mais depressa possvel.
     Os minutos arrastavam-se, como se estivssemos a viver numa cpsula do tempo. Ns os trs fomo-nos abaixo e recupermos vezes sem conta. Passou uma hora antes 
de nos deixarem ver a minha me. Quando entrmos no quarto vimos que tinha a mscara de oxignio colocada e estava a receber soros; ouvia-se o corao artificial 
a bater num ritmo certo.
     Por momentos, pareceu-me que ela estava a dormir e, apesar de saber o que estava a acontecer, mesmo assim, agarrei-me  esperana e rezei para que acontecesse 
um milagre.
     
     Para a noite, o rosto da minha me comeou a inchar. Os soros eram necessrios para prevenir danos nos rgos, no caso de decidirmos do-los; pouco a pouco, 
ia-se parecendo menos com a minha me.
     Tinham chegado algumas pessoas de famlia e havia outras a caminho. Todos tinham entrado no quarto, mas no conseguiram permanecer muito tempo. Estar junto 
da minha me era insuportvel, porque ela j no estava ali - a minha me sempre fora uma mulher cheia de vida - mas no parecia correcto que as pessoas permanecessem 
no corredor. Cada um de ns entrava e saa, a tentar pensar numa alternativa menos terrvel.
     Chegaram mais pessoas de famlia. O corredor comeava a encher-se tambm com os amigos. As pessoas olhavam umas para as outras,  procura de apoio. Eu no queria 
acreditar no que estava a acontecer; ningum queria. A Cathy nunca saiu do meu lado e nunca deixou de apertar a minha mo na sua, mas eu sentia-me constantemente 
impelido a voltar para junto da minha me.
     Numa altura em que no estava mais ningum no quarto, fechei a porta. Logo de seguida, os meus olhos velaram-se de lgrimas. Peguei na mo dela para lhe sentir 
o calor, como sempre fizera. Beijei-lhe as costas da mo. Tinha a voz rouca e, embora tivesse chorado durante toda a tarde, no conseguia conter as lgrimas sempre 
que estava junto dela. Parecia bonita, a despeito do inchao; s desejava, de todo o corao, v-la abrir os olhos; s pretendia que abrisse os olhos.
     - Mam, por favor - sussurrei-lhe atravs das lgrimas. - Por favor. Se queres sair disto, tens de o fazer depressa, est bem? O tempo est a escoar-se. Tenta, 
por favor, est bem... aperta a minha mo. Todos precisamos de ti...
     Apoiei a cabea no peito da mam, a chorar alto, sentindo que dentro de mim tambm estava a morrer qualquer coisa.
     
     O Micah chegou e, logo que o vi, lancei-me nos braos dele a chorar. A Dana chegou uma hora depois do Micah. Gritava; as dela, eram as lgrimas de quem no 
perdia apenas uma me, perdia tambm a melhor amiga. Na devida altura, eu e o meu irmo conduzimo-la ao quarto. J a tnhamos avisado do inchao, mas a Dana no 
aguentou ao ver o aspecto da me. A nossa me parecia irreal, uma estranha para os nossos olhos.
     - No parece a mam - sussurrou a Dana.
     O Micah apertou-a bem.
     - Olha-lhe para as mos, Dana - disse, baixinho. - Limita-te a olhar-lhe para as mos. No mudaram.  atravs das mos que ainda podes ver a mam.
     - Oh, mam - gritou Dana. - Oh, mam, por favor, volta para ns.
     Mas a mam no pde atender as nossas splicas. A mulher que tinha feito tantos sacrifcios em vida, que amara os filhos mais do que qualquer outra me conseguiria, 
cujos rgos iriam ser aproveitados para salvar a vida de trs pessoas, morreu a 4 de Setembro de 1989.
     Tinha 47 anos de idade.
     
CAPTULO TREZE
     Phnom Penh, Camboja 6 de Fevereiro
     
     Depois de passarmos dois dias em Angkor, regressmos a Phnom Penh de avio, desta vez para visitarmos o Museu do Holocausto e irmos aos Campos da Morte.
     O museu est localizado no centro de Phnom Penh, cidade que foi tomada pelos Khmers Vermelhos em 1975. Pol Pot, o lder do partido, esperava criar um estado 
comunista perfeito e ordenou a evacuao total da cidade. Um milho de pessoas foram obrigadas a deslocar-se para as zonas rurais. Quase s ocupada pelos soldados 
comunistas, cuja mdia de idades era de doze anos, grande parte de Phnom Penh transformou-se numa cidade fantasma.
     Com o abandono do Vietname pelas tropas dos Estados Unidos, e sem que qualquer outro pas se dispusesse a intervir, Pol Por iniciou o seu sangrento reinado. 
O seu primeiro acto foi fazer regressar  cidade todas as pessoas com instruo; depois disso, ordenou que fossem executadas. A tortura tornou-se uma maneira de 
viver e morrer para milhares de pessoas. A partir de certa altura, para poupar o custo das balas, na sua maioria as pessoas passaram a ser mortas com violentas pancadas 
na nuca, dadas com grossas canas de bambu. Durante os anos seguintes, mais de um milho de pessoas foram mortas, quer devido a execues quer  dureza dos trabalhos 
forados nos agora famosos Campos da Morte.
     Durante o voo, o Micah e eu pensmos no que iramos ver com um certo grau de ambivalncia. Embora quisssemos ver o museu e os Campos da Morte, a excitao 
era temperada pela apreenso. Este lugar, ao contrrio de muitos que visitmos, no fazia parte da histria antiga; era parte da histria moderna, era a terra onde 
se tinham desenrolado acontecimentos que as pessoas desejavam esquecer, apesar de saberem que nunca os poderiam pr para trs das costas.
     Do exterior, no vimos no Museu do Holocausto qualquer pormenor que o distinguisse. Um edifcio de dois pisos, com galerias,  beira da rua principal, tinha 
o aspecto prprio da escola secundria para que fora construdo. Porm, como para contrariar o seu aspecto incuo, havia o arame farpado que ainda o rodeava; era 
naquele local que Pol Por torturava as suas vtimas.
     O nosso guia, segundo nos informou, tinha estudado ali e, antes de nos conduzir  exposio, presenteou-nos com um gesto desconcertante, quase surrealista, 
ao apontar para a sua antiga sala de aulas.
     Vimos toda uma srie de horrores, como a sala onde usavam a corrente elctrica para torturar as vtimas; outras divises mostravam aparelhos igualmente horrendos. 
As salas no haviam sido alteradas desde a libertao de Phnom Penh, pelo que, tanto no cho como nas paredes, ainda eram visveis as manchas de sangue.
     Muito do que vimos naquele dia pareceu-nos inacreditvel; o facto de muitos dos soldados dos Khmers Vermelhos serem crianas era demasiado pavoroso para se 
ter em conta. Foi-nos dito que os soldados vermelhos despachavam as vtimas sem remorsos e com uma eficincia de verdadeiros especialistas; crianas a matarem mes 
e pais, alm de outras crianas, batendo-lhes na nuca com uma cana. O meu filho mais velho era mais ou menos da mesma idade daqueles soldados, o que me deu vontade 
de vomitar.
     Nas paredes havia fotografias das vtimas. Algumas mostravam prisioneiros a ser torturados; outras mostravam os cadveres desenterrados dos Campos da Morte. 
Em cada ponta da sala principal, havia dois pequenos altares onde eram guardadas as caveiras que tinham sido descobertas nos campos depois da fuga dos guardas. Numa 
das paredes vimos um quadro em que um rapazinho, vestido com um uniforme de soldado, ataca e mata uma vtima nos Campos da Morte. Fomos informados de que o pintor 
do quadro perdeu l a famlia.
     Nenhum dos meus companheiros de viagem parecia ter o que quer que fosse a dizer. Em silncio, passvamos de um quadro para outro, a abanar a cabea e a falar 
para dentro. Horroroso. Demonaco. Lamentvel. Repugnante.
     Alguns dos membros do grupo tiveram de sair; a violncia tornava-se insuportvel.
     - Perdeu algum da sua famlia? - perguntei ao guarda, logo que pude.
     Quando respondeu, f-lo com voz tona, como se a pergunta j lhe tivesse sido feita milhares de vezes e a resposta lhe sasse mecanicamente. Ao mesmo tempo, 
no procurou esconder o que parecia uma incredulidade imensa ante o som das suas prprias palavras.
     - Sim, perdi a famlia quase toda. A minha mulher, o meu pai e a minha me. Os avs. Todas as tias e tios.
     - Tinha irmos?
     - Sim, um irmo mais novo.
     - Ainda  vivo?
     - No sei. No o vejo desde a guerra. Era membro dos Khmers Vermelhos.
     Seguimos para os arredores de Phnom Penh, para os Campos da Morte. De cada lado da estrada poeirenta, havia casas decrpitas; a meio de uma rua vimos uma fbrica 
de roupas e dezenas de mulheres  volta, sentadas na terra, a almoar.
     Impossvel de reconhecer para quem no estiver familiarizado com o local, o Campo da Morte pareceu-nos apenas um campo sulcado de regos, em tudo semelhante 
aos outros campos por onde acabramos de passar. Muito mais pequeno do que eu tinha imaginado, prolongava-se, talvez, uns cem metros para cada lado. No centro, apenas 
podia reconhecer-se um templo erigido em honra dos mortos.
     Durante as duas horas seguintes, andmos de um lado para o outro; amos de um lugar onde tinham sido encontradas cem vtimas, para outro onde haviam sido achadas 
duzentas. Noutro ponto, fomos informados de que os esqueletos descobertos haviam sido enterrados sem cabeas, o que tornou impossvel saber quantos ali jaziam. S 
neste campo tinham morrido milhares de pessoas; os nmeros exactos so impossveis de calcular com um certo grau de certeza.
     O Micah e eu limitmo-nos a andar por ali, em silncio, sentindo-nos tristes e nauseados. Por fim, fomos conduzidos at junto do templo e entrmos.
     Pintado de branco, tinha pouco mais de trs metros de lado e doze de altura, o que o fazia parecer-se com um marco. No fazamos ideia do que nos esperava, 
mas o que encontrmos deixou-nos petrificados. Vimos prateleiras protegidas por vidros que cobriam toda a parede do fundo do templo, at ao tecto, onde estavam empilhadas 
milhares e milhares de caveiras.
     No caminho de regresso ao autocarro, o Micah resumiu os meus prprios sentimentos em trs palavras simples:
     - Foi um inferno.
     Na mais estranha das sequncias com que nos brindaram durante a excurso, a seguir  visita aos Campos da Morte, que me deixou nauseado para o resto do dia, 
levaram-nos ao Mercado Russo para passarmos umas horas entregues  frivolidade das compras.
     O Camboja, como muitos outros pases asiticos, levou a arte da
     pirataria  perfeio; o Mercado Russo, um edifcio onde se acumula
     vam centenas de vendedores que ofereciam tudo, desde cassetes piratas de DVD a roupas tambm de imitao. As cassetes de DVD custavam trs dlares e as calas 
de ganga, supostamente da marca GAP, eram vendidas por metade disso.
     O mercado estava  cunha; parecia que todos os turistas de visita ao pas tinham sabido da existncia do mercado e haviam decidido visit-lo  mesma hora. Apesar 
de no nosso grupo a maioria das pessoas dispor de meios para poder comprar o produto genuno nos Estados Unidos, quase toda a gente deixou o mercado com sacos cheios 
de pechinchas.
     
     Na nossa ltima noite em Phnom Penh no houve qualquer festa, pelo que fomos aconselhados a reservar mesa num dos restaurantes do hotel onde ficmos, que se 
gabava de servir alguns dos melhores pratos do Camboja. Naturalmente, eu e o Micah esquecemo-nos de fazer a reserva e acabmos por comer num dos recantos mais modestos 
onde o hotel servia comida. Estava quase vazio e despachmos a refeio em meia hora.
     Embora desapontados de incio, a refeio acabou por nos deixar satisfeitos. Naquela noite, tanto quanto pudemos saber, tudo correu mal nas cozinhas. Todas 
as pessoas que fizeram reservas tiveram de esperar horas pela refeio. Fornos avariados, cozinheiros que ficaram em casa, pratos trocados, a Lei de Murphy em todo 
o seu esplendor. As entradas levaram uma hora e meia a chegar  mesa; o prato principal seguiu-se, duas horas depois. Em determinadas circunstncias, talvez as pessoas 
no se tivessem revoltado, mas j tnhamos treze dias de viagem. As pessoas andavam cansadas e no dia seguinte teramos de nos levantar cedo, pois devamos partir 
para Jaipur logo pela manh. Numa noite em que todos ansiavam por um sono de oito horas, como eu e o Micah fizemos, a maioria teve de se contentar com menos de cinco 
horas de descanso.
     No quarto, o Micah e eu assistimos uma vez mais ao Croc Hunter. Juntamente com a CNN, Croc Hunter era o nico espectculo em lngua inglesa que conseguamos 
encontrar. Sempre que ligvamos a televiso, em qualquer pas, l estava o Croc Hunter. Chegados ao Camboja, aquilo j se tornara uma piada requentada entre
     ns; pelas nossas contas, tratava-se do programa mais visto em
     todo o mundo.
     - Oh, no  uma beleza, esta cobra? - diria Steve Irwin, o
     sempre entusiasta apresentador australiano. - Repare-se nas cores.
     Oh,  magnfica, no acham? Esta pequena beldade  perigosa; com
     uma dentada pode matar uma dezena de homens!
     - Este tipo no regula bem - comentou o Micah.
     -  sempre assim - respondi. - Os meus filhos nunca se
     cansam de o ver.
     O Micah manteve-se calado durante tanto tempo que pensei que
     teria adormecido. Todavia, quando me virei para ele vi que tinha os
     olhos postos no tecto.
     - Em que  que ests a pensar? - perguntei. Levou bastante tempo a responder.
     - Naquilo que vimos hoje. No incio da manh. O museu, os
     Campos da Morte.
     - Foi um horror, no foi?
     - Sem dvida.
     Quando voltou a falar, f-lo em voz sumida.
     - Fez-me sentir triste. Triste pelas pessoas daqui, triste com o
     que se passa no mundo. Triste acerca de tudo. E vazio, tambm. Foi
     tudo to intil. No deviam acontecer coisas destas - reflectiu.
     Hesitou. - Fez-me recordar o que senti quando a mam morreu. Olhei para ele, no totalmente surpreendido com o comentrio.
     Sempre que um de ns estava triste, a conversa derivava sempre para
     o mesmo tema: a nossa famlia.
     - J te apercebeste de que quase todos os participantes da nossa
     excurso tm mais idade do que ela tinha quando morreu? - perguntou. - Nem posso acreditar que aconteceu j l vo treze anos. No
     parece ter sido h tanto tempo.
     - Pois no - concordei.
     - J pensaste que, dentro de menos de dez anos, seremos to velhos
     como a mam era quando morreu? E o Peyton ter apenas onze anos. - Mantive-me calado. O Micah respirou fundo, antes de prosseguir. -  estranho. Quando penso 
na mam,  como se ela nunca tivesse envelhecido. Na minha cabea, quero eu dizer. Quando penso nela, imagino-a sempre com o aspecto que ela tinha na ltima vez 
em
     que a vi. Nem consigo imaginar como  que seria agora... - mas a voz traiu-o. No prosseguiu antes de conseguir recompor-se: - Sabes o que eu lamento? - Olhei 
para ele, na expectativa. - No ter tido a possibilidade de me despedir dela. Tu e a Cathy ainda puderam dizer-lhe adeus. Estava atrasado, quando sa para ir a Cancun 
e nem me passou pela cabea telefonar-lhe. E quando voltei a v-la j no era a mam que estava  minha frente, estvamos a falar na doao dos rgos dela. Foi 
tudo to... irreal. Fico destroado quando penso que, depois de tantos sacrifcios que fez por ns, ela nunca teve a alegria de pegar nos netos, nunca soube que 
te tornaste escritor, nunca teve a oportunidade de conhecer a Christine nem os midos. A mam teria sido uma av fantstica...
     De olhos fixos no vazio, no pde prosseguir.
     Com voz calma, consegui responder-lhe:
     - Tambm sinto a falta dela.
     
     Os meses que se seguiram  morte da minha me foram de tentativas vacilantes na procura de uma certa normalidade. Na famlia, ningum parecia saber como reagir 
ou o que fazer. O Micah, a Dana e eu procurmos apoiar-nos mutuamente e ajudar o nosso pai. Parecia que, sempre que um de ns comeava a chorar, os outros no conseguiam 
reprimir as lgrimas. Por isso, cada um chegou  concluso de que no deveria chorar mais. E no voltmos a faz-lo, a no ser que estivssemos ss.
     A mam partira mas, coisa estranha, havia alturas em que nos parecia que no. Em casa, tudo tinha a marca da minha me: a arrumao das especiarias no armrio, 
a colocao das fotografias nas estantes, as cores das paredes, o robe deixado nas costas de uma cadeira do quarto. Para qualquer lado que olhssemos, deparvamos 
com lembranas dela; havia momentos em que ficava parado na cozinha e, subitamente, tinha a impresso de que a mam estava atrs de mim. Nessas alturas, suplicava 
que no se tratasse de imaginao minha. Procurava sinais - movimentos detectados pelos cantos dos olhos, talvez, ou ramos de rvores agitados pela brisa. Torturava-me 
na procura de uma prova de que ela ainda estava entre ns. Mas no havia nada.
     Contudo, se a casa era uma recordao constante da minha me, tambm comeou a revelar-nos como tinha ficado vazia aps a morte dela. No havia energia naquela 
casa, nenhuma vivacidade, as paredes tinham deixado de ecoar com os risos da minha me. Houve alturas em que pensmos modificar a disposio da moblia ou em remover 
dali os sinais mais gritantes da presena dela. A mala de mo, por exemplo. Durante anos, teve o hbito de a colocar num cesto que havia junto  porta; meses depois 
de ter falecido, ainda ningum conseguira reunir foras para a meter no roupeiro ou at de a abrir para ver o que continha. Sabamos o que iramos encontrar: fotografias 
da famlia, cartas da me dela, o batom e coisas pessoais sem valor. Coisas to pessoais, to... da mam... que ningum ousava mexer-lhes com receio de, mesmo sem 
querer, atraioar a sua memria. No queramos esquec-la e, num certo sentido, aquelas eram as nicas coisas que nos tinha deixado. Parecia que a mala de mo se 
tornara uma splica silenciosa a pedir o seu regresso.
     Nesse ano no celebrmos o Natal em casa; foi a primeira vez que passmos a festa em casa de pessoas de famlia. E embora nos sentssemos em boa companhia, 
nenhum de ns conseguia afastar a sensao de vazio do corao. A mam tinha partido e o Natal naquela casa no voltaria a ser o mesmo.
     
     A Cat e eu comemos a viver o nosso primeiro ano de casamento, ao mesmo tempo que fazamos o que podamos para tomar conta do meu pai. Destinmos as quintas-feiras 
para o levarmos ao cinema ou a jantar.
     O Micah e a Dana decidiram alugar um apartamento para ambos. Ficava apenas a uns dois quilmetros de casa e, tal como a Cat e eu,
     pensaram que era uma boa ideia no perderem o pai de vista. Se a
     morte da mam tinha sido difcil para ns, revelou-se bem mais difcil para o nosso pai. Embora sem poder afirmar que compreendia o relacionamento entre eles, 
os meus pais tinham vivido vinte e sete anos juntos, at que o mundo dele foi totalmente alterado pelo falecimento da mulher.
     Passou a viver por instinto. Desde o dia do funeral passou a vestir-se de preto, s de preto. A princpio, pensmos tratar-se de uma fase transitria mas, com 
a passagem dos meses, comemos a perceber que, sem a mulher, o nosso pai se sentia perdido. Dependia da mam, tanto como ns. Como tinham casado muito jovens, o 
meu pai no tinha experincia de viver sozinho, ou at do que significava ser adulto sem ter a mulher a seu lado. O meu pai perdeu a melhor amiga, a amante, a confidente 
e a esposa. Contudo, como se isso no fosse suficiente, perdeu tambm o nico gnero de vida que sabia viver. Teve de aprender a cozinhar e a tratar da casa, a escolher 
tudo sozinho. Perdeu uma boa fatia do rendimento familiar e teve de aprender a fazer contas. E ainda teve de aprender a relacionar-se com os filhos, que tinham sido 
criados quase s com a me. Amvamos o nosso pai e ele amava-nos, mas avia alturas que ele parecia saber muito pouco acerca de ns, tal como ns sabamos muito pouco 
sobre ele.  nossa maneira, cada um de ns fez o que pde para preencher o vazio que a esposa deixara na vida dele e, um por um, comemos lentamente a sermos os 
substitutos de tudo o que a minha me fora para ele.
     O Micah tornou-se o seu confidente, o nico dos filhos com quem ele falava verdadeiramente. O meu pai sempre admirara o Micah, pelas mesmas razes que eu tambm 
o admirava, e esse sentimento tornou-se ainda mais forte depois da morte da minha me. Penso que o Micah possua muitos dos dons de que o pai sempre se sentira carente: 
era bonito e carismtico, confiante e popular. De certa maneira, julgo que ele comeou a procurar a aprovao do meu irmo. Tomava poucas decises sem ter pedido 
a opinio do Micah e ouvia as ltimas aventuras dele com um piscar de olhos orgulhoso. A Cat tornou-se sua confidente; gostou dela desde a primeira vez em que a 
viu e, sempre que passvamos l por casa, os dois entretinham-se a conversar. Bebiam licores e cozinhavam juntos, diziam piadas e riam-se, e nas alturas difceis, 
sempre que precisava de um ombro para se apoiar, o meu pai voltava-se para a nora. E a Cat correspondeu e dava-lhe sempre as respostas necessrias. O pap tambm 
se dedicou a tomar conta da Dana. Ajudava-a a pagar as contas, comprou-lhe um carro, tratou-lhe do seguro de sade; com o tempo, ela passou a acompanh-lo no tratamento 
dos cavalos. Segundo parecia, o pai no estava apenas a fazer aquilo que pensava que a minha me faria, pois, ao ajudar a Dana estava tambm a procurar motivao 
para continuar a enfrentar a vida. Quanto a mim, tambm comecei a ter de desempenhar uma tarefa que antes fora da minha me, mas tratava-se de uma situao que eu 
nunca desejaria a ningum. Com os horrios apertados quando andava na escola secundria, com a ida para a universidade e o comeo da vida com Cathy, tinha-me tornado 
menos dependente dos meus pais, uma situao que se mantinha desde a idade de 16 anos. Talvez que o meu pai tambm se tivesse apercebido disso, porque com a passagem 
das semanas e dos meses tornei-me a vlvula de escape da sua clera e das suas angstias.
     Com o tempo, o meu pai comeou a agir como se me desprezasse; se lhe perguntava se precisava de ajuda com as contas, acusava-me de tentar roub-lo. Se lhe limpava 
a casa, acusava-me de pensar que ele, alm de precisar de ajuda, era tambm um estpido intil. Se deixava a minha cadela cocker spaniel l em casa - uma coisa que 
a Cat e eu fazamos desde que a comprmos - acusava-me de estar a abusar
     dele. Quando ia visit-lo na companhia da Kathy, havia muitas noites em que se recusava a dirigir-me a palavra; em vez de falar comigo, ficava na cozinha a 
falar e a rir-se com a Cat, enquanto eu permanecia sozinho na sala. Esta situao foi-se degradando continuamente.
     Sabia que ele no me odiava, que no se sentia bem, que tinha de lutar ainda mais do que os filhos. Sabia que ele precisava de um escape para a sua clera e 
as suas angstias e que, l no fundo, me amava a
     despeito das palavras que me dirigia e da maneira como me tratava.
     Porm, mesmo que percebesse o que estava a acontecer, tinha de procurar o conforto dos braos da minha mulher, enquanto procurara descobrir o que tinha feito 
para merecer toda aquela hostilidade.
     O meu irmo e eu fizemos o possvel para mantermos o nosso relacionamento e para termos vidas independentes. A carreira do Micah no negcio imobilirio progredia 
a bom ritmo; e a minha pequena indstria - fabricava braadeiras ortopdicas para o pulso, especialmente para quem padecia da sndroma do tnel carpal - estava a 
arrancar lentamente. Como acontece com muitos jovens, pensei saber mais de negcios do que na realidade sabia e no tardei a acumular dbitos no carto de crdito 
que excediam largamente os nossos rendimentos, o meu e o da Cat, combinados. Apesar de ter andado durante meses a trabalhar dia e noite, a minha mulher e eu mal 
ganhvamos para viver e tnhamos dvidas de que pudssemos aguentar a situao durante muito mais tempo. Durante o primeiro ano de casados fomos postos  prova em 
todos os sentidos; felizmente para a Cat e para mim, as provaes serviram para fortalecer ainda mais a nossa unio.
     Nos momentos mais difceis, quando tentava encontrar fundos para pagar a renda e pr comida na mesa, voltava-me para o Micah. Tratava-me a piza e cerveja, e 
conversvamos. Afinal, decidimos vender as duas casas que tnhamos comprado e estavam alugadas. O lucro obtido foi suficiente para a Cat e eu saldarmos as dvidas 
e, pouco a pouco, comecei a conseguir inverter a situao e pr a minha pequena empresa a dar lucros. Mesmo assim, s para equilibrarmos o oramento, tive de manter 
o lugar de empregado de mesa e a minha mulher teve de continuar a trabalhar.
     Por sua vez, o Micah continuava a fazer parecer que a vida era fcil. Namorava, divertia-se durante os fins-de-semana e era um excelente profissional. Quando 
a Cathy e eu saamos com ele, nunca fazamos ideia de qual seria a sua companhia dessa noite. Muitas das mulheres mal o conheciam e, no entanto, pareciam to enamoradas 
dele como eu estava da Cathy. Porm, embora parecesse bem  superfcie, estava preocupado com o pai. O nosso pai continuava a passar um mau bocado e o Micah tinha 
tomado para si o manto da liderana da nossa famlia. Como o pai falava mais com ele do que comigo ou com a Dana, s o Micah parecia compreender a profundidade do 
desgosto dele. Numa noite em que samos juntos, no Vero de 1990, no pude deixar de notar que o meu irmo estava especialmente preocupado.
     - O que  que se passa? - perguntei.
     - Estou preocupado com o pai.
     Embora eu tambm estivesse preocupado, sabia que as minhas razes de preocupao eram diferentes das dele. Comigo, o pap agia irracionalmente; com o Micah, 
parecia totalmente racional. Nenhuma das situaes me parecia normal.
     - Porqu? - indaguei.
     - Por ele no conseguir esquecer-se da mam. J passaram quase nove meses, mas ele continua a chorar todas as noites, at conseguir adormecer. E tambm est 
a ficar mais irascvel.
     Eu no sabia o que dizer.
     - E, como sabes, continua a vestir-se de preto, mas est pior. Desfez-se de todas as roupas e substituiu-as de forma a que s tenha roupas pretas para vestir. 
E nunca sai de casa, excepto para ir trabalhar. Sei que sente saudades da mam, mas todos ns as sentimos. E a mam gostaria que ele fosse feliz, mesmo sem ela. 
Ela gostaria que ele fosse forte.
     - Na tua opinio, devemos fazer o qu?
     - No sei.
     - Queres que eu e a Cathy tentemos falar com ele?
     Embora soubesse que no me ouviria, ele estava a ficar mais dependente da companhia da minha mulher.
     - No vai servir de nada. Eu j tentei. Convidei-o por diversas vezes, mas nunca me deu sada. E quando o visito em casa, no quer ir aonde quer que seja. Alguma 
vez foi ao teu apartamento, alguma vez te visitou, ou visitou a Cat?
     - No.
     O Micah abanou a cabea.
     - No devia afastar-se do mundo. S consegue piorar as coisas. S
     vai conseguir sentir-se ainda mais s.
     - J lhe disseste isso?
     - No tenho feito outra coisa.
     - E ele responde o qu?
     - Que se sente bem.
     Com a aproximao do primeiro aniversrio da morte da mam, o meu pai comeou a emergir lentamente do casulo que ele prprio tinha construdo  sua volta. Embora 
continuasse a vestir-se de preto, o Micah, a Dana e eu tnhamos conseguido convenc-lo a juntar-se a ns para apreciarmos espectculos de danas populares, e as 
sadas nocturnas pareceram anim-lo um pouco. Lenta mas seguramente, comeou a readquirir o seu feitio de sempre; mesmo comigo, j no parecia ser to amargo.
     De qualquer das formas, segundo parecia, tnhamos sobrevivido ao nosso primeiro ano de orfandade.
     Ia o Outono adiantado quando soubemos que a Cathy estava grvida e, como todos os futuros pais, comemos a fazer planos para o beb, enquanto aguardvamos 
o momento de o podermos ver atravs da ecografia.
     A Cathy levou a gravidez muito a srio. Tinha cuidado com o que comia, fazia exerccio e aprendeu a viver com os enjoos matinais, que a afectavam antes de sair 
para o trabalho. A pele dela comeou a irradiar o brilho de uma futura me. Demos a notcia  famlia e aos amigos; toda a gente, incluindo o meu pai, ficou encantada 
com a notcia. Com efeito, o meu pai mostrou uma satisfao que j no lhe vamos havia muito, muito tempo.
     Quando a gravidez atingiu as doze semanas, fomos  clnica para lhe ser feita a ecografia. Fiquei a segurar a mo da Cathy enquanto a tcnica lhe aplicava o 
gel e manejava o aparelho de ultra-sons.
     - Ele aqui est - anunciou a tcnica passado pouco tempo, e tanto eu como a Cathy olhmos maravilhados para o ecr.
     A imagem era minscula, como no podia deixar de ser, e no se parecia nada com um beb. Mesmo assim, era a primeira viso que tnhamos dele e a Cathy apertou 
a minha mo na sua e sorriu.
     A tcnica continuou a tentar encontrar um ngulo de viso melhor; momentos depois, vimo-la franzir a testa.
     - O que ? - indagou a Cathy.
     - No tenho a certeza - respondeu a tcnica. Forou-se a sorrir. - Peo desculpa, mas tenho de sair por um instante - pediu, e saiu da sala.
     No sabamos o que pensar; no sabamos se a situao era normal ou inesperada. Uns minutos depois, entrou o mdico.
     - H algum problema? - perguntou a Cathy.
     - Deixe-me ver - respondeu o mdico. Por momentos, enquanto a tcnica fazia deslizar o aparelho, ambos ficaram a olhar o ecr. A tcnica apontou qualquer coisa 
e falou baixinho ao ouvido do mdico. Ele sussurrou uma resposta. Nenhum respondeu s nossas perguntas. O mdico mostrava um ar grave.
     - H um problema, no h? - inquiriu a Cathy.
     - Lamento. Mas no consigo ouvir o batimento do corao.
     A Cat rompeu em soluos; pouco depois, conduzia-a para fora da sala. O nosso beb tinha morrido sem motivo aparente, tal como acontecera  nossa me. Uns dias 
mais tarde, a Cat foi sujeita a uma interveno chamada dilatao e curetagem. Depois da interveno, quando era conduzida numa cadeira de rodas, tudo o que conseguiu 
fazer foi limpar as lgrimas; no havia nada que eu pudesse fazer para lhe aliviar a dor.
     Mais tarde, nos braos do Micah, tambm eu chorei.
     A Cat e eu passmos os meses seguintes preocupados com a possibilidade de no conseguirmos ter filhos. No sabamos quanto tempo tinha de passar at ela ficar 
novamente grvida, nem sabamos se ela poderia levar a gravidez at ao fim. Tnhamos sido informados que os abortos espontneos eram acidentes comuns; toda a gente 
parecia conhecer algum que j passara por aquela situao; todos tentavam animar-nos e diziam que na prxima vez tudo iria correr bem. Sabamos que as intenes 
das pessoas eram as melhores e tambm sabamos que diziam a verdade. Mas tambm estvamos bem cientes de que havia histrias diferentes, aquelas que no acabavam 
bem, e a Cat no conseguia suportar a ideia de nunca poder ser me. Passmos outro Natal triste e no dia do meu aniversrio, quando fiz 25 anos, a minha irm telefonou 
a cantar-me os Parabns a Voc. Quando me perguntou o que  que eu desejava, s consegui pensar numa coisa.
     
     As nossas oraes voltaram a ser ouvidas no final de Janeiro de 1991 mas, daquela vez, guardmos o segredo s para ns. No pretendamos uma repetio do que 
acontecera antes, mas em Abril foi-nos dito que o beb estava a desenvolver-se com normalidade e, finalmente, decidimos dar a boa notcia. A barriga da Cathy continuou 
a crescer durante o Vero; passou horas a procurar um nome para pr ao
     beb e a ler What to Expect When You're Expecting [O Que Esperar Quando Estiver de Esperanas].
     Mas os problemas da vida continuaram a cair sobre ns, um aps outro, sem descanso. Apesar dos dois empregos, ou trs se contssemos com o da Cat, continuvamos 
a lutar com dificuldades financeiras e no conseguamos levantar a cabea. A Kathy tinha seguro de doena da empresa, que cobria as despesas de maternidade, mas 
foi dispensada no princpio do Vero, quando estava grvida de quatro meses. Quando a nossa cachorra cocker spaniel passou os sete quilos de peso fomos despejados 
do nosso apartamento e tivemos de arranjar um novo lugar para viver. O nosso carro ficou sem conserto e o nico que pudemos comprar para o substituir tinha 20 anos 
de idade e mais de 160 mil quilmetros marcados. O IRS decidiu fiscalizar os meus rendimentos dos trs anos precedentes, tanto os do negcio como os do trabalho; 
embora viesse a ser ilibado de qualquer acusao, a tenso de ter dois empregos e de juntar os documentos necessrios - queriam recibos de tudo - tornaram-me o Vero 
ainda mais difcil.
     No sei como, consegui arranjar tempo para escrever um livro, com o ttulo Uma Viagem Espiritual, em colaborao com Billy Mills. Embora viesse a tornar-se 
o meu primeiro livro publicado, no alimentei iluses de que a publicao se devesse  qualidade da escrita. O seu principal mrito era a parceria com o Billy.
     Em Setembro, logo que comearam as contraces, corremos para o hospital. Foi um trabalho rpido; a Cat dilatou depressa e estava quase pronta para dar  luz 
no momento em que chegmos ao hospital. O beb estava em posio incorrecta e a Cat sofria imenso. Houve um sururu para preparar a sala mas, momentos depois da chegada 
do
     mdico, subitamente, o corao do beb diminuiu a frequncia dos
     batimentos.
     Pelas expresses dos mdicos e enfermeiras vi que a situao era grave. Encarei a possibilidade de perdermos outro beb.
     De repente, o mundo pareceu afundar-se  minha volta; s conseguia pensar na Cat e no beb que ela transportava no ventre. H um tipo de pnico prprio daquelas 
situaes, uma aflio que parece apertar-nos o corao com uma sensao de fracasso absoluto. Mal me recordo da tremenda actividade que comeou logo que o mdico 
entrou em aco; fiquei de lado, a rezar como nunca tinha rezado antes.
     O mdico era bom; momentos depois, eu era pai. Mas a pele do beb estava cinzenta e, durante o que me pareceu uma eternidade, no se ouviu qualquer som. Mais 
tarde, soubemos que vinha anmico e que tinha perdido sangue pelo cordo umbilical. Mas, na altura, s queria ouvir o grito da vida.
     E ele soltou-o, depois de me fazer esperar uma eternidade.
     Dentro de poucos minutos, minutos daqueles que parecem ter mais de sessenta segundos, o mdico assegurou-nos que o beb ficaria bem; pela primeira vez, ao aperceber-me 
de que era pai, consegui descontrair-me. A Cat segurava o filho de encontro ao peito. Escolhemos o nome de Miles Andrew e o Micah foi a primeira pessoa a quem dei 
a notcia.
     - Sou pai! - gritei para o microfone. - Tenho um filho!
     O Micah soltou um grito de alegria:
     - Parabns, Paizinho! Como  que passa a mam?
     - Est muito bem e, graas a Deus, o beb tambm. Tens de c
     vir! Tens de ver o mido!  to bonito!
     Ele riu-se de novo.
     - Vou j para a, maninho.
     Foi o primeiro a chegar ao hospital e, depois de dar uma olhadela
     ao Miles, virou-se para mim.
     - Como  que pode ser,  parecidssimo comigo.
     Apliquei-lhe uma palmada nas costas.
     - Querias ter essa sorte. Tu podes ser bonito, mas no chegas aos
     calcanhares desta coisinha mida!
     
     Apesar da nova vida, da paternidade em que mergulhei subitamente, o meu irmo e eu continumos a arranjar tempo para estarmos juntos. Durante algum tempo deu-me 
uma ajuda no negcio ortopdico, que, no final do ano, acabei por me decidir a vender. Com uma criana em casa, precisava de algo mais estvel e, no incio de 1992, 
arranjei um emprego de delegado de propaganda mdica dos Laboratrios Lederle. Era a primeira vez na minha vida em que oficialmente ganhava um salrio superior ao 
mnimo nacional. Tinha 26 anos de idade.
     Contudo, se o beb e a minha nova vida eram suficientes para me permitir lidar com a memria da mam, o meu pai continuava a alternar perodos bons e maus. 
A boa disposio que mostrara durante o Vero dera lugar ao pnico que, por sua vez, se transformou em optimismo. Nestas condies, nunca sabamos o que esperar 
quando amos visit-lo e tanto eu como o Micah nos perguntvamos se o nosso pai no seria um manaco-depressivo.
     Tambm a minha irm parecia estar a passar por uma fase negativa, a lutar para se encontrar, um problema que afecta muitos adultos jovens. Sem nunca chegar 
a ser uma boa aluna, abandonou a universidade para se empregar a tempo inteiro, para deixar o emprego umas duas semanas depois. A partir da, andou a saltar de um 
emprego para outro, trabalhando como empregada de mesa, como instrutora de aerbica, como recepcionista num solrio. Ela e o Micah voltaram a viver em apartamentos 
separados e o nosso pai ajudava-a a pagar a renda. Tambm estava a passar por uma transformao fsica. Ao entrar na casa dos vinte anos tornara-se uma beleza. De 
um momento para o outro, passara a ser bastante popular entre o sexo oposto, mas, tal como o Micah, parecia trocar frequentemente de namorado.
     Numa noite, interpelei o Micah:
     - O que  que se passa com os dois?
     - O que  que pretendes saber?
     - Tu e a Dana. No ser possvel manterem um namorado durante um ms?
     - Namorei a Juli e a Cindy durante anos.
     - Em metade do tempo em que dizes t-las namorado, estavam realmente afastados e andavas a namorar outras. E acabaste por no ficar com qualquer delas.
     Sorriu.
     - Nick, nem toda a gente gosta de estar casada aos 23 anos.
     - No fiz planos para casar to cedo. Apenas aconteceu que conheci a Cathy.
     - No precisavas de ir casar com ela logo de seguida.
     - Precisava, sim. Sabes o que me disse quando decidiu vir viver para a Califrnia? Quando a fui buscar ao aeroporto?
     Disse que no com a cabea.
     - Quando nos encontrmos no aeroporto, comecei a dizer-lhe coisas realmente bonitas; tu sabes, disse-lhe quanto a amava, como estava feliz por ela ter vindo 
morar para c, quanto apreciava a sua coragem.
     De qualquer das formas, deixou-me acabar, para depois sorrir.
     - Tambm te amo, Nick. E estou satisfeita por estar aqui. Mas vamos l acertar as agulhas. Por mais que te ame, no vou abandonar a minha famlia por uma relao 
que pode ser apenas temporria.
     - O que  que isso quer dizer? - perguntei-lhe.
     Deu-me umas palmadinhas no peito e declarou:
     - Tens seis meses para me propores casamento; se no o fizeres, volto para casa.
     O Micah arregalou os olhos:
     - Ela disse-te isso?
     - Disse.
     Soltou uma gargalhada.
     - Adoro aquela rapariga. No aceita conversa fiada de quem quer que seja, pois no?
     - No.
     - Nick, fizeste o que devias. No conseguias arranjar melhor.
     - Eu sei. Porm, como estava a perguntar-te: e tu?
     - Nick,  muito simples. Ainda no encontrei a minha Cathy.
     Mas, quando a encontrar, caso-me com ela e ganho juzo.
     
     Em 1992, trs anos aps a morte da mam, cada um de ns tinha de certo modo encontrado a maneira de continuar. Eu arranjara famlia e uma nova carreira; a Dana 
tinha um novo namorado e regressara  universidade. O Micah continuava a namorar e a passar fins-de-semana excitantes, um a seguir ao outro. Embora o nosso pai continuasse 
a vestir-se de preto, as mudanas de humor estavam a tornar-se menos frequentes e at pensara em voltar a namorar. A nossa famlia, tanto quanto se podia ver, estava 
pouco a pouco a readquirir uma certa normalidade.
     Em Outubro, a Cathy e eu acabmos por decidir que seria melhor mudarmo-nos. Embora adorssemos a Califrnia, os aspectos prticos impediam-nos de ter a vida 
que queramos proporcionar ao nosso filho. O meu salrio, embora decente, no era suficiente para nos permitir viver no tipo de ambiente que a Cathy desejava proporcionar 
ao Miles. E, devido  rpida escalada dos gastos em habitao, no antevamos mudanas futuras.
     Suponho que, tanto a Cat como eu, procurvamos a nossa oportunidade de viver o sonho americano. Sonhvamos com uma casa a que pudssemos chamar nossa, com um 
jardim de dimenses decentes para os nossos filhos, com um churrasco nas traseiras. Tudo coisas elementares, mas as coisas elementares estavam fora do nosso alcance 
e, aps longas conversas com a Cat, decidi-me a falar ao meu chefe e a pedir a transferncia para a zona do Sudeste do pas. O chefe no pareceu entusiasmado com 
a ideia; eu s tinha oito meses de trabalho na empresa, completara recentemente o perodo de formao e estava a sair-me bem na zona que me fora atribuda. O chefe 
no queria recomear o processo de admisso, pois existe sempre o risco de o novo empregado no corresponder. E, como no poderia deixar de ser, a minha zona sofreria 
uma quebra enquanto durasse a formao do meu substituto.
     Nessa noite, telefonei ao Micah.
     - Micah, queres um emprego como vendedor de medicamentos?
     Para mim, a proposta fazia todo o sentido. Tnhamos corrido juntos, servido  mesa juntos, tnhamos sido co-proprietrios de casas e ele tambm colaborara na 
pequena empresa fundada por mim. At ramos algo parecidos.
     Por momentos, o Micah ficou perplexo. Estava a sair-se bem no negcio imobilirio, mas o trabalho rendia apenas comisses e era dominado por grandes empresas. 
Como trabalhava numa firma pequena, conseguir novos clientes implicava canseiras infindas e ele estava a ficar cansado da maneira como a empresa tentava reter o 
mais possvel o dinheiro que lhe era devido.
     - O que  que ests a querer dizer-me? - acabou por perguntar.
     - Se eu for transferido, apresento-te ao meu chefe, poders conseguir uma entrevista com ele e s admitido, de certeza.
     - Achas que sim?
     - Tenho a certeza.
     O Micah dormiu sobre o assunto e ligou-me na manh seguinte.
     - Nick, acho que desejo ser delegado de propaganda mdica.
     Dito e feito! Depois de me ser atribuda uma nova zona, em New Bern, estado de Carolina do Norte, o meu irmo foi admitido, tomou conta da minha antiga zona 
de Sacramento e entreguei-lhes as chaves do carro da empresa.
     Entretanto, a Cat e eu inicimos o processo de preparao para uma nova vida, do outro lado do pas.
     
     No princpio de Novembro, menos de uma semana depois de o Micah ter aceitado o emprego, eu estava em casa, a iniciar o lento processo de empacotar as nossas 
coisas, quando recebi uma chamada urgente do meu pai.
     - Tens de ir j para o hospital! - exclamou subitamente o meu pai. Estava sem flego e confuso, uma repetio do terrvel acontecimento de trs anos antes. 
- Est no Metodista. Sabes onde ? O Bob levou-a para l h uns minutos.
     Sabia que o Bob era o namorado da Dana, mas a mensagem truncada do meu pai no fazia sentido.
     - Quem? Ests a falar da Dana? Ela est bem?
     - A Dana... est no hospital...
     - Est bem? - repeti.
     - No sei... Tenho de ir para l...
     De repente, aquela sensao de repetio comeou a dar-me volta  cabea.
     - Sabes o que aconteceu? Se ela sofreu algum acidente?
     - No sei... Acho que no... O Bob diz que ela teve uma espcie de convulso... No sei mais nada... O Micah j vai a caminho... Vou agora para l.
     No hospital, o Bob contou-me o que tinha acontecido. Ele vivia num rancho, em Elk Grove, e trabalhava com o camio de distribuio de um armazenista local de 
raes para cavalos e gado bovino. Mais alto e mais pesado do que o Micah ou eu, usava botas de vaqueiro e j tinha entrado em competies em rodeos, a montar animais 
em plo. Nunca o vira to assustado como naquele momento.
     - Depois de acordar, sentia dificuldade em falar - esclareceu. - Misturava tudo, a conversa dela no fazia sentido. Por isso, meti-a no carro e vim para o hospital. 
No caminho, ps os olhos em alvo e comeou a ter convulses. Continuava a ter convulses quando aqui chegmos. Levaram-na para dentro e no a vejo desde ento.
     
     Embora estivssemos noutro hospital, este evocou-me estranhas reminiscncias do outro, daquele onde a minha me morreu. Os nossos sentimentos eram semelhantes 
enquanto vaguevamos pelo corredor,  espera de sabermos o que estava a acontecer. E o quarto onde vi a minha irm tambm era semelhante.
     A Dana estava cansada quando a vimos; fora medicada para as convulses e tinha os olhos baixos. Tal como ns, estava assustada e no sabia mais do que ns acerca 
do que sucedera. No entanto, para alm da exausto, parecia estar bem. Conseguia juntar as pontas dos dedos ao polegar, lembrava-se do que tinha acontecido na noite 
anterior. E tambm se recordava de se ter apercebido de que algo no estava bem, logo que acordou.
     - Recordo-me de tentar falar - comeou, com ar de embriagada. - Recordo-me de ouvir as palavras que proferia, mas eram palavras sem sentido. Por isso, tentava 
repeti-las, mas voltava a acontecer-me o mesmo. E o cheiro. Havia um cheiro realmente mau. Foi nessa altura que o Bob resolveu meter-me no carro. Depois disso, no 
consigo recordar-me de mais nada.
     Mais tarde, o mdico informou-nos que a Dana sofrera um ataque epilptico mas, quando pressionado, no quis entrar em especulaes sobre os motivos do ataque; 
precisava dos resultados dos exames. Sugeriu que seria melhor deix-la descansar um pouco.
     Fui o ltimo a levantar-me para sair; depois de os outros terem deixado o quarto, a Dana pediu-me que ficasse.
     - Nick - pediu -, diz-me a verdade. Quero saber o que se passa. Por que  que tive a convulso?
     - Existem muitas causas possveis - respondi. - Se fosse a ti...
     Esquadrinhou a minha cara, a acreditar em mim, a querer saber.
     A minha irm sabia que eu lhe diria sempre a verdade.
     - Na verdade, pode ser tudo. Uma alergia sbita. Tenso nervosa. Talvez sejas epilptica, sem que as convulses aparecessem at agora. Tumor do crebro. Talvez 
tenhas comido algo que te fez mal. Desidratao. Houve qualquer coisa que fez o teu corpo descontrolar-se durante algum tempo. H muita gente que tem convulses. 
Na realidade, as convulses so bastante comuns.
     Olhou para mim, a concentrar-se na causa a que eu gostaria que ela no tivesse prestado ateno.
     - Tumor do crebro? - perguntou, com calma.
     Encolhi os ombros.
     - Pode provocar convulses mas, acredita-me, no h nada que nos leve a pensar que tens um. Eu diria que  a causa menos provvel de entre todas as que mencionei.
     Baixou os olhos para o regao.
     - No quero um tumor no crebro - afirmou.
     Tentei tranquiliz-la, com a esperana de conseguir esconder o medo que sentia.
     - No te preocupes. Como te disse, no  provvel que a causa seja essa.
     
     Nas semanas seguintes, a Dana foi sujeita a uma srie de exames. Os mdicos no conseguiam dar com a doena. As tomografias computorizadas no foram conclusivas, 
mas tambm no voltou a ter convulses, parecendo-nos que o pior tinha passado. No entanto, a incerteza afectava-nos a todos; para comear, continuvamos sem saber 
a causa das convulses.
     Chegara tambm a altura de nos mudarmos para a Carolina do Norte.
     Desde que a Dana fora levada para o hospital, a Cat e eu tnhamos falado do assunto por diversas vezes; ela sugeriu que talvez devssemos ficar, mesmo que isso 
implicasse eu ter de procurar um novo emprego. A Cat dizia que era provvel a Dana vir a precisar de ns. Podamos congelar os nossos sonhos durante algum tempo. 
Pelo menos, at sabermos o que estava a acontecer.
     Era uma daquelas escolhas que temos de fazer na vida, sem dispormos de uma opo ideal.
     - Deixa-me falar com o Micah - acabei por decidir. - Deixa-me ouvir o que ele pensa.
     Naquela noite, depois de lhe exprimir o sentimento de culpa que
     sentia por me afastar, ele ps-me um brao  volta dos ombros:
     - No h nada que possas fazer pela Dana - afianou. - Nem
     sequer sabemos qual  o problema. Mas tens de pensar na tua famlia.
     Agora tens um filho. Tens de fazer o que achas que  melhor para ele.
     No consegui olh-lo de frente.
     - No sei...
     - Eu tomo conta da Dana. Estou aqui, o pap tambm. Se precisarmos de ti, metes-te num avio.
     - Mesmo assim, no me parece correcto partir, num momento destes.
     - Tambm no gosto de te ver partir - confessou. Depois, com um sorriso, acrescentou: - Mas, Nick, nunca te esqueas. O que se deseja e o que se consegue so 
quase sempre duas coisas inteiramente distintas.
     
     Poucos dias antes do Natal de 1992, a Cathy seguiu com o beb para a Carolina do Norte, para aguardar o camio das mudanas; eu
     ainda fiquei para dar a conhecer a zona ao meu irmo e para o
     apresentar a numerosos mdicos. Como o nosso apartamento tinha sido despejado, na noite anterior  partida, dormi no meu velho quarto, em casa do meu pai.
     O Micah veio ajudar-me a carregar o que restava, pois eu decidira atravessar o pas de automvel. Reparei que trazia uns cales meus; como vestamos o mesmo 
nmero, h muitos anos que nos servamos das roupas pertencentes ao outro.
     O meu irmo tinha trabalhado alguns veres a carregar camies para a Consolidated Freightways e sabia como arrumar as bagagens de forma a que no se estragassem 
na viagem. Com excepo do banco do condutor, o carro ia completamente cheio. Estvamos junto da porta quando chegou a hora da despedida; j tinha dito adeus  Dana 
e ao meu pai. Era tempo de partir e tanto o Micah como eu o sabamos.
     Aquela casa encerrava recordaes aos milhares; mentalmente, conseguia ouvir a minha me a rir-se na cozinha e ver os meus irmos sentados  mesa. Pela segunda 
vez na vida, estava a deixar a famlia para trs, mas desta vez era diferente. Da ltima vez que partira, era um adolescente; agora tinha famlia prpria; sabia 
que no ia regressar.
     - Parece aquela vez em que carregmos o Volkswagen para nos mudarmos para aqui, no parece?
     - Est bem cheio. Contudo, desta vez no parece empenado. Quanto tempo vais levar at l?
     - Uns quatro dias.
     - Tem cuidado.
     - Vou ter.
     Abramo-nos.
     - Vou sentir a tua falta - confessei.
     - E eu vou sentir a tua.
     - Adoro-te, Micah.
     Ele abraou-me com mais fora.
     - Eu tambm te adoro, maninho.
     Quando nos apartmos, senti a chegada das lgrimas, mas tentei ret-las. Nos ltimos trs anos, tnhamo-nos tornado bastante dependentes um do outro, mas eu 
tentei diminuir a importncia do que estava a acontecer. Disse para mim mesmo que estava apenas a mudar de casa; no se punha a hiptese de no nos tornarmos a ver. 
Eu viria visit-lo e ele iria ver-me. Podamos conversar pelo telefone.
     - Trazes uns cales meus - adverti-o, s para dizer qualquer coisa.
     - Devolvo-tos amanh - respondeu ele, sem pensar. E, logo de seguida acrescentou: - No devolvo. Amanh j c no ests. No posso devolv-los.
     Dito isto, o Micah comeou a chorar e abraou-se novamente a mim.
     - Tudo bem, Micah - sussurrei, a comear tambm a chorar. - Vai correr tudo bem.
     Minutos depois, embora com os olhos desfocados pelas lgrimas, vi a imagem dele no retrovisor a ficar mais pequena. Estava parado no relvado, a forar um sorriso 
e a acenar um lento adeus.
     
CAPTULO CATORZE
     Jaipur e Agra, ndia 7 e 8 de Fevereiro
     
     Aterrmos em Jaipur, cidade do Norte da ndia, com dois milhes e meio de habitantes, capital do estado de Rajasto. Famosa pelas fortalezas, palcios e cultura 
vivaz, Jaipur  frequentemente referida como a "Cidade Cor-de-Rosa" e constitui o centro comercial da
     maior parte do Rajasto rural.
     Embora sem saber o que nos esperava, depressa nos convencemos de que a ndia era um pas diferente de todos os outros. Depois de termos apresentado os passaportes 
em trs locais diferentes, tommos lugar no autocarro que nos ia levar de Jaipur at ao Forte Ambarino, que dantes fora a residncia do maraj.
     O nosso guia falava um ingls perfeito, com sotaque indiano, e enquanto atravessvamos Jaipur informou-nos que a cidade era considerada uma das mais belas de 
toda a ndia. Tambm parecia acreditar no que dizia. Durante os quarenta minutos que levmos at chegar ao destino, apontou os diversos monumentos e explicou o seu 
significado. Segundo conseguimos perceber, as suas palavras preferidas eram Jaipur, bela e cor-de-rosa. Qualquer descrio continha ou terminava numa variao do 
mote seguinte:
     - Jaipur. Bela cidade. Jaipur. A cidade cor-de-rosa. Vejam. No vem como  bela? A paisagem  bela e os edifcios da cidade antiga so pintados de cor-de-rosa. 
Jaipur  a cidade cor-de-rosa. Jaipur  a cidade bela.
     Entretanto, o Micah e eu olhvamos, embasbacados, pela janela.
     Havia gente por todo o lado. Os passeios e as ruas estavam congestionados e o autocarro onde seguamos partilhava a rua com pees, scooters, bicicletas, camelos, 
elefantes, burros e carroas puxadas por muares, cada veculo a mover-se a uma velocidade diferente e a ziguezaguear por entre o trnsito. As vacas, sagradas segundo 
a religio hindu, vagueavam  solta pela cidade, a meterem o nariz nos montes de lixo, juntamente com ces e cabras.
     A pobreza atingiu-nos violentamente. Tendas em farrapos e barracas construdas com tbuas apodrecidas ou quaisquer materiais deitados fora, eram o abrigo de 
milhares de pessoas. Alinhavam-se ao longo da via principal e de todas as ruas laterais por onde passmos. Pessoas vestidas de andrajos estavam por toda a parte, 
e dezenas, ou mesmo centenas, dormiam na borda dos passeios. Havia pessoas a defecar e a urinar  vista de todos, mas ningum, excepto ns, parecia reparar nisso. 
O cheiro do gasleo provocava tonturas.
     Entretanto, o nosso guia continuava.
     - Reparem nas casas luxuosas escondidas pelos muros. No vem como so belas? Na cidade velha todos os edifcios so cor-de-rosa. Jaipur  a cidade cor-de-rosa. 
Jaipur  a cidade bela.
     O Micah debruou-se para o meu lado.
     - Diz l outra vez: onde  que ficam as casas luxuosas?
     - Penso que ele disse que  por detrs daqueles muros.
     - Por detrs das barracas, quer ele dizer.
     - sim.
     - E esta  uma bela cidade? O homem deve estar maluco.
     Neste ponto, um dos membros da excurso, que ia sentado no banco a seguir ao nosso, inclinou-se para diante.
     - Na verdade - comeou, - Jaipur  rica quando comparada com outras cidades da ndia. Podem imaginar o aspecto de Calcut e Bombaim.
     - Pior do que isto? - indagou o Micah.
     - Muito pior. Acredite ou no, Jaipur  a cidade bela.
     Depois desta conversa, limitmo-nos a olhar pelas janelas, a tentar perceber como  que as pessoas podiam sobreviver assim.
     
     O Forte Ambarino, situado a dez quilmetros da cidade, foi construdo no cume de um monte e est rodeado de picos e vales facilmente defensveis, que o tornavam 
ideal para a proteco do maraj.
     Na base do forte, fomos divididos em grupos de quatro e percorremos de elefante a estrada, comprida e sinuosa, que acaba num grande largo onde se situa a entrada 
para o forte propriamente dito.
     Levou algum tempo a reunir todo o grupo junto dos portes.
     Foram precisos vinte elefantes e os animais movem-se com lentido.
     O Micah e eu depressa nos apercebemos de que os vendedores indianos eram ainda mais agressivos que os do Peru. Aglomeravam-se  nossa volta em grupos de quatro 
a seis, todos a exibir ninharias, cada um a pedir por elas menos dinheiro que o vizinho. No servia de nada dizer que no ou voltar-lhes as costas; seguiam-nos, 
cada um a berrar mais alto para nos chamar a ateno. Se recusssemos uma primeira abordagem, chegavam-se mais para ns e gritavam ainda mais alto. A medida que 
foram chegando junto aos portes, os nossos companheiros de viagem foram-se juntando em crculo defensivo, de costas para a multido, a fazerem o possvel para ignorar 
a gritaria. Os vendedores mantiveram a presso durante mais de meia hora. No final, seguiram o grupo at  porta.
     
     Durante a hora seguinte percorremos o forte, maravilhando-nos com aquela mistura de arquitecturas hindu e muulmana. Vimos ptios espaosos e de lindas vistas, 
quadros a leo e frescos de alta qualidade, alm dos apartamentos individuais destinados s concubinas do maraj. Tirmos fotografias em frente de um grande jardim 
dotado de um engenhoso sistema de irrigao para permitir que haja flores durante todo o ano; depois, subimos aos andares superiores, de onde pudemos apreciar a 
localizao do forte em termos defensivos.
     Porm, o que mais nos impressionou foi o Salo dos Espelhos. Foi o nosso primeiro contacto com os elaborados trabalhos em mrmore que tornaram a fortaleza famosa; 
vendo-os de perto, tivemos de os considerar um trabalho de qualidade superior a tudo o que vramos at ento. Construdo ao longo de dez anos por milhares de trabalhadores, 
o Salo dos Espelhos tem paredes de mrmore, com dezenas de milhares de pedras preciosas e semipreciosas incrustadas, bem como milhares de espelhos minsculos. Segundo 
nos disseram, pela noite, o maraj era entretido,  luz das velas, em frente do salo, onde as pedras preciosas e os espelhos reflectiriam a luz suave. Se os relevos 
de Angkor Wat se mostraram ricos de pormenores, at eu percebo que o trabalho em mrmore  muito mais difcil. Cada uma das milhares de gemas incrustadas ajustava-se 
perfeitamente  parede de mrmore.
     -  incrvel - sussurrou o Micah. - Mas acho que  quase um exagero. Um pouco espalhafatoso para o meu gosto.
     - Bom, isso no faz diferena. No acredito que consigas encontrar algum capaz de executar trabalhos deste gnero. A menos,  claro, que te mudes para a ndia.
     - No me parece que tal venha a acontecer.
     Depois de deixarmos a fortaleza, fomos observando sucessivos bairros de lata, passmos por um porto e, de uma maneira que s a ndia nos consegue surpreender, 
encontrmo-nos no paraso.
     O hotel j fora um palcio pertencente ao maraj. Os quartos eram dispostos como cabanas e os caminhos estavam impecveis. Uma exuberncia de rvores, fontes, 
carreiros sinuosos e flores; havia tambm termas com centro de sade, campos de tnis, ginsio e piscina. Os empregados eram profissionais e eficientes; bastava 
olharmos na direco de um deles; corriam para ns a perguntar se precisvamos de alguma coisa. Todos os participantes da excurso foram acompanhados aos respectivos 
quartos por funcionrios que no s lhes explicaram as caractersticas dos quartos com excepcional clareza, como tambm se ofereceram para tratar da roupa e engraxar 
os sapatos, com a promessa de que tudo seria devolvido num par de horas. Foi o hotel mais luxuoso onde ficmos durante toda a viagem; contudo, por mais agradvel 
que fosse, nem eu nem o Micah nos conseguamos abstrair da realidade que sabamos existir fora dos portes.
     No final do dia, houve mais um cocktail e enrolaram-nos um turbante na cabea para irmos visitar o Palcio da Cidade. Ali, fomos recebidos com honras reais; 
grupos de guardas permaneciam em sentido ao lado de camelos, cavalos brancos e elefantes, que tinham sido enfeitados para nos receber. Jantmos e assistimos a uma 
exibio de artistas tradicionais indianos, mas fora um dia cansativo e tanto o Micah como eu s desejvamos regressar ao hotel para nos deixarmos cair na cama.
     
     De manh, tnhamos duas escolhas: podamos ir visitar o museu e diversas reas de compras ou ficar no hotel.
     O Micah e eu decidimo-nos pelo hotel. Nenhum de ns desejava deixar o verdadeiro santurio onde estvamos e, pela primeira vez em duas semanas, no fizemos 
absolutamente nada.  tarde, de culos escuros e calo de banho, o Micah encontrava-se deitado numa cadeira de repouso, perto da piscina.
     - Ora bem, era mesmo disto que eu estava a precisar.
     - Compreendo o que queres dizer - concordei. - Mas no consigo libertar-me de um certo sentimento de culpa. Talvez seja a minha derradeira oportunidade de ver 
a ndia e estamos para aqui, deitados junto da piscina do hotel.
     - Querias mesmo visitar mais um museu e ir s compras?
     - No. S estou a dizer que me sinto culpado.
     - Ests sempre a sentir-te culpado. Esse  o teu problema.
     - Pensava que o meu problema era no ter amigos suficientes.
     - Tambm tens esse.
     Abri os braos a fingir-me muito agradecido.
     - Micah,  por isso que gosto tanto de ti. Ests sempre preparado
     para uma crtica construtiva.
     - Gosto de ajudar. Alm disso, depois da morte da mam algum
     tinha de cuidar de ti.
     - Ela era insubstituvel.
     - Sabes o que ela representava? - reflectiu o Micah. - Era como o cubo da roda da nossa famlia e todos ns ramos os raios. E quando ela desapareceu, desapareceu 
o centro da nossa vida. Julgo que esse foi o motivo de sentirmos tanto a perda. No tnhamos apenas perdido a nossa me, tambm nos tnhamos tornado uma famlia 
diferente. Penso que essa foi a razo de tu, a Dana e eu nos termos reunido de novo.
     - E quanto ao pai?
     - No sei - respondeu. - A perda da mam foi uma parte do problema, mas continuo a pensar que ele sofria de doena manaca-depressiva. Enquanto foi viva, penso 
que a mam conseguiu controlar o humor dele. Depois que ela partiu, bem, o pai tambm perdeu o seu ponto de referncia.
     - Achas que foi um bom pai? Quando estvamos a crescer, entenda-se?
     - Foi, em certos aspectos. Menos bom noutros. Contudo, se atendermos ao que os filhos vieram a ser, temos de dizer que tivemos bons pais. Somos felizes no casamento, 
bem-sucedidos na profisso, eticamente saudveis e continuamos a ser bons irmos. Se, mais tarde, os teus filhos puderem dizer o mesmo, no achars que fizeste um 
bom trabalho enquanto pai?
     - Sem dvida - anu.
     
     De manh, embarcmos no avio para Agra, onde amos visitar o Taj Mahal.
     Para l das janelas do autocarro, o ambiente era o mesmo que tnhamos encontrado em Jaipur, com duas diferenas importantes: o ar encontrava-se muito mais poludo 
e havia mais ruas de terra.
     Por causa da poluio, houve necessidade de mudarmos de autocarro; para chegar junto do Taj Mahal, tivemos de percorrer cerca de trs quilmetros em autocarros 
de traco elctrica e acabmos por ter de os deixar a cerca de quatrocentos metros dos portes do monumento.
     Daquele ponto ainda no se avistava o Taj Mahal. O que muita gente no sabe  que, na realidade, o Taj faz parte de um conjunto muito maior. Voltmos a ter 
de esperar numa longa bicha, desta vez para que os nossos sacos fossem revistados, para haver a certeza de que no levvamos armas ou explosivos. Finalmente, entrmos 
no complexo e, mesmo ento, continuvamos a no conseguir ver o monumento.
     Em fila, tivemos de percorrer um longo caminho, flanqueados de ambos os lados por edifcios, na sua maioria apartamentos destinados aos convidados de Shah Jahan. 
Mais adiante,  direita, notmos uma grande estrutura em tijolo, que serve de porto ornamental e, para entrar, mais uma vez tivemos de formar uma fila para sermos 
revistados.
     Mas, ultrapassado o porto, tivemos finalmente a primeira viso do que muita gente considera o mais belo monumento alguma vez construdo para celebrar o amor.
     O Taj Mahal foi comeado a construir por Shah Jahan, um imperador da dinastia Mogul, em memria da segunda esposa, Mumtaz Mahal, que morreu ao dar  luz o dcimo 
quarto filho do monarca. Trata-se, portanto, de um mausolu. O cenotfio, incrustado de jias, encontra-se no interior, perto da tumba do marido. O Taj  um dos 
monumentos mais simtricos alguma vez construdos: o cenotfio de Mumtaz encontra-se mesmo no centro da cpula, as quatro torres dos cantos esto exactamente  mesma 
distncia da cpula e tm exactamente a mesma altura.
     O Taj Mahal levou 22 anos a ser construdo, com materiais trazidos de todas as partes da ndia e da sia Central, graas ao trabalho de 20 mil homens e mil 
elefantes.  considerado um smbolo do amor eterno, mas Shah Jahan passou ali pouco tempo. Logo depois da sua concluso, o filho de Shah Jahan e de Mumtaz deps 
o imperador e p-lo a ferros na Grande Fortaleza Vermelha, a alguns quilmetros de distncia. Embora o imperador deposto pudesse ver o Taj Mahal da sua cela, nunca 
mais foi autorizado a pr o p no mausolu.
     Do ponto onde estvamos, no parecia real; tendo por fundo um cu escuro e poludo, o mrmore brilhava intensamente e a imagem do mausolu era reflectida pelo 
enorme espelho de gua que se estende  sua frente. Ao verem fotografias do Taj Mahal (que significa "Palcio da Coroa") muitas pessoas crem que  construdo de 
mrmore branco, liso e sem adornos; s vistos de perto  que os pormenores de cada bloco de mrmore se tornam notados. Tal como o Salo dos Espelhos, mas numa escala 
muito maior, o Taj Mahal  adornado com pedras preciosas e semipreciosas, incrustadas de modo a formarem desenhos de flores e vides. Depois de tirarmos fotografias, 
percorremos o monumento e estudmos a sua fachada monumental.
     - Ora bem, h aqui uma quantidade de mrmore - apreciou sucintamente o Micah.
     Passmos pouco mais de uma hora no Taj Mahal e ficmos surpreendidos por ser tempo suficiente. Afinal, o monumento  uma cripta; l dentro, pouco mais h do 
que a pequena sala onde Mumtaz e eventualmente Shah Jahan esto sepultados, sendo certo que a maior ateno deve ser dedicada aos pormenores que tm a ver com os 
blocos de mrmore utilizados na construo. E so espantosos; no entanto, como o Taj Mahal foi construdo com perfeita exactido matemtica, os pormenores artsticos 
so, curiosamente, pouco inspiradores. Se encontramos um desenho de um lado, o mesmo desenho est mecanicamente reproduzido no lado oposto. Mesmo sendo uma maravilha 
de construo, torna-se estranhamente montono.
     Tanto o Micah como eu ficmos fascinados com o facto de o filho de Shah Jahan ter aprisionado o pai at ao fim da vida e de nunca mais o ter deixado pr o p 
no Taj Mahal, a cripta da sua prpria me.
     - Vs - comeou o Micah, com um aceno de quem sabe. - Era exactamente isto que eu queria dizer. O nosso foi muito melhor pai do que o velho Shah Jahan deve 
ter sido. O filho odiava-o.
     Fiz um aceno de concordncia. E, no entanto, ao olhar o macio monumento construdo em honra de Mumtaz, no estava a pensar no meu pai, estava a pensar na minha 
irm.
     
     Em janeiro de 1993, menos de trs semanas depois de me ter mudado para a Carolina do Norte, tive de regressar  Califrnia.
     Logo depois do dia de Ano Novo, a minha irm foi consultar outro mdico, que ordenou uma nova ressonncia magntica, feita num hospital diferente. Na altura, 
a tecnologia dos aparelhos de ressonncia magntica estava a evoluir rapidamente e as novas mquinas conseguiam imagens que no estavam ao alcance dos aparelhos 
precedentes. Segundo nos disseram, a Dana fora examinada numa mquina antiquada; uma nova imagem poderia dar a resposta.
     A Dana estava deitada, puseram-lhe protectores nos ouvidos e a maca foi empurrada para dentro do aparelho. Trata-se de uma mquina ruidosa, os barulhos assemelham-se 
ao bater de uma colher numa panela; horas depois, a imagem estava revelada. E mostrava, to certa como a claridade do dia, a existncia de qualquer coisa que no 
deveria estar ali. Segundo fomos informados, a Dana tinha um tumor no crebro.
     De imediato, foi marcada a operao no Hospital Universitrio de So Francisco e eu segui para l, para me juntar ao Micah e ao meu pai. Na noite anterior, 
no hotel, o Micah e eu tentmos manter o moral elevado, mas o pap passou todo o tempo numa enorme tenso. S quando ficmos ss  que eu e o Micah pudemos dar largas 
aos nossos medos e preocupaes.
     A nossa irm, a nossa irmzinha pequena, tinha um tumor no crebro. Como se perder a nossa me no tivesse sido suficiente, tnhamos de enfrentar aquela situao.
     A interveno cirrgica fora marcada para o princpio da manh e, ainda antes das sete horas, levmos a Dana para o hospital. Porm, devido aos horrios apertados, 
a operao s comeou perto do meio-dia, fazendo daquele dia um dos mais longos das nossas vidas. O cirurgio s veio falar connosco s sete horas da tarde.
     Informou que a operao tinha corrido bem e que tinha removido o que pudera do tumor. No fora possvel remov-lo na totalidade. Parte do tumor tinha-se disseminado 
para zonas profundas do crebro e algumas metstases estavam interligadas com reas do crebro que desempenham funes vitais. O cirurgio esclareceu-nos de que, 
se removesse todas as ramificaes do tumor, a Dana passaria a viver como um vegetal.
     O mdico levou muito tempo a explicar o verdadeiro estado da Dana numa linguagem que ns pudssemos entender. Quisemos saber pormenores: qual a parte do tumor 
que fora deixada, onde se localizava, qual o efeito que teria a longo prazo; porm, como viramos a descobrir, muitas vezes a cirurgia do crebro  mais uma questo 
de julgamento do que de regras.
     - Quando ela recuperar - anunciou o mdico, - vai comear a tomar medicamentos para as convulses e ser tratada com radiaes. Esperamos que o tratamento elimine 
a parte do tumor que ficou, as metstases que no pudemos extirpar.
     - E se as radiaes no resultarem? Nesse caso, faz-se o qu? Uma nova operao?
     O mdico negou com um movimento de cabea.
     - Esperemos que a radiao resulte. Como disse, no poderia chegar a algumas partes do tumor sem fazer piorar a sade da doente.
     - Que hipteses  que ela tem? Vai conseguir ultrapassar a situao?
     - Depende do tipo de tumor. Estamos agora a proceder  bipsia. Alguns tumores so mais susceptveis  radiao do que outros. Alguns desenvolvem-se rapidamente, 
outros no. No o poderemos saber antes de conhecermos o resultado do exame. Mas se o tumor for susceptvel, a radiao dever solucionar o problema.
     - Ento, ainda h possibilidades de ela poder fazer uma vida normal?
     O mdico hesitou:
     - Quase normal. - Espermos, a tentar perceber o que ele pretendia dizer-nos. O mdico resolveu continuar: - A medicao contra as convulses  contra-indicada 
em caso de gravidez, pois pode causar malformaes no feto.
     Nova pausa. O Micah e eu trocmos olhares, j sabendo o que viria de seguida.
     - O mais provvel - acrescentou o mdico -,  que nunca venha a ter filhos.
     Nenhum de ns falou durante muito tempo.
     - Quando  que podemos v-la? - acabei por perguntar.
     - Amanh. Est a dormir e talvez seja melhor deix-la descansar.
     Nessa noite, o Micah e eu dormimos no mesmo quarto de hotel. Ou melhor, tentmos dormir. Passei a maior parte da noite de olhos postos no tecto, a pensar numa 
conversa que eu e a Dana tivramos no dia do nosso aniversrio, havia muitos anos. "Quero casar-me e quero ter filhos... ", dissera a minha irm.
     "S isso?"
     "S isso.  tudo o que desejo da vida. "
     A lembrana quase me despedaou o corao.
     
     Quando a vimos, a cabea da minha irm estava completamente coberta de ligaduras. Dormiu a maior parte do tempo e, ao acordar, parecia embriagada. Os olhos 
no se fixavam em nada, os movimentos eram letrgicos.
     - A operao... correu... bem? - gaguejou. A voz era apenas um sussurro.
     - Correu optimamente, minha querida - mentiu o Micah. - Oh... bom...
     - Adoro-te doura - disse eu.
     - Adoro-vos... a ambos. - E voltou a adormecer.
     Uma semana depois, recebemos os resultados da bipsia. No essencial, dizia que a minha irm apresentava trs tipos de clulas cancerosas no crebro: oligodendroglioma, 
astrocitoma e gliobastoma multiforme; tudo tumores de crescimento rpido que se espalham  maneira das teias de aranha, s parcialmente susceptveis  radiao e 
 quimioterapia.
     Por mais pormenores que aprendssemos acerca de tumores, havia um que no conseguamos tirar da cabea. Embora todos pudessem ser mortais, um deles era especialmente 
maligno. Ao fim de cinco anos, a taxa de sobrevivncia dos doentes com gliobastoma multiforme era inferior a dois por cento.
     A minha irm acabava de fazer 26 anos.
     
     Regressei a casa trs dias depois, na manh em que a minha irm ia ter alta do hospital. Para alm de saber que ia fazer radioterapia, a Dana comeou a tomar 
o medicamento contra as convulses. Com a cabea ainda ligada, iniciou o longo processo de cura. Durante semanas, no consegui libertar-me do sentimento de culpa 
por no estar junto dela. Tive de o compensar com o trabalho.
     Mas a vida continuava, trazendo consigo novas fontes de stress. O meu novo chefe comeou de imediato a pressionar-me para que obtivesse resultados; a Cat e 
eu comprmos a nossa primeira casa. No curto espao de trs meses, tnhamos trocado de casa, eu mudara de emprego, comprramos uma casa e iniciramos o processo 
de a decorar, sem deixar de me preocupar incessantemente com a sade da minha irm.
     E no era tudo. O diagnstico da Dana fora demasiado para o pai e a minha mudana para a Carolina do Norte pareceu servir apenas para alimentar a clera e a 
culpa que ele sentia dentro de si. Quando lhe falei da nova casa, por exemplo, respondeu-me sucintamente que eu faria melhor se no ficasse  espera de ajuda para 
o pagamento inicial. Quando ligava, falava apenas com a minha mulher; habitualmente, eu ficava de lado,  espera de poder tambm falar com ele, at ouvir a Cathy 
dizer: "Bom, o Nick est aqui. Quer dar-lhe uma palavrinha?" Havia uma longa pausa, at a Cat continuar: "Oh, est bem; ento, adeus. Adeusinho, pap. Adoro-o."
     Depois, lentamente, colocava o auscultador no descanso.
     - No quis falar comigo? - perguntava eu.
     - No  nada contigo - murmurava a Cat, e abraava-me. - Est apenas assustado.
     Com a Dana.
     O meu pai tomou atitudes corajosas. Levava-a s consultas e, em Abril, quando ela comeou o tratamento com radiaes, levou-a para casa. A radioterapia provocava-lhe 
nuseas e f-la perder muito cabelo, mas mostrava-se alegre sempre que eu lhe ligava. A minha irm, uma eterna optimista, sabia que ia curar-se.
     - Nick, tenho rezado muito - disse-me um dia. - E julgo que est a resultar. Parece que sinto os tumores a morrer. Gosto de os imaginar a gritar na agonia, 
quando esto a morrer.
     - Tenho a certeza de que vo morrer. Tu s jovem e forte.
     - Tambm vais rezar por mim?
     - No precisas de pedir, Dana. Todos os dias rezo por ti.
     - Obrigada.
     - Como  que o pap est a portar-se?
     - Tem sido fantstico. Nem podes imaginar como tem sido prestvel. Faz-me sopa e at me comprou um televisor com controlo remoto, para eu no ter de me levantar 
quando quiser mudar de canal.
     - ptimo. Ainda bem.
     - E tu, como tens passado? Tens alguma novidade excitante?
     Hesitei. Havia qualquer coisa, mas no sabia se devia responder-lhe. Como poderia dizer-lhe? Ao mesmo tempo, no ignorava que a minha irm acabaria por vir 
a saber; outras pessoas da famlia, incluindo o Micah, j sabiam.
     Acabei por decidir inform-la:
     - Bem, acabmos de descobrir que a Cat est novamente grvida.
     O beb deve nascer em Setembro.
     A Dana permaneceu calada durante muito tempo.
     - Isso  maravilhoso - acabou por dizer. A voz era de uma
     pessoa derrotada. - Fico feliz por ambos.
     
     - Disseste-lhe? - perguntou o Micah uns minutos mais tarde. - Sim, disse-lhe.
     - Como  que reagiu?
     - Mais ou menos como eu esperava.
     - Terrvel, no ? Acho que daria uma excelente me.  exactamente como era a nossa me.
     No respondi; na realidade, no havia nada para dizer.
     - Tenho andado a pensar em ti - acrescentou o Micah, depois
     de uma pausa. - E na maneira como as coisas tm vindo a acontecer-te nos ltimos tempos.
     - O que  que pretendes dizer?
     - Estou a falar de altos e baixos. Primeiro, casaste-te e tiveste um incrvel momento de euforia. Seis semanas depois, morre a mam e no poderias descer mais 
baixo. A Cat engravida pela primeira vez, depois tem um aborto. Tu e a Cat tomam a deciso de se mudarem e ficas excitado ante a perspectiva de iniciares uma nova 
vida; um ms depois, a Dana sofre a convulso e descobrimos que tem um tumor no crebro. Depois, sabes que a Cathy est novamente grvida; ao mesmo tempo, sabemos 
que a Dana no poder ter filhos e que no  provvel que viva mais de cinco anos.  como se vivesses numa montanha russa, sempre a subir e a descer, sem conseguires 
atingir uma zona plana. Para ti, tem havido uma sucesso de altos mais altos e de baixos mais baixos.
     - Poderia dizer o mesmo de ti - alvitrei calmamente. - E tambm do pai.
     - Eu sei - contraps. -  como se no pudssemos saborear a alegria dos momentos altos.
     
     A Dana terminou a radioterapia a meio do Vero e fez uma TAC que no revelou sinais do tumor. Os mdicos mostraram-se optimistas, o cabelo da minha irm comeou 
a crescer lentamente e, pela primeira vez desde a convulso, conseguimos atirar as nossas preocupaes para trs das costas.
     Com a melhoria da minha irm, o comportamento do pai a meu respeito tambm mudou para melhor. Voltou a falar comigo pelo telefone; hesitante de incio, uma 
reaproximao lenta. No entanto, continuou a manter conversas prolongadas com a Cat e soubemos que at tinha recomeado a namorar.
     Dizia que encontrara uma mulher e que gostava muito dela.
     A Dana tambm estava a dar-se bem com o Bob; depois da operao a relao tinha passado por dificuldades.
     E o Micah, como sempre, continuava florescente, escapava-se durante longos fins-de-semana e evitava relaes comprometedoras.
     O Ryan nasceu em Setembro de 1993, mas no pude estar no hospital para o ver nascer. Estava a trabalhar fora da cidade, uma reunio a que no podia faltar e 
as guas da Cat rebentaram quando a reunio estava a acabar. S iria ver o meu filho no dia seguinte.
     Em Novembro, a famlia reuniu-se no Texas para passarmos o Dia de Aco de Graas com o tio Monty, o irmo mais novo do meu pai que, para minha surpresa, pareceu 
genuinamente feliz. Estava apaixonado, segundo nos informou, e ns, os filhos, ficmos satisfeitos por ele ter, finalmente, encontrado uma pessoa com quem gostasse 
de estar. No entanto, estas notcias acerca do nosso pai pareceram-nos menos importantes do que outras coisas que viemos a descobrir nessa viagem.
     A Dana informou-nos de que tinha rompido novamente com o Bob. No ficmos muito admirados; as dificuldades provocadas pela doena recente seriam suficientes 
para pr  prova qualquer relao.
     - Oh! - recordo-me de ter exclamado, -  pena. Eu gosto do Bob.
     - Mas h mais - acrescentou a Dana. - O que ?
     Sorriu, com um ligeirssimo encolher de ombros.
     - Estou grvida - informou. No soube o que havia de dizer. - No te preocupes. Deixei de tomar a medicao contra as convulses.
     Porm, ainda no era tudo. Na nossa famlia, como eu comeava lentamente a perceber, havia sempre mais qualquer coisa. No havia apenas aquela preocupao, 
que nos iria perseguir durante os sete meses seguintes, por a Dana estar a pr a sua sade em perigo; ela estava tambm a caminho de se tornar uma me solteira. 
E no tardou a sabermos que esperava gmeos.
     Depois, para aumentar as nossas preocupaes, logo depois do Natal, o nosso pai informou abruptamente a filha de que ela tinha de sair de casa, apesar de saber 
que a Dana no tinha para onde ir.
     Embora no comentasse a desconfiana, intimamente comecei a pensar se, alm da psicose manaca-depressiva, o meu pai no sofreria de outras doenas mentais.
     Em Dezembro, o meu pai descobriu que a mulher com quem andava envolvido, a primeira mulher com quem se relacionara aps a morte da mam, no estava devidamente 
divorciada. Encontrava-se apenas separada do marido e tinha andado a extorquir ao meu pai o pouco dinheiro que ele possua. Quando a relao chegou ao fim, ele estava 
profundamente endividado. Quando no tinha mais nada para dar  mulher, esta cortou todos os contactos. No sei se o meu pai continuou a telefonar  mulher at ela 
se cansar da persistncia dele, ou se se tratou de um simples acidente, mas o marido acabou por ter conhecimento da relao. Era um polcia corpulento e ameaou 
fisicamente o meu pai no caminho de acesso  casa. O meu pai temeu pela vida e ficou aterrorizado com a ameaa.
     Creio que foi esta sucesso de eventos, todos na altura do Natal, que acabou por deix-lo emocionalmente de rastos.
     A partir de ento, entrou numa espiral descendente, que o tempo apenas foi tornando mais difcil. Tornou-se azedo, no humor e nas decises; j no era apenas 
um homem zangado, ficou paranico. Como no podia pedir a proteco da Polcia (de que lhe serviria?) comprou armas e munies. Ordenou  minha irm que sasse de 
casa e comprou um co chamado Flame.
     Flame, um pastor alemo, tinha comeado por ser treinado para as foras policiais, mas, dado o seu carcter voltil, no pudera ser usado nesse tipo de tarefas. 
Embora dedicado ao meu pai, o co enervava todas as outras pessoas. Uivava e mordia, era inconveniente e indigno de confiana. Aquele feitio irascvel, combinado 
com a instabilidade do meu pai, formaram uma mistura perigosa.
     Durante os primeiros meses de 1994, eu e o meu irmo mantivemos longas conversas pelo telefone, tanto sobre a Dana como sobre o nosso pai, a tentarmos descobrir 
o que poderamos fazer, se pudssemos fazer qualquer coisa.
     - Achas que deveria convidar a Dana para viver comigo? - perguntei.
     - Nick, no pode ser - respondeu Micah. - Os mdicos dela esto aqui.
     - E quanto ao pap?
     - Ela nem sequer pe a hiptese de voltar para casa. E, para te ser franco, tambm no desejo que ela v viver para l. O pai est a ficar mesmo esquisito. 
E com o co... no. A Dana no pode viver ali. Com filhos, no.
     - No pode ficar contigo?
     - J lhe propus isso, mas ela no quer. Diz que consegue controlar a situao. A Olga, a amiga dela, tem um pequeno quarto que a Dana pode alugar.
     A Olga vivia na velha casa da quinta onde guardvamos os cavalos; conhecia a Dana h muitos anos.
     - E como  que vai sobreviver? No tem emprego, nem marido, nem dinheiro, tem um tumor no crebro...
     - Eu sei. Tentei fazer-lhe ver isso.
     - O que  que ela respondeu?
     - Diz que consegue resolver as coisas. No est nada preocupada. Est entusiasmada com a ideia de ter filhos.
     - Como  que consegue no estar preocupada? E se tiver uma convulso, sem ningum por perto para a ajudar?
     - Tem f de que vai correr tudo bem.
     Hesitei.
     - E achas que  suficiente?
     - No sei - respondeu.
     Graas a Deus, a minha irm chegou sem problemas ao fim da gravidez e, em Maio de 1994, deu  luz dois gmeos saudveis, a que ps os nomes de Cody e Cole. 
Uma semana depois do parto, voltou a tomar os medicamentos contra as convulses e comeou a tratar dos bebs no quarto atravancado a que chamava o seu lar. O Micah 
e eu comemos a mandar-lhe dinheiro e conseguiu sobreviver, no se sabe bem como. A Dana e os gmeos dormiram no cho, num colcho desdobrvel, durante quatro meses; 
todavia, para final do Vero, a minha irm reconciliou-se com o Bob e decidiu ir viver com ele, para os filhos poderem estar com o pai. Para nossa surpresa, s lhe 
falou da gravidez depois de os gmeos terem nascido.
     Durante este perodo, o meu pai devotou a maior parte do tempo disponvel a treinar o co. Apesar de a Dana estar de boa sade, a clera dele tornou-se ainda 
mais profunda. Naquele perodo de seis meses comeou a afastar-se da sua famlia, que era grande. Recusou chamadas da me, do pai e dos irmos; se lhe escrevessem, 
devolvia as cartas sem as abrir. No comentava comigo, nem com o Micah ou a Dana, as razes que o tinham levado a afastar-se da famlia. Se lhe perguntssemos o 
que estava a passar-se, ficava furioso connosco, passava de imediato  fase do bombardeamento nuclear e, atravs dos dentes cerrados, dizia-nos que no era "da nossa 
conta". Por qualquer razo, comeara a culpar a famlia por todos os problemas que lhe tinham atormentado a vida. Porm, como naquela altura a minha prpria vida 
j tinha passado por tantos altos e baixos, convenci-me, sem saber como, de que ele tambm conseguiria ultrapassar aquele mau momento.
     Como depois vim a saber, foi tambm naquele perodo que o meu pai comeou a tratar-se com um psiquiatra, uma deciso que tanto o meu irmo como eu pensmos 
que o poderia ajudar. Mas o meu pai, como eu parecia ser o nico a reconhecer, havia muitos anos que levava uma vida dupla. Conseguia enganar as pessoas e acho que 
at conseguia enganar o psiquiatra. Em vez de pr o meu pai a tomar antidepressivos, medicamentos que penso o ajudariam, o mdico receitou-lhe Valium, o que ainda 
o deprimiu mais.
     Com a Dana e o Bob juntos, os gmeos saudveis e o pai a limitar os contactos connosco, embora nunca os interrompesse totalmente, o Micah concentrou-se no trabalho, 
subiu na empresa e continuou a namorar.
     Quanto a mim, a mais de cinco mil quilmetros da famlia, a vida continuou no ritmo habitual, com uma ligeira diferena. Logo depois de a Cat e eu termos celebrado 
o quinto aniversrio do nosso casamento, e usando os avs da minha mulher como inspirao, recomecei a escrever.
     Nos anos de 1993 e 1994, apesar da distncia, eu e o meu irmo vimo-nos com uma certa frequncia. A companhia farmacutica para a qual ambos trabalhvamos fazia 
reunies de vendas para promover os novos medicamentos que ia lanando no mercado. Alm disso, as aces de formao realizavam-se na sede, em New Jersey, e o Micah 
e eu assistamos inevitavelmente s mesmas sesses. Tambm me visitou na Carolina do Norte e eu ia  Califrnia, pelo menos uma vez por ano. Como sempre, a conversa 
girava  volta do nosso pai e da Dana. Como o Micah era o veculo que eu usava para acompanhar a vida da famlia, sentia a necessidade de conversar com ele. E como 
eu era a nica pessoa com quem podia falar  vontade, ele tambm sentia a necessidade de conversar comigo.
     Em finais de 1994, quando estvamos numa conveno anual de vendas, vieram  baila os mesmos assuntos.
     - Como  que est o pai? - perguntei.
     - Quem sabe? Mas julgo que encontrou algum e que anda outra vez a namorar.
     - Costuma ir ver os gmeos?
     - No, nunca foi.
     - J lhe perguntaste por qu?
     - Prefere passar o fim-de-semana com o co.
     - No foi ele que disse isso.
     - No usou tantas palavras, mas age como tal. Parece que o co e a nova mulher so as suas nicas preocupaes.
     - Nenhuma palavra acerca dos motivos por que no fala com a famlia?
     - Nada.
     - Mas anda a namorar?
     - Anda. Consegues crer numa coisa assim? Por vezes, penso que ele est melhor. Porm, quando vs a totalidade do quadro... Espero que ele consiga sair da situao 
mas, desta vez, no estou muito certo disso. Parece sempre demasiado encolerizado.
     - E a Dana?
     - Os bebs mantm-na entretida. A ltima TAC foi boa. No h sinais do tumor. Mas devias ver os rapazes. So to bonitos. Quase me fazem desejar ter filhos.
     - Quase?
     - Ainda no - emendou rapidamente. - Dentro de uns anos, quero eu dizer.
     Soltei uma gargalhada.
     - Olha l, o que  que pensas dos boatos sobre fuses e compras de empresas que temos ouvido ultimamente? - perguntou o Micah.
     Tnhamos ouvido dizer que a American Cyanamid, uma empresa associada da Lederle, estaria  venda e todos os participantes da conveno se mostravam preocupados 
com a possibilidade de perderem os empregos.
     - Sabe-se l. Acontecer o que tiver de ser. Depois de tudo o que temos passado, tenho a certeza de que aterraremos de p.
     Menos de duas semanas depois da conveno, soubemos que a empresa ia ser adquirida pela American Home Products. Em janeiro, a companhia iniciou o lento processo 
de reestruturao; para conservar o emprego, tive de me mudar para Greenville, Carolina do Sul. Quanto ao Micah, ofereceram-lhe um lugar a sul de Los Angeles. Enquanto 
eu aceitei a transferncia, embora com relutncia, o meu irmo decidiu deixar a companhia.
     - No posso aceitar - comentou comigo. - Esta  a minha terra, alm disso, no posso deixar a Dana e o pap.
     - O que  que vais fazer?
     -  provvel que regresse ao ramo imobilirio, para ver o que acontece. Como  que vai o teu romance?
     - Est quase pronto. No est revisto.
     - Vais tentar public-lo?
     - julgo que sim.
     -  melhor que os outros dois que escreveste?
     - Isso ter de se ver.
     - Eh! Talvez tambm no fiques muito tempo no ramo farmaceutico.
     Respirei fundo:
     -  possvel. Veremos o que vai passar-se. J desisti de prever o futuro.
     
CAPTULO QUINZE
     Lalibela, Etipia 9 e 10 de Fevereiro
     
     Comemos pela manh em Jaipur, vomos at Agra para vermos o Taj Mahal e, mais para o final da tarde, voltmos a embarcar no avio que nos levaria at Adis 
Abeba, na Etipia. Chegmos tarde; quando aterrmos era noite cerrada.
     Mesmo de noite, Adis Abeba surpreendeu-nos. As nossas ideias sobre a Etipia baseavam-se em grande parte no que vamos na televiso, ou no que lamos nos jornais, 
e suponho que imaginvamos uma cidade semelhante a Phnom Penh, ou at a Jaipur. No entanto, descobrimos que Adis Abeba se parecia muito mais com Lima e ficmos surpreendidos 
com a sua atmosfera cosmopolita. Longos canteiros de relva bem aparada alinhavam-se ao longo da artria principal, as ruas estavam limpas, bem iluminadas e eram 
usadas apenas por automveis e, pela primeira vez em vrias semanas, vimos elementos da cultura americana: cartazes a anunciar a Coca-Cola e as roupas da GAP.
     O nosso guia falava um ingls excelente e quando lhe chammos a ateno para a limpeza da cidade, inclinou-se em sinal de agradecimento.
     - Sim. Adis Abeba  uma cidade moderna. Mas, normalmente, no est to limpa.
     - O que  que pretende dizer?
     - Na semana passada, houve aqui uma grande conferncia, em que estiveram representados todos os pases africanos. Para causar boa impresso, o Governo passou 
semanas a limpar a cidade.
     Mesmo assim, uma operao dessas tem os seus limites. Adis Abeba, pelo menos  superfcie, parecia incrivelmente, quase provocadoramente, mais rica do que as 
cidades que tnhamos visitado nas semanas anteriores.
     
     De manh, fomos levados novamente ao aeroporto e embarcmos em dois pequenos avies com motores de hlice, para voarmos para Lalibela.
     Lalibela  a sede espiritual da Igreja Ortodoxa da Abissnia (ou Etipia), mas  mais famosa pelas caves monolticas escavadas durante o sculo xiii. A sua 
construo foi ordenada pelo rei Lalibela; com o trabalho de 40 mil escravos, onze igrejas foram escavadas na rocha. O que torna as igrejas nicas  a circunstncia 
de nenhuma delas se elevar acima do cho;  que foram completamente escavadas na terra, de modo a que os tectos ficassem ao nvel do solo.
     O aeroporto onde desembarcmos est situado no meio de coisa nenhuma e rodeado pelos picos das terras altas da Etipia. Para alm do aeroporto, no se avistava 
qualquer outra construo e a terra fez-nos lembrar o Sul do estado de Nevada, perto das Montanhas Rochosas. Poucas rvores cresciam no solo rochoso e os arbustos 
rasteiros dominavam o vale, at onde os olhos alcanavam.
     Fomos informados de que Lalibela ficava a cerca de 40 quilmetros dali, a 3200 metros de altitude. A estrada sinuosa, asfaltada, atravessa o vale e segue pelo 
cume das montanhas; levmos uma hora a chegar ao nosso destino e no vimos qualquer outro veculo.
     No entanto, encontrmos um rapazinho de cerca de dez anos, a uns 13 quilmetros de Lalibela. Caminhava pela estrada a arrastar um monstruoso saco de serapilheira 
cheio de carvo, que tinha a inteno de vender na cidade. O saco, mais alto e mais largo do que a criana, tinha-lhe sido atado s costas e parecia conter vrias 
vezes o peso do prprio rapaz. Ao ver o autocarro a passar, sorriu e acenou-nos um cumprimento, antes de prosseguir a caminhada para a cidade.
     A maior parte da cidade de Lalibela est situada longe da estrada principal, cresce ao longo de estradas de terra batida, cheias de buracos. As casas de telhados 
de colmo e paredes de adobe tm poucas janelas com vidraas para mostrar, mas a cidade gaba-se da existncia de muitos lugares onde se pode comer, de pequenas lojas 
familiares e de muitos lugares onde os turistas podem comprar lembranas. Quase todas as pessoas que encontrmos vestiam roupas ocidentais. Ao longo das ruas, havia 
numerosas mesas com toalhas de pano, a oferecerem T-shirts, na sua maioria enfeitadas com emblemas americanos. Para todos os efeitos e propsitos, a cidade de Lalibela 
era uma armadilha para os turistas.
     Os nossos autocarros pararam junto das igrejas escavadas na rocha, mas logo que pusemos o p em terra fomos cercados por midos; ao contrrio do que acontecera 
em muitos dos lugares que visitmos, estes no tinham nada para vender. S pediam dinheiro; cada criana que se aproximava de ns contava que precisava do dinheiro 
para ir  escola ou para comprar os livros de que necessitava para levar para a escola que estava a frequentar.
     Acabavam por ser afastados por guardas etopes que agitavam bastes.
     Lalibela era um dos lugares menos conhecidos do programa de visitas; poucos sabiam o que nos esperava. Foi um desapontamento. A grande carga de trabalho exigida 
pela construo foi posta em evidncia logo na primeira igreja que visitmos. Era bastante maior do que tnhamos imaginado; tinha pelo menos 18 metros de comprimento 
e 12 de largura, e estava rodeada por um andaime moderno que suportava um telhado suplementar.
     - O telhado  para prevenir infiltraes - informou o guia, - e para evitar o desmoronamento das igrejas.
     Passmos as duas horas seguintes a vaguear de uma igreja para a seguinte. O interior das igrejas era escuro. Poucas dispunham de janelas e, embora houvesse 
umas lmpadas fluorescentes, a sua luz mal atravessava a escurido. O cho era liso, polido por oito sculos de uso que lhe haviam dado a planura prpria de uma 
pista de gelo. Como as igrejas continuavam abertas ao culto, parte do cho estava coberto de tapetes para orao. Infelizmente, no o cobriam na totalidade, pelo 
que, para evitarmos as quedas, caminhvamos com lentido, como cegos num local desconhecido.
     No total, passmos trs horas em Lalibela. Para o final da visita, o Micah e eu apartmo-nos do grupo para fazermos umas fotografias; como as igrejas eram diferentes 
de tudo o que tnhamos visto at ento - eram escavadas na pedra, em vez de serem construdas em pedra - tentmos encontrar pontos de focagem, de onde pudssemos 
captar aquela sua caracterstica to invulgar.
     As visitas aos templos tinham deixado o Micah estranhamente silencioso; quando vnhamos de volta, foi sentar-se num miradouro, de onde se avistava todo o local. 
Fui juntar-me a ele.
     - Ento, o que  que pensas deste lugar? - indagou.
     - Valeu a pena, se  isso que queres saber.
     - No so muito parecidas com as que temos nas nossas terras, pois no? No penso que os nossos filhos apreciassem a ideia de assistirem de p aos servios 
religiosos.
     Sorriu.
     - Ests satisfeito por ainda ires  missa?
     - Por comparao com o qu?
     - Com a ideia de frequentares outra igreja crist.
     Fiquei uns momentos a pensar.
     - Sim - respondi. - Estou. Como a Cat tambm  catlica,
     nunca pensmos em mudar.
     - Gosto da igreja que frequento agora. Ou que costumava frequentar.
     - Porqu?
     - No sei. Julgo que me sentia apenas aborrecido por a missa me parecer sempre igual. E no conseguia ver qualquer relao entre os sermes e a minha vida. 
Penso que a igreja devia fazer-nos sentir perto de Deus, mas no estava a conseguir o que queria. Consegui-o na nova igreja, durante algum tempo.
     - Achas que poders voltar a sentir o mesmo?
     - No sei. Ultimamente no me tenho sentido... perto de Deus. J nem tenho a certeza de que acredito em Deus.
     - A srio?
     - No tem nada a ver com a ideia. Penso que Deus existe, mas no tenho a certeza de que desempenhe um papel activo neste mundo. Penso que Ele se limitou a pr 
isto tudo em movimento e que depois se sentou, a ver o que ia acontecer.
     - Hum! Continua.
     - Como  bvio, no  isso que nos dizem na igreja. Na igreja, devemos orar e dar graas a Deus mas, como j te disse, cheguei  concluso de que a orao no 
serve de nada. E, durante muito tempo, no foi fcil encontrar motivos para me mostrar agradecido. Tivemos de ultrapassar grandes obstculos, um a seguir a outro. 
No nos deram tempo para respirar. E toda a gente me dizia que fosse forte, que tudo acabaria por se compor. - Sabia que o Micah no estava  espera que eu lhe respondesse. 
- E, passado algum tempo, parece que fui sacudido. Em que  que acredito verdadeiramente? Segui os mandamentos, acreditei em Jesus, frequentei a igreja e nunca deixei 
de rezar. E quando precisei realmente da ajuda de Deus, a nica resposta que obtive foi que ningum se incomoda. Eu no queria que Deus me desse fora para enfrentar 
o que estava a acontecer, eu queria que Deus pusesse fim ao que estava a acontecer. E Deus no fez nada. Por isso, afastei-me. No disse nada. Quando se trata de 
questes de f, a melhor resposta  no dizer nada, a menos que nos faam uma pergunta directa.
     - Nunca sentiste o mesmo? - perguntou o Micah.
     - Senti - respondi. - Sempre.
     - Mas no te afectou do mesmo modo que a mim?
     - No.
     - Porqu?
     Respirei fundo:
     - No sei. Julgo que, para comear, no julguei Deus responsvel
     pelas desgraas que nos estavam a acontecer. As coisas aconteceram.
     E se Deus no as tinha provocado, devo ter julgado que no esperava
     que Ele as resolvesse.
     O Micah assentiu, e acrescentou:
     - Continuo a entristecer-me com tudo o que aconteceu. Uma vez
     por outra, sou atacado por esta tristeza. H ocasies em que preciso de
     vrios dias para ultrapassar esta amargura.
     Pus-lhe um brao  volta dos ombros.
     - Comigo acontece a mesma coisa.
     - E fazes o qu?
     Encolhi os ombros.
     - Trabalho.
     Riu-se.
     - Pois . As tuas alternativas esto todas baralhadas.
     - As tuas tambm. Trabalho, espiritualidade, famlia, amizades,
     sade, se ignorares alguma delas acabars por sofrer.
     - Ests a pretender dizer que eu sou to mau como tu?
     - Pois, claro. - respondi. - Somos irmos. Quando pressionados, reagimos de modos diferentes mas, para te ser franco, julgo que
     as nossas situaes so mais semelhantes do que tu pensas. Passmos
     pelos mesmos transes, no foi?
     
     No incio de 1995, a minha irm estava em remisso havia dois anos e tinha sido me. As tomografias continuavam a ser boas. As nossas preocupaes diminuam 
em cada ms que passava. Simultaneamente, ns, os trs irmos, estvamos cada vez mais preocupados com o nosso pai.
     Fora do emprego, o seu comportamento estava a piorar. Mesmo endividado, continuava a gastar dinheiro  toa; remodelou a casa, comprou um carro novo e, sempre 
que falava connosco pelo telefone, o co Flame parecia ser o nico assunto em que estava interessado. Apesar de ter uma nova namorada, todo o seu mundo parecia girar 
 volta do co.
     O afastamento em relao a famlia continuava; eu recebia chamadas frequentes de pessoas de famlia que queriam saber o que estava a passar-se, mas no tinha 
resposta; s podia dizer-lhes que percebia tanto como eles o que estava a acontecer. Mostrava-se distante e agressivo sempre que eu ligava, as conversas com a Cat 
eram agora mais curtas e a Dana estava ocupada com os gmeos e vivia no outro extremo da cidade, o que no facilitava os contactos entre pai e filha.
     At o Micah estava a sentir dificuldades para perceber o evoluir da situao. Quando pressionado, o pai era capaz de jurar que nunca fora mais feliz, que o 
trabalho lhe estava a correr bem, que adorava os seus fins-de-semana em companhia do co e da namorada. Contudo, vinte minutos mais tarde, muito depois de o Micah 
lhe ter perguntado como se sentia e ter passado a falar de outros assuntos, o pai irritava-se e lanava-se numa diatribe:
     - De qualquer modo, no tens nada a ver com a minha vida; assim sendo, por que  que no te pes a mexer daqui para fora?
     Bizarro. Doloroso. Preocupante.
     No entanto, a Cat e eu estvamos to afastados que s uns anos mais tarde viemos a saber tudo o que se passou. Fomos obrigados a nova mudana e tnhamos dois 
meninos para criar. Durante os dois primeiros meses, a Cat teve de ficar em New Bern para tentar vender a casa, enquanto eu estava a viver em Greenville, num pequeno 
apartamento. Durante o dia, trabalhava para criar uma nova zona;  noite, dava umas voltas  procura de uma casa que pudssemos comprar. Nos fins-de-semana regressava 
a casa, quando no era a Cat que ia a Greenville para ver as casas que eu tinha encontrado.
     Em finais de Maio, finalmente, mudmo-nos para a nova casa de Greenville e gastmos as primeiras semanas a conhecer os vizinhos, a aprender a andar pela cidade 
e a estabelecer novas amizades. O Miles sempre fora de trato fcil e simptico; conheceu muitos midos e frequentemente brincava com eles. Ryan, com menos de dois 
anos, ainda estava a aprender a andar. Ainda no falava e mostrava-se muito mais introvertido. Revelava pouca da curiosidade que o Miles j denotava quando tinha 
a mesma idade e muitas vezes parecia ausente. Gritava de terror sempre que o pnhamos no carrinho e raramente respondia quando procurvamos despertar-lhe a ateno. 
Quando discutimos o assunto com o pediatra, ele disse-nos que no estivssemos preocupados, que o crescimento do Ryan seria normal:
     - Ainda no tem dois anos.  preciso dar-lhe um pouco mais de tempo.
     
     Em julho, iniciei o processo de busca de um agente literrio; enviei vinte e cinco cartas de apresentao e a primeira agente a responder, Theresa Park, mostrava-se 
disposta a trabalhar comigo no romance; os restantes vinte e quatro acabaram por passar ao lado do projecto. Em Outubro de 1995, o romance estava pronto, no havia 
nada a acrescentar-lhe.
     Sem ter em conta as preocupaes com o meu pai e com a mudana, o ano tinha decorrido calmamente. A minha irm tinha feito outra TAC negativa (era examinada 
todos os trimestres) e o meu irmo estava a sair-se bem no ramo imobilirio. Embora a vida pessoal do meu pai fosse tumultuosa, a sua vida profissional decorria 
aparentemente sem sobressaltos. Durante um curto perodo de tempo at pareceu que tudo decorria com normalidade; agora, ao olhar para trs, percebo que era apenas 
a bonana que antecede a fora bruta da tempestade.
     
     Embora tanto a minha agente como eu prprio depositssemos grandes esperanas na forma como o romance iria ser recebido, as esperanas eram uma coisa e a realidade 
era outra. Ficaria satisfeito se conseguisse um avano que chegasse para pagar as facturas do carto de crdito, ou talvez para comprar um carro decente para a minha 
mulher. Qualquer ajuda seria bem-vinda; o nosso modo de vida era tpico da classe mdia e as nossas preocupaes financeiras eram semelhantes s dos nossos vizinhos; 
a casa estava hipotecada por 125 mil dlares.
     O romance, com o ttulo O Dirio da Nossa Paixo, foi enviado aos editores numa quinta e numa sexta-feira; na segunda-feira, li uma mensagem que a minha agente 
tinha deixado no voice-mail do telefone da empresa; pedia-me que lhe ligasse. Foi um pouco antes do meio-dia e estava a preparar-me para ir almoar no consultrio 
de um mdico. Tinha comprado toda a comida, preparado a mesa e s esperava que os mdicos acabassem a consulta da manh para eu poder falar-lhes da eficcia dos 
antibiticos e dos medicamentos contra a tenso arterial fabricados pela Lederle.
     Usando o telefone do consultrio, liguei  agente e ela foi direita ao assunto.
     - Tem uma oferta da Warner Books - comeou. Pareceu-me um pouco excitada.
     - E?
     - A Warner Books est disposta a oferecer um milho de dlares pelo livro - anunciou.
     pestanejei, a pressionar o auscultador contra a orelha. A pensar que no tinha percebido bem, pedi-lhe que repetisse o que acabava de dizer. Foi o que ela fez 
e eu deixei-me cair numa cadeira; se a cadeira ali no estivesse teria cado no cho.
     De um s golpe, a menos de dois meses do meu trigsimo aniversrio, percebi que acabara de me tornar milionrio.
     Qual deveria ser a minha reaco perante uma situao daquelas?
     No fazia ideia e a Cat tambm no. No entanto, devo dizer que,
     mesmo tendo obrigado a agente a repetir o nmero no duas mas trs vezes, continuei a pr a hiptese de, por qualquer motivo, ter percebido mal. Mas, minutos 
depois, a agente voltou a ligar e informou-me de que o negcio estava fechado.
     Liguei de imediato para a Cat, mas ela no estava. Nem o Micah, que se encontrava fora da cidade. Nem a Dana. Nem o meu pai. Nenhum deles estava em casa e, 
quando ainda tinha a novidade a borbulhar-me dentro da cabea, os mdicos comearam a chegar para o almoo. Apesar da notcia tremenda que acabara de receber, consegui, 
no sei bem como, falar com eles acerca de medicamentos.
     Mais tarde, quando a consegui encontrar, deixei a Cat boquiaberta. Quando se excitava, o sotaque de New Hampshire da minha mulher vinha  superfcie.
     - A srio? - gritou. - Ests a brincar comigo!
     - No estou nada! - gritei tambm.
     At o meu pai, depois de me ouvir, pareceu genuinamente excitado; depois de falar com ele, passei uma boa parte do sero ao telefone, a falar com diversos familiares. 
O Micah foi quase a ltima pessoa com quem falei naquele dia; depois de lhe ter dado a notcia, ficou em silncio durante um bocado.
     - Ests a brincar comigo - acabou por dizer.
     - Parece mentira, no parece?
     - Um milho de dlares? Por um livro que tu escreveste?
     - No consegues acreditar?
     - No, de momento, mas deixa-me pensar um segundo - pediu, a respirar fundo para o microfone. - Isso ... incrvel... - murmurou, antes de fazer nova pausa.
     Por mais ntimos que fssemos, no ramos totalmente imunes  rivalidade entre irmos. Desde que acabmos o curso secundrio e nos diversos empregos, o Micah 
sempre fora mais bem sucedido do que eu. O que sempre fora considerado normal por ambos; ele
     era o irmo mais velho e, tirando a escola e a pista de atletismo, sempre tivera mais xito, em tudo. Ficou feliz por mim, mas eu sabia que, em parte, gostaria 
de ser ele a poder dar-me uma notcia daquelas.
     Mas o Micah conseguiu ultrapassar tudo isso; as palavras que proferiu em seguida calaram mais fundo do que tudo o que as outras pessoas me tinham dito.
     - Tenho orgulho em ti, maninho.
     - Obrigado, Micah.
     - Agora s falta um pormenor.
     - Qual ?
     - Tens de me ajudar a descobrir a maneira de ganhar o meu milho. J fizeste o teu, de modo que agora  chegada a minha vez.
     
     Embora a soma de dinheiro parecesse capaz de causar vertigens, decidi manter o emprego de delegado de propaganda mdica. No sabia como o livro iria comportar-se 
depois de publicado, nem sabia se conseguiria escrever mais algum. A Cat e eu encarmos a sorte inesperada da mesma maneira que aceitaramos o primeiro prmio da 
lotaria. S gastmos a parte correspondente s compras de um Ford Explorer usado e de um anel de noivado para a Cat, e  liquidao do saldo devedor do carto de 
crdito. Os anos de pobreza tinham-nos tornado extremamente cautelosos. Decidimos que o dinheiro seria aplicado em trs reas: pagamento da hipoteca, fundo para 
a educao universitria dos midos e plano de poupana para a reforma.
     Mesmo assim, os meses de Novembro e Dezembro foram excitantes. Tanta coisa nova: clubes de leitores e venda de direitos para o estrangeiro, a venda  New Line 
Cinema dos direitos para um filme, o prprio processo de reviso; todos os dias tinha qualquer coisa de novo, qualquer coisa estimulante para partilhar com a Cat.
     Todavia, tirando estas conversas, as nossas vidas seguiam o seu curso normal. Passou o Dia de Aco de Graas; passou o Natal. A TAC da Dana voltou a ser boa, 
uma sobrevivncia de trs anos, e ela ligou-me no dia do aniversrio para me cantar os parabns. Tambm soubemos que o nosso pai continuava a sair com a namorada 
e que parecia entender-se com ela.
     Em janeiro de 1999, o Miles tinha quatro anos e meio e o Ryan era dois anos mais novo. Um dia, levmos o Miles ao mdico, para preparar a operao s amgdalas, 
marcada para o dia seguinte. Enquanto o mdico falava com o Miles, o Ryan deixou-se estar, muito quieto, entre mim e a Cat. A consulta no foi demorada. Quando o 
mdico tentou envolver o Ryan na conversa, este no disse nada.
     O que no nos surpreendeu, nem  Cat nem a mim. O Ryan ainda no falava, explicmos, e o mdico limitou-se a um aceno de cabea. No entanto, antes de sairmos, 
perguntou-nos se poderia falar com o Ryan durante uns minutos.
     - Com certeza - anumos, sem nos determos para pensar. Julgmos que deveria querer dar um rebuado ao garoto ou mostrar-lhe alguns dos brinquedos que tinha 
no gabinete.
     Todavia, achmos estranho que a porta do gabinete do mdico se mantivesse fechada durante mais de dez minutos. Quando abriu a porta para dar passagem ao Ryan, 
no pudemos deixar de reparar no ar apreensivo do mdico.
     - O que  que se passa? - indaguei. Conhecia bem o mdico; havia meses que vinha ao consultrio dele na qualidade de delegado de propaganda mdica e considerava-o 
um bom amigo.
     - Estive uns minutos com o Ryan, a ver umas coisas...
     Fez uma pausa e respirou fundo. Olhou para o Ryan e depois para ns.
     - Penso - disse lentamente - que o Ryan pode ser autista.
     Penso que o Ryan pode ser autista.
     Tudo o que a Cat e eu pudemos fazer foi olhar para o mdico. Senti um n no estmago e, de repente, pareceu-me ter dificuldade em respirar. O sangue desapareceu 
das faces da Cat e as paredes da sala pareceram avanar sobre ns. O Ryan mantinha-se ao nosso lado, de expresso parada e olhos fixos algures. Sabamos que no 
falava, a nossa preocupao at nos levara a chamar a ateno do pediatra, mas ele conseguira convencer-nos de que no havia motivo de alarme. Fora-nos dito que 
era uma fase. Que o nosso filho ficaria bem.
     Mas, aquilo?
     Eram, ainda hoje penso assim, algumas das mais assustadoras palavras que os pais poderiam ouvir. Ambos sabamos o que era o autismo. Quem  que no viu o filme 
Encontro de Irmos? Ou no leu artigos sobre autismo em revistas ou viu programas sobre o assunto na televiso? Olhei para o Ryan. No era o nosso filho? O nosso 
menino? O nosso beb?
     No, pensei de imediato, o mdico estava enganado. O Ryan no era autista. No podia ser. Era saudvel. No ia acreditar numa coisa daquelas. No podia acreditar. 
Mas... L no fundo, eu sabia que havia qualquer coisa que no estava bem. Tanto a Cat como eu o sabamos havia muitos meses. Mas nunca imaginmos que se tratasse 
de uma situao to grave. No podia ser aquilo. "Oh!, no. Por favor, meu Deus, isso no!"
     - O que  que quer dizer? - gaguejei.
     - Trata-se de um distrbio...
     - Eu sei o que . Mas, porqu?... Como...?
     Pacientemente, o mdico explicou as concluses a que tinha chegado enquanto estivera fechado no gabinete. Ausncia de contacto visual. Ausncia de entendimento. 
Incapacidade em falar. Concentrao intensa em objectos coloridos. Ausncia de aptides motoras.
     Sentamos um torpor ao ouvi-lo. J sabamos tudo aquilo; conhecamos o nosso filho. S no sabamos o significado.
     - Ser capaz de recuperar?
     - No sei.
     - O que  que devemos fazer?
     - Precisa de ser examinado. Na cidade existe um centro de anlise do desenvolvimento; eles podero esclarecer melhor as vossas dvidas.
     J em casa, a Cat e eu demos connosco de olhos fixos no Ryan, que estava calmamente sentado na sala, e sentimo-nos levados por uma enorme onda de emoes.
     Negao. Culpa. Clera. Medo. Desamparo.
     Passmos o resto da tarde  procura de razes para acreditarmos naquilo que o mdico nos tinha dito e de razes para no acreditarmos. Falmos do Ryan e naquilo 
em que tnhamos reparado ao longo dos meses. Andmos para trs e para diante durante horas, a falar, a preocupar-nos, a chorar, sentados ao lado do Ryan, querendo 
convencer-nos de que no havia nada de errado nele, mas sabendo que, de certo modo, havia. Tendo esperana. Orando. Suplicando.
     Naquela noite, quando liguei para o Micah, mal consegui explicar-lhe o que tinha acontecido. As mos tremiam-me quando peguei no auscultador. Sentia a garganta 
seca e no consegui dizer as palavras sem chorar.
     - Jesus! - exclamou Micah. - Tens a certeza?
     - No. No temos a certeza seja do que for. Ter de ser examinado.
     - O que  que pretendes que eu faa?
     Comecei a chorar.
     -Micah... eu...
     - Queres que v a? Ajudar-vos a ultrapassar esse momento? Queres que me informe sobre a pessoa que deves consultar? Farei tudo o que for preciso.
     - No - respondi. - Deixa-te estar. Ainda no sabemos o que fazer.
     - Sinto que devia fazer qualquer coisa.
     - Olha, reza pelo Ryan, est bem? Podes fazer isso por ele?
     - Vou rezar por todos vs - prometeu. - Vou comear a rezar
     agora mesmo.
     
     Dos dois meses seguintes s me recordo de um sentimento, umas vezes importuno outras esmagador, de preocupao com o meu filho. Por vezes, no conseguia pensar 
em mais nada; em outras alturas, quando estava a fazer qualquer outra coisa, de sbito, tinha uma sensao esquisita de que algo estava... errado para, passados 
momentos, me aperceber de que, sem querer, estava a pensar no meu filho.
     O pavor. Tinha penetrado na nossa casa, tinha-se infiltrado por todos os recantos e fendas das nossas vidas.
     A Cat passou as semanas e os meses seguintes a levar e a trazer o Ryan, a consultar diversos mdicos. Havia longas listas de espera, precismos de seis semanas 
para termos uma avaliao inicial e recordo-me de estar no gabinete do mdico,  espera das palavras que no desejava ouvir.
     - Embora tenha 30 meses de idade, neste momento mostra o
     desenvolvimento e as aptides de uma criana de 14 meses. E existem
     outros problemas. Ausncia de contacto visual, por exemplo.
     - O que  que est a pretender dizer-nos?
     - Penso que h uma possibilidade muito forte de ele ser autista.
     - E vai recuperar?
     - No sei.
     - O que  que podemos fazer em casa?
     - No sei.
     Nunca obtnhamos respostas. Contudo, em cada nova consulta de avaliao, recomendavam um novo exame. Outra espera de seis semanas; uma vez mais, no conseguamos 
pensar em mais nada at que chegasse o dia.
     Na segunda avaliao, em finais de Abril, depois de trs longos meses de preocupaes, encontrvamo-nos sentados no gabinete de outro mdico, que folheou o 
processo do Ryan, antes de olhar para ns.
     - Lamento - comeou, - mas penso que talvez tenhamos cometido um erro. No cremos que o Ryan seja autista, embora possa apresentar traos autistas.
     - Isso significa o qu?
     - Pensamos que ele pode sofrer de uma perturbao pervasiva do
     desenvolvimento.
     - Nesse caso, poder ter cura?
     - No sei.
     - H alguma coisa que possamos fazer?
     - No sei. No entanto, para j, julgo aconselhvel outro exame.
     Um exame especializado  audio. Queremos ter a certeza de que ele
     ouve os sons correctamente.
     Passou mais um ms. Outro perodo de preocupaes. Outro
     exame. Outra consulta com um mdico.
     - Lamento, mas admito que estivssemos enganados. No pensamos que o Ryan sofra de perturbao pervasiva do desenvolvimento.
     - Ento sofre de qu?
     - O Ryan - acrescentou o mdico -  profundamente surdo.
     Olhei para o mdico.
     - Nesse caso, por que motivo volta a cabea quando se liga o ar
     condicionado?
     - Ah sim, ele faz isso? - perguntou o mdico. - Bom, ento
     temos de lhe fazer outro exame.
     Exames.  tudo o que sabem recomendar.
     Fez-se um novo teste de audio, um exame ao ouvido interior.
     Um ms depois, voltmos a falar com o mdico.
     - O senhor tinha razo - admitiu ele. - O Ryan ouve.
     - Ento, o que  que se passa?
     - O problema com o seu filho  ele ser profundamente atrasado,
     com a sndroma do dfice de audio.
     - No  nada atrasado - redargui. -  esperto. Recorda-se de
     tudo.
     Sem saberem o que fazer, recomendaram mais um exame.
     Depois disso, no exame seguinte, voltaram ao autismo, embora o
     caracterizassem como fraco. Na consulta seguinte, fizeram a agulha
     para o diagnstico de perturbao pervasiva do desenvolvimento. Dito de outra forma, ningum sabia o que se passava com o nosso filho. Ningum era capaz de 
nos recomendar qualquer modo de agirmos. Ningum sabia dizer-nos se ele poderia melhorar. Ningum era capaz de nos dizer fosse o que fosse.
     A minha mulher vivia a luta quotidiana com maior intensidade do que eu. Durante o dia, enquanto eu ia trabalhar, era ela que levava o Ryan de uma avaliao 
para outra;  noite, era ela quem tomava conta dos midos para eu ficar a escrever. Contudo, no pouco tempo que tinha livre, comecei a colher informaes acerca 
das perturbaes do desenvolvimento infantil. Li um livro, depois outro e mais outro. Num par de meses tinha lido quarenta livros, que abrangiam todo o leque de 
perturbaes possveis, mais umas duas centenas de relatrios clnicos que estabeleciam diversas terapias. Era a minha maneira de lutar, de lidar com o desconhecido, 
de tentar encontrar uma maneira de compreender o meu filho. Andava  procura de qualquer coisa, da ponta do fio que me pudesse levar  resposta.
     No final de Agosto, o Ryan celebraria o seu terceiro aniversrio. A ltima avaliao mostrava pouca, ou nenhuma, melhoria. Agora, em vez de ter as aptides 
prprias de uma criana de 14 meses, tinha as aptides prprias de uma criana de 15 meses.
     Por outras palavras, depois de oito meses de correrias de um consultrio mdico para outro, e depois de dezenas de exames e de avaliaes, o Ryan estava ainda 
mais afastado do seu grupo etrio do que estava quando descobrimos que ele tinha um problema. E continuava a no falar.
     Por maiores que fossem as minhas preocupaes, continuei a vender produtos farmacuticos durante o dia e, chegado ao princpio do Vero, tinha comeado a trabalhar 
num segundo romance. A trabalhar durante o sero e a inspirar-me nas lutas do meu pai com os desgostos, comecei a escrever As Palavras Que Nunca Te Direi. A escrita 
era uma espcie de vlvula de escape, pois, enquanto escrevia, deixava de pensar no Ryan.
     O Micah e eu tivemos contactos frequentes durante os primeiros meses de 1996. Era com o meu irmo que eu falava dos meus medos e ele estava sempre pronto a 
ouvir-me. Ao mesmo tempo, o Micah estava a progredir na vida. Em Abril de 1996, telefonou-me a informar que decidira pr termo  sua carreira no negcio imobilirio.
     - Estou a pensar comprar uma empresa - informou-me, pelo telefone.
     - De que gnero?
     - Um empresa industrial. Armrios para garagens, conjuntos de estantes e armrios para armazenagem e exposio e sistemas informticos pessoais.
     - O que  que sabes acerca disso?
     - Nada. Mas o proprietrio actual ensina-me.
     - Boa ideia.
     - H s um pormenor.
     - Qual ?
     - Podes emprestar-me algum dinheiro? Estarei em condies de
     te pagar dentro de alguns meses.
     Depois de ele me dizer a soma, s tive uma ligeira hesitao.
     - Podes contar com isso.
     - Obrigado. - Depois, numa voz mais calma, perguntou: - Como  que est o Ryan?
     Em toda a famlia, o Micah era a nica pessoa que nunca se esquecia de perguntar.
     Todavia, houve dois motivos de satisfao durante a primeira metade de 1996. Uma vez mais, a minha irm passou triunfante pelo exame radiolgico e parecia perfeitamente 
saudvel. Em vez de cansada, como seria normal em quem tinha de tratar de dois gmeos com dois anos, mostrava-se alegre e raramente falvamos da sade dela.
     Tambm o meu pai, finalmente, parecia ter encontrado o seu caminho.  medida que o ano de 1996 avanava, falava menos do co e comeou a abrir-se mais acerca 
da mulher com quem tinha uma relao. Tambm falava do trabalho - o trabalho era a nica parte da vida em que ele continuava a funcionar com normalidade - e, chegado 
o Vero, comeou a ouvir as minhas splicas para que voltasse a falar com a famlia.
     - Eles sentem saudades de si. Esto preocupados consigo.
     - Eu sei - admitiu. - E vou voltar a falar com eles. Mas, primeiro, tenho de me preparar.
     Julgo que a hesitao do meu pai tinha mais a ver com o medo da maneira como a sua tentativa de reconciliao poderia ser recebida do que com a clera que ainda 
pudesse sentir. Acabou por pr de lado todos os receios e telefonou ao irmo. Mais tarde, o tio Monty disse-me que o meu pai fora praticamente o nico a falar, que 
se tinha embrulhado um pouco, mas, terminado o telefonema, tinha chorado. Adorava o irmo, sentia a falta dele e havia muito que queria ouvir o som da voz do meu 
pai, embora naquele caso se tratasse mais de um discurso do que de uma conversa. Fora um passo que o meu pai tinha de dar, no s pelo irmo mas tambm por si prprio; 
 medida que o Vero avanava, foram falando com maior frequncia. Depois de saber o que se tinha passado, disse ao meu pai que sentia orgulho nele e, pela primeira 
vez, ele pareceu sensibilizado com as minhas palavras.
     - Adoro-o, pap - sussurrei.
     - Eu tambm te adoro.
     Duas semanas mais tarde, telefonou para me dar outra notcia.
     - Vou-me casar - anunciou.
     
     - Nick, tu vais gostar dela - disse-me o Micah, pelo telefone. Tinha feito a chamada para saber a opinio dele acerca da mulher
     com quem o nosso pai ia casar. Nunca a vira, ao contrrio do meu
     irmo. - E acho que ser boa para o pap.
     - Ele parece mais feliz.
     - Penso que est - concordou o Micah. - Na semana passada,
     at foi ver a Dana e os gmeos.
     -  bom sinal. J passaram sete longos anos desde a morte da mam.
     - Pois . Pobre homem, comeava a duvidar de que ele conseguisse ultrapassar a situao. Sabes que telefonou ao tio Monty?
     - Sei. Estou contente. Ele precisa da famlia. Sempre precisou.
     Como  que vai o teu negcio?
     -  duro. Tenho trabalhado dia e noite, mas estou a ver resultados. As vendas tm aumentado todos os meses.
     - Parabns.
     Fez uma pausa.
     - H ainda outra coisa.
     - O que ?
     - Penso que finalmente encontrei a minha Cathy - anunciou. - Mas chama-se Christine.
     - A srio? Fantstico!
     - Nick, acho que vais ador-la.
     - Parece que o caso  srio.
     -  srio.
     - Pois, mas  srio o qu? O casamento ou o Micah?
     - As duas coisas.
     Arregalei os olhos. Se ele no queria fazer esprito sobre o caso, percebi que j obtivera a resposta.
     - ptimo, isso  bom para ti. Ardo em desejos de a conhecer.
     
     Dois dias depois de o meu pai me anunciar que ia casar-se, e um ms antes da publicao de O Dirio da Nossa Paixo, vimos, em casa, o programa 48 Hours, da 
CBS. Um dos produtores do programa, Andrew Cohen, tinha lido uma cpia provisria do livro no princpio do Vero e decidira fazer um programa com o ttulo "The Making 
of a Best Seller". Para alm de me filmar, tambm andaram todo o Vero a filmar na Warner Books: assistindo a reunies de marketing, entrevistando Larry Kirshbaum, 
presidente-executivo da Warner Books, Maureen Egen, a presidente, e Jamie Raab, o meu editor, para alm de filmarem uma tertlia literria (composta de desconhecidos) 
que discutiria o romance.
     Vieram a minha casa numa quinta-feira; dois dias depois, no sbado, eu devia estar em Los Angeles para assistir ao jantar da Southern California Booksellers 
Association [Associao dos Livreiros do Sul da Califrnia], que seria o primeiro evento promocional da minha carreira.
     Eu estava, como  fcil de imaginar, numa pilha de nervos.
     O produtor e a equipa chegaram ao princpio da manh e estiveram comigo durante todo o dia.
     Filmaram-me na vida normal de casa e a trabalhar, a pivot Erin Moriarity, fez-me vrias entrevistas durante o dia sobre o processo de escrita e sobre a hiptese 
de o livro vir a ser um xito. Embora Erin e Andrew tivessem sado no final da tarde para apanharem o avio para Nova Iorque, a equipa de filmagens ficou l em casa 
para obter mais algumas imagens do meu trabalho num novo romance. Cerca das 21 horas, comigo a olhar para a cmara e a escrever no computador, a Cathy entrou no 
escritrio com o telefone na mo.
     -  o Micah - anunciou.
     - No podes dizer-lhe para voltar a ligar daqui a cerca de meia hora?
     - Quer falar contigo agora mesmo - respondeu. -  importante.
     - O que ?
     - No sei. Mas parece preocupado.
     Peguei no telefone e senti as cmaras todas viradas para mim.
     - Ol, Micah. O que se passa?
     -  o pai - respondeu. Falava em voz baixa e confusa.
     - O que  que lhe aconteceu?
     - Recebi uma chamada de uma esquadra de Polcia, de perto de Reno. Teve um acidente com o carro. Acabei de falar com o hospital para onde o levaram.
     Ouviu-o respirar fundo. Sabia que no devia dizer nada. S se ouvia o rodar das bobinas das cmaras do programa 48 Hours.
     - Nick, ele morreu - disse o Micah, com voz calma.
     - Quem? - perguntei, embora j soubesse a resposta.
     - O pai. O nosso pai morreu h uma hora.
     Fiquei petrificado. Os olhos velaram-se-me de lgrimas no mesmo instante em que o Micah comeou a chorar.
     - A Dana e eu vamos para l - acrescentou o Micah. - Acabei de falar com ela e vou busc-la. Sei que est morto, mas temos de ir v-lo.
     - Oh... Micah...
     - Eu sei... Tenho de ir...
     Desliguei o telefone. A Cat no tirou os olhos de mim enquanto durou a conversa.
     - O que foi? - perguntou.
     Contei-lhe. A minha mulher desatou a chorar e abriu os braos para me abraar. Por detrs de ns, a cmara de filmar parou. Apercebi-me de que tudo ficara registado 
em filme, mas os operadores de cmara foram suficientemente sensveis para arrumarem as suas coisas e sarem.
     
     Fiquei a p durante a maior parte da noite, a conversar com a Cat e a chorar. A meio da noite, o meu irmo telefonou para dizer que ele e a Dana estavam no 
hospital e j tinham visto o corpo do pai.
     - No posso acreditar que partiu - lamentou o Micah. Estava claramente afectado. - Ainda falei com ele na noite passada, agora no voltarei a falar.
     - Como  que a Dana est a reagir?
     - Terrvel. Ainda no parou de chorar desde que aqui chegmos, mas vamo-nos embora dentro de minutos. Quero dizer... no sei o que mais posso fazer.
     - Gostaria de estar agora convosco.
     - Eu tambm gostaria que estivesses - respondeu. Fez uma
     pausa. - Quando  que estars disponvel?
     - No sei. Logo que possa. Neste fim-de-semana, tenho de ir a
     Califrnia para um jantar de livreiros, mas posso cancelar... Meu
     Deus, ainda no consigo acreditar.
     - Parece irreal, no parece?
     E ambos recomemos a chorar.
     O Micah voltou a telefonar pela manh. Conversmos e notei que estava mais calmo.
     - Nick, tenho estado a pensar na tua viagem de promoo - acabou por dizer.
     - Eu tambm.
     - Vais continuar com o plano inicial, no vais?
     - Duvido. Como  que posso?
     - Tens de continuar - aconselhou, com voz mais grave.
     - No me parece certo...
     - O pap sentiria orgulho por teres escrito o livro - atalhou. - Seria o primeiro a insistir que fosses. Saberia avaliar quanto essa viagem de promoo  importante. 
 o teu primeiro livro. Talvez seja a tua nica oportunidade.
     - Mas... no sei se consigo.
     -  claro que consegues. Vais conseguir. Sei que amavas o pai e ele sabe que o amavas. Ele tambm te amava. Mas tens tambm de ter em conta a tua famlia. Tanto 
a mam como o pap gostariam que fosses.
     Depois de desligar, fiquei a reflectir sobre o que ele me tinha dito. O Micah tinha, e no tinha, razo. Compreendi as razes dele, mas, ao mesmo tempo, achei 
que estava a ser... insensvel. Era como se tentasse escolher entre os meus sonhos de futuro e o respeito pelo meu pai. Se ficasse em casa, alguma vez me seria dada 
outra oportunidade? E isso interessava?
     E se decidisse ir, aconteceria o qu? Se algum me perguntasse se estava a apreciar a viagem, se estava excitado com o que estava a acontecer-me, que diabo 
 que eu poderia responder?
     Uma pergunta sem resposta fcil.
     Discuti o assunto com a Cat, com a Dana e novamente com o Micah, e com outras pessoas da famlia. Falei com a minha agente, com o homem das relaes pblicas, 
com o editor. Todos me disseram que podia cancelar a viagem, se assim o entendesse. Afinal, embora com relutncia, decidi ir. No entanto, fi-lo com um enorme sentimento 
de culpa. No conseguia afastar a ideia de estar a ser desrespeitoso para com a memria do meu pai.
     Andrew Cohen, o produtor do programa, falou comigo logo depois. Consternado, expressou sinceras condolncias e eu pedi-lhe que no usasse a parte do filme em 
que era anunciada a morte do meu pai. Ambos sabamos que o programa atingiria nveis mais elevados de audincia se aquela parte fosse transmitida, mas o Andrew no 
hesitou e decidiu que as imagens seriam arquivadas. Apesar da angstia provocada pela morte do meu pai, deparei, uma vez mais, com a bondade das pessoas.
     Viajei para a Califrnia com um n no estmago e consegui assistir ao jantar. Do sero s me ficou uma sensao de desencarnao, como se observasse o que estava 
a acontecer atravs dos olhos de qualquer outra pessoa. Faziam-me perguntas sobre o novo livro e eu respondia automaticamente, a dizer as coisas que se esperava 
que dissesse. Porm, enquanto falava s conseguia pensar na morte do meu pai, julgava tudo aquilo errado e ansiava por me juntar aos meus irmos.
     
     A semana que se seguiu ao jantar foi passada em Sacramento, na companhia dos meus irmos. O Micah e eu ficmos na casa da famlia, que, de sbito, se assemelhava 
a uma simples concha vazia. Ao mesmo tempo, nada parecia ter mudado. Havia uma chvena de caf em cima da bancada da cozinha, leite fresco no frigorfico. A correspondncia 
continuava a chegar e a que o Micah trouxera para dentro j formava uma pilha em cima da mesa. A relva estava aparada de fresco. Era fcil imaginar que o nosso pai 
chegaria dentro de minutos, ou at que a mam se encontrava na cozinha a preparar o jantar. As memrias dos dois continuavam vivas e, enquanto percorramos juntos 
todas as divises da casa, nenhum de ns sentiu necessidade de falar.
     Sentia-me exausto. A me. A irm. O pai. O filho mais novo. Demasiadas preocupaes para to pouco tempo. O Micah mostrava uma expresso to cansada quanto 
a minha.
     Tratmos do funeral. As pessoas de famlia comearam a chegar. Toda a gente em estado de choque e o tio Monty no conseguia deixar de chorar. Nem ns.
     O nosso pai foi sepultado perto da mulher e juntaram-se as mesmas pessoas que, sete anos antes, tinham vindo assistir ao primeiro enterro. O tio Jack falou 
antes do corpo ser descido  sepultura e fez o mais simptico elogio fnebre que me recordo de ter ouvido. O afastamento tinha magoado a maioria dos familiares, 
mas estes no tinham deixado de gostar do meu pai. Junto  campa, a Cat e eu demos as mos, como fizeram o Bob e a Dana, o Micah e a Christine.
     Enquanto assistia ao funeral, pensei o seguinte:
     "O meu pai foi um bom homem. Um homem gentil. Mas a morte da mulher magoou-o e a doena da filha tambm. Passou os sete ltimos anos de vida a combater a tristeza, 
num mundo que passara a ser estranho para ele. Sim, muitas vezes deixou-se dominar pela clera; e tambm pela amargura. Mas era o meu pai e tinha ajudado a criar 
os filhos. E no s o respeitava por isso, como tambm o amava. Tinha estimulado a nossa independncia, mostrara-nos o valor da educao e ensinara-nos a encarar 
o mundo com curiosidade. Mais importante ainda: ajudara-nos, aos trs, a sermos bons irmos, o que eu considero a melhor de todas as ddivas. No podia exigir mais 
de um pai. Quem poderia, na verdade?"
     Pouco depois, o Micah, a Dana e eu encontrmo-nos os trs defronte da urna, de braos entrelaados, para dizermos um ltimo adeus. J estvamos a sentir saudades. 
Com o dia a chegar rapidamente ao fim, estvamos juntos e simultaneamente ss, como os irmos rfos se sentem sempre.
     
     Depois do funeral, eu e a Cat ficmos mais uns dias na Califrnia. O Miles j tinha idade suficiente para perceber o que tinha acontecido; o Ryan no entendia 
o que quer que fosse.
     Naquele ano, a Cat e eu cerrmos fileiras sempre que se tratava da doena do Ryan. Acreditvamos que s ela e eu percebamos at que ponto aquele ano constituiu 
um desafio e, naqueles primeiros tempos de luta, dividimos as pessoas em dois grupos: o dos bons e o dos maus. Os que eram simpticos para o Ryan e aqueles que o 
ignoravam.
     Vivamos na iluso de que ele era uma criana como as outras. No se ria muito, no olhava para as pessoas que falavam com ele, nem percebia o que elas estavam 
a dizer-lhe. No entanto, a nica coisa que queramos para o Ryan era que ele fosse aceite.
     Era um menino amoroso. Uma criana simptica. E quem tivesse pacincia, e se esforasse, podia apreciar as brincadeiras com ele. Mas ningum, para alm da Cat 
e de mim, tentou esse esforo. Ao contrrio do Miles, o Ryan no tinha amigos; ao contrrio do que sucedia com o Miles, nenhum dos filhos dos vizinhos queria brincar 
com ele. Ao contrrio do Miles, nunca era convidado para festas de aniversrio. Ao contrrio do que sucedia com o Miles, ningum procurava falar com ele. Os adultos, 
infelizmente, comportavam-se de modo semelhante. Na maioria das situaes limitavam-se a ignor-lo, mas por vezes era pior, pois consideravam a falta de interesse 
da criana uma ofensa pessoal. "No gosta de mim", diziam alguns dos vizinhos. Durante a semana, at alguns familiares pareciam ignor-lo - juntando mais alguma 
tenso a uma semana j de si tensa. A Cat e eu tnhamos de morder a lngua para no gritarmos: " preciso tentar!".
     Na verdade, o que queramos dizer era: "Por favor, algum que tente. Amamo-lo tanto e no fazem ideia de quanto nos preocupamos com ele".
     Embora dividssemos as pessoas em dois grupos, guardvamos estas reflexes para ns. Tnhamos tratado os problemas do Ryan sem ajuda e assim continuaramos 
a fazer. No pretendamos que as pessoas tivessem pena dele ou de ns; queramos que amassem o Ryan como ns o amvamos. Mesmo que ele no fosse perfeito.
     Dois dias depois do funeral, a Cat e eu fomos comprar uns gneros de mercearia. O Micah oferecera-se para ficar com o Miles e com o Ryan e, quando samos, deixmo-lo 
no escritrio, a folhear uns papis do nosso pai. Contudo, ao regressarmos, o Micah j no se encontrava sentado  secretria.
     Estava na sala, entregue a uma divertida luta com o Ryan e, mais importante do que isso, o meu filho ria s gargalhadas. s gargalhadas.
     Um som incrvel, que no seria mais alegre se tivesse sido enviado pelo prprio Cu; tudo o que pudemos fazer, a Cat e eu, foi ficar a ver.
     - Ol, malta! - exclamou o Micah, como no se passasse nada de extraordinrio, - estvamos s a brincar um pouco.
     O Micah no precisara que lhe dissessem como a Cat e eu nos sentamos. O Micah j sabia.
     
     A viagem de promoo do livro durou trs meses. A Cat ficou sozinha com os filhos, a ter de transportar o Ryan de um consultrio mdico para outro, e aquele 
ano de exausto estava a provocar estragos no nosso casamento.
     A tenso entre mim e a Cat no teve nenhuma causa especfica; em grande parte derivava do facto de, como casal, quase desde o momento em que dissramos o "sim", 
termos sido obrigados a saltar de uma crise para outra. Em vez de ser um estado de felicidade permanente, a nossa vida de casados talvez tivesse mais a ver com uma 
verso maldosa de um campo de manobras; as emoes teriam de ser canalizadas para qualquer lado. No meu caso, foram canalizadas para a Cat e, no caso dela, foram 
canalizadas para mim. O nosso matrimnio estava j a sofrer uma presso tremenda quando os problemas do Ryan se tornaram o ponto de ruptura.
     Embora as minhas preocupaes fossem tremendas, no eram nada comparadas com as da minha mulher. Julgo ser algo que tem a ver com a maternidade. Trata-se de 
uma resposta quase instintiva; trouxera o Ryan no ventre, tinha-o alimentado em beb, e, enquanto eu trabalhava fora de casa, fora ela quem tivera de cuidar dele 
em cada minuto de cada dia.
     Com a aproximao da quadra festiva do Natal, parecamos incapazes de desfrutar a presena do outro da forma que nos era habitual. Tambm discutamos mais. 
Sabia que a minha mulher no merecia um perodo de descanso, ela precisava de um perodo de descanso. Tinha estado de servio permanente durante os trs meses em 
que eu andara a viajar e, chegado o Natal, dei-lhe de presente uma viagem ao Hawai. Ela passaria uma semana com uma amiga, eu ficaria em casa a tomar conta dos filhos.
     Uma soluo que poder parecer esquisita a algumas pessoas (se estvamos com problemas, no seria melhor que fssemos ambos?), mas a resposta  fcil. Algum 
teria de ficar em casa a cuidar do Ryan. No havia famlia prxima que pudesse ajudar, nem vizinhos desejosos de serem prestveis, ningum, de facto, a quem o confiar 
durante uma semana. Se a minha mulher precisava de usar a viagem para se descontrair, eu teria de ficar em casa. E foi o que fiz.
     Contudo, enquanto ela estava ausente, embrenhmo-nos numa discusso, atravs do telefone. Foram trocadas palavras azedas, nenhum de ns tratou o outro muito 
bem e berrmos acusaes. Finalmente, a Cat fez com que me calasse.
     - Escuta - acabou por me dizer. - Sei que tiveste um ano difcil. Mas queres saber como  que foi o meu ano? - perguntou, antes de fazer uma pausa para tomar 
flego. - Acordo todas as manhs a pensar no Ryan. Olho para o meu lindo filho, um filho que amo mais do que a prpria vida, e pergunto a mim mesma se ele alguma 
vez ter um amigo. Pergunto a mim mesma se chegar a falar, a ir para a escola, ou a brincar como as outras crianas. Pergunto-me se alguma vez ter uma namorada, 
ou carta de conduo, ou se ir ao baile de finalistas. At me pergunto se vir a casar-se. E passo os dias ao volante, a lev-lo de um mdico a outro, sem que qualquer 
deles consiga dizer-me o que se passa, sem que me digam o que devo fazer. O meu filho vai fazer quatro anos dentro de pouco tempo e nem sei se ele me ama. Penso 
nisto quando acordo, penso nisto durante todo o dia e penso nisto quando me vou deitar. Por causa dele, acordo a chorar a meio da noite - prosseguiu, prestes a perder 
a voz. - O meu ano foi todo assim.
     Quando ela terminou fiquei sem saber o que havia de dizer. Estava,  claro, preocupado com o nosso filho. Porm, e di-me ter de admiti-lo, as minhas preocupaes 
no eram como as dela. Eu tinha distribudo as minhas preocupaes entre o Ryan, o meu pai, a Dana e o meu romance, enquanto ela as concentrou no nosso filho. Elas 
tinham-se tornado todo o seu mundo.
     Era a primeira vez que me apercebia da profundidade do desespero
     que a Cat estava a suportar e senti nuseas por ter sido eu a iniciar a
     discusso.
     - Desculpa - implorei, em voz baixa. - No fazia ideia de como estavas a sentir-te.
     Senti-a torcer o nariz do outro lado do fio.
     - Amor? - sussurrei.
     - O que ?
     - Um dia fiz o voto de te amar para sempre, agora acho que chegou a altura de fazer um outro. Prometo, juro, que vou curar o nosso filho.
     No dia seguinte, como o Miles estava a passar o dia em casa de um vizinho, fui aos armazns Wal-Mart e comprei uma mesa e uma cadeira baixas. Comprei o conjunto 
porque tinha um cinto de segurana com o qual podia prender o meu filho  cadeira. Depois, armado com todos os conhecimentos adquiridos nas leituras do ano anterior, 
prendi o Ryan  cadeira, abri um livro com gravuras e apontei para a fotografia de uma ma; a segurar um pedacinho de chocolate na outra mo, a recompensa, disse, 
em voz alta, a palavra Ma. Depois repeti-a. Outra vez. Mais outra vez.
     Ma. Ma. Ma. Ma. Ma. Repeti a palavra, a desejar que o meu filho falasse. No sabia de nada que alguma vez tivesse desejado com mais fervor; concentrei-me, 
limitei-me, todo o meu mundo se centrou no meu filho e na sua capacidade de dizer uma simples palavra.
     Passados poucos minutos, o Ryan mostrou-se aborrecido. Depois, comeou a mexer-se e a ficar agitado. Passados mais alguns minutos, comeou a chorar, a tentar 
libertar-se da cadeira. Depois do choro, veio a clera. Uma clera furiosa. Gritou e agitou os punhos, tentou arrancar os cabelos. Procurou arrancar a pele dos braos 
com os dentes. Uivou e gritou como se estivesse possesso.
     Agarrei-lhe as mos, mantive-as espalmadas no tampo da mesa para evitar que ele se ferisse, e disse:
     - Ma. Ma. Ma.
     Uma e outra vez. E ele gritava, gritava, gritava. E eu voltava ao princpio. E ele voltava a gritar.
     Passadas duas horas conseguiu dizer me.
     Depois de quatro horas, conseguiu dizer ma.
     Passadas seis horas, seis horas de gritos frustrantes, de partir o corao, o meu filho conseguiu dizer, num fio de voz: maa.
     Ma.
     Fiquei um bom bocado a olhar para ele. Tinha sido um trabalho to longo, to cansativo, que cheguei a duvidar de que ele conseguisse. Pensei no ter ouvido 
bem e repeti a palavra uma vez mais. Ryan repetiu-a tambm e, logo que o fez, levantei-me de um salto e comecei a danar  volta da sala, a pular de alegria. Fui 
at junto do Ryan e abracei-o; embora no correspondesse ao meu gesto de afecto, voltou a dizer a palavra.
     S ento comecei a chorar.
     Ouvir o som da voz dele, a sua voz, sem choros, grunhidos ou gritos, era de perder a respirao. Era a voz dos anjos, agradvel como a msica. Mas, mais importante 
do que isso, subitamente eu soube que o Ryan podia aprender. E depois percebi que aquele tinha sido o maior feito de toda a minha vida. A Cat e eu tnhamos passado 
mais de um ano a tentar perceber o que devamos fazer com o Ryan, se ele teria possibilidades de melhorar, e, ao ouvi-lo dizer uma simples palavra, eu soube que 
a possibilidade existia.
     Aquela palavra deu-me esperana; at chegar o momento, no me tinha apercebido de que a perdera totalmente.
     No tinha iluses de que seria fcil trabalhar com o Ryan e de que ele iria mostrar melhorias imediatas. Sabia que o caminho iria ser longo e frustrante, mas 
ele era meu filho.
     O meu filho podia aprender.
     Sabia que tinha de percorrer com ele cada passo do caminho, por mais longo que ele fosse. Tomando o seu pequeno rosto nas minhas mos, e embora soubesse que 
ele no me entenderia, sussurrei:
     - Tu e eu vamos levar isto at ao fim, est bem? No vou desistir, nem deixar que tu desistas. E vais ficar ptimo.
     No dia seguinte, trabalhei com o Ryan durante mais seis horas e nessa noite telefonei  Cat, de frias no Hawai. Voltei a pedir-lhe desculpa pela nossa discusso 
e passei o telefone ao Miles para ele poder falar com a me. Quando voltei a pegar no auscultador, disse, como por acaso:
     - A propsito, o Ryan tem uma coisa para te dizer.
     Pus o auscultador junto da orelha dele, peguei num pedao de chocolate e mostrei-lhe o que pretendia que ele dissesse. E ele disse para o bocal:
     - Gosto ti.
     Gosto de ti. Foram as primeiras palavras que Cat ouviu da boca dele.
     Nessa noite, tomei a deciso de deixar o meu emprego de delegado de propaganda mdica, mas tambm percebi a necessidade de ter um segundo emprego. Para alm 
de escrever os meus romances, durante os trs anos seguintes trabalhei com o Ryan trs horas por dia, sete dias por semana. E, no final, acabaria por ensin-lo a 
falar, num passo lento, doloroso, de cada vez.
     No foi fcil. As melhoras do Ryan no foram rpidas. Tratou-se de um processo horrivelmente frustrante. No foram dois passos para diante, um passo para trs; 
parecia mais um passo adiante, depois o regresso quase ao ponto de partida, a que se seguia andar para os lados durante algum tempo, depois o regresso a um ponto 
ainda mais atrasado do que aquele em que estvamos no incio, para, finalmente, se registar um ligeiro avano. Meses depois de termos comeado, o Ryan comeou a 
papaguear palavras; conseguia dizer quase tudo, mas no fazia ideia do que estava a dizer ou daquilo para que as palavras serviam. Para ele, no passavam de sons 
que lhe permitiam comer um pedao de chocolate. Foram precisos muitos meses de esforos para o fazer compreender que a palavra ma significava qualquer coisa.
     Havia problemas de comportamento. Ausncia de contacto visual. Deficincias motoras. Fobia aos alimentos. Treino para o ensinar a usar o bacio. A Cat e eu tivemos 
de trabalhar com ele todas estas reas. Por exemplo: ele sentia verdadeiro terror de ir  casa de banho. Para que, finalmente, aprendesse a servir-se do bacio, tinha 
de o despir, de faz-lo beber copo atrs de copo de sumo e ficar sentado com ele na casa de banho, a ensinar-lhe tudo, a despeito dos seus medos. Durante oito horas 
seguidas.
     Embora o trabalho construtivo com o Ryan me consumisse trs horas dirias, no quis que a experincia se ficasse pela simples conquista de objectivos. Logo, 
o meu trabalho com ele no se limitava  aprendizagem; uma hora diria era dedicada s s coisas que ele queria fazer. Brincvamos, dvamos passeios, coloramos 
bonecos, tudo o que o fazia feliz.
     Contudo, tambm no podia esquecer-me de que tinha outro filho. Recordava-me de, em criana, acreditar que a ateno era igual ao amor e, por isso, no queria 
que o Miles crescesse a sentir-se to posto de lado como eu me sentira na idade dele. Tambm passava horas com o Miles, a fazer o que lhe agradava. Andvamos de 
bicicleta e batamos bolas, ensinei as equipas de futebol dele, at acabmos por ter lies conjuntas de tae kwon do.
      verdade, os meus filhos tinham-se tornado uma segunda vocao.
     
     Em Maio de 1997, regressmos a New Bern e comemos a remodelar a casa onde ainda vivemos. Tratou-se de um importante projecto de construo, que levou meses 
mas, na altura, a mudana e a remodelao, mais o stress que lhes estava associado, quase pareceram trabalhos simples.
     A Cat e eu continumos a trabalhar com o Ryan. Em Agosto, terminei o meu segundo romance: As Palavras Que Nunca Te Direi; mais tarde, a minha irm telefonou 
a dizer que ia casar-se com o Bob. Pouco depois, tambm e o Micah e a Christine decidiram dar o n. O negcio do Micah continuava a progredir e tinha at criado 
uma nova empresa que montava centros de diverso.
     Embora a Dana voltasse a ter dores de cabea, um problema que sempre a afectara, mesmo antes de lhe ser diagnosticado o tumor, as tomografias continuavam a 
dar resultados negativos. Tinham passado quase cinco anos desde a operao, um ponto em que tecnicamente se considerava curada. A Dana casou-se numa bonita cerimnia 
realizada no Hawai. Por um momento, um simples momento, tudo parecia correr bem no mundo da minha irm. Conseguira a vida com que sempre sonhara; estava casada, 
tinha filhos e at um rancho onde mantinha os cavalos.
     Depois, subitamente, ainda durante a lua-de-mel, a Dana sofreu uma nova convulso. E quando regressou, a TAC mostrava qualquer coisa que deixara de mostrar 
havia alguns anos.
     O tumor do crebro da minha irm estava de novo a crescer.
     
CAPTULO DEZASSEIS
     La Valetta, Malta 11 e 12 de Fevereiro
     
     Nos dias precedentes, desde a manh da nossa viagem a Agra, tnhamos passado um total de cinco horas a visitar o Taj Mahal e Lalibela. Entretanto, o tempo passado 
em voo era mais do dobro.
     Graas a este abrandamento nas visitas e s horas de viagem acumuladas, tanto o Micah como eu nos sentamos preguiosos na altura em que aterrmos. No entanto, 
com o seu ar europeu, Malta despertou-nos de imediato.
     A ilha apresentou-se deslumbrante, com as suas montanhas brancas a descerem para o Mediterrneo. Desembarcmos sob um cu frio e claro de Inverno, sem nuvens; 
foi a nossa primeira paragem com temperatura baixa, pelo que, depois de envergarmos os bluses, seguimos em autocarros para cumprirmos o programa de visitas.
     Por causa do nmero de pessoas fomos divididos em trs grupos; o
     nosso comeava pelo Hipogeu, um complexo subterrneo de templos descoberto em 1902, onde foram encontrados os restos mortais de setecentas pessoas. O complexo 
forma um labirinto, engloba cmaras dispostas em trs nveis e desce a uma profundidade de 12 metros. Datando de cerca de 3600 a. C., o conjunto  bastante mais 
antigo do que as Pirmides ou Stonehenge. , com efeito, a mais antiga construo conhecida, de qualquer tipo, em todo o mundo, e foi escavada na rocha calcria 
graas ao uso das ferramentas mais simples, feitas de osso, slex e outras rochas duras.
     Juntamente com outros monumentos de Malta que visitmos - o templo Tarxien, com a mais antiga esttua de uma divindade, e os templos megalticos de superfcie, 
as mais antigas construes de pedra descobertas at hoje - o Hipogeu representa uma das primeiras civilizaes avanadas da Histria. Contudo, no se sabe quem 
foi
     o povo primitivo que a construiu, de onde veio, o que lhe aconteceu
     ou para onde foi. Uma civilizao que parece ter desaparecido to misteriosamente como apareceu.
     A despeito da histria fascinante dos seus habitantes perdidos, foi a prpria Malta que mais despertou a ateno do Micah. Ao seguirmos por estradas pavimentadas 
em que toda a gente obedecia s leis do trnsito (o que, naquela altura da viagem, j nos parecia estranho), reparei que ele sorria.
     - Sabes o que  que isto me faz recordar? - perguntou.
     - O que ?
     - A minha viagem a Itlia - respondeu. - Logo depois de ter acabado a universidade, quando eu e o Tracy andmos por a de bicicleta. O aspecto era exactamente 
este. Bom, era parecido, pelo menos. Aquela viagem foi o mximo.
     Fingi surpresa.
     - Deveras? Explorar, conhecer novas gentes, andar na pardia? No me parece nada prprio de ti.
     Sorriu, sem dvida a pensar nos velhos tempos do Mission Gang.
     - Alguma vez te contei o que aconteceu quando chegmos  Europa?
     Neguei com a cabea.
     - Ora bem, o Tracy e eu viemos de avio at Madrid, mas como tnhamos quilmetros de bnus em companhias diferentes, no fizemos a viagem juntos. Estava previsto 
que aterrssemos mais ou menos  mesma hora; porm, quando me dirigi  porta para o receber, verifiquei que ele no viera no avio. O problema era que o Tracy tinha 
tudo na mala dele: guia, moradas, mapas, at as ferramentas de que necessitava para montar a minha bicicleta de montanha. E estava num pas estrangeiro. Ningum 
falava ingls, eu no sabia ler os sinais, nem conseguia saber a quem devia perguntar a razo por que o Tracy no tinha chegado. Nem sequer fazia ideia da distncia 
a que a cidade ficava do aeroporto.
     - O que  que fizeste?
     - Acabei por encontrar um tipo que falava ingls e me ajudou. Soube que o Tracy se tinha atrasado, perdera o avio e que chegaria no dia seguinte. Mas eu continuava 
sem ter para onde ir. Na altura, ainda no tinha carto de crdito. Finalmente, encontrei dois mecnicos que me ajudaram a montar a bicicleta; depois que eles me 
indicaram a direco da cidade, comecei a pedalar. Levei uma hora a chegar ao centro da cidade e continuava sem saber para onde ir, nem onde iria dormir. A certa 
altura, encontrei um Hard Kock Cate e, pensando encontrar alguma coisa em ingls, fui comprar comida. Da em diante as coisas tornaram-se um pouco mais fceis.
     - Porqu?
     Encolheu os ombros.
     - Perguntei  empregada de mesa se queria sair comigo  noite. Portanto, fui namorar.
     Um pouco mais tarde, o Micah voltou-se para mim. Tinha estado muito ocupado a filmar a viagem de autocarro; quando regressou a casa, dispunha de seis horas 
de gravaes de vdeo que nunca chegaria a ver. Contudo, durante toda a viagem dir-se-ia que estava a preparar um documentrio.
     - Ei, Nick, alguma vez ouviste falar no Hipogeu?
     Assenti.
     - Li umas coisas.
     - No se trata de uma tumba?
     - Em grande parte. Mas  a mais antiga at agora descoberta. Por isso  especial.
     Pareceu perdido em reflexes.
     - Sabes do que  que pretendo uma fotografia.
     - De qu?
     - Uma fotografia de mim deitado na tumba. Sabes, a fingir que
     estou morto. No achas que seria giro?
     - Julgo que seria de muito mau gosto.
     Fez um gesto com a mo.
     - Mau gosto, giro,  tudo a mesma coisa.
     Pobre do Micah! No ia ter a mnima oportunidade de ser fotografado por entre o p e os restos mortais microscpicos dos seres humanos sepultados, em tempos, 
no Hipogeu.
     O Hipogeu mostrou-se totalmente diferente de todos os monumentos que visitramos at ao momento. Para comear, localiza-se por debaixo de um edifcio sem nada 
de notvel no exterior. Poderia ser um restaurante, uma empresa ou uma casa de habitao, como os prdios que o flanqueiam dos dois lados; s soube que era um museu 
depois de ler as palavras inscritas nas portas envidraadas.
     L dentro, fomos recebidos por um guia de ar muito srio, que nos explicou o que iramos ver. No essencial, o Hipogeu encontrava-se isolado para prevenir a 
degradao provocada pelos elementos. Devamos descer a escada com cuidado para no batermos com a cabea. Seramos informados dos locais onde os restos mortais 
foram descobertos. Comearamos por ver um pequeno filme sobre o local. As visitas duravam uma hora, tnhamos de nos manter juntos e de andar depressa. Devamos 
evitar as interrupes, pois no havia tempo para responder s perguntas. No seramos autorizados a tirar fotografias. Se o fizssemos, as mquinas fotogrficas 
seriam confiscadas.
     - O homem parece um guarda prisional - murmurou o Micah. - Nem vestgios de um sorriso.
     - Quem? O "Senhor Amvel"?
     - Penso que est a tirar-nos as medidas, a tentar descobrir quem vai e quem no vai obedecer s normas.
     - Julgo que ele sabe que fazes parte do segundo grupo. No tira os olhos de ti.
     - Sim, j notei isso mesmo. Para um tipo to feliz,  realmente bastante perspicaz.
     
     Fomos conduzidos a uma sala com ar condicionado, em que tudo dependia do computador e das cmaras de vdeo, para vermos o filme. No tnhamos voto na matria. 
O filme era obrigatrio. O nosso guia estava atento.
     Resumindo, durante os quinze minutos seguintes, aprendemos o seguinte: pouca coisa. Que ningum sabia quem tinha construdo o Hipogeu. Ningum sabia por qu. 
Ningum sabia o que aconteceu s pessoas que o construram. Ningum sabia de onde tinham vindo. Ningum sabia os motivos por que tinha sido construdo daquela forma. 
Ningum sabia descrever a civilizao a que pertencera. Tudo o que sabiam era que tinha sido construdo muito antes das Pirmides.
     As luzes voltaram a acender-se.
     - Por favor, sigam por aqui - anunciou o guia. - Vamos. Vamos, comearemos a visita dentro de um minuto. No dispomos de muito tempo; por isso, tentem manter-se 
juntos. No faam demasiadas perguntas que s serviro para nos atrasar.
     E, com estas palavras, fomos conduzidos ao interior do Hipogeu que , no essencial, uma caverna; no fomos autorizados a tocar em nada. Descemos por uma rampa 
que fora colocada quinze centmetros acima do cho e ouvimos o guia falar, sem interrupo, durante os quarenta minutos seguintes. Foi o que aprendemos. No foi 
muito.
     Tudo o que o homem dissera parecia tirado do filme.
     Mesmo assim, andar por entre as runas mais antigas da humanidade foi um momento significativo. A que se deve acrescentar o ar grave com que o nosso grupo fez 
a visita. O guia conseguira intimidar toda a gente.  uma sensao algo irreal a de estar numa caverna com vinte pessoas, muitas das quais se haviam tornado nossas 
amigas, e no ouvir o mais simples sussurro durante um longo perodo de tempo. Tratou-se da visita mais silenciosa de toda a viagem.
     Dali seguimos para as runas do complexo Tarxien, localizado em
     plena baixa da cidade. Contudo, em vez de sermos obrigados a entrar
     num edifcio, desta vez fomos levados para um terreno vazio de
     construes, em que estavam espalhadas algumas pedras de grandes
     dimenses. Machu Picchu no era, de certeza.
     - Ento,  isto? - indagou o Micah.
     - V l, no protestes. No  assim to mau. Pelo menos, agora
     podes usar a cmara de vdeo.
     - No h nada que filmar. Isto tem um ar... melanclico. Quanto
     tempo  que devemos ficar aqui?
     - Julgo que ser uma hora.
     -  muito tempo, tendo em conta que ningum sabe seja o
     que for.
     Ele tinha razo; foi uma hora muito comprida, apesar de termos um novo guia, uma pessoa que, na verdade, parecia ter prazer em nos ver. Cada descrio comeava 
com a frase "Penso que isto pode ser uma de duas coisas...", ou "No temos a certeza absoluta da utilidade disto... ".
     Tambm comemos a ouvir com frequncia a palavra "rplica". Como: - Isto  uma rplica do pilar, que pensamos que deve ter sido importante porque...
     Passados uns minutos, e depois de uma dzia de "rplicas", pelo
     menos, o Micah levantou a mo.
     - Est continuamente a usar a palavra "rplica" - observou.
     - Pois estou - confirmou o guia. - Trata-se de uma rplica.
     - Quer dizer que no  verdadeiro?
     - No, o verdadeiro pilar est no museu. A maioria das peas
     descobertas foram removidas para o interior dos museus, para no
     sofrerem mais danos.
     - E todas essas coisas que acaba de nos mostrar?
     - Tambm so rplicas. Mas foram trabalhadas de forma a parecerem exactamente as peas originais - esclareceu o resplandecente guia. - No  espantoso?
     - Quais destas runas so rplicas?
     O guia olhou  volta.
     - Quase tudo o que podemos ver. Mas podemos atestar o maravilhoso trabalho que fizeram - acrescentou. - Por exemplo: este muro pode ter tido uma de duas utilidades...
     O Micah e eu no tardmos a perder o interesse. Na realidade, no estvamos a ver as runas do complexo de Tarxien, estvamos a olhar para... imitaes. Era 
como se o Museu do Louvre nos mostrasse uma fotografia da Mona Lisa, em vez de nos mostrar o quadro original.
     - No quero crer que isto no seja real - continuou o Micah, a olhar  sua volta. -  como o cenrio para um filme.
     - Exactamente - acrescentei, - e, para te ser franco, nem  um cenrio de grande qualidade.
     
     Naquela noite ficmos livres para jantar e o Micah e eu escolhemos um restaurante perto do hotel, onde serviam piza e cerveja. Como acontecia sempre que estvamos 
juntos, demos connosco a recordar a infncia.
     - Recordas-te do Blackie? - perguntou o Micah.
     - O pssaro do diabo? Como  que poderia esquec-lo? Que lembrana...
     Soltmos sonoras gargalhadas.
     - Ou aquela vez em que carregmos tantos livros na carrinha que ela parecia rebentar...
     - Ou quando fingimos que estvamos a cair para uma ravina no Grand Canyon...
     Rimo-nos ainda mais.
     - Ou a guerra das presses de ar, daquela vez em que te atingi nas costas e tivemos de usar a faca de cortar a carne para extrair os chumbos, que estavam muito 
fundos...
     - Ou quando eu e o Mark derrubmos a caixa do correio e aqueles tipos nos deram uma tareia...
     - Ou quando o av que lavou a cabea com o jacto da mangueira...
     - No te esqueas dos famigerados tratamentos com os pensos rpidos...
     Contmos as mesmas histrias que contamos sempre; por qualquer razo, no parecemos cansar-nos de as contar. Ao verem-nos dobrados e a dar palmadas nos joelhos, 
as pessoas sentadas nas outras mesas no tiravam os olhos de ns, a tentarem perceber onde  que estava a graa.
     S ns  que sabemos. As nossas histrias so engraadas porque as vivemos e porque conseguimos viver para as recordar. Quanto pior o incidente, mais engraada 
a histria se tornou com o passar dos anos.
     O Micah acabou por sossegar. Ficou-lhe aquele brilho terno, quase interior, nos olhos.
     - Foram bons tempos - disse,  laia de concluso. Assenti.
     - Os melhores!
     
     Aps o jantar, aventurmo-nos numa ida ao casino. Jogmos ao vinte-e-um (o Micah ganhou e eu perdi) e embora o casino fosse mais pequeno, e menos ruidoso, dos 
que os de Reno ou de Las Vegas, tivemos a agradvel surpresa de descobrir que haveria um espectculo musical. O homem que dava as cartas assegurou-nos que o grupo 
musical era bom e muito popular.
     - So da terra. H anos que tocam aqui.
     - Ouvir msica maltesa ser interessante. No poderei gabar-me de j a ter ouvido - observou o Micah.
     - Hoje o espectculo ter muita gente. Esperamos uma multido, para mais tarde. Tambm podero danar.
     O Micah sorri.
     - Cada vez me parece melhor.
     Mais tarde, por detrs de ns, ouvimos a banda a preparar-se para actuar; no nos voltmos por estarmos concentrados no jogo. Minutos depois, ouvimos os primeiros 
acordes e, enquanto estvamos a tentar identificar a msica, o vocalista comeou a cantar os versos de Coward of the County.
     Kenny Rogers? Rodmos as cabeas, mal podendo acreditar. Ali, num casino luxuoso de Malta, estava uma banda da terra, mas com chapus de vaqueiro. A cantar 
msica country-western americana, a marcar o ritmo com o bater das botas no soalho. A audincia aplaudia e cantava. O Micah e eu trocmos olhares e desatmos  gargalhada.
     Momentos depois, encolhemos os ombros um para o outro, como quem pergunta "por que no?", e comemos a cantar, juntando-nos ao coro do resto da multido.
     Justamente quando pensvamos que tnhamos a viagem toda bem planeada, aconteceu-nos uma coisa daquelas. Descobrimos que o mundo  uma permanente caixa de surpresas. 
Nunca, nem que vivesse um milho de anos, me imaginaria a entoar uma cano de Kenny Rogers, com sotaque malts, ainda por cima.
     De manh, fomos visitar Hagar Qim, outro conjunto de rplicas de runas. Sentmo-nos perto de um penhasco, pois, como nada do que estava exposto era verdadeiro, 
a paisagem era bem mais interessante do que o prprio monumento. O lugar era, contudo, excelente para fazer fotografias.
     Dali, seguimos para a visita a duas das mais importantes catedrais medievais de Malta; locais espantosos, como Cuzco. Com elevados tectos ogivais, enormes altares 
dourados e centenas de pinturas, tudo com uma extraordinria riqueza de ornamentao. Na sua maioria, os pavimentos so de mrmore; cada pedra , na realidade, a 
cobertura de uma tumba onde foram sepultados diversos cavaleiros.
     O almoo foi servido num caf junto ao mar, comida tradicional maltesa, com bastante marisco fresco e po. Terminado o almoo, fomos visitar a cidadela de Mdina. 
Originalmente construda para servir de fortaleza, num plano elevado, a vrios quilmetros de distncia da principal cidade de La Valletta, tem ruas calcetadas e 
gaba-se de dispor de um miradouro de onde  possvel ver uma grande parte da ilha.
      tambm em Mdina que esto as Catacumbas de So Paulo, a nossa ltima visita do dia. As catacumbas serviram para sepultar centenas, ou talvez milhares, de 
cidados malteses e, ao contrrio do Hipogeu, fomos autorizados a tocar em tudo e a fotografar o que quisssemos. Nas paredes de rocha foram escavadas centenas de 
criptas, agora vazias. Anos antes, os restos mortais haviam sido removidos e enterrados em cemitrios.
     Como no podia deixar de ser, o Micah ergueu a mo.
     - Posso tirar uma fotografia numa das criptas?
     O        guia olhou para ele, como se o considerasse maluco.
     - Se quiser, pode... julgo eu. At hoje, ningum fez um pedido desses.
     - A srio? H quantos anos  que trabalha aqui?
     - Dezassete.
     O        Micah piscou-me um olho.
     - Ests a perceber o que isto significa? - sussurrou-me.
     - O que ?
     - Poderei ser eu a primeira pessoa a fazer isto - acrescentou. - Depois dos mortos, est bem de ver.
     Arrastou-se l para dentro, a sorrir, enquanto eu tirei a fotografia.
     
     Enquanto percorramos as ruas empedradas que iam da Mdina at ao stio onde estava o autocarro, o Micah ia observando tudo  nossa volta.
     - Julgo que a Christine gostaria de Malta.
     - E dos outros stios aonde fomos?
     Virou a cabea para mim.
     - Nunca conseguirias arrast-la at  ndia ou at  Etipia.
     Nem, talvez, at  ilha de Pscoa. Para ela, visitar pases estrangeiros
     significa ir a Londres ou a Paris.
     Sorri.
     - Acho que a Cat teria gostado de todos os lugares onde estivemos. Mas como nunca veio  Europa, provavelmente  onde iremos primeiro.
     - Quando os midos forem mais crescidos, queres tu dizer.
     -  claro. Com filhos to pequenos no me parece que a viagem fosse muito agradvel.
     - Sabes o que devamos fazer? No prximo Vero, devamos alugar uma grande casa em Itlia e levarmos as duas famlias para l. Podamos fazer da casa a base, 
de onde partiramos para visitar o pas.
     - Veremos.
     - No te parece que seja uma boa ideia?
     - Acho a ideia excelente. Mas tambm no penso que seja muito fcil de pr em prtica. E no o digo s por causa dos meus cinco filhos. At l,  provvel que 
tenhas outro beb.
     -  possvel que tenhas razo. Porm, de qualquer das formas, devamos colher algumas informaes. Aposto que, na sua maioria, os nossos companheiros de viagem 
j estiveram em Itlia mais de uma vez. Podemos tomar nota dos melhores lugares para ficar.
     - Queres mesmo pr a ideia em prtica?
     - Pois quero. Devemos viver um pouco.
     - E achas que viajar  volta do mundo no  viver um pouco?
     Ele ficou um momento a pensar.
     - Devemos viver um pouco mais.
     Soltei uma gargalhada.
     - Alguma vez acreditaste que viramos ambos fazer esta viagem 
     volta do mundo e ver todos aqueles lugares? Na nossa idade, quero eu
     dizer.
     O Micah abanou a cabea.
     - Nunca. Mas, se pensarmos bem, j vivemos muito.
     Depois daquele comentrio, caminhei em silncio, imerso em recordaes.
     
     No incio de 1998, o Micah tinha duas empresas para gerir, trabalhava muitas horas e estava a preparar o casamento. Juntamente com o Bob, tinha tambm assumido 
o papel do meu pai no que dizia respeito  sade da Dana. Comeara a assistir s consultas, sempre a tomar notas;  noite, fazia buscas na Internet, em pginas de 
mdicos e em jornais especializados; queria ter a certeza de que a nossa irm estava a receber o melhor tratamento disponvel.
     Telefonou-me logo que regressou da consulta com o oncologista.
     O tumor da nossa irm, invisvel apenas trs meses antes, tinha j o tamanho de um bago de uva. Embora sem ter ainda atingido as dimenses do tumor original, 
que era do tamanho de um ovo, estava localizado numa zona profunda do crebro, responsvel tanto pela memria como por funes motoras vitais. A cirurgia no era, 
portanto, vivel; no havia maneira de chegar junto do tumor sem causar estragos terrveis. Na melhor das hipteses, a Dana ficaria cega e paralisada; o mais provvel 
seria tornar-se uma espcie de vegetal ou morrer durante a operao. Alm disso, e pelas mesmas razes, tambm no se podia recorrer  radioterapia. O risco era 
grande e os possveis benefcios quase inexistentes. Por isso, a minha irm deveria fazer quimioterapia.
     Aps a consulta inicial, a Dana tomaria uma combinao de trs
     drogas que se tinha provado serem as mais eficazes nos tipos de tumores que a afligiam.
     Porm, os resultados eram duvidosos. No essencial, a quimioterapia  a ingesto de veneno; a esperana  que o veneno mate o tumor antes de matar a pessoa. 
Embora eficaz em muitos tipos de cancro,  bastante menos eficaz nos tumores do crebro. A barreira hemato-enceflica (pense-se numa parede a separar o crebro do 
resto do corpo) no permite que se atinjam nveis de concentrao medicamentosa capazes de destrurem o tumor. Consegue-se, por vezes, controlar o ritmo de crescimento 
dos tumores ou, com sorte, fazer parar completamente a sua evoluo.
     - O que  que isso significa no caso da Dana? - perguntei ao Micah, pelo telefone.
     - No podero dizer nada antes de ela comear a tomar as drogas.
     - Mas tem possibilidades de sobreviver, no tem?
     - Pois, existe uma possibilidade, mas...
     A voz do Micah pregou-lhe a partida.
     - Mas as possibilidades no so muitas - disse eu, a terminar a frase por ele.
     - No dizem isso. Dizem apenas que o regime de tratamento que
     vai iniciar  o melhor para ela.
     - O que acontece se o tumor deixa de crescer mas continua vivo?
     - No sei.
     - Conseguem dizer durante quanto tempo se pode controlar o crescimento do tumor, no caso de as drogas se revelarem eficazes?
     - No. Nick, para te ser franco, no consegui que me fornecessem quaisquer respostas. No por que no esteja a ser tratada por bons mdicos; o problema  que, 
de momento, ningum consegue uma avaliao vlida. J te disse tudo o que sei. Os mdicos afirmam que talvez saibam mais qualquer coisa daqui a trs meses, quando 
ela fizer uma nova tomografia.
     - E at l, devemos fazer o qu?
     - Esperar, para ver o que acontece.
     - Foi isso que te disseram?
     - Exactamente com estas palavras.
     A partir de ento, a nossa vida passou a regular-se por ciclos
     trimestrais, como se nos regssemos por um plano. Quando comeou
     a quimioterapia, a Dana tinha o irmo a seu lado, a segurar-lhe a mo
     entre as suas.
     As notcias acerca da sade da Dana tornavam tudo mais difcil. Durante os primeiros meses do ano, escrever tornou-se uma luta constante, enquanto a viagem 
de promoo do meu livro As Palavras Que Nunca Te Direi se prolongou por Maro e Abril, obrigando uma vez mais a Cat a ficar sozinha com os filhos. Em viagem e longe 
de casa, tinha de me preocupar com a sade da minha irm e odiava o facto de no poder continuar o trabalho com o Ryan.
     Quando regressei, continuei a escrever; no final, acabei por deitar fora um romance que estava quase acabado. No consegui termin-lo.
     Logo que voltei, dediquei-me de novo a ajudar o Ryan, enfrentando sucessivas contrariedades. Na altura, os especialistas tinham, uma vez mais, revisto o diagnstico; 
tratava-se, afinal, de uma deficincia de processamento central da audio. Isto , no essencial, uma dislexia dos sons; por qualquer razo, os sons misturavam-se 
at formarem algo semelhante a um rudo do ambiente, tornando a fala e a compreenso muito difceis. Contudo, chegados quele ponto, tanto
     eu como a Cat tnhamos deixado de dar importncia s opinies dos
     especialistas; decidimos dar continuidade ao trabalho iniciado. Passado um ano, o Ryan acabou por compreender que as palavras representavam coisas e passou 
a repetir tudo o que eu dizia. As perguntas eram um obstculo de monta. No conseguia perceber a
     ideia que estava por detrs de frases comeadas por que, quem, quando, porqu ou como. Passei horas, durante semanas, a tentar diversas
     maneiras de o levar a compreender.
     Eu apontava para uma rvore e dizia:
     - rvore.
     - rvore - repetia o Ryan.
     - ptimo! Excelente trabalho! - elogiava. E voltava a apontar a
     rvore.
     - O que  isto?
     - O que  isto? - repetia ele. - No, no.  uma rvore. E ele imitava-me: - No, no.  uma rvore.
     Entretanto, o tempo seguia o seu curso. No aniversrio seguinte, o
     meu filho Ryan faria cinco anos.
     Em Abril, andava eu em viagem, a Dana foi fazer uma nova
     tomografia. Telefonou-me logo que recebeu o relatrio.
     - O tumor diminuiu para metade! - exclamou. - Fantstico!
     - Nem sabes como estava preocupada. Na ltima semana e meia
     senti-me um feixe de nervos.
     - No era caso para menos. Eu senti o mesmo. Mas deste-me
     uma grande notcia.
     - A continuar assim, no restar nada dele quando eu for fazer o
     prximo exame.
     - Os mdicos disseram isso?
     - No, eu  que penso assim. J diminuiu para metade. Para um
     pouco menos de metade, na verdade.
     - Que maravilha! - exclamei.
     - Vou vencer esta coisa.
     - Eu sei que vais.
     
     Em Maio de 1998, depois de centenas e centenas de horas, finalmente descobri algo que ajudou o Ryan a compreender o que  uma pergunta. Comecei a sussurrar 
a pergunta e a gritar a resposta antes de ele conseguir repetir a prpria pergunta.
     - O que  isto? - sussurrava-lhe, a apontar para a rvore. - rvore!!! - gritava, sem lhe dar tempo a falar.
     Espantado com o meu grito, o Ryan responderia "rvore!", quase por instinto.
     E eu aplaudia:
     - Isso mesmo! Belo trabalho!  uma rvore.
     Gradualmente, foi conseguindo responder a algumas perguntas; as comeadas por que e quem, dois grandes passos em frente que lhe permitiram, finalmente, manter 
uma conversa bsica. Quando, porqu ou como continuaram a escapar-lhe totalmente. Tambm no podia andar de bicicleta. Nem fazer gatafunhos com um lpis. Nem atar 
os sapatos. Dando mostras de uma determinao em nada inferior  minha, a Cat trabalhava com ele em todas essas reas. Tal como eu, ela estava empenhada na melhoria 
do Ryan, levasse o tempo que levasse. Ambos queramos que fosse normal quando chegasse o dia de ir para a escola; queramos que frequentasse aulas normais, junto 
de crianas normais. Queramos que o Ryan fosse aceite como um rapaz normal.
     Contudo, por vezes sentamos que o tempo escasseava. Dentro de pouco mais de um ano, o Ryan entraria para o jardim infantil. E o tempo no parava.
     
     No final de Maio de 1998, a Cat e eu passmos duas semanas na Califrnia, em visita ao Micah e  Dana. Fui padrinho de casamento do Micah, uma bela cerimnia, 
a que assistiram amigos e familiares. Uns dias depois, ele regressou da lua-de-mel e levou a nossa irm  consulta.
     - Tenho a certeza de que estou melhor - disse-lhe a Dana, quando j iam a caminho. - Sinto-me ptima.
     Mas no estava. Em vez disso, o tumor voltara a crescer. Atingira a dimenso correspondente a trs bagos de uva, com metstases.
     A quimioterapia foi alterada, mas todos sabamos que as novas drogas no eram to eficazes como as primeiras. Mesmo assim, continuvamos a ter esperana; num 
estudo clnico, um de doze pacientes tinha sido completamente curado com as drogas que a Dana estava a tomar. Na opinio dos mdicos, a esperana mantinha-se.
     Porm, para disporem de uma segunda opinio e para haver uma certeza melhor fundamentada, o Micah e a Dana, com mais duas pessoas de famlia foram a Houston, 
no Texas, para ela ser vista no MD Anderson, um dos mais reputados centros de tratamento do cancro de todo o pas. Os mdicos concluram que ela estava a receber
     um tratamento do mais elevado nvel e que, se a Dana fosse doente do centro, no fariam nada de diferente.
     Ao falar connosco, a Dana mantinha-se optimista.
     - Vou venc-lo - costumava dizer.
     - Certamente que sim - respondamos, eu e o Micah.
     Mais tarde, qualquer de ns dizia o mesmo ao outro. No entanto, estvamos a falar com menor frequncia do que costumvamos fazer no passado; uma ou duas chamadas 
por semana, no as trs ou quatro que antes eram normais. A Cat e eu continuvamos a trabalhar com o Ryan; o Micah estava a adaptar-se  vida de casado e a trabalhar 
muito; alm disso, comeara a remodelar a casa e dispensava  Dana toda a ateno que podia.
     As chamadas telefnicas eram, muitas vezes, dolorosas. Falar com o Micah fazia-me recordar a Dana, e vice-versa. E embora falasse com a Dana com a mesma frequncia 
com que falava ao Micah, no conseguia libertar-me da imagem de algo terrvel, e irreversvel, que crescia dentro dela.
     Nesse Vero, inspirando-me na minha irm, escrevi Um Momento Inesquecvel. Jamie, o protagonista, personificava todos os maravilhosos atributos da minha irm 
e tambm todas as preocupaes que eu alimentava quanto ao seu futuro. Foi a primeira vez que chorei enquanto escrevia.
     No final, dediquei a obra  memria dos meus pais, mas tambm ao Micah e  Dana.
     Embora soubesse que o romance se referia  vida dela, a minha irm recusou-se a l-lo.
     - No pretendo saber como acaba - concluiu.
     
     No Outono, o tumor da Dana tinha diminudo de tamanho. No muito, mas, mesmo assim, era um progresso. Manteve o mesmo tratamento e ficmos  espera do Inverno, 
da altura em que ela faria uma nova TAC. Continuvamos a viver de acordo com os ciclos trimestrais.
     No incio de Dezembro, o Micah e a Dana, com o Bob e a Christine, foram visitar-nos  Carolina do Norte. Durante a estada, fomos fazer uma fotografia  praia, 
todos vestidos de calas de caqui e camisas brancas sem mangas. A fotografia ainda est pendurada na sala e, por mais que olhemos para ela, s pela aparncia, ningum 
diria que houvesse qualquer problema com a Dana ou com o Ryan.
     Umas semanas mais tarde, a Dana telefonou para me cantar os parabns pelo meu aniversrio. Na altura, j tinha notado que ocasionalmente ela arrastava certas 
palavras e comeava a ter dificuldades de entender algumas coisas. No entanto, quanto  sua sade, continuava confiante. Porm, uns dias depois, recebeu o relatrio 
da tomografia mais recente.
     O segundo regime de quimioterapia estava a falhar. O tumor atingira a dimenso correspondente a quatro bagos de uva e as metstases continuavam a alastrar. 
O tratamento foi alterado, foram receitadas outras drogas.
     - Estas so as ltimas entre as melhores - fomos informados. - Depois destas, tudo o que temos est em regime experimental.
     Contudo, ainda havia uma rstia de esperana. Chegados quele ponto, j s nos restava a esperana.
     
     Em Fevereiro de 1999, o Micah e a Dana, com os respectivos cnjuges, voaram para Los Angeles, onde foram assistir  estreia do filme baseado no meu romance 
As Palavras Que Nunca Te Direi. Todavia, nessa tarde, antes de pisarmos a passadeira vermelha, levmos a minha irm ao hospital Cedars-Sinai, onde lhe tnhamos marcado 
consulta com um dos maiores neurocirurgies de todo o pas. Pretendamos ter a certeza de que a cirurgia, mesmo envolvendo srios riscos, estava fora de questo, 
em toda a parte e fosse quem fosse o operador. Embora todos esperssemos que o ltimo tratamento fosse resultar, pretendamos manter todas as opes em aberto.
     O Micah, a Dana e eu, juntamente com outras pessoas de famlia, estvamos no gabinete de consulta quando a chapa da TAC foi colocada contra a luz. Era a primeira 
vez que via uma chapa dela e o Micah murmurou-me ao ouvido que o tumor era fcil de detectar. Nas chapas, o cancro aparece como uma mancha branca, explicou.
     Senti um n na garganta quando a luz se acendeu e vi a chapa da Dana. O branco estava por todo o lado.
     Mesmo assim, indagmos se a cirurgia era aconselhvel, mas fomos informados de que o tumor ultrapassara a linha mdia do crebro, o que inviabilizava a operao. 
Quanto  quimioterapia, foi-nos dito que, num caso daqueles, havia uma ligeira possibilidade de poder atrasar a evoluo do tumor.
     Apenas atrasar, no pr termo. O mdico, na sua maneira calma de se exprimir, estava a dizer-nos que era apenas uma questo de tempo.
     - Mas esto a fazer tudo o que faramos aqui.
     Quando mencionmos as drogas experimentais, o mdico explicou que havia uma razo para serem consideradas experimentais: a sua eficcia no estava comprovada. 
Passou um bom bocado a falar de qualidade de vida; uma outra maneira de nos dizer que as hipteses da nossa irm no eram boas.
     Por aquela altura, o tumor j tinha comeado a afectar o entendimento da nossa irm. Embora conseguisse manter uma conversa comum, j no estava em estado de 
perceber os pormenores da explicao do mdico, olhava-o de testa franzida e no era capaz de ler nas entrelinhas.
     - Est a reagir bem - disse-lhe o mdico. - De facto, admira-me que esteja a reagir to bem.
     Uma vez mais, ns percebemos que ele estava a falar em termos relativos; na sua maioria, as pessoas com um tumor como o da minha irm talvez no andassem nem 
falassem. Quando a consulta chegou ao fim, o Micah estava sentado a um canto, de cabea cada para o peito. No dissemos nada logo que o mdico saiu. Em vez disso, 
ficmos sentados, em silncio, durante muito tempo. Finalmente, a Dana olhou para o Micah e indagou:
     - O que  que ele esteve para ali a dizer?
     O Micah olhou para ela e depois para mim, para voltar a fixar-se na irm. Mostrou um sorriso forado.
     - Disse que ests a tomar os medicamentos mais adequados - respondeu, em voz baixa. - Disse que aqui no fariam nada diferente.
     Ela assentiu.
     - E no posso voltar a ser operada nem a fazer radioterapia?
     - No - respondeu o Micah. - Acham que no ajudaria nada.
     A Dana pestanejou, desviou os olhos de mim e encarou o Micah:
     - Mas h outros medicamentos que me podem receitar, no  verdade?
     -  claro. H mais algumas coisas que eles podem tentar.
     - Bem... ptimo - concluiu a Dana.
     Duas horas mais tarde, estvamos rodeados de estrelas de cinema. A Dana foi fotografada com o Kevin Costner e com o Robin Wright Penn, ambos extremamente simpticos 
para a minha irm. Mas ao v-la a posar para as fotografias, no consegui tirar os olhos dela, a tentar imaginar quanto tempo lhe restaria.
     
     Na Primavera de 1999, como se tentasse escapar  inevitabilidade do que estava a acontecer, comecei a escrever Coraes em Silncio. Uma histria muito pessoal 
e emocionalmente forte acerca de um rapaz que no conseguia falar; certamente inspirada pelo Ryan, pelos nossos medos quanto ao seu futuro e pelo trabalho que a 
Cat e eu estvamos a fazer com ele.
     Os meus momentos livres eram passados com o Miles e com a Cat, enquanto continuava o trabalho com o Ryan. A Cat tinha conseguido ensinar ao filho uma enorme 
diversidade de aptides e ele continuava a melhorar no captulo das perguntas e respostas. No entanto, dava comigo a pensar que tudo deveria ser mais fcil. Pretendia 
apenas que um claro sbito iluminasse o Ryan, permitindo-lhe comear a aprender sozinho, a perceber o mundo que o rodeava, como acontecia com as outras crianas. 
Mas no aconteceu nada do gnero; trabalhar com o meu filho era semelhante a rolar um calhau por uma subida sem fim. Era incrivelmente frustrante. Gostaria de saber 
as razes de me ter sido concedido um filho com tantos problemas; eram frequentes os momentos em que me sentia zangado com Deus, zangado por causa do que me tinha 
acontecido, zangado com a minha sorte. No caso do Ryan, tanto  Cat como a mim foram roubadas as alegrias de o ver crescer, de observarmos o seu ar encantado  medida 
que descobria o mundo, os afectos naturais e a capacidade de aprender por si prprio.
     Naquela infncia tudo foi uma luta sem recompensa, um castigo que
     eu considerava uma iniquidade. Queria que algum viesse fazer aquele trabalho, algum que chegasse e, por magia, solucionasse o problema; sonhava com o dia 
em que algum inventaria um comprimido para resolver situaes daquele gnero. Sentia-me to cansado, cansado de tudo; e orava a Deus, suplicava melhoras para o 
meu filho. No era pedir muito, pois no? S pretendia ter o mesmo que os nossos amigos tinham, o que os vizinhos tinham, o que toda a gente parecia ter. Queria 
uma criana como as outras.
     E, a seguir, sentia-me pecador por pensar assim. Um terrvel sentimento de culpa. A culpa no era do Ryan. Era de Deus ou de algum que no o meu filho. E o 
Ryan tinha trabalhado arduamente, mais arduamente do que poderia esperar-se de uma criana daquela idade, e no desistia. Tnhamos combatido juntos e eu no podia, 
nem devia, desistir. Era meu filho e eu amava-o. E, afinal, nunca foi dito que a vida  justa, o que se deseja e o que se consegue obter so quase sempre duas coisas 
inteiramente distintas. Tinha uma misso a cumprir, era tempo de voltar ao trabalho.
     No tinha opo. Dentro de menos de seis meses, o Ryan iria para o jardim-infantil; e ainda havia um caminho longo, muito longo, a percorrer.
     Um ms depois, em Abril de 1999, soubemos que a Cat estava grvida e, surpreendentemente, o tumor da minha irm tinha encolhido. O Micah celebrou o primeiro 
aniversrio de casamento no ms seguinte e, depois de lhe ter dado os parabns, ele perguntou:
     - Como  que est o Ryn? Sinto muitas saudades desse mido.
     O Micah nunca deixava de perguntar pelo Ryan. Nunca. E nunca deixava de dizer umas palavras simpticas.
     Durante o Vero, continuei a trabalhar no romance Coraes em Silncio, a trabalhar com o Ryan, a passar tempo com o Miles. A Cat e eu olhvamos, maravilhados, 
para a sua barriga cada vez maior e eu acordava todas as manhs com a convico renovada de que ela era a mulher mais admirvel do mundo. Tambm fizemos outra viagem 
 Califrnia; viajvamos para l com maior frequncia e as estadas estavam a tornar-se mais longas.
     No Outono, o Ryan comeou a frequentar o jardim-infantil. Passmos o primeiro dia a caminhar pela casa, sem nunca podermos afastar aquela preocupao. Estvamos 
aterrados com o que lhe poderia acontecer. Embora tivesse registado melhorias substanciais, continuava bastante atrasado em muitos aspectos. Pensvamos que ningum 
iria gostar dele, que os outros midos o iriam atormentar, que ele no conseguiria fazer nada. Todos os dias espervamos um telefonema da escola, a sugerir que seria 
melhor inscrever o Ryan noutro estabelecimento. Rezvamos por ele todas as noites.
     Uma vez mais, tive de deixar a famlia durante dois meses inteiros, desta vez com a Cat grvida. Andei pela Europa e pelos Estados Unidos, a promover o romance 
Um Momento Inesquecvel. Durante toda a viagem nunca deixei de me preocupar com a Cat e com o Ryan. E quando ainda estava a meio, soube que o tumor da minha irm 
estava uma vez mais a crescer. A Dana comeou a tomar drogas experimentais, em combinaes no testadas, sem promessas de qualquer gnero. Mais uma preocupao.
     Em quase todas as entrevistas me perguntavam se me considerava um homem de sorte. Ou se pensava que a minha vida era uma bno. Nunca sabia o que responder.
     
     Durante todo o ano de 1999, eu e o meu irmo falmos com regularidade pelo telefone; foi durante essas conversas que notei que o Micah estava a ficar emocionalmente 
exausto. Para alm de ter chamado a si o papel do nosso pai e de andar com a Dana de um consultrio mdico para outro, tinha-se tornado o confidente e o estmulo 
da irm, mas sempre em guarda para que ela no se apercebesse de quanto ele estava preocupado.
     Tal como eu, o Micah estava a usar o trabalho como escapatria. O negcio tinha crescido, empregava quase trinta trabalhadores, em vez dos seis iniciais, e 
tambm estava a levar o esforo longe demais. Trabalhava nos feriados e nos fins-de-semana e, aos 35 anos de idade, era milionrio, tinha atingido o objectivo que 
uma vez fixara para si mesmo.
     Tambm falava com a Dana pelo telefone; era habitual falarmos duas vezes por semana. Por vezes era eu quem ligava, mas o mais frequente era ser a minha irm 
a tomar a iniciativa. Adorava conversar com a Cat; comeavam sempre por falar dos filhos e das canseiras de se ser me e a Dana seguia de perto tudo o que se relacionava 
com a gravidez da cunhada. Naqueles momentos, era fcil esquecer que ela tinha problemas.
     Por contradio ou por ser uma optimista, a Dana no parecia dar muita importncia ao tumor. Habitualmente, nem o mencionava; e se o fazia, logo de seguida 
afirmava-se convencida de que ia derrot-lo.
     - Sei que vou venc-lo - dizia. - Tenho dois filhos e eles precisam da me.
     - Eu sei - respondia eu. - Ests a sair-te muito bem. At os mdicos admitem isso.
     Por vezes, depois de eu ter respondido, ficava calada por momentos.
     - Nick, tambm pensas que vou vencer, no pensas?
     E eu apressava-me a mentir, mesmo tendo de lutar com o n que
     se me formava na garganta:
     -  claro que penso. Vais ficar boa.
     
     Em finais de Dezembro, poucos dias depois do Natal, o Micah ligou; de voz tona, a mostrar-se exausto.
     - O que  que se passa? - perguntei.
     -  a Dana. Acabmos de regressar de uma consulta - informou, mas no conseguiu prosseguir. Aps uns minutos de silncio, comeou a chorar. - O tumor continua 
a espalhar-se - acrescentou. - A ltima tomografia mostra que as novas drogas no esto a ajudar nada.
     Fechei os olhos. O Micah prosseguiu com voz trmula e entrecortada:
     - Mesmo assim, fizeram nova receita, mas no pensam que v fazer nada. S receitam por saberem que a Dana pretende experimentar qualquer outra coisa. Afirmam 
que esta atitude  que a tem feito sobreviver tanto tempo e no ousam desencoraj-la. Ela precisa de sentir que est a fazer tudo para combater a doena. Mas...
     - Ela no sabe...
     - No. Quando samos, disse-me que tinha a certeza de que, desta vez, os qumicos vo mostrar-se eficazes.
     Senti o n a formar-se na garganta, senti as prprias lgrimas a tentarem romper. O Micah continuou a chorar ao telefone.
     - Raios, Nick... ela  to jovem ...  a nossa irmzinha pequena...
     Comecei tambm a chorar.
     As nicas palavras que consegui balbuciar foram:
     - Quanto tempo  que lhe resta?
     O Micah respirou fundo, a tentar dominar-se.
     - No tm a certeza. Contudo, quando pressionei o mdico, respondeu-me que talvez ainda viva seis meses - sussurrou.
     L fora, estava a escurecer. O cu enchia-se de estrelas e a Lua aparecia no horizonte. As folhas farfalhavam com a brisa invernal, parecendo ondas do oceano. 
Era um belo incio de noite, como se tudo estivesse bem neste mundo. Mas no estava, pois, com o telefonema do Micah, perdi a minha ltima rstia de esperana.
     
     Ainda no me tinha apercebido da fora com que me agarrara quela esperana improvvel; quando o Micah desligou, peguei no casaco e sa. Andei pelo quintal, 
a pensar na Dana, a pensar como fora forte e optimista, a pensar nos filhos dela e no futuro que ela j no poderia ver. Encostado a uma rvore, a sentir o vento, 
chorei.
     Passei os dois dias seguintes a vaguear, sem destino, pela casa. Comeava uma coisa e parava; via um programa durante dez minutos, o tempo necessrio para eu 
concluir que no sabia, nem interessava saber, o que estava a passar-se; ou lia algumas pginas, uma e outra vez, incapaz de compreender o texto impresso.
     Dois dias mais tarde, o telefone tocou. A Cathy estava nos meses finais da gravidez e, depois de atender a chamada, levou-me o telefone ao escritrio. Os olhos 
brilhavam-lhe com as lgrimas.
     -  para ti,  a Dana.
     Peguei no auscultador e, mal o coloquei junto da orelha, ouvi a minha irm comear a cantar. Estvamos no dia do nosso aniversrio e concentrei-me o mais que 
pude a ouvi-la, desejando que aquele momento no findasse mais, pois sabia que aquela era a ltima vez em que entovamos a cano um para o outro.
     
     AL
     
     O Landon nasceu a 11 de janeiro de 2000. Com olhos verdes e cabelo louro, era a cara da me e estranhei que parecesse to pequeno nos meus braos. Havia anos 
que no pegava num recm-nascido e no me apetecia larg-lo.
     Mas no tive outro remdio. Estava a ser constrangido pelos meus sentimentos em relao ao resto da famlia e, trs dias depois, voei para a Califrnia para 
ver a minha irm. A partir de ento, comecei a ir  Califrnia com regularidade. Em cada quinzena passava pelo menos quatro dias no rancho, com a minha irm.
     Como ela ainda alimentava esperanas, e como a esperana era a nica coisa que a mantinha de p, tinha de mascarar os motivos das minhas visitas. Embora os 
efeitos do cancro comeassem a ser evidentes, continuava a ser suficientemente esperta para estranhar aquela minha deciso de a visitar com regularidade e para inferir 
o pior. No lhe podia fazer isso. A coragem mantivera-a forte e eu nunca me perdoaria se concorresse para piorar a qualidade da vida que lhe restava. Acabei por 
lhe contar meias verdades. Dir-lhe-ia que tinha um trabalho a fazer em Los Angeles, apenas a uma hora de voo dali, e que aproveitaria a viagem para lhe fazer uma 
visita. Ou que tinha uma reunio com um amigo, em Las Vegas, cidade muito prxima da Costa Ocidental, o que me permitiria dar um salto ao rancho para a ver.
     - ptimo! - exclamava a Dana. - Bem gostaria de te ver.
     Micah ia sempre buscar-me ao aeroporto, para concluirmos que os nossos hbitos pouco tinham mudado. Fazamos uma paragem na Zelda, uma pizaria na baixa de Sacramento, 
comamos uma piza e bebamos umas cervejas. Falvamos durante horas; acerca da minha escrita e da indstria dele e acerca da nossa irm, alm de recordarmos
     episdios da nossa infncia. Ramo-nos e abanvamos as cabeas, ou
     ficvamos subitamente calados, por recordarmos os nossos pais ou o que estava a acontecer com a nossa irm. Na primeira noite, dormia em casa do Micah e, na 
manh seguinte, ele levava-me ao rancho para passar o resto do tempo com a Dana.
     Na primeira daquelas visitas, a minha irm continuou a fingir que no se passava nada de mal. Cozinhava, arrumava a casa e depois pedia-me que ajudasse o Cody 
e o Cole enquanto eles faziam os trabalhos de casa e ela dormia uma sesta. Jantvamos e ficvamos a conversar at ela se sentir cansada e ir para a cama.
     Porm, o progresso do tumor era imparvel e, pouco a pouco, foi sendo impossvel de mascarar. As sestas de descanso tornavam-se maiores em cada uma das minhas 
visitas e deitava-se mais cedo. Em Fevereiro, comeou a coxear; lentamente, o tumor estava a paralisar-lhe o lado esquerdo do corpo. Na minha visita seguinte, o 
brao esquerdo tambm estava mais fraco; uma semana depois, a face esquerda perdeu a capacidade de expresso. Se, antes, mostrava algumas dificuldades com certas 
palavras, tais dificuldades eram agora mais frequentes. A compreenso de termos abstractos tornou-se ainda mais difcil.
     A minha irmzinha pequena estava, lentamente, a perder o combate, mas, mesmo ento, continuava, sem se saber como, a dizer que ia vencer.
     - Vou melhorar - dizia. - Vou ficar c para ver o Cody e o Cole crescerem.
     Todavia, a partir de certa altura, quando ela fazia comentrios deste gnero, eu tinha de fazer um esforo para no chorar. Nos primeiros meses de 2000, fui 
apenas um destroo emocional  deriva. Aprisionado pelas necessidades de ver a Dana e de passar tempo com o meu beb, ao acordar, em cada dia, sentia desejos de 
estar noutro lugar qualquer. Se tinha o Landon ao colo desejava estar na Califrnia a amparar a minha irm. E, enquanto amparava a minha irm, desejava estar de 
regresso  Carolina do Norte, para poder pegar no meu filho. No sabia o que fazer, no sabia como equilibrar as coisas, no sabia at quando poderia aguentar a 
situao. Mal dormia, as lgrimas irrompiam-me dos olhos quando menos o esperava; forava-me a cumprir as obrigaes quotidianas da minha vida e sentia-me mais exausto 
do que nunca.
     Quando sabemos que algum que nos  querido vai morrer, a tendncia natural  para querermos passar com ela todo o tempo que pudermos. Como j disse, entregava-me 
a uma luta constante para manter o equilbrio entre a minha famlia actual e a famlia com que tinha crescido. Porm, mesmo que desejasse l estar, havia outro motivo 
para eu no permanecer muito tempo na Califrnia. As minhas visitas, embora toda a gente compreendesse o motivo da minha ida, alteravam a rotina diria em casa da 
Dana. As visitas, mesmo de pessoas de famlia, provocam sempre alteraes na dinmica domstica. E era preciso no esquecer que a minha irm tambm tinha uma nova 
famlia.
     A Dana fizera um excelente casamento. O pai do Bob vivia no rancho, a pouca distncia da casa do filho, juntamente com a madrasta e o meio irmo do Bob. A me 
e o padrasto do marido da Dana viviam a dez minutos de distncia, na mesma estrada. E tambm o irmo do Bob. Todos adoravam a minha irm, tinham-lhe aberto os braos 
e haviam-na includo nas suas vidas. E cada um estava a lutar, tanto como o Micah ou eu. E talvez, pensei mais tarde, a luta deles fosse ainda mais difcil do que 
a nossa.
     A medida que o tumor progredia e a Dana ia perdendo a energia necessria para se entregar s suas tarefas, os vrios membros da famlia do Bob entravam e saam, 
colmatando as falhas com toda a serenidade. Estava l sempre algum: a lavar a loua, a tratar da roupa, a ajudar na arrumao da casa. Quando necessitou de ajuda, 
a minha irm nunca foi abandonada.
     Parece-me que estou a tentar explicar que visitava a minha irm quando achava que o podia fazer, no a visitava sempre que queria. Procedia assim para permitir 
que a famlia do Bob pudesse passar algum tempo com a minha irm sem me ter por ali. Tinham ganho esse direito e, no fundo do corao, eu sabia que cada uma daquelas 
pessoas, especialmente o Bob, tambm precisava de oportunidades para se despedir da Dana.
     
     Eu chegava e partia, mas o Micah continuava a desempenhar o papel que recebera do pai. Era forte, sereno, um apoio certo, a despeito do medo que sentia. Em 
meados de Maro, levou a irm a So Francisco, para mais uma consulta com o oncologista. Como os mdicos esperavam, as drogas experimentais no tiveram qualquer 
efeito. O Micah ficou sentado ao lado dela, a ouvir o mdico explicar que no seu arsenal teraputico no havia mais nada a experimentar; embora pudessem tentar outra 
droga, havia poucas esperanas de que desse qualquer resultado, para alm de a deixar ainda mais sonolenta do que j estava. Na altura, a Dana estava a dormir catorze 
horas por dia; com outra dose de quimioterapia ficaria a dormir durante o tempo todo.
     O Micah disse adeus ao mdico quando a consulta terminou. Levou a irm pela mo, para ela no cair.
     Sentaram-se na escada de acesso ao centro mdico. O dia estava frio, mas o cu apresentava-se azul e sem nuvens. As pessoas passavam pelo passeio, mal olhando 
para eles. Os automveis passavam continuamente e, mais longe, um ou outro fazia soar a buzina. Por todo o lado, a vida normal continuava, mas, para o Micah, j 
nada parecia normal.
     Tal como eu, o Micah sentia-se exausto. Sabia,  claro, que o resultado viria a ser aquele. Todos ns o sabamos. No entanto, como sucedera com todos quando 
estivemos junto do leito de morte da nossa me, nunca perdemos a esperana, continumos a rezar e a suplicar que acontecesse o milagre. No havia qualquer razo 
lgica
     para a espera, mas a Dana era nossa irm e era amada por ns. No
     podamos fazer outra coisa.
     A minha irm no falou. O olho esquerdo descaiu-lhe um pouco e
     deixou escapar saliva da boca. No a sentia, nem mesmo sabia que l
     estava. Com toda a ternura, o Micah limpou-lhe a boca.
     - Eh, doura! - exclamou.
     - Eh - respondeu calmamente a Dana. J no era a voz dela; as
     palavras soavam diferentes, parecia algum a murmurar durante o sono. O Micah passou-lhe um brao  volta dos ombros.
     - Percebeste o que o mdico esteve a dizer?
     A Dana levantou os olhos para ele e acenou lentamente com a
     cabea. Pareceu ser a nica tentativa para se recordar.
     - No... h mais... remdios? - acabou por perguntar. Palavras
     ditas em voz baixa, to baixa que mal se ouviam.
     - Sim, doura,  isso mesmo. No h mais remdios. Ests livre
     de tudo isso.
     A irm encarou-o, a tentar perceber o que ele estava a dizer. Ficou
     mais triste, com um lado da boca descada.
     - Ento, acabou-se?
     Os olhos do Micah encheram-se de lgrimas. Era a maneira de ela
     perguntar ao irmo se ia mesmo morrer.
     - Pois , doura, acabou-se - sussurrou o Micah.
     Apertou-a mais contra si, beijou-lhe o alto da cabea e a Dana encostou-lhe a cabea ao peito.
     E, pela primeira vez, desde que o cancro lhe fora diagnosticado, a minha irmzinha comeou a chorar.
     
     Em finais de Maro, mesmo sem a quimioterapia, os perodos de sono da minha irm continuaram a aumentar, pelo que, durante as visitas, eu ficava sentado  mesa 
da cozinha durante longos espaos de tempo,  espera que ela terminasse a sesta. Durante essas horas, revia mentalmente milhares de imagens; como ela era em criana, 
as coisas que tnhamos feito juntos, as longas conversas que costumvamos ter. O tempo estava a acabar-se e tinha vontade de a acordar. Queria passar tempo com ela, 
conversar, mas nunca lhe perturbei o descanso. Em vez disso, ia at ao quarto e deitava-me ao lado dela. Acariciava-lhe o cabelo e murmurava-lhe histrias da nossa 
infncia ou falava-lhe do Landon, mas a Dana nunca se apercebia da minha presena. Tinha a respirao pesada e difcil, como a de uma pessoa muito mais velha. Passado 
algum tempo, eu regressava  cozinha e ficava a olhar pela janela, sem ver nada, apenas  espera que ela acordasse, enquanto as horas se arrastavam.
     Ao sero, depois do jantar, ficvamos sentados na sala e eu olhava para a Dana, concentrava-me nas feies dela, desejava record-las para sempre. O tempo tinha 
esbatido a imagem da minha me; j estava a esbater a imagem do meu pai e no desejaria que o mesmo viesse a acontecer com a da minha irm. Olhava para ela, seguia-lhe 
a curva do queixo, os olhos esverdeados, as manchas das sardas nas faces. Concentrava-me e forava-me a ver tudo, a tentar guardar a imagem para sempre.
     Por vezes, depois do jantar, alguns membros da famlia do Bob vinham conversar comigo. Uma noite, em finais de Abril, a madrasta do Bob, Carolyn, estava a conversar 
comigo e com a Dana, quando esta anunciou que ia para a cama. Piorava de dia para dia; praticamente, s conseguia uns murmrios, mas sorriu aquele seu sorriso meio 
paralisado e senti-me assaltado pela ideia de que aquela poderia ter sido a nossa ltima conversa normal. Logo que a porta do quarto se fechou, no aguentei mais 
e chorei nos braos da Carolyn durante quase vinte minutos.
     Em Maio, a horrvel progresso pareceu intensificar-se. A Dana deixou de poder segurar o garfo e tive de passar a meter-lhe a comida na boca; uma semana depois, 
deixou de poder andar. E passada mais uma semana, foi entubada e passou a ingerir apenas lquidos; tinha de ser levada ao colo.
     Durante a minha ltima visita, em meados de Maio, levei a famlia para que a Cat e os meus filhos se despedissem dela.
     No ltimo dia da nossa visita, recordo-me de ter levado o Landon ao quarto da Dana. Os olhos eram a nica parte do rosto dela ainda imune s devastaes do 
tumor e brilharam quando lhe encostei o beb  face. Encostei a mo da Dana  pele do beb; pareceu regalar-se com a sensao. Quando ficmos novamente ss, ajoelhei-me 
ao lado da cama e segurei-lhe a mo com as minhas. No queria deix-la; o corao dizia-me ser aquela a ltima vez em que falava com ela.
     - Adoro-te - dei comigo a murmurar. - s a melhor pessoa que conheci - acrescentei e vi o olhar doce que ela me deitou. Com dificuldade, ergueu um dedo e apontou 
para mim.
     - Tu  que s - sussurrou.
     O Cody e o Cole celebraram o sexto aniversrio no dia seguinte; a minha irm foi trazida para fora e ficou sentada numa cadeira a v-los. Nessa noite, entrou 
num coma de onde no voltou a sair. Morreu trs dias depois.
     A Dana tinha 33 anos de idade.
     Foi enterrada perto dos pais e o funeral foi muito concorrido. Voltei a ver as mesmas faces entre a multido, faces que j vira quando os meus pais foram sepultados. 
Nos ltimos onze anos, s vira aquelas pessoas em funerais.
     No elogio fnebre,  beira da sepultura, contei a todos que a minha irm e eu cantvamos um para o outro no nosso aniversrio. Contei-lhes que quando pensava 
na minha irm continuava a ouvi-la rir, a reparar no seu optimismo e a sentir a sua f. Disse-lhes que a minha irm fora a pessoa mais bondosa que alguma vez conhecera 
e que, com a sua partida, o mundo passara a ser um lugar bem mais triste. E, finalmente, pedi-lhes que se recordassem da minha irm a sorrir, como eu fazia, pois 
que, embora ficasse ali sepultada ao lado dos pais, a melhor parte dela viveria para sempre no interior dos nossos coraes.
     
     Em toda a sua vida, o Micah s assistira a trs funerais. Quando a cerimnia terminou, ficou de p junto da sepultura, de olhar fixo nas flores que cobriam 
a urna.
     Em silncio, ps-me um brao  volta dos ombros. No havia mais nada a dizer. Nem conseguimos chorar. Naquele momento, nenhum de ns tinha lgrimas para verter.
     Vi os olhares das outras pessoas, senti o seu desespero. Imaginei que estariam a pensar que ramos demasiado jovens para termos ficado sem eles todos. E tinham 
razo.
     Um lugar solitrio, aquele  beira da sepultura. Deveria ter os restantes membros da minha famlia original a acompanhar-me num transe daqueles, mas eles eram 
a razo de eu estar ali. Ao lado do Micah, apercebi-me de que s restvamos ns. Agora ramos apenas dois.
     Irmos.
     
CAPTULO DEZASSETE
     Tromso, Noruega
     13 e 14 de Fevereiro
     
     Na tarde seguinte, chegmos a Tromso, na Noruega, uma pitoresca cidade costeira localizada 480 quilmetros a norte do Crculo Polar rctico. Devido  latitude, 
o cu j apresentava um tom azul bastante escuro, mas a temperatura surpreendeu-me: estava fresco, no propriamente frio. Apenas a 16O quilmetros do Plo Norte, 
as guas costeiras so aquecidas pela Corrente do Golfo, tornando os invernos mais suaves do que em cidades norueguesas situadas mais a sul.
     Entrmos no autocarro e atravessmos a cidade. Tromso situa-se entre montanhas e tudo se encontrava coberto por uma camada de neve, o que fazia a cidade assemelhar-se 
a um carto natalcio de boas-festas. O cu j estava totalmente negro quando chegmos ao hotel. No meu relgio ainda no eram 16 horas.
     Logo que tratmos dos pormenores da entrada, dirigi-me ao computador do hotel para mandar um e-mail  Cathy, uma coisa que fazia com regularidade. Devido s 
diferenas de fusos horrios, muitas vezes aquele era o meio mais expedito de contactarmos. Redigi uma carta, pondo-a ao corrente do que tinha andado a fazer. Depois, 
apesar das montanhas e da cobertura de nuvens baixas, que talvez limitassem o uso do telefone de satlite que trazia comigo, tentei cham-la pelo telefone e encontrei-a 
em casa. Nas trs ltimas semanas tnhamos falado ao telefone menos de uma dezenas de vezes e quase sempre conseguamos falar apenas uns minutos. Embora a Cat soubesse 
que ia passar um mau bocado durante a minha ausncia, no penso que qualquer de ns pudesse realmente prever quanto ia ser difcil. Notei a exausto na voz dela; 
pareceu-me completamente arrasada.
     Quando regressei ao quarto, o Micah estava deitado em cima da
     cama, a ler, e ergueu os olhos para mim.
     - Fizeste uma grande ausncia.
     - Oh - respondi. - Estive a falar com a Cat.
     - Como  que ela est? Ansiosa por te ver em casa?
     - Podes diz-lo. Tem sido horrvel, desde que ando em viagem.
     - Como assim?
     - Esteve doente e os midos estiveram doentes. Praticamente
     desde o momento em que parti.
     - A srio?
     - Entre os cinco filhos e ela, a Cat teve de lidar com sete constipaes, cinco gripes e trs sinusites. Durante as ltimas trs semanas,
     em qualquer momento, havia trs crianas doentes, cada uma delas a
     gemer e a gritar. E apesar de tudo, levou os filhos a esquiar. Fizeram
     sete horas de carro para l chegar.
     Olhou-me, espantado.
     - Sete horas? Num carro com midos doentes?
     - Inacreditvel.
     - Nem consigo imaginar uma situao dessas - reflectiu Micah. - Ficou uns momentos em silncio. - Quero crer que no estava com a melhor das disposies, pois 
no?
     - Na realidade, pareceu-me bem-disposta.
     - A tua mulher  maluca. No bom sentido, entenda-se. Mas 
     totalmente maluca. Detesto ouvir as lamrias das crianas. Parecem-me unhas a arranhar um quadro de ardsia.
     O Micah abanou a cabea, antes de sorrir:
     - Que vergonha! Andares em viagem  volta do mundo, no
     estares l para dar uma ajuda.
     - Pois, uma vergonha, sem dvida.
     - Se soubesses o que ia acontecer, no ?
     - Exactamente. Provavelmente no tinha partido.
     Soltou uma gargalhada.
     - Disseste-lhe para arranjar as coisas de maneira a que estejam
     todos bem quando chegares a casa?
     - No quero que ela me mate.
     Voltou a rir-se.
     - A Christine tambm era capaz de me matar. Dentro de semanas vo de frias? S os dois, no ?
     Assenti.
     - Pois. Vamos passar uns dias a descansar na praia.
     - J sabes que  ela quem vai decidir tudo durante essas frias.
     - Oh,  claro que sei. J estou preparado.
     - Tudo, at o pormenor mais insignificante - acrescentou enfaticamente. - Em vez de mergulhar, vais passar horas a vaguear pelas lojas,  procura de roupas 
para as crianas. E ela vai perguntar-te se preferes a camisa com o coelhinho cor-de-rosa ou com o pato amarelo; e tens de agir como se estivesses a pensar profundamente 
no assunto.
     - Eu sei.
     - E tens de a tratar como uma rainha e fingir que ests a divertir-te.
     - Eu sei.
     - De facto, vais ter de te rebaixar um bocado.
     Encolhi os ombros:
     - J sei, acredita. Mas  justo.
     Ele sorriu.
     - As transaces a que somos obrigados. Ento, o casamento no  fantstico?
     
     No final da tarde, conduziram-nos numa gndola at ao sop de um dos montes que rodeiam Tromso.
     L no cimo, percorremos o caminho que leva a um pavilho, onde nos serviram um cocktail. Como as janelas ocupavam duas das paredes podamos ver as luzes de 
Troms a piscar na escurido. L fora estava a nevar. Parecia difcil de crer que poucos dias antes andvamos a transpirar em pases como a Etipia, a ndia e o Camboja.
     Era a antepenltima noite da viagem e as pessoas tinham comeado a trocar endereos e nmeros de telefone. Toda a gente se sentia cansada mas alegre; custava 
a crer que a nossa viagem estava praticamente no fim.
     Em vez de nos misturarmos, o Micah e eu fomos sentar-nos junto da janela. Estvamos pensativos e, ao olharmos a neve que caa, falmos do que havamos visto, 
dos lugares onde tnhamos estado. Falmos dos lugares que tencionvamos visitar de novo (ambos colocvamos Machu Picchu no topo das nossas listas) e de como estvamos 
ambos ansiosos por ver de novo a famlia.
     A certa altura, o Micah olhou de frente para mim.
     - Como  que est o Ryan?
     - Est bem. No ltimo boletim, tinha dois "B" e o resto eram *A*.
     - E est na terceira classe?        
     - Est.        
     - E agora, j tem mais amigos?        
     - Est numa turma excelente - respondi, - e anda com o mesmo grupo desde o jardim-infantil. Os outros garotos habituaram-se a ele. E gostam dele.  agradvel. 
E tambm engraado; se perguntares aos outros midos como  que o Ryan se comporta, respondem-te que ele  o aluno mais inteligente da turma.
     - J consegue brincar como os outros rapazes?
     - Est a melhorar. Em termos de sociabilidade, ainda se mantm um pouco atrasado e continua a revelar pequenas dificuldades em conversas normais.  excelente 
se lhe falares de coisas que o interessam, mas ainda no  muito bom em conversas de circunstncia. No entanto, acho que isso acontece um pouco por ele ser tmido. 
No sei se  tmido devido aos seus problemas, ou se  tmido por natureza. Essa  uma das questes ainda sem resposta.
     - Tu e a Cat percorreram um longo caminho com ele.  espantoso como ele progrediu. De cada vez que o vejo, noto que nunca pra de melhorar.
     - Obrigado. Sei que percorreu um longo caminho mas, para te ser franco, por vezes  doloroso recordar como ele esteve mal. Mantemo-nos focados no futuro: tentamos 
trabalhar a conversao, a interpretao da leitura, coisas do gnero.  frustrante. Temos de estar sempre em busca de novas formas de chegarmos at ele, no podemos 
limitar-nos a dar-lhe ordens ou instrues.
     - Nick, ele melhorou muito. O que tu e a Cat fizeram  espantoso. Sem favor nenhum.
     - Obrigado - repeti.
     - Alguma vez descobriste qual era o problema dele?
     Abanei a cabea.
     - No. Temos algumas ideias, mas nunca teremos a certeza. A Cat pensa que teve apenas um problema de compreenso dos sons, mas eu no tenho a certeza. Li tudo 
acerca desse distrbio e, se o Ryan sofreu disso, ento o seu caso foi o mais grave entre todos os que encontrei. Penso que essa deve ter sido uma parte do problema, 
mas acho que houve mais qualquer coisa. Penso que era tambm autista. Porm, como te disse, no penso que alguma vez venhamos a ter a certeza.
     Respirei fundo.
     - Mas vamos continuar a trabalhar e ele vai continuar a melhorar. No final, penso que lhe ser possvel fazer uma vida normal. Julgo que ir para a universidade 
e far asneiras como ns todos fizemos. Est perto. Ainda no chegou l, mas est perto. E ns no estamos dispostos a desistir. No entanto, s vezes...
     Hesitei. O Micah ficou a olhar para mim.
     - O que ?
     - Por vezes ponho-me a pensar nas razes de termos um filho como o Ryan. J tnhamos tantos problemas, com a me, o pai e a Dana. Demasiados, como sabes. Foi 
to difcil. Como se eu no tivesse obstculos suficientes para ultrapassar, Deus deu-me mais um. Sabes o que  que no me canso de dizer ao Ryan?
     O        Micah olhou-me, de testa franzida.
     - Digo ao Ryan que Deus lhe deu um irmo como o Miles para ele saber que tudo  possvel e que pode ser bom em tudo. E digo ao Miles que Deus lhe deu um irmo 
como o Ryan para que ele, Miles, aprendesse que temos de ter pacincia e persistncia para conseguirmos superar os obstculos.
     O        Micah sorriu.
     -  bonito.
     Encolhi os ombros. Recebera uma boa lio, mas preferia no ter
     tido a necessidade de dizer tudo aquilo.
     O        meu irmo ps-me a mo num ombro.
     - Eu sei por que motivo Deus deu o Ryan a ti e  Cat.
     - Ai sabes?
     - Sei.
     - Por que foi? Por pretender pr a minha f  prova?
     - No - respondeu calmamente. - Foi porque nem todos os pais fariam o que vocs fizeram. Deu-vos o Ryan por saber que ambos eram inteligentes e tinham fora 
suficiente para o ajudar. Com outros pais, o Ryan estaria perdido.
     Ficmos sentados, em silncio, durante muito tempo. A dana dos flocos de neve tinha um efeito hipntico, a neve comeara a acumular-se nos peitoris das janelas. 
Pensei no Ryan, nos seus combates, em tudo o que ele tinha sofrido. Era evidente, tinha melhorado graas ao trabalho da Cat e ao meu. E tambm era verdade que encarava 
o futuro dele com confiana. Mas, logo de seguida, e a despeito de todos aqueles pensamentos, senti um aperto na garganta e, para vos ser franco, no soube de onde 
ele tinha vindo.
     
     O nosso sero no pavilho acabou relativamente cedo, pelo que eu e o Micah desafimos alguns dos viajantes a acompanharem-nos numa visita a um bar de Tromso. 
A propsito, devo dizer que h muitos. Quando a escurido ocupa dezoito horas do dia, no h muito mais que fazer se a pessoa quer passar algum tempo na companhia 
dos amigos. E depressa descobrimos que os Noruegueses so as pessoas mais hospitaleiras do mundo. Logo que encontrmos uma mesa, osnaturais da terra juntaram-se 
 nossa volta, a ouvir-nos falar da viagem. Indagaram os nossos nomes e quiseram saber pormenores das nossas vidas, alm de nos perguntarem se gostvamos da cidade 
deles. Ofereceram-nos bebidas e, muito excitados, informaram-nos de que naquela noite haveria uma sesso de karaoke. Alguns noruegueses tomam aquelas sesses muito 
a srio e, pouco a pouco, o bar foi ficando cheio de pessoas que vinham ali s para cantar. E eu a pensar que o karaoke j estava fora de moda. Estou desactualizado.
     Ora bem, nunca tinha cantado karaoke. Nem quisera, especialmente por ser um pssimo cantor. O Micah tambm no sabe cantar. E, conforme viemos a saber, o mesmo 
acontecia com todos os nossos companheiros de viagem.
     Mas cantmos e, pouco a pouco, comeou a agradar-nos a ideia de cantar para aqueles noruegueses. Passmos microfone de mo em mo, rindo quando chegava a vez 
de outra pessoa cantar os versos seguintes. Fizemos o mesmo durante horas e considero aquele um dos melhores seres (juntamente com o de Ayers Rock) de toda a viagem. 
O bar possua uma enorme coleco de msica gravada, incluindo Coward of the County, de Kenny Rogers, o que nos fez rir, a mim e ao Micah. Devia ser sina nossa e 
berrmos a cano com a voz mais alta que conseguimos. Tambm cantmos Greased Lightning, do filme a Febre de Sbado  Noite; cantmos e danmos com exuberncia 
excessivas, fazendo o possvel para esconder que estvamos fora do compasso. Mexamo-nos como o John Travolta, como profissionais da Broadway, como se tivssemos 
danado durante toda a nossa vida; e no final, a assistncia bateu palmas, assobiou e aplaudiu. Mais tarde, quando perguntmos a um dos nossos companheiros de viagem 
o que realmente ele pensava da nossa actuao, houve uma curta pausa, antes de nos responder:
     - Lembram-se daqueles macacos da Guatemala, que guinchavam? Foram parecidos com eles.
     Como j disse, tudo somado, foi uma noite fabulosa.
     
     A noitada fez com que sentssemos alguma dificuldade para nos levantarmos cedo na manh seguinte. Estvamos cansados e passmos a manh no museu de Tromso.
     Foram-nos ali servidas longas dissertaes sobre potes e tigelas.
     
     Depois do museu, levaram-nos para o campo para andarmos de tren. Viam-se morros e rvores em todas as direces; mais longe, os picos nevados encontravam-se 
parcialmente escondidos pelas nuvens.
     O tempo estava fresco e vestimos fatos para a neve por cima das nossas roupas. Para chegarmos aos trens tnhamos de descer um morro pouco elevado e foi-nos 
dada a possibilidade de escolhermos entre ir a p ou descer por dentro de um tubo.
     A maioria das pessoas optou por ir a p. O Micah e eu aproveitmos o interior do tubo. Descemos umas quinze vezes.
     Montmos nos trens, em grupos de trs: eu e o Micah fomos acompanhados pela Jill, a mdica, e enquanto espervamos fomos conhecer os ces. Eram huskies, mas 
mais pequenos do que eu imaginara; eram animais com cerca de 25 quilos. E tambm se mostraram meigos, pareceram gostar de receber as nossas palmadinhas e retriburam 
as carcias, lambendo os nossos fatos da neve.
     A nossa condutora, uma mulher de meia-idade, j conseguira um quinto lugar na corrida Iditarod de trens; alm de ser proprietria da maior parte da terra  
nossa volta, tambm fora ela quem treinara os ces. O aluguer de trens permitia-lhe exercitar os ces todos os dias. E os animais adoravam o exerccio.
     Logo que a condutora subiu para o tren, os ces ficaram desassossegados e comearam a ladrar; suponho que estavam  espera que a condutora gritasse "Mush!" 
mas, em vez disso e num tom no mais alto do que o usado numa conversa comum, limitou-se a dizer qualquer coisa que me soou como "Het". Os ces comearam a puxar 
e o tren arrancou, com os animais a trotar l  frente e a olharem para os lados.
     H umas coisas sobre as viagens de tren que devemos saber. Primeiro, o tren  lento, salta muito e  duro na parte traseira. Segundo, vamos sentados de maneira 
a sentir o mais ligeiro relevo do percurso. E, finalmente, afirmar que se andou de tren, na Noruega, com uma equipa que j competiu na corrida Iditarod  bem mais 
interessante do que a prpria viagem.
     Mas, ateno, ns andmos de tren. E tambm fizemos muitas fotografias. E agora, quando dou uma festa, posso fazer afirmaes deste teor:
     "Pois, lembro-me de uma vez em que viajei de tren nos Alpes Noruegueses... a treinar a equipa para a corrida Iditarod... trabalho duro... com a neve a danar-me 
diante dos olhos... o meu co dianteiro a coxear mas continuando a puxar alegremente... os msculos do rosto insensveis devido ao frio... e recordo-me de ter pensado...
     Lembro-me de um dia em que ia montado num elefante a caminho do antigo Forte Ambarino, em Jaipur... o calor a massacrar-me... o elefante a ficar cansado com 
a subida de um ltimo morro...
     Depois de andarmos de tren, juntmo-nos aos nossos companheiros dentro de uma tenda feita de peles; l dentro, serviram-nos um guisado de rena que fora cozinhado 
numa fogueira ao ar livre. Havia muito fumo dentro da tenda, mas estava calor e a comida era uma tentao, especialmente depois da manh que tnhamos passado.
     
     Infelizmente, fomos informados de que, devido  cobertura cada vez mais espessa de nuvens, a possibilidade de vermos uma aurora boreal era igual a zero; efectivamente, 
soubemos depois, as luzes do Norte tinham sido raras durante todo o Inverno. A possibilidade de as vermos tinha sido o motivo principal da nossa visita a Tromso, 
pelo que o Micah e eu nos sentimos muito desapontados.
     Em alternativa, poderamos visitar outro museu, mas, naquela altura da viagem, tanto eu como o meu irmo nos sentamos saturados de museus. Em vez de irmos 
ao museu, passmos o resto da tarde a vaguear pelas ruas da cidade de Tromso, a conversar e a ver as paisagens.
     - Alguma vez te interrogaste sobre as razes por que as coisas aconteceram daquela maneira? - indagou Micah, sem motivo aparente.
     - Sempre - respondi, pois sabia exactamente s coisas a que ele estava a referir-se.
     - Na sua maioria, os meus amigos ainda no perderam nenhum ente querido.
     - Com os meus acontece o mesmo. E tambm com a Cat.
     - Porqu?
     - Quem sabe? Bem gostaria de te poder elucidar, mas no sei.
     O Micah mergulhou as mos nas algibeiras.
     - J reparaste que as pessoas agora vem em ns uns especialistas que sabem lidar com a morte? Quero dizer, sempre que um amigo tem algum a morrer, nunca deixa 
de me telefonar. Tambm est a acontecer contigo?
     - Sempre - respondi.
     - O que  que lhes dizes?
     - Depende.
     - Eu nunca sei o que hei-de dizer-lhes. Isto , no h nada que se possa dizer para fazer parar o sofrimento de uma pessoa. Em metade das ocasies, s me apetece 
dizer-lhes a verdade. Dizer-lhes que, durante trs meses, vo sentir-se mal, pior do que alguma vez se sentiram, e tm de aguentar o melhor que puderem. E que passados 
seis meses a dor j no  to intensa, mas ainda mais forte do que pensaramos que pudesse ser. E que, anos mais tarde, ainda damos connosco a pensar na pessoa que 
perdemos e que, sempre que tal acontece, nos sentimos tristes. E que continuamos, sempre, a sentir a falta de quem partiu.
     - Por que  que no lhes dizes isso?
     - Por no ser o que as pessoas querem ouvir. Querem ouvir dizer que tudo se vai compor. Que a dor desaparecer. Mas no desaparece. Nunca. E no podes dizer 
uma coisa dessas quando a pessoa tem uma ferida ainda recente. Seria como pr-lhe sal na ferida; e no podes fazer isso s pessoas. Portanto, em vez da verdade, 
acabas por lhes dizer o que querem ouvir.
     Fez uma pausa, antes de perguntar:
     - O que  que todas aquelas perdas te ensinaram?
     - Que di, mas tens de prosseguir, haja o que houver.
     - Foi tambm o que eu aprendi. Mas, sabes, gostaria de o ter
     aprendido numa idade mais avanada.
     - Tambm eu.
     - Sabes o que aprendi alm disso? - perguntou o Micah.
     - O que foi?
     - O sofrimento  crescente. As mortes da me e do pai foram muito dolorosas, mas a dor foi a que se sente ao perder ambos os pais de uma vez; no  um sofrimento 
multiplicado por dois,  multiplicado por um factor exponencial. E depois, quando perdemos a Dana... no sentimos apenas que perdemos trs pessoas que amvamos. 
Foi como se tivssemos perdido tudo.
     O Micah abanou a cabea, antes de prosseguir.
     - Depois de um choque daqueles... bem, mesmo que tentes ultrapassar o desgosto, e  superfcie tudo pode parecer bem, no fundo ests destroado, mas nem sequer 
te apercebes disso. E, por vezes,  preciso tempo para nos apercebermos de que ainda estamos a lutar contra tudo o que nos aconteceu.
     Assentei-lhe uma palmadinha num ombro.
     - Ests outra vez a falar de mim?
     - No, no estou a referir-me apenas a ti. Estou tambm a falar de mim. Como tu disseste, acontece apenas que reagimos de maneiras diferentes perante a perda.
     
     O Micah modificou-se depois da morte da nossa irm.
     De repente, foi como se se tornasse intimamente consciente da fragilidade da vida e de quanto o tempo era realmente um bem precioso. Por conseguinte, entregou-se 
a um esforo consciente de simplificar a sua vida, com o objectivo de eliminar todo o stress desnecessrio. Ao deixar de estar interessado naquilo que a sociedade 
define por sucesso, comeou a afastar-se dos bens materiais. A vida, decidiu, era para ser vivida, no estava vivo para ter coisas, e pretendia desfrutar todos os 
momentos que ela lhe proporcionasse. No mais profundo do ser, apercebera-se de que a vida poderia terminar a qualquer momento e que era prefervel estar feliz a 
estar atarefado.
     Comeou a vender coisas, a libertar-se da confuso. Num par de meses vendeu as duas empresas e converteu o investimento em dinheiro. Vendeu o barco e o jipe. 
Voltou a dedicar-se  famlia e, quando me telefonava, explicava assim os seus motivos:
     - Quanto mais possuis, mais s possudo, e estou farto disso. Estou farto de ter de tomar conta de tudo. Estou farto de ver as coisas avariarem-se e de ter 
de as reparar. Tudo isso cansa e, para te ser franco, estou a conceder um perodo de descanso a mim mesmo.
     No fim, conservou apenas o essencial: a casa, o carro e a moblia. A venda das empresas deixou-o com dinheiro para acudir aos compromissos mensais - durante 
anos, se necessrio - e nos oito meses seguintes no fez nada que pudesse acrescentar presso  sua vida.
     De certa forma, voltou a ser o jovem que fora durante os anos de frequncia da universidade. Fez campismo e montanhismo, desceu os rpidos durante o Vero e 
logo que a neve comeou a cair nas montanhas, foi para l fazer snowboard. Fez uma viagem a Puerto Vallarta, com a Christine. Visitou o Cody e o Cole no rancho. 
Voltou a fazer exerccio regularmente e passou a disputar um campeonato de futebol de salo. Tambm decidiu encontrar-se comigo sempre que podia. Se eu tinha uma 
reunio em Los Angeles, o meu irmo voava para l e passava uns dias comigo. Quando, no Outono, a viagem de promoo me levou a Sacramento, acompanhou-me em todos 
os eventos promocionais. Em Dezembro, seis meses depois da morte da nossa irm, foi visitar-me  Carolina do Norte e levou a Christine e a enteada, a Alli; o Bob 
tambm foi e levou o Cody e o Cole. Juntmos as trs famlias numa viagem a Nova Iorque e estivemos no cimo do World Trade Center a admirar a paisagem, menos de 
nove meses antes de as torres terem sido transformadas em entulho.
     Trs semanas depois da nossa viagem a Nova Iorque, o Micah telefonou-me. Era o dia do meu aniversrio e, logo que atendi, comeou a cantar para mim, como a 
nossa irm sempre fizera.
     Ouvi, de olhos fechados, a recordar-me de tudo.
     - Parece-me que tenho de passar a fazer isto por ti - esclareceu,
     depois de terminar a cantiga. -  uma tradio, como sabes.
     - Obrigado, Micah.
     - No tens de qu, maninho.
     
     Houve outro domnio em que o meu irmo se modificou. Embora continuasse a frequentar a igreja, passou a faz-lo apenas
     esporadicamente, cada vez com menor frequncia. E nos dias em que
     l ia, ficava sentado, sem sentir nada.
     Com a morte da irm, o Micah perdeu a f.
     Tambm eu me tornara subitamente consciente da fragilidade da vida e de quanto o tempo era precioso. Porm, por muito parecido que fosse com o Micah, a minha 
reaco foi totalmente oposta.
     Como a vida poderia acabar a qualquer momento, comecei a crer que tinha de estar preparado para qualquer eventualidade. O meu objectivo passou a ser o bem-estar 
da minha famlia, qualquer que fosse o futuro que nos estava reservado. Como tinha objectivos, e os ponteiros do relgio no paravam de girar, tinha de me apressar 
para os atingir antes que ocorresse o impensvel. De sbito, percebi que no tinha um minuto a perder. Tinha de me apressar, de ter tudo pronto, de trabalhar. Tinha 
de continuar.
     Menos de duas semanas aps o funeral da minha irm, comecei a trabalhar no romance Uma Promessa Para Toda a Vida, uma histria inspirada no meu cunhado Bob. 
 a histria de uma jovem viva, com um filho; forcei-me a ficar sentado diante do computador, dias inteiros, at o terminar. Nesse Outono, tive de andar pela Europa 
e pelos Estados Unidos a promover Coraes em Silncio e, logo que terminaram as revises de Uma Promessa Para Toda a Vida, no incio de 2001, comecei a escrever 
Laos Que Perduram, o que haveria de ser o mais longo e o mais exigente livro que tinha escrito at quela altura. Pouco a pouco, o trabalho no romance comeou a 
consumir-me.
     Durante os onze anos mais recentes, habituara-me de tal maneira s presses que j no podia passar sem elas, cada vez arranjava mais. Em janeiro de 2001, descobrimos 
que a Cat estava novamente grvida; meses depois, soubemos que amos ter duas gmeas. Depois de termos trs rapazes, a ideia era verdadeiramente excitante e, considerando 
o sbito incremento no ritmo da nossa vida, esperar gmeas pareceu-me apropriado.
     Tornei-me mestre em horrios. Cada minuto do dia estava marcado no plano. No podia perder tempo, mesmo quando no estava a trabalhar, pois as minhas responsabilidades 
no se esgotavam no trabalho. Para conseguir fazer tudo, dividi a minha vida em pequenos compartimentos: se no estava a trabalhar, era pai, ou marido e concentrava-me 
nessas funes com a mesma intensidade com que escrevia. Procurava a aprovao da famlia com o mesmo empenho com que tinha procurado a ateno dos meus pais. No 
podia limitar-me a ser pai, tentei ser o superpai: treinava equipas de futebol, assistia a sesses de ginstica, ajudava nos trabalhos de casa, batia bolas e passava 
os fins-de-semana a andar de barco, a jogar bowling, a nadar e a caminhar para a praia. Continuei a trabalhar informalmente com o Ryan, pois ele deixara de precisar 
de ateno planeada, e todas as noites brincava com o Landon em cima da alcatifa da sala. Tentava ser o melhor marido, ajudava nos trabalhos de casa e fazia o que 
podia para namorar a minha mulher. De qualquer maneira, ainda arranjava tempo para conseguir um cinto negro em tae kwon do, para levantar pesos e para a corrida 
diria. Continuava a ler cem livros por ano.
     Dormia menos de cinco horas por noite.
     No entanto, nem todas as notcias eram ms. Na Primavera de 2001, atendi uma chamada e ouvi a voz excitada do Micah.
     - A Christine est grvida! - exclamou. - Acabmos de o saber.
     - Parabns. Quando  que o beb  esperado?
     - Em janeiro - informou. - Tal como o Landon. E as gmeas tero poucos meses quando ela nascer, pelo que podero divertir-se como primas quando forem mais crescidas. 
Quando  que nascem as gmeas?
     - Em finais de Agosto. Como  que a Christine est a reagir?
     - Muito bem, at agora. Nem sabia se estava grvida se no tivesse feito o teste.
     - Que maravilha! - exclamei, entusiasmado. - Mas deixa-me dizer-te que a tua vida vai sofrer uma reviravolta.
     - Eu sei. Estou ansioso que chegue o dia.
     - E ests preparado? Para ser pai?
     -  claro que estou preparado. Criei a Alli desde os dois anos de idade.
     -  a idade em que comeam a dar menos trabalho. Espera at teres um recm-nascido.  um mundo totalmente novo.
     - Tens alguns conselhos a dar-me? Como  a minha primeira vez e tu j s um especialista?
     - Tenho. Para o final da gravidez vejam todos os filmes que puderem.
     - Porqu?
     - Porque, pelo menos durante um ano, no vo ter oportunidade
     de ver qualquer outro filme.
     - Est bem, faremos isso. A Christine adora cinema.
     - Acredita no que te digo. Um beb implica a alterao radical
     do teu estilo de vida.
     - Est bem, est bem - respondeu o Micah.
     Quase sem querer, sorri para mim mesmo. Ele no tardaria a aprender.
     - Micah, escuta!
     - O que ?
     - Parabns, uma vez mais. Vai tudo mudar, mas  uma mudana para melhor.
     - Obrigado, maninho.
     Fez uma pausa.
     - Ah, s mais uma coisa. Foi a Cat quem me pediu para te dizer.
     - O que ?
     - No trabalhes tanto.
     - Passo a trabalhar menos quando voltares a frequentar a igreja.
     Rimo-nos ambos.
     - Uma notcia fantstica! - acrescentei. - Fico contente, por ti e pela Christine.
     - Eu tambm.
     
     No dei ouvidos ao meu irmo. Nem  minha mulher.
     No princpio do Vero de 2001, um ano depois da morte da minha irm, a Cat estava pesada devido  gravidez e eu tive de assumir ainda mais responsabilidades, 
pois ela no conseguia tratar do menino e dos filhos mais velhos. Para desempenhar aquelas tarefas adicionais tive de sacrificar mais algum do tempo dedicado ao 
sono. Durante aquele Vero, em mdia, dormi menos de trs horas por noite, e embora me sentisse a dormir em p quando saltava da cama, bebia uma chvena de caf 
e, logo de seguida, arremetia contra o novo dia.
     E assim continuei. Trabalhar. Tomar conta dos rapazes. Tomar conta do Landon. Arrumar a casa. Trabalho, trabalho, trabalho.
     Sem saber bem como, estava a conseguir fazer tudo. Mas um ritmo daqueles no era normal, no era realista. Algumas coisas teriam de ficar para trs e, no meu 
caso, no foi apenas o sono, foram tambm as pausas para descontraco durante o dia. Acabaram-se as manhs a preguiar na cama, os jogos de pquer com os amigos, 
os desportos vistos pela televiso. Ao almoo e ao jantar comia qualquer coisa, sempre a correr. Durante algum tempo, no me preocupei, pois o horrio transmitia-me 
a ideia de que estava a controlar a minha vida. S fazia aquilo que tinha de ser feito. Porm, o horrio tinha comeado a controlar-me. Pouco a pouco, deixei de 
saber descansar. Pior ainda: comecei a sentir que no tinha o direito de descansar.
     Havia sempre coisas por acabar. Havia sempre mais uma pgina para escrever, mais um romance para terminar, mais uma cidade para incluir numa viagem de promoo, 
mais uma entrevista a dar. Os meus filhos continuavam a exigir atenes, mesmo que no dia anterior tivesse passado muito tempo com eles. Havia sempre mais um trabalho 
por fazer em casa. No me sentia necessariamente infeliz - a monotonia nunca foi do meu agrado - e, em termos fsicos, o ritmo no estava a destruir-me. Mas acabaria 
por perceber que a falta de perodos de relaxamento no era boa para a minha sanidade mental e emocional. Comecei a acordar todos os dias com a sensao de estar 
atrasado. Apesar de todos os meus esforos, dei comigo a sentir que poderia falhar. Se, antes, fazia todas aquelas coisas porque assim o desejava, gradualmente comecei 
a sentir que as fazia porque a isso era obrigado, como se no pudesse proceder de outro modo.
     Agora compreendo isto. Na altura, no conseguia fazer a destrina entre a floresta e a rvore. Tudo o que sabia era que acordava com um doentio sentimento de 
exausto. Mal abria os olhos, recordava mentalmente tudo o que tinha para fazer, convencia-me de que para me desembaraar de tudo tinha de comear de imediato, naquele 
preciso momento, no me podia atrasar. A minha vida resumia-se a uma longa lista de tarefas e, em vez de abrandar e fazer o que podia, arregaava as mangas, cerrava 
os dentes e trabalhava ainda mais depressa.
     Porm, devo dizer, uma vez mais, que no me sentia infeliz com a situao. Tentava at fazer humor com ela. Continuava a ser capaz de rir. Por vezes, as pessoas 
notavam quanto eu parecia optimista ou a facilidade com que sorria. No entanto, lenta mas seguramente, a vida estava a transformar-se num moinho que eu no tinha 
maneira de fazer parar.
     
     Durante o Vero continuei a falar pelo telefone com o meu irmo. As nossas conversas, depois de trocarmos informaes sobre as gravidezes das nossas mulheres, 
corria quase sempre assim:
     - O que  que se passa? - perguntava ele para, logo de seguida, eu desafiar o rosrio de todas as tarefas que me esperavam. Quando eu acabava, o Micah ficaria 
calado por uns momentos.
     - Sendo assim, quando  que dormes? - perguntava.
     - Sempre que posso - respondia eu, com uma estranha sensao de orgulho, como se estivesse a descrever as minhas admirveis qualidades.
     - Que estupidez - atalhava ele. - Tens de dormir. Tens de arranjar tempo para ti. Se no o fizeres, vais ficar maluco. Ainda no conseguiste aprender a importncia 
do equilbrio? A vida  uma procura constante de equilbrios e, de momento, a tua vida est totalmente descontrolada.
     - Vai correr tudo bem.
     - Pois, mas pareces exausto.
     - S atarefado. Estou ptimo; a srio. E contigo, o que  que se
     passa?
     - Vivo a minha vida. Levanto-me quando quero e passo os olhos pelo jornal. Depois, fao exerccio durante algum tempo, tomo um duche por volta do meio-dia e 
s ento decido o que vou fazer de seguida.
     - Deve ser agradvel.
     - Podias fazer o mesmo. Cada um escolhe o seu gnero de vida.
     - Nem sempre - redarguia. - Por vezes, as responsabilidades barram-nos o caminho. Eu podia, sem dvida, ignor-las, mas no seria uma boa deciso para a minha 
famlia.
     - A tua famlia passar perfeitamente. S ests a arranjar desculpas. Vais ficar maluco se continuares a agir assim.
     Eu no era da mesma opinio. Sabia, contudo, que no valia a pena argumentar com ele.
     - J chega de falar de mim. Como  que tu ests?
     - Na mesma.
     - J voltaste a frequentar a igreja?
     - Na realidade, ainda no.
     - O que  que a Christine pensa disso?
     - O mesmo. No est muito satisfeita.
     - Nesse caso, no achas que devias voltar? S para lhe fazeres a
     vontade?
     - Nick, a igreja frequenta-se por vontade prpria. Se l vais s para agradar a outra pessoa, o gesto perde todo o significado.
     - Ento vai por ti.
     - Nesta altura, no estou com disposio. No tenho nada contra as idas  igreja, mas quando l vou no consigo qualquer resultado. Sinto-me um hipcrita e 
fico para ali sentado.
     - Podias aproveitar o tempo para rezar.
     - J tentei rezar. Rezei pela Dana todos os dias, mas ela morreu
     na mesma. A orao no serve de nada.
     Concordvamos que tnhamos atingido um beco sem sada; depois,
     o Micah pigarreava para aclarar a voz:
     - Como  que est o Ryan?
     
     No incio de Agosto de 2001, provou-se que o meu irmo tinha acertado.
     Noites sucessivas em que me permitia apenas trs horas de sono tinham-me deixado exausto e, finalmente, houve qualquer coisa dentro de mim que cedeu. Tudo aconteceu 
de repente. Acordei com uma sensao de ansiedade como nunca tinha experimentado. No conseguia concentrar-me e, de sbito, pela primeira vez depois de a minha irm 
ter morrido, comecei a chorar. E chorei, sem conseguir parar. A Cat, ento a aproximar-se da vigsima quinta semana de gravidez, abriu-me os braos e obrigou a que 
me sentasse.
     - Precisas de frias - alvitrou. - Vai para a praia durante uns dias. Eu fico bem.
     - Pois... est bem.., deixa-me preparar as minhas coisas...
     A Cat ps a mo em cima do computador.
     - Isto fica aqui - decidiu. - Quero que descanses. Ds uns grandes passeios ao longo da praia, dormes. No fazes absolutamente nada durante uns dias.
     Na primeira noite, dormi dezassete horas seguidas. Quando acordei, li um pouco e voltei a dormir mais nove horas.
     
     O Micah ligou-me alguns dias mais tarde.
     - Ouvi falar no teu ligeiro esgotamento - comeou. - Eu avisei-te do que ia suceder.
     - Tinhas razo.
     - E agora, como  que te sentes?
     - Estou melhor. Acho que estava apenas cansado e que precisava
     de dormir.
     - Pois eu acho que precisas de aprender a andar mais devagar.
     - Como tu?
     - Eh! - exclamou. - Quem caiu no fui eu. E, na verdade,
     penso que estou pronto para voltar a trabalhar. Vou montar outra
     empresa.
     - Para fazeres o qu?
     - O mesmo - admitiu. - Fabrico de armrios para garagens.
     - Vai fazer-te bem.
     - Pois, j estou entusiasmado e, com a Christine grvida, est na altura. Alm disso, nos ltimos tempos tenho sentido um certo aborrecimento. Todos os meus 
amigos trabalham. Ningum tem tempo para se divertir um bocado.
     Mesmo sem querer, soltei uma gargalhada:
     - Imagino!
     
     No Outono de 2001, a despeito da lio que deveria ter aprendido, atirei-me de novo ao trabalho, como por vingana. Se tal era possvel, trabalhei ainda com 
maior frenesim.
     A Savannah e a Lexie nasceram a 23 de Agosto; a Lexie Danielle foi assim chamada em honra da minha irm. Enquanto a minha mulher se encarregava de recuperar 
e de tratar das gmeas, tomei os outros trs filhos a meu cargo, mais a manuteno da casa, ao mesmo tempo que me esforava por terminar o romance. Um ms depois, 
voltei  estrada e andei pelo pas a promover Uma Promessa Para Toda a Vida. De qualquer modo, com duas gmeas, um rapaz de colo e dois filhos mais velhos, a minha 
mulher conseguiu manter a casa a funcionar calmamente.
     Contudo, tal como dantes, aconteceu mais qualquer coisa. Acontecia sempre mais qualquer coisa.
     A Lexie nascera com um pequeno hemangioma, uma acumulao de vasos sanguneos nos tecidos moles por debaixo do queixo. Na altura do nascimento era do tamanho 
da borracha de apagar de um lpis; quando eu iniciei a viagem de promoo de Uma Promessa Para Toda a Vida j era uma massa bulbosa e arroxeada que, em comparao, 
fazia parecer pequeno o queixo.
     Rompeu-se enquanto eu andava em viagem. Estava a telefonar para casa quando, de sbito, a Cat soltou um grito:
     - Tenho de desligar! A Lexie tem sangue no queixo!
     A Lexie tinha apenas sete meses quando foi levada para a sala de operaes; nessa mesma noite autografei livros para oitocentas pessoas, a odiar-me durante 
todo o tempo por no estar junto da minha famlia.
     Apesar de tudo, continuei a trabalhar como um demnio. Acabei a primeira verso de Laos Que Perduram quando estava em Jackson, no Mississipi e, logo que regressei 
a casa, escrevi o guio para um filme baseado no mesmo romance. Depois, compus um texto para a web, que continha mais palavras do que o meu primeiro romance. Nos 
meus tempos livres comecei a trabalhar num programa piloto de televiso, baseado em Coraes em Silncio, para a CBS; acordei ser o produtor-executivo no caso de 
a estao decidir produzir a srie. Mais tarde, em finais de 2001, tive notcias do meu editor.
     Foi-me anunciado que Laos Que Perduram carecia de uma profunda reviso - que me obrigaria a escrever de novo toda a segunda metade do livro - e nem me passava 
pela cabea recomear o romance. No entanto, com a aproximao do prazo limite, precisava de um romance para o Outono que estava a chegar. Em vez de escrever de 
novo o romance, comecei a trabalhar em O Sorriso das Estrelas, que seria publicado no Outono, em vez do outro. Com o acordo da empresa editora, decidi que Laos 
Que Perduram seria publicado na Primavera de 2003 e que o romance s iria ser revisto depois de eu terminar O Sorriso das Estrelas. Embora muito pressionado pelo 
tempo, pois o romance teria de estar terminado em Abril, tinha outras coisas para fazer; teria, nomeadamente, de escrever um terceiro romance nesse ano, imediatamente 
depois de terminar Laos Que perduram, para estar pronto no Outono de 2003. Foi-lhe atribudo um ttulo provisrio:
     A Alquimia do Amor.
     Por outras palavras, tudo se conjugava para que o ano de 2002 fosse ainda mais cansativo do que o anterior. No s por que tinha cinco filhos e uma esposa, 
a quem era obrigado a dar tempo e ateno, mas tambm por que, para fazer tudo aquilo a que me comprometera, teria de trabalhar mais e com maior rapidez do que nunca. 
E mesmo que o conseguisse, no havia a certeza de poder ter tudo pronto antes do final do ano.
     O que, na altura, tambm deixara de ter importncia. Tinha adquirido tal embalagem, que j no sabia como parar. Em vez de ser apreciada, a vida tornara-se 
algo que tinha de ser conquistado e, mesmo que desejasse mudar, no saberia como. Contudo, mesmo ento, julgo que no meu subconsciente desejava restabelecer o equilbrio 
da minha vida, um objectivo que s o Micah me poderia ajudar a atingir.
     E, como se as minhas preces acabassem por ter sido ouvidas, foi por essa altura que a brochura da excurso me chegou s mos.
     
EPLOGO
     A Caminho de Casa Sbado, 15 de Fevereiro
     
     Na ltima noite passada em Troms ofereceram-nos um jantar de despedida. Devamos partir logo pela manh e, devido a uma paragem de duas horas em Londres, gastaramos 
quase quinze horas na viagem para casa.
     A atmosfera na cabina do avio alternava entre a exuberncia e a calma. As pessoas juntavam-se nas coxias e continuavam a trocar nmeros de telefone e endereos 
de correio electrnico. O Micah e eu tambm fizemos as nossas despedidas; logo depois da chegada e da passagem pela alfndega, cada pessoa tomaria um rumo diferente 
para apanhar o seu voo de regresso a casa.
     Mais tarde, enquanto o Micah dormia, eu continuei a observar as nuvens que passavam por baixo de ns.
     No tinha a certeza do que sentia. Em parte, estava triste por a nossa aventura ter chegado ao fim; mas tambm me sentia excitado ante a perspectiva de ver 
a minha mulher e os midos. A Cat e eu amvamo-nos desde a terceira semana de Maro de 1988 e o que sentia por ela ainda se fortalecera mais com a passagem dos anos. 
Como poderia ser de outra maneira? Estvamos casados apenas h seis semanas quando se deu a primeira catstrofe e foi ela quem me apoiou durante as primeiras noites 
de desgosto, quando tudo me parecia mais difcil de suportar. E, depois disso, nunca mais deixou de me apoiar. Por mais dura que a minha vida tenha sido, por mais 
dolorosa, sei que, em muitos aspectos, tenho sido um homem de sorte. A prova disso est na minha mulher e nos meus filhos. E ainda hoje, quando fao as minhas oraes 
nocturnas, agradeo a Deus todas as bnos da minha vida.
     Julgo que, no fundo, sou um optimista, tal como a minha me foi.  certo que sou um optimista que por vezes se preocupa demasiado ou trabalha de mais, mas no 
deixo de ser um optimista. Nos momentos em que me sinto triste pela perda dos meus pais e da minha irm, descubro que, se observar de perto os meus filhos, vejo 
pedaos do meu prprio passado. Quando eu estava a crescer, a minha famlia comportava cinco pessoas; trs machos e duas fmeas. Entre os meus filhos, os nmeros 
so exactamente os mesmos, o que leva a perceber que,  medida que os ecos das vozes da minha antiga famlia se desvanecerem com a passagem do tempo, sero substitudos 
pelos sons alegres destas crianas felizes. Como a demonstrar-me que o ciclo da vida no se interrompeu.
     As lies que os meus pais me ensinaram continuam a ser-me teis. Os meus filhos desfrutam de menos liberdade do que a concedida pelos meus pais, mas no  
raro dar comigo a fazer e a dizer as mesmas coisas que eles faziam e diziam. A minha me, por exemplo, vinha sempre alegre quando regressava do emprego; eu tento 
comportar-me da mesma maneira quando dou por terminado o meu trabalho do dia. O meu pai ouvia-me com toda a ateno quando lhe levava um problema e ajudava-me a 
encontrar a maneira de ser eu a resolv-lo; tento fazer o mesmo com os meus filhos.  noite, enquanto estou a met-los na cama, peo-lhes que me descrevam trs gestos 
simpticos que cada irmo lhes fez durante esse dia, na esperana de que, quando crescerem, venham a tornar-se to amigos como eu, o Micah e a Dana. E muitas mais 
vezes do que eu gostaria de admitir quando estava a crescer, dou comigo a dizer aos meus filhos: "a vida  tua", ou "nunca foi dito que a vida  justa", e "o que 
se deseja e o que se consegue obter so quase sempre duas coisas inteiramente distintas". Depois de proferir estas sentenas, viro a cara, tento esconder o sorriso 
e fico a imaginar o que os meus pais poderiam pensar se assistissem  cena.
     Contudo, nada  fcil quando penso na Dana. A morte dela lanou-me numa espcie de vrtice, de onde se leva anos a sair. A Dana era demasiado jovem, demasiado 
bondosa, demasiado amiga para eu poder aceitar a sua partida. Mas a minha irm ensinou-me bem. Foi a nica pessoa da famlia que nunca se deixou vencer pela doena 
e eu tenho tentado seguir-lhe o exemplo. Apesar do medo, viveu plenamente a vida; sorriu e riu at ao fim. Sabem, a minha irm sempre foi a mais forte de ns todos.
     
     - Em que  que ests a pensar? - indagou o Micah, depois de acordar e se espreguiar.
     - Em tudo - respondi. - Na viagem. Na famlia. Na Cat e nos midos.
     - Pensaste em trabalho?
     Abanei a cabea.
     - Na verdade, no pensei.
     - Mas, mal chegues a casa, vais mergulhar de cabea, no  assim?
     - Julgo que no. Penso que, antes de mais, preciso de estar com a famlia.
     O Micah tocou-me com o cotovelo:
     - Parece que ests a progredir. Tens melhor aspecto. No te
     mostras to carrancudo como quando comemos. Na realidade, ests
     com um ar... descontrado.
     - Estou descontrado. Mas, e tu? Tambm melhoraste?
     - No sei do que  que ests a falar. Para comear, no tinha
     quaisquer problemas.
     Fiz um ar zombeteiro.
     - Deve ser agradvel ser como tu.
     - Oh, claro que . A Christine  uma senhora cheia de sorte por ter um tipo como eu a pairar  volta dela.
     Soltei uma gargalhada.
     - Ento, qual  o teu programa para quando chegares a casa?
     - Oh,  o habitual. Ver a mulher, ver os filhos - resumiu, encolhendo os ombros. - Como tenho a certeza de que amanh a Christine vai  igreja, acho que terei 
de a acompanhar.
     Arqueei uma sobrancelha mas no disse nada.
     - O que foi? - inquiriu.
     Abanei a cabea, incapaz de esconder o sorriso de troa.
     - No disse nada.
     - Escuta, no vou  igreja por causa de qualquer coisa que tenha aprendido durante a viagem. Ou devido a qualquer coisa que me tenhas dito. No s assim to 
esperto, maninho.
     - Isso sei eu.
     - Estou a falar a srio.
     - Eu sei.
     - No olhes para mim dessa maneira.
     - Qual maneira?
     - Com essa cara. Eu nunca abandonei totalmente a igreja. Continuei a ir l, uma vez por outra. Vou apenas por me parecer que  bom para os midos verem-me l. 
Ensina-lhes a lio correcta: a de que somos peas do plano de Deus. A mam fez isso por ns e v o resultado que deu.
     - Hum! - exclamei. E continuei a sorrir.
     - Ests a ser mauzinho.
     Mantive o meu sorriso afectado:
     - Sim, eu sei.
     
     Perguntam-nos com certa frequncia como  que mantivemos as nossas ocupaes - e at conseguimos ser bem sucedidos, de acordo com a maioria dos padres - perante 
tantas tragdias que ensombraram as nossas vidas. No tenho resposta para a pergunta, mas poderia, talvez, dizer que nem eu nem o Micah alguma vez considermos outra 
soluo. Fomos criados para sobreviver, para enfrentar desafios e para realizarmos os nossos sonhos.
     Melhormos as nossas vidas porque no tivemos outra soluo. Porque assim o desejmos. Ambos tnhamos famlias que precisavam de ns, que no podamos deixar 
ficar mal. No entanto, ao cabo e ao resto, tanto o Micah como eu sobrevivemos e fomos bem-sucedidos graas ao outro. Precisei do apoio do Micah, tanto como ele precisou 
do meu; o Micah realizou os seus sonhos porque eu realizei os meus e vice-versa. No seria justo que qualquer de ns tivesse de andar com o outro s costas. Havia 
muitas outras coisas a fazer.
     No escapmos inclumes. Quem o conseguiria? A morte da nossa irm atingiu-nos em cheio; no apenas a morte dela como tambm todas as outras mortes, uma aps 
outra. Mesmo agora, qualquer jbilo que possamos sentir por atingirmos um objectivo ou por ultrapassarmos um obstculo  limitado pelo conhecimento de que, para 
alm de ns, nos faltam aquelas pessoas de famlia com quem poderamos partilhar a nossa alegria. Pior ainda, os nossos filhos nunca chegaro a conhecer a tia e 
isso, para ns,  uma perda irreparvel.
     Apesar de tudo, continuamos a ter-nos um ao outro. Perguntam-nos as razes de sermos to amigos. A razo  simples; assim  que deve ser. A perda da famlia 
no nos aproximou; sempre tnhamos sido amigos, mesmo em crianas. Mantemo-nos em contacto, no por necessidade, mas por essa ser a nossa vontade. Entre ns no 
existe apenas o amor entre irmos, ns tambm gostamos um do outro. Nunca tivemos uma discusso, nem um desacordo, desde os nossos tempos de meninos. Ele , juntamente 
com a minha mulher, o melhor amigo do mundo. E, se lhe perguntarem, ele dir o mesmo de mim.
     Os nossos pais podem ter sido um pouco desarranjados, mas, tudo o que fizeram resultou.
     
     Aterrmos no aeroporto Dulles e passmos pela alfndega. O Micah, eu e todos os outros seguiramos caminhos diferentes. Atravessmos o terminal, a abrir caminho 
por entre a multido normal de um fim-de-semana, at que atingimos o ponto em que os nossos caminhos tinham de divergir.
     Encarmo-nos de frente para nos despedirmos e, ao olhar para o Micah, a primeira ideia que me passou pela cabea foi a possibilidade de no voltar a v-lo.
      um pensamento triste, mas  honesto. J nos aconteceu por trs vezes.  nisso que penso sempre que me despeo do meu irmo.
     - Foram trs semanas fantsticas - comecei. - Como tu prometeste, foi a viagem de uma vida.
     - A melhor - anuiu o Micah. Pousou a mala 'e sorriu. - Ligo-te logo que chegar a casa.
     - Tens de ligar.
     Abriu os braos e eu aconcheguei-me neles. E durante um bom
     bocado, eu e o meu irmo, mantivemo-nos abraados em pleno terminal, esquecidos da multido que passava  nossa volta.
     - Adoro-te, maninho.
     Fechei os olhos com fora.
     - Micah, eu tambm te adoro.
     
     FIM
     
